VIDA DE LUIS DE CAMÕES.

Muitos tempos se esteve em duvida ácerca do anno e do lugar em que

nasceo Luis de Camões; o que deo causa a que algumas villas e cidades

disputassem entre si a gloria de lhe haverem dado o berço, para que em

tudo o Lusitano Homero corresse a sorte do Grego. Pedro Mariz, o

primeiro que nos deo algumas noticias da vida do poeta, pela maior parte

mal averiguadas e falsas, nada nos diz a este respeito; e Severim de

Faria o deo primeiramente nascido em 1517, porém depois reparando que o

poeta quando escrevia a Estancia 9.ª do Canto X, ia caminhando para os

seus cincoenta (que isso quer dizer o passar do estio para o outono) e

computando melhor o tempo, veio a concluir que devia ter quando morreo

55 de idade, e que portanto havia nascido em 1524: o que depois

comprovou Faria e Sousa com um assento, que descobrio no livro de

Registo da Casa da India, onde o mesmo poeta, allistando-se para passar

a servir naquelle Estado no anno de 1550, declarou, estando alli

presente seu pae, ter 25 de idade. E do mesmo assento constava serem

seus paes moradores em Lisboa no bairro da Mouraria: com o que se

tirárão todas as duvidas assim ácerca do anno, como do lugar do seu

nascimento.

Quem fossem seus ascendentes, cousa he que aos olhos do philosopho mui

pouco importa saber-se, porque o homem he filho das proprias obras, e

verdadeiramente nasce para os outros, quando lhes principia a ser util;

como o sol, que então dizemos que nasce, quando começa a raiar por cima

do horizonte. Mas, pois vivemos no mundo, e forçado he conformarmo-nos

com os prejuizos delle, daremos tambem aqui a nossos leitores a sua

genealogia.

A familia dos Camões, uma das mais antigas de Hespanha, tinha o seu

Solar na Galiza, onde era senhora de muitas terras e gozava de muitas

regalias. Vasco Pires de Camões, ultimo representante desta familia,

fôra um dos fidalgos que Dom Fernando, 9.º Rei de Portugal, trouxera a

seu partido, quando aspirava á coroa de toda a Hespanha. Mas, como se

malograsse a empresa, teve este fidalgo de abandonar a antiga patria e

passar-se a Portugal, onde aquelle Rei, em recompensa do muito que por

seu respeito perdêra, lhe fez mercê das villas do Sardoal e Punhete,

Marvão e Amendoa, com o Concelho Géstaço e as terras e herdades, que em

Estremôz e Avís forão da Infanta Dona Beatriz; e o fez Alcaide mor de

Portalegre e membro do seu conselho.

Casou Vasco Pires neste Reino com uma filha de Gonçalo Tenreiro, capitão

mor das armadas, a quem Dom João 1.º, sendo ainda Defensor do Reino, deo

depois a capitania de Lisboa, pola muita confiança que tinha ha sua

honra e valor. E della houve a Gonçalo e João Vas de Camões. Mas a

inconstancia do pae cortou depois a fortuna aos filhos. Porque na

guerra, que por morte de Dom Fernando veio a ter lugar por causa da

successão, como Vasco Pires seguisse a voz de Castella, como antes

seguíra a de Portugal, e na batalha de Aljubarrota fosse tomado com as

armas na mão, lhe forão tiradas todas as terras e fortalezas que Dom

Fernando lhe dera, deixando-lhe apenas a clemencia do vencedor as

herdades de Estremôz e Avís, com algumas propriedades que tinha em

Alemquer.

João Vas de Camões, que era o segundo genito, e veio depois a ser

Vassallo de Affonso 5.º (titulo então mui honorifico) pelos relevantes

serviços que lhe fez nas guerras de Africa e contra Castella, casou com

Ignez Gomes da Silva, filha bastarda de Jorge da Silva, filho de Gonçalo

Gomes da Silva e irmão de João Gomes da Silva, que em tempo de Dom João

1.º, fôra Alferes mor do Reino e Senhor de muitas terras: e deste

matrimonio houve a Antão Vas de Camões, que, desposando a Guiomar da

Gama (da familia do Descobridor) della teve a Simão Vas de Camões, que

casou com Anna de Macedo, pessoa mui illustre da villa de Santarem. E

destes nasceo o nosso poeta.

Robusto e agil de corpo, e dotado de grande engenho e de uma prodigiosa

memoria, logo des de os primeiros annos deo mostras de que viria a ser

insigne, assim nas armas, como nas letras. Pelo que seus paes se

empenhárão em lhe dar uma boa educação, com tanto maior desvelo, quanto

se vião faltos de meios, na esperança de que viria a ser o bordão de sua

velhice. Instruido nas primeiras letras e habilitado para maiores

estudos, de mui tenra idade o mandárão para a Universidade que de

Lisboa (para onde a trouxera Dom Fernando) acabava de ser então

restituida a Coimbra por João III, e florescia em todas as sciencias sob

a direcção e disciplina de homens doutos, naturaes e estrangeiros, que

este Rei com largos premios de toda a parte attrahíra. Com tão felizes

disposições e tão sabios preceptores, não podia Luis de Camões deixar de

fazer agigantados progressos, e de vir a ser o que foi.

Aqui teve elle os seus primeiros amores, e se começou a dar ao commercio

das Musas, que encantadas de tão gentil alumno, o prendárão des de logo

com aquella doce lyra, que depois lhe adquirio mais fama que ventura. E

desse tempo de Coimbra he a sua Egloga 5.ª, que parece ter sido o seu

primeiro ensaio no estilo pastoril, pois que nas primeiras edições se

entitula da sua puericia, por se haver encontrado com esse titulo em

todos os manuscriptos, e tambem o Soneto 111, que segundo delle se

infere, foi feito quando voltava de férias, ja ferido de outra paixão.

Concluidos os seus estudos, voltou á Corte: e com que saudade se

apartasse daquella deliciosa habitação, onde lhe ficava o doce emprêgo

de seus cuidados, se póde ver do Soneto 133, feito nesta despedida.

Restituido á patria, cheio de tão saudosas lembranças, ahi escreveo

aquella maviosa Canção que principia:

Vão as serenas ágoas

Do Mondego descendo etc.

Mas em quanto ao som da lyra entoava este harmonioso canto, lhe estava

Amor preparando novo assumpto. Fazia então o principal ornamento

do paço uma Dama, illustre por nascimento, e mais ainda por sua rara

belleza, Dona Catharina de Ataide, que estava destinada a ser Laura de

maior Petrarca. Vio-a Luis de Camões em um templo, que dos Sonetos 77 e

123 se infere ser o das Chagas; e o mesmo foi vê-la, que ficar perdido

de amores. Des de então não soube mais parte de si; e ufano de se ver

vencido de tão peregrina formosura, divinamente inspirado, compoz a

maravilhosa Canção 7.ª; e como quem desejava que este passo, o mais

notavel da sua vida, ficasse dignamente celebrado; com ser aquella

Canção uma das mais sublimes producções do espirito humano, inda não

satisfeito della, a procurou reformar na 8.ª: mas, não sendo possivel

subir-se a mais, uma e outra sahírão tão iguaes, que não he possivel

saber-se qual dellas seja melhor, ou a qual dava o poeta a preferencia.

Cansa-se Faria e Sousa em nos provar que estes amores erão puramente

Platonicos; mas disso não ficamos por fiadores, porque o poeta rara vez

se afastou do natural; e se usava desta lingoagem, era para melhor

insinuar-se a fim de obter seu intento, porque o lascivo desejo, que

manifesta na Canção 15 onde diz:

Des que com gentil arte

Vestís de flores bellas

A terra, que tocais co'a bella planta,

Quantas vezes com vê-las,

Quiz n'uma dessas flores transformar-me!

Porque vendo pisar-me

Desse candido pe, que a neve espanta,

Póde ser que na flor mudado fòra

Que deo a Juno irada a linda Flora.

não deixa a este respeito duvida alguma a quem tiver noticia da maneira

por que Marte foi gerado.

Aos extremos e finezas do seu amor não foi a Nympha insensivel: e assim,

amante e amado, se reputava o mais feliz dos homens: quando, por pouco

acautelado em occultar esta fatal paixão (como elle mesmo confessa,

Egloga 3.ª) que lhe occasionou depois todas as desgraças da sua vida,

foi desterrado da Corte para Santarem, ou outra povoação das que ficão

sobre o Tejo, como se colhe da Elegia 1.ª E que neste meio tempo

estivesse tambem alguns dias hospedado em casa de um seu amigo, nas

vizinhanças do Zezere, se infere da Canção 13. Depois ou porque este

desterro se lhe tornasse insoffrivel, ou porque tivesse ja fallecido

Dona Catharina (que segundo affirma Faria e Sousa, pouco tempo viveo

depois do princípio destes amores) determinou passar a Africa, onde seu

pae então militava; e ahi, peleijando a seu lado, em um combate naval

com os Mouros junto a Ceuta perdeo o olho direito. E porque no fogo de

Amor trazia sempre o coração abrazado, e agora do fogo de Marte recebêra

aquella offensa; no escudo que trazia em branco, como cavalleiro donzel,

mandou pintar por divisa a ave Phenix ardendo sobre as chammas, como

elle mesmo diz, Canção XI, Estancia 10.ª

Agora exprimentando a furia rara

De Marte, que nos olhos quiz que logo

Visse e tocasse o acerbo fructo seu.

E neste escudo meu

A pintura verão do infesto fogo.

Depois de alli servir algum tempo, voltou á patria, onde por travessuras

amorosas e brigas com seus rivaes se lhe movêrão taes perseguições, que

para fugir aos laços que se lhe ormavão, não encontrou melhor meio, que

o de passar a servir na India. No anno de 1550 se alistou, como

dissemos, para sahir na mesma nao, em que ia o Viso-Rei Dom Affonso de

Noronha: mas esta nao, pelo mao estado em que ia, depois de sahir,

arribou ao porto de Lisboa para se concertar, e o poeta, se acaso estava

a seu bordo, tornou a desembarcar; e ou por falta de saude, ou por outro

impedimento se deixou ficar em terra; e não veio a sahir para o seu

destino, senão dous annos depois, no de 1553, como consta de outro

assento do ja citado livro de Registo, tambem achado por Faria e Sousa:

e foi na mesma nao, em que ia Fernão Alvares Cabral, capitão mor de

quatro, que então sahírão do Tejo, das quaes só esta pôde chegar no

mesmo anno a Goa, depois de haver soffrido grandes tormentas. E tão

anojado ia o poeta contra a patria, que as derradeiras palavras que

disse na despedida, forão (como se ve de uma carta que de Goa escreveo)

as de Scipião Africano: _Ingrata patria, non possidebis ossa mea_.

Na occasião da sua chegada a Goa, como o Viso-Rei Dom Affonso estivesse

aprestando uma grossa armada para ir em soccorro do Rei de Porcá, nosso

alliado, a quem o da Pimenta ou Chembé havia tomado uma ilha, o

acompanhou o poeta nesta expedição, cujo successo elle mesmo brevemente

refere na Elegia 3.ª; e com elle voltou a Goa. Em Setembro do

seguinte anno de 1554 chegárão as naos do Reino, em que ia Dom Pedro

Mascarenhas succeder a Dom Affonso; e então se divulgou a triste noticia

das mortes de Dom Antonio de Noronha, sobrinho do Viso-Rei, e do

Principe Dom João, as quaes o poeta profundamente sentio; aquella como

verdadeiro amigo, esta como optimo cidadão, que ja de longe previa as

consequencias de tão funesto acontecimento: e a este assumpto escreveo a

Egloga 1.ª e o Soneto 12 que enviou a um seu amigo de Lisboa em uma

carta com data de Janeiro de 1555.

E tão bem-quisto e estimado de todos estava então alli o poeta, que

nessa mesma carta se dava por feliz em haver passado á India, dizendo:

_Emfim, Sñr., eu não sei com que me pague saber tão bem fugir aos laços

que nessa terra me armavão os acontecimentos, como com vir para esta,

onde vivo mais venerado que os touros de Merciana, e mais quieto que a

cella de um frade prégador_. Mas esta felicidade e socego não lhe durou

muito, porque logo no anno seguinte, vindo a fallecer Dom Pedro

Mascarenhas, e succedendo-lhe no governo Francisco Barreto, que não era

affecto ao poeta, o desterrou de Goa. Sobre a causa deste procedimento e

tempo em que teve lugar, não concordão os autores. Manoel Correa no seu

commento á Est. 128 do Canto X diz que tendo Luis de Camões exercido na

China o Officio de Provedor mor dos defuntos, em que fôra provido pelo

Viso-Rei, quando voltára a Goa, fôra preso por Francisco Barreto, pela

fazenda dos defuntos que trazia comsigo e perdêra em um naufragio, que

miseravelmente soffrêra na costa de Camboja. Pedro Mariz he da mesma

opinião, e acrescenta que Fransisco Barreto o mandára preso e capitulado

para o reino. E nem um nem outro fazem menção do desterro. Manoel

Severim nega que o Viso-Rei Dom Pedro Mascarenhas o provesse em tal

Officio, e he de parecer, que tendo o poeta ido na armada que este

Viso-Rei mandára ao Estreito do mar roxo a cargo de Manoel de

Vasconcellos, voltando a Goa, fizera aquella Satyra contra os que havião

festejado a successão de Francisco Barreto; do que este resentido, ou

por zelo da justiça, ou por queixas dos motejados, o desterrou no anno

de 1556: e a este parecer se encosta Manoel de Faria e Sousa. Mas em

tudo isto não ha de verdadeiro, senão que Luis de Camões foi desterrado

por Francisco Barreto, como passâmos a demonstrar.

Chegou Luis de Camões a Goa em Setembro de 1553; acompanhou o Viso-Rei

Dom Affonso de Noronha na expedição contra o Rei de Chembé, e com elle

voltou a Goa; em Janeiro de 1555 ahi estava, porque ahi escreveo a

Egloga, Soneto e Carta que dissemos; em 16 de Junho do mesmo anno, em

que succedeo no governo Francisco Barreto, ainda ahi estava, como se

prova com a mesma Satyra, em que descreve as festas que por essa

occasião se fizerão, como testimunha ocular. Logo não foi Luis de Camões

provido pelo Viso-Rei Pedro Mascarenhas no cargo de Provedor mor dos

defuntos para a China, como affirmão Manoel Correa e Pedro Mariz, nem

sahio para o Estreito de Meca na armada de Manoel de Vasconcellos, como

conjectura Severim de Faria, porque essa armada voltou a Goa em

Outubro, e Francisco Barreto entrou no governo em Junho do mesmo anno,

como dissemos. Tambem he falso que Luis de Camões, voltando de Macao a

Goa, fosse preso por Francisco Barreto, pelo dinheiro das partes que

perdêra no naufragio, porque nem isso lhe podia ser imputado a crime,

não estando em sua mão evitar um tal desastre, nem Francisco Barreto o

podia mandar prender, porque em Setembro de 1558 entregou elle o governo

ao Viso-Rei Dom Constantino, e Camões voltou a Goa depois do anno de

1560. E a falsidade da asserção de Mariz, que o poeta viera preso e

capitulado para o Reino, se prova com a outra sua asserção, que Pedro

Barreto, indo por governador de Çofala, e desejando levar a Luis de

Camões na sua companhia, lhe fizera largas promessas e o movêra a isso,

dando-lhe logo duzentos cruzados para os seus arranjos de viagem, porque

se tudo isto foi necessario para o mover, certo he que estava em sua

plena liberdade.

Vejamos agora se este desterro do poeta seria, como pensão Manoel

Severim e Manoel de Faria e Sousa, em consequencia da Satyra ou das

Redondilhas, que andão nas suas Rimas com o titulo de _Disparates na

India_.

Pelas Redondilhas não podia ser, porque se o poeta alguns vicios ahi

reprehende, o faz de um modo tão geral, que ninguem em particular se

poderia dar por offendido; e pela Satyra tambem não; e as razões em que

nos fundamos são estas: O desterro de Camões foi uma cousa notoria a

seus contemporaneos, assim porque muitos havião sido testimunhas do

mesmo facto, como porque o poeta em seus escritos o publicou ao

mundo inteiro; e se o motivo delle tivesse sido esta satyra, com a pena

constára juntamente a culpa. Mas nem Manoel Correa, nem Pedro Mariz, que

para desculpar a Barreto não poupou a Camões, lhe assinárão esta causa;

prova evidente de que não tiverão della noticia alguma, porque, se a

tivessem, não andárão inventando outras. Domingos Fernandes descobrio um

fragmento della, com duas cartas em prosa, que ajuntou na 3.ª edição das

Rimas em 1607; e logo Manoel Severim, por achar sem fundamento as causas

que se davão deste desterro, o attribuio a esta; que tão innocente foi a

vida de Camões, que com ter tantos inimigos, nenhum delles lhe pôde

descobrir crime ou falta, sôbre que recahisse um tal castigo. Mas além

desta razão, que nos parece mui ponderosa, para acreditarmos que esta

Satyra não havia sido publicada, nem para isso tinha sido escrita, temos

ainda outra, e he, que na carta 2.ª, a que ella andava unida, começa

Luis de Camões por pedir ao amigo a quem a dirigio, o mais inviolavel

segredo, dizendo: _Esta vai com a candeia na mão morrer nas de V. M.; e

se dahí passar seja em cinzas etc._ donde se deve suppor que vai a fazer

alguma revelação de alta importancia; e em todo o seu conteudo não

apparece cousa, que se não podesse dizer em publico: por onde nos

inclinâmos a crer que nella vinha incluso algum outro papel, que fazia

necessaria aquella recommendação; e não podia ser senão a Satyra. Ajuda

esta conjectura a grande probabilidade que ha, de serem uma e outra

escritas na mesma occasião; porque só duas teve o poeta, de

escrever para o Reino depois da sua chegada á India, e antes de ser

desterrado: em 1555 pelas naos que trouxerão a carta que tratava das

mortes de Dom Antonio de Noronha e do Principe Dom João, ou pelas que de

lá vierão em 1556, governando ja Francisco Barreto; e na primeira

occasião de certo não foi escrita, nem tambem depois do desterro, por

ser em estilo jocoso e não fazer menção alguma destes acontecimentos,

que tanto o magoárão. Acresce mais que na mesma carta parece alludir á

enfatuação e soberba do governador, quando diz: _Principes de condição,

ainda que o sejão de sangue, são mais enfadonhos que a pobreza: fazem

com suas fidalguias, com que lhe cavemos fidalguias de seus avós, onde

não ha trigo tão joeirado, que não tenha alguma hervilhaca_. Ora se o

segredo que o poeta recommendava ao seu amigo, era (como parece) por

causa desta Satyra, não he verosimil que elle mesmo fizesse publico em

Goa o que tão secreto queria a tantas mil legoas de distancia. Além de

que se Luis de Camões quizesse publicamente satyrizar a Francisco

Barreto, certo he que lhe assentára mais de rijo a espada do ridiculo,

que melhor que ninguem sabia manejar. E tambem he certo que, se

Francisco Barreto alcançasse este papel, ou tivesse algum outro crime de

que arguir o poeta, não deixára de o mandar julgar conforme as leis; nem

um homem tão comedido, como Luis de Camões, quando tivesse merecido um

tal castigo, se queixára tão amargamente deste desterro em tantos

lugares das suas obras, como nos Lusiadas, Canto VII, Est. 81.

E ainda, Nymphas minhas, não bastava

Que tamanhas miserias me cercassem,

Senão que aquelles que eu cantando andava

Tal premio de meus versos me tornassem!

A trôco dos descansos que esperava,

Das capellas de Louro que me honrassem,

Trabalhos nunca usados me inventárão,

Com que em tão duro estado me deitárão.

e na Canção XI:

Emfim, não houve trance de fortuna,

Nem perigos nem casos duvidosos,

Injustiças daquelles, que o confuso

Regimento do mundo, antigo abuso,

Faz sobre os outros homens poderosos,

Que eu não passasse, atado á fiel columna

Do soffrimento meu, que a importuna

Perseguição de males em pedaços

Mil vezes fez á força de seus braços.

e naquellas admiraveis Redondilhas, em que paraphraseando o Psalmo 136,

compara as suas calamidades ás que padecêrão os Israelitas no captiveiro

de Babylonia:

A pena deste desterro,

Que eu mais desejo esculpida

Em pedra ou em duro ferro etc.

Nem com tanta vehemencia pedíra aos Ceos vingança, como ahi mesmo:

No grão dia singular

Que na lyra em douto som

Hierusalem celebrar,

Lembrai-vos de castigar

Os ruins filhos de Edom.

Aquelles que tintos vão

No pobre sangue innocente,

Soberbos co'o poder vão,

Arrazá-los igualmente:

Conheção que humanos são.

Emfim, que foi arbitrario e injusto este procedimento, não ha duvida,

porque se esta pena lhe houvesse sido imposta judicialmente; na mesma

sentença lhe fôra limitado o tempo e o lugar do desterro, segundo as

leis do Reino e a prática de todos os tribunaes: e o poeta andou

peregrinando por varias terras, como elle mesmo diz, Canto VII, Est. 79,

fallando com as Tagides:

Olhai que ha tanto tempo que cantando

O vosso Tejo e os vossos Lusitanos

A fortuna me traz peregrinando,

Novos trabalhos vendo e novos danos.

e Est. 80:

Agora com pobreza aborrecida

Por hospicios alheios degradado.

Primeiro esteve no monte Feliz, na Arabia do mesmo nome, como se vê da

Canção X, que o poeta escreveo ja no desterro, e não andando em

expedição, como suppõe Manoel Severim, e Manoel de Faria e Sousa, porque

se assim fosse não diria elle, nem teria razão para dizer:

Aqui me achei gastando uns tristes dias,

Tristes, forçados, maos e solitarios,

De trabalho, de dor, e de ira cheios.

porquanto nem os dias que em serviço da sua patria gastasse, serião

_forçados_, porque a servia por gôsto, nem _solitarios_, porque não

havia de ir só á guerra, nem _cheios de ira_, porque esta só póde

nascer de alguma injúria ou violencia soffrida.

Dalli passou á Ilha de Ternate, uma das Molucas, onde militou alguns

annos e recebeo algumas feridas, como consta da Canção 6.ª

Aqui minha ventura

Quiz qu'uma grande parte

Da vida que não tinha se passasse,

Para que a sepultura

Nas mãos do fero Marte

De sangue e de lembranças matizasse.

E que tambem esta foi escrita no desterro, he fóra de toda a duvida, não

só porque isso mesmo consta do remate della

Canção, neste desterro viverás,

Voz nua e descoberta,

Até que o tempo em eco te converta.

mas muito principalmente porque o não podia ser antes; sendo certo, como

ja fizemos ver, que até ao anno de 1556 não sahio de Goa o poeta, ou se

sahio em alguma expedição, não foi longa a sua ausencia.

De Ternate passou emfim a Macao, do que ainda hoje faz fé uma gruta que ahi

existe, chamada a gruta de Camões. Com o que julgâmos ter demonstrado que o

poeta foi arbitrariamente expulso de Goa, e portanto sem haver commettido

crime, sôbre que recahisse uma tal pena. Donde se segue ser falso quanto a

este respeito tem dito os que nos precedêrão neste trabalho. E assim se ha

de ter por certo que a unica e verdadeira causa das perseguições e

trabalhos, que soffreo este grande homem, foi a mesma grandeza do seu

merecimento e virtude. E a Satyra, unica acção reprehensivel que na sua

vida se encontra, não serve senão para provar que entre Camões e Barreto

havia inimizade. Nem em tal disparidade de sentir e de pensar podia haver

perfeita concordia. Francisco Barreto, homem soberbo e mediocre, posto que

não desajudado da Fortuna, que sempre se inclina mais a esta especie de

gente, não podia amar nem soffrer um homem tão superior, como Luis de

Camões: desejava-o longe de si, para que não fosse testimunha e juiz das

suas acções; e apenas se vio com o poder na mão, o prendeo e desterrou,

deixando-se arrastar da sua paixão, ou dando ouvidos a mexericos e

calumnias, como affirma o commentador Manoel Correa, que o ouvio da propria

boca do poeta: o que perfeitamente se ajusta com o que elle mesmo nos diz

nos ultimos dous versos da ja citada Estancia 81 do Canto VII:

Trabalhos nunca usados me inventárão,

Com que em tão duro estado me deitárão.

Nem este foi o só acto despotico do governador Francisco Barreto. Porque,

tendo mandado destruir por Pedro Barreto Rolim a florescente e populosa

cidade de Tatá no reino de Cinde, que tinha grande trato de commercio com a

nossa praça de Ormus, como o governador della, Dom João de Ataide,

censurasse esta medida cruel, assim por humanidade, como pela deminuição

que dahi resultava nos rendimentos daquella Alfandega, e isto chegasse aos

ouvidos de Barreto; o mandou autoar por um Desembargador e conduzir preso a

Goa para ser julgado, não obstante haver sido provido por ElRei no governo

daquella fortaleza, e ter grande valimento na Corte. E se isto ousou fazer

a um poderoso, como teria mais respeito a um desvalido?

Depois de tantos trabalhos, parece que, chegado a Macao, ahi encontrou

algum descanso; e ahi concluio o seu Poema: e tambem he tradição que

exercêra o Officio de Provedor dos defuntos, em que adquiríra alguma

fortuna. O certo he que Luis de Camões das ilhas Molucas passou a Macao, e

que de lá voltou a Goa, depois do anno de 1558, quando ja governava aquelle

Estado o Viso-Rei Dom Constantino de Bragança; trazendo algum cabedal,

fosse adquirido no exercicio daquelle cargo, ou por outros meios, porque

isso mesmo se entende da Est. 80 do Canto VII onde diz:

Agora da esperança ja adquirida

De novo mais que nunca derribado.

Porem, chegando á costa de Camboja, de fronte da foz do rio Mecom, deo a

nao em uns baixos, onde se fez em pedaços; e deste naufragio, perdida toda

a sua fortuna, pôde apenas salvar a vida e o seu Poema, ganhando, como

Cesar, a praia a nado. E deste infortunio e da humanidade, com que foi

recebido e agasalhado por aquelles povos, se lembra elle no Canto X, Est.

128, onde diz, fallando do rio Mecom:

Este receberá placido e brando

No seu regaço os Cantos, que molhados

Vem do naufragio triste e miserando,

Dos procellosos baixos escapados,

Das fomes, dos perigos grandes, quando

Será o injusto mando executado[1]

Naquelle, cuja lyra sonorosa

Será mais affamada, que ditosa.

Neste porto se demorou algum tempo, ou convidado da boa hospitalidade, ou

por não achar embarcação em que seguir viagem: e aqui escreveo a paraphrase

do Psalmo que dissemos, e talvez, inserio no seu Poema as Estancias que

tratão deste naufragio: depois, quando achou opportunidade, partio para

Goa, onde chegou no principio do anno de 1561. E como quem se via cercado

de inimigos, e tinha exprimentado quão fragil escudo he por si só a

innocencia, para captar a benevolencia do Viso-Rei Dom Constantino, cuja

administração, com razão ou sem ella, havia sido censurada de alguns, lhe

dirigio a Epistola que começa: _Como nos vossos hombros tão constantes

etc._, em que, exaltando as virtudes e boas intenções deste Principe, o

exhorta com o exemplo dos grandes homens (e pudera tambem juntar o seu

proprio) a desprezar com animo igual as envenenadas settas da inveja e da

calumnia: e a Dom Antonio de Noronha (o que depois veio a ser Viso-Rei da

India, e não, como suppõe Faria e Sousa, o que foi morto em Africa)

escreveo outra sobre o desconcerto do mundo.

Neste vice-reinado chegou Luis de Camões a tal miseria, que se vio na

precisão de pedir uma camisa para cobrir o corpo. Que espectaculo!

O Valor e o Saber pedindo vão

Ás portas da cubiça e da vileza!

Todavia muito deveo a Dom Constantino, porque não foi inquietado. Mas no do

Conde do Redondo Dom Francisco Coutinho, que lhe succedeo, e que se dizia

amigo do poeta, e por elle havia sido louvado em umas Redondilhas, se lhe

movêrão novos trabalhos, e foi lançado em tão estreita e rigorosa prisão,

que nem espaço tinha para mover-se, nem ar para respirar, como consta da

Canção XI, onde fallando desta perseguição, e da que havia soffrido no

governo de Francisco Barreto, diz:

A piedade humana me faltava

A gente amiga ja contraria via

No perigo primeiro; e no segundo

Terra em que pôr os pés me fallecia,

Ar para respirar se me negava.

Qual fosse a natureza da accusação não consta; necessario he que fosse mui

grave, pois que a este chama elle o seu segundo perigo. Seus perseguidores

tambem ignorâmos quem fossem; mas he de presumir fossem homens poderosos, e

que no numero destes entrasse um Miguel Rodrigues Fios Seccos, homem

fidalgo e rico; pois que tendo o poeta mostrado a sua innocencia, e estando

a ponto de ser sôlto, o embargou na cadeia por certa somma que lhe

emprestára, e que muito bem sabia que elle lhe não podia pagar. Neste novo

embaraço, rindo-se como Democrito, da loucura e extravagancia dos homens,

recorreo Luis de Camões ao Viso-Rei, dirigindo-lhe aquelle jocoso

requerimento, que anda entre as suas Rimas; e teve por despacho a soltura.

Livre desta prisão, ainda que de seus serviços não tirava senão

perseguições e trabalhos, continuou a servir ainda por alguns annos, sem

nunca despir as armas, e portando-se em todas as acções e combates de

maneira, que seus proprios inimigos erão os maiores pregoeiros do seu

valor: até que, vendo-se ja sobre a idade, e com as fôrças quebradas de

tantas privações e fadigas, tomou a resolução de voltar á patria, para

terminar a carreira da sua vida no mesmo ponto, onde a havia começado. E

nestes pensamentos andava, quando Pedro Barreto se lhe appresentou, como

dissemos, e com rogos e promessas o persuadio a que fosse com elle para

Çofala. Mas de tal maneira cumprio o promettido, que o poeta chegando a

Moçambique, assentou resgatar-se daquelle captiveiro; e andava procurando

meios de se transportar ao Reino, quando, mui a proposito para o seu

intento, alli aportou a nao Santa Fe, em que vinhão alguns amigos seus,

como Heitor da Silveira e o Chronista Diogo do Couto e outros, que pela

honra de trazerem na sua companhia tão grande homem, lhe offerecêrão

passagem franca para Lisboa. Mas Pedro Barreto, como lhe chegasse isto aos

ouvidos, a exemplo do Fios Seccos, o mandou prender por duzentos cruzados,

que na India lhe dera para sua matalotagem, e agora lhe pedia como divida:

do que indignados aquelles generosos amigos se fintárão entre si, e

satisfazendo a somma exigida, resgastárão o poeta. Assim que (observa Faria

e Sousa) a pessoa de Luis de Camões e a honra de Pedro Barreto por duzentos

cruzados foi vendida.

Nesta viagem vinha elle escrevendo muito n'um livro entitulado _Parnaso

de Luis de Camões_, que trazia ja mui adiantado: do qual diz Diogo do

Couto, a quem o poeta o mostrou, que era obra de inestimavel preço,

cheia de erudição e philosophia.

No anno de 1569 chegou emfim a Lisboa, onde então ardia o contagio, que

chamárão a grande peste. E não obstante este flagello do Ceo, que tinha

todos os animos occupados de terror, tal foi o seu contentamento em ver-se

restituido á patria, que escrevendo a um seu amigo do Porto, lhe dizia _que

ainda não podia crer tanta ventura_. Pensava Luis de Camões que nella

encontraria a felicidade e socego, que fóra della em vão procurára; mas

succedeo-lhe bem ao contrario, porque seus inimigos lhe movêrão tão crua

guerra, que todas as tormentas passadas lhe parecêrão bonança, como elle

expressamente nos diz (Egloga XI):

Tinha lá para mim que a vida tinha

Mais socegada cá e mais segura

Entre os meus, que com gosto a buscar vinha.

Foi de outro parecer minha ventura:

Discordias sos achei, achei dureza

Em lugar de socêgo e de brandura.

Achei as boas leis da natureza

Vencidas do interesse, e a gente cega

Tanto, que mais que o sangue, o gado préza.

Dizem que quando o mar bonança nega,

Correndo vai aquella nao mor p'rigo.

Que á desejada terra mais se chega.

Assi me aconteceo a mi comigo:

Seguro sempre ao longe, sempre ledo;

Triste ao perto, e tratado como imigo.

E a razão por que assim foi tratado Camões não he difficil de achar. O

escrever dos modernos foi sempre cousa arriscada: todos querem boa fama,

poucos fazem pola merecer; todos commettem erros, poucos, depois de os

commetterem, gostão de os ouvir contar. E assim para não ser perseguido

necessario he ou adular, ou callar. Mas o nosso Camões, que nunca voltou

cara aos perigos, se propoz não só fallar dos modernos, mas dos mesmos

contemporaneos; fazendo juramento solemne (que religiosamente guardou) de

não louvar senão quem o merecesse. Donde resultou que censurados e

não-louvados se unírão para o desgraçarem e perderem. E se antes de

publicar o seu poema, ja na India o perseguírão, muito peor lhe havia de

succeder depois; e isso mui bem prevío elle, quando o estava ordindo; pois

que, tendo invocado no principio da obra somente as Nymphas do Tejo; no fim

do Canto VII, quando ia concluir a narração dos feitos antigos para passar

aos contemporaneos, pede auxilio tambem ás do Mondego, dizendo (Est. 78):

Mas oh cego!

Eu que commetto insano e temerario

Sem vós, Nymphas do Tejo e do Mondego,

Por caminho tão arduo longo e vario!

Vosso favor invoco, que navego

Por alto mar com vento tão contrario,

Que, se não me ajudais, hei grande medo

Que o meu fraco batel se alague cedo.

e depois (Estancia 83):

Pois logo em tantos males he forçado

Que se vosso favor me não falleça,

Principalmente aqui, que sou chegado

Onde feitos diversos engrandeça.

Dai-mo vós sós, que eu tenho ja jurado

Que não o empregue em quem o não mereça,

Nem por lisonja louve algum subido,

Sob pena de não ser agradecido.

Mas não obstante conhecer a quanto se expunha, respeitando mais a fama

posthuma, que a ira dos poderosos, como se vio restituido á patria,

cuidou em imprimir o seu Poema. Porém algum obstaculo encontrou, porque

dous annos esteve sem sahir com elle á luz.

Ora, lendo nós muitas vezes e meditando attentamente esta producção divina,

sempre nos pareceo que em alguns lugares não estava como seu autor a havia

originalmente escrito; e agora achamos confirmada nossa suspeita. Porque,

estando ja concluida esta nossa edição, como obtivessemos um exemplar da de

1613 commentada pelo Licenciado Manoel Correa, contemporaneo e amigo do

poeta, ahi encontrámos na exposição á Estancia 81 do Canto 9º a seguinte

revelação: _Se o poeta (diz elle) se não alargára em algumas palavras, que

poderia escusar, o fingimento, este he poetico e excellente, como são todas

suas cousas. Por isso se lhe emendárão e declarárão algumas Oitavas._ E no

mesmo Canto, Estancia 71: _E assim como aqui vão impressas, as tinha elle

emendadas por conselho dos Religiosos de S. Domingos, com quem tinha grande

familiaridade_. E aqui temos que o Poema achou embaraço na censura da

Inquisição, e que para poder passar, foi preciso que seu autor por conselho

dos frades de S. Domingos, isto he, por ordem dos mesmos Inquisidores lhe

fizesse as alterações e emendas por elles exigidas. E portanto he fóra de

toda a duvida que a explicação da allegoria delle posta na boca de Tethys,

e o dizer ella mesma (Canto X, Estancia 82):

Porque eu, Saturno e Jano,

Jupiter, Juno, somos fabulosos,

Fingidos de mortal e cego engano;

a historia do milagre e martirio do Apostolo S. Thomé (Estancias 108 e

seguintes do mesmo Canto); e Baccho adorando a Christo (Canto II,

Estancia 12) são obra dos Senhores Inquisidores. Que felicidade não

he (dizia o grande Tacito) nascer o homem em tempos, em que lhe he

permittido sentir como quizer, e exprimir o que sente!

Compradas por um tal preço as licenças, e obtido privilegio, em 1572

sahio finalmente á luz este maravilhoso e desgraçado Poema, não como

queria o poeta, mas como os sabios Censores quizerão que apparecesse; e

póde ser que os muitos e notaveis erros de impressão que desfigurão as

duas edições que nesse mesmo anno se fizerão, procedessem de que

desgostado o autor de ver assim estragada a sua obra, não quizesse

cansar-se com a revisão das provas.

Achamos em escritores contemporaneos que ElRei por esta publicação lhe

fizera mercê de uma tença de 15$ reis mensaes, com a clausula inaudita

de tirar para a sua cobrança provisão cada tres annos, e de residir na

Corte. Mas se assim foi, não foi logo, senão alguns annos depois, porque

no de 1575 em uma Epistola que o poeta lhe dirigio, juntamente (ao que

parece) com um exemplar do seu Poema, por occasião de uma setta que o

Papa Gregorio XIII enviou a este Rei, ainda elle lhe supplicava se

dignasse dar-lhe algum premio, se não por justiça, ao menos por

caridade, como se vê dos seguintes versos:

Estes humildes versos, que pregão

São destes vossos Reinos com verdade,

Tenhão, se não merecem galardão,

Favor sequer da Regia Magestade:

Assim tenhais de quem ja tendes tanto,

Com o nome e reliquia, favor santo.

E esta graça, depois de concedida, veio a ser de nenhum effeito; porque os

monstros[2] que se havião apoderado da menoridade daquelle fatal Rei, e

pouco depois o arrastárão a sepultar comsigo a patria nos campos de

Alcacerquivir, tão célebres por essa desgraça nossa, se enraivecêrão contra

o poeta, porque tivera o nobre arrojo de aconselhar áquelle Principe,

tomasse as redeas do govêrno, e mandasse os frades rezar no côro, e tiverão

arte para inutilizar a mercê feita; de sorte que o infeliz, cansado de

andar de Herodes para Pilatus, costumava dizer que o só requerimento, que

jagora tinha a fazer a S. Magestade, era que lhe commutasse a mercê dos 15$

reis em 15$ açoutes nos ministros a cujo cargo estava o pagamento della.

Por outra parte os fidalgos, que estavão acostumados a desfrutar os

commodos da inercia e os premios da virtude, vendo que ousára quebrar seus

foros submettendo-os a uma rigorosa censura, lhe movêrão guerra de morte,

não obstante haver elle supprimido algumas Estancias em que os fustigava

mais forte: das quaes Faria e Sousa nos conservou a seguinte:

Oh inimigos maos da natureza,

Que injuriais a propria geração!

Degenerantes, baixos! Que fraqueza

De esforço, de saber e de razão

Vos fez que a clara estirpe, que se préza

De leal, fido e limpo coração,

Esqueçais dessa sorte? Mas respeito,

Que este dos nobres he o menor defeito.

E assim no ultimo quartel da vida se vio desamparado de todos e reduzido

a tão esqualida miseria, que um escravo (antes verdadeiro amigo) que de

Java trouxera, por nome Antonio, sahia de noute a pedir esmola para o

sustentar; e [~u]a mulata (Barbara se chamava ella) que pelas ruas de

Lisboa andava vendendo mexilhões, condoida do seu desamparo, lhe ia

todos os dias levar um pratinho do que trazia a vender, e de quando em

quando lhe deixava tambem algum vintem do que havia vendido. Que

desengano! De tantos que outrora se dizião seus amigos, só estes

achou fieis na sua adversa fortuna. _Tempora si fuerint nubila, solus

eris._ E neste estado de desesperação parece que foi escrita aquella

incomparavel Canção 11, que he um gemido da natureza, que retumbará no

mundo em quanto nelle houver quem falle ou entenda a lingua Portugueza.

Um só da classe dos fidalgos, Rui da Camara, dizem escritores

contemporaneos se dignára entrar na sua pobre morada: cuidarão nossos

Leitores que iria para o soccorrer? Pois não; foi para o reprehender. Ha

tanto (lhe disse o bom do fidalgo) que vos pedi me traduzisseis os sete

Psalmos Penitenciaes, e ainda os não traduzistes? Nenhuma desculpa

tendes que dar: tendo feito tantos versos e um tão formoso Poema, se me

não servis, não he porque não possais; he, sim, porque não quereis.

_Senhor_ (lhe respondeo o poeta) _quando eu fiz esse Poema e esses

versos, era moço e favorecido das Damas, e tinha o necessario á vida; e

agora não tenho espirito nem contentamento para nada, porque tudo isso

me falta, e em tal miseria me vejo, que ahi está o meu Antonio a

pedir-me um vintem para carvão, e não o tenho para lho dar_. Sabía este

Cavalheiro que Luis de Camões era poeta, para lhe pedir a traducção dos

sete Psalmos Penitenciaes, e não sabia que era pobre, para lhe dar uma

esmola.

Uma insigne affronta lhe fizerão ainda os Cortezãos: quando ElRei Dom

Sebastião ia partir para a sua fatal jornada de Africa, lhe lembrárão

levasse comsigo a Diogo Bernardes, para que este novo Tityro fosse

testimunha ocular de suas proezas, e sahindo das selvas, onde andava

homiziado, as celebrasse depois na tuba heroica. Mas tão generoso e

magnanimo era Luis de Camões, que, não obstante esta injuria, affirma

Severim de Faria, estava ja traçando outro poema, que pelos principios

promettia não ser inferior ao primeiro, se o resultado da empresa não

convertesse o canto em chôro.

Assim foi tratado este grande homem emquanto reinou Dom Sebastião, e muito

peor ainda depois que subio ao throno o Cardial Dom Henrique: e como pouco

depois viesse a cahir n'uma longa infirmidade, e por cúmulo de desgraça lhe

morresse o seu verdadeiro amigo Antonio, que era o unico esteio de seus

dias; opprimido de tantos males, o seguio elle poucos mezes depois á

sepultura, no anno de 1579, com cincoenta e cinco de idade. Querem uns que

morresse na mesma pobre casa onde morava, na rua de S. Anna, a qual depois

da sua morte nunca mais foi habitada, outros que no Hospital; mas como

todos concordão em que de casa de Dom Francisco Manoel lhe mandárão por

caridade um lençol para lhe servir de mortalha, he fóra de toda a duvida

que não morreo no hospital, porque todos os que morrem naquella piedosa

casa, ahi achão mortalha e sepultura.

Em todos os povos, qualquer que fosse a forma de seu govêrno, hão sido

sempre odiados e mais ou menos perseguidos, segundo as conjuncturas dos

tempos, os summos e verdadeiros Escritores; isto he, os que á força do

pensar e á elegancia do dizer unírão em summo grao o amor da verdade e da

justiça. Não puderão as leis de Athenas proteger a innocencia de Socrates

contra as calumnias de um Melito, Seneca em Roma não pôde evitar a morte

debaixo da tyrannia de um Nero; e a estes puderamos ajuntar uma infinidade

de escritores desta classe, philosophos, poetas e oradores, que em diversos

tempos e por diversos modos soffrêrão a mesma sorte. Mas Luis de Camões foi

mais infeliz que todos: se lhe não fizerão beber a cicuta, se lhe não

abrírão as veias, amargurarão-lhe a vida com toda a especie de desgosto, e

depois de o haverem trazido de masmorra em masmorra, e de degredo em

degredo envolto na mais esqualida miseria, com um refinamento de tyrannia,

cuja descoberta estava reservada aos tempos modernos, o obrigárão a

submetter seus escritos a uma junta de idiotas e hypocritas, e escurecer

elle mesmo sua propria fama, rejeitando o que lhe agradava, para adoptar o

que elles querião; e por fim de tudo o condemnárão a morrer de fome; morte

muito mais cruel. E o mais he que, não costumando a inveja apascentar-se em

cadaveres, ainda na sepultura não tem cessado de lhe inquietar as cinzas,

conspirando-se contra todos os que tem querido levantar o véo que encobre o

merecimento deste Escritor insigne. Primeiramente ao poema dos Lusiadas

pretendêrão os da facção perseguidora antepor o da Ulyssea que, ainda que

não destituido de merecimento, está mui longe não só de se lhe poder

comparar em cousa alguma, mas até de dever ser classificado entre as obras

de primeira ordem neste genero: depois como tivessem noticia que Manoel de

Faria e Sousa estava imprimindo em Madrid os seus commentarios, tiverão a

impudencia de lhe escrever, pedindo-lhe com todo o empenho desacreditasse a

Camões; e como este não désse ouvidos a tão infames supplicas, o

denunciárão ao Tribunal da SANTA INQUISIÇÃO; o que constando ao pobre

Faria, se foi valer dos Santos Inquisidores de Hespanha, para que

mitigassem a santa raiva dos de Portugal, escudando com o seu parecer um

folheto que escreveo em sua defesa delle, entitulado:

_Informacion en favor de Manuel de Faria y Sousa, Caballero de la Orden

de Christo, y de la Casa Real, sobre la acusacion que se hizo en el

Tribunal del Santo Oficio de Lisboa, á los Commentarios que docta y

judiciosa y Catolicamente escrevió á Las Lusiadas del doctissimo y

profundissimo y solidissimo Poeta Christiano Luis de Camoens, unico

ornamento de la Academia Española en este genero de Letras._

Deste folheto, que foi impresso em Madrid, anno de 1640, transcreveremos

aqui na sua mesma lingua adoptiva a seguinte passagem, para que se veja

com quanto encarniçamento foi perseguido pelo odio e pela inveja este

grande homem e todos os que o ousárão louvar:

_De los Acusadores, los mas declarados son dos, de cuya calidad y talento

no diremos algo, asi por ser notorio, como porque nos deban esta piadosa

cortesia. Diremos solo (por ser preciso á nuestra justicia) que son

enemigos patentes del Acusado, contra quien se levantaron, porque no los

celebró en estos Escritos, y les dió en ellos, y por cartas y de palabra á

entender su engaño..... Y tambien son enemigos notorios de la luz del

Poeta, como aves escuras, pues publican dilatados libelos difamatorios

contra él, sobre que tambien el Comentador los abomina en varios lances: y

á uno dellos doctrinó libremente por carta en respuesta de otra, con que le

persuadia á escrivir contra el proprio Poeta, al tiempo que comenzaba á

imprimir los Comentarios. De manera que lo que estos y otros pretenden

viendose ofendidos y alcanzados con la luz del Poeta, que de nuevo les dió

en los ojos, por haverla el Comentador sacado de la linterna en que estaba

escondida, no es vedar este libro por quitar de los ojos Catolicos la

representacion de las deidades, y lo osado de algunos discursos; sino por

quitar de sus mismos ojos el resplandor que se los hostija y de los de los

Letores aquellas cláusulas que descubren su flaquesa de vista._

_Ambos ellos son asistidos de personas mayores en nacimiento y fortuna (si

bien no mayores en el conocimiento destos estudios) que tambien se dan por

ofendidos de que no siguiese el Comentador su parecer en afrentar á un

Hombre, que hoy se vé reconocido por admirable de toda la Clase literaria

de Europa; porque en toda ella solo ellos deshonran á Luis de Camoens. Solo

ellos (ellos solo lo creen) saben mas que las Academias universales, que á

una mano publican la excelencia de sus obras._

Tal foi o odio que sobre elle e seus escritos attrahio a justissima

censura, que o poeta faz do infame comportamento daquelles, que, tendo

mais razão que ninguem para amar e defender sua patria, nos campos

de Aljubarrota ousárão tomar as armas contra ella. Mas a maior de todas

as insolencias foi a que teve lugar em nossos dias. O notorio Padre

Macedo, que nestes ultimos tempos assalariado por estrangeiros e

inimigos da patria, como assassino publico, se occupava em denegrir com

calumnias a reputação de todo o Portuguez honrado, tomou a si (não

sabemos se de seu moto proprio, se instigado) a louca empresa de

derribar a Camões, tratando o mesmo assumpto da descoberta da India: fez

umas Oitavas ao Gama, e, como a rãa da fábula, perguntou a seus sequazes

se sera maior que Camões. Respondêrão-lhe que não. Tornou a fazer

outras, e repetindo a mesma pergunta, como lhe dessem a mesma resposta,

cheio de raiva pizou aos pés a corneta; e, considerando melhor sua

natureza e forças, dos heroes passou a cantar os burros. Com tudo o seu

Oriente deve conservar-se como monumento de orgulho, e tambem as suas

cartas a Attico, ainda que não seja senão pelo quinao, que ahi deo a

Camões naquelles versos da Est. 37 do Canto V:

Quando uma noute estando descuidados

Na cortadora prôa vigiando.

Se estavão descuidados, (diz elle) como estavão vigiando? Que ignorancia!

Estavão descuidados, porque o ceo estava limpo e o ar sereno, e não vião

indicio de tempestade, nem cousa que lhes désse cuidado; e estavão

vigiando, porque navegavão por mares desconhecidos, e porque era costume

dos nossos mareantes (o qual inda hoje se conserva, porque os bons costumes

não se devem perder) ter sempre de noute vigias de prôa. E quem assim sabia

a sua lingua, queria ser maior poeta que Camões?

Assim foi tratado em vida e depois de morto este Pregoeiro eterno da gloria

nacional por aquelles que no fundo da alma se conhecião reos de lesa-nação,

e por uns poucos de fanaticos e hypocritas. Mas da gente popular tão bem

recebida e apreciada foi a sua obra, que no mesmo anno se fizerão duas

impressões, e os soldados nas batalhas entoavão algumas Estancias della

como seu canto de guerra, e elle mesmo tão admirado e respeitado, que

quando apparecia em publico (o que era raro, porque nos ultimos tempos

vivia em grande retiro) paravão todos, sem tirar os olhos delle, até o

perderem de vista. E se morreo em tal desamparo (faça-se esta justiça aos

Portuguezes, que em serem compadecidos e generosos a nenhum outro povo

cedem) foi não só porque nessa desgraçada epocha se achavão todos os animos

possuidos de terror com a recente catastrophe, e as calamidades publicas

que se previão futuras, não davão lugar ao sentimento de males

particulares, mas muito principalmente porque a sua miseria não era

conhecida; pois que se mandava o seu Jao pedir esmola, era de noute, e sem

dizer para quem. Este e outros casos taes, não raros n'uma tão grande e

populosa cidade, derão causa á instituição de uma piedosa irmandade de

homens plebeos, (em quem ordinariamente se encontrão mais virtudes que nos

Grandes) a qual inda hoje existe, cujo fim he indagar pelos bairros se ha

algum pobre envergonhado, e apregoar de noute pelas ruas sua morada, para

que os cidadãos que puderem o mandem soccorrer. E o traductor infiel

(Mickle) que ousou arremendar Camões com trapos da sua fábrica, e deste

desastrado acontecimento tirou pretexto para desafogar o seu odio contra os

Portuguezes, que nenhum mal lhe fizerão, tratando-os de _nação barbara e

inculta_, devêra lembrar-se, que serem os bons sacrificados pelos maos, por

lhe conhecerem o merecimento, cousa he, que em toda a parte todos os dias

se vê; mas que no seculo desasete um Escritor insigne, com que hoje seus

compatriotas tanto blasonão, fosse igualmente infeliz, polo não saberem

apreciar, e que o seu livro, antes de impresso, fosse vendido pelo vil

preço de cinco Libras, e depois de impresso, jazesse tantos tempos

ignorado, de sorte que para saberem que o tinhão, fosse preciso haver quem

lho mostrasse, he caso que só em Inglaterra nos consta que succedesse.

Foi Luis de Camões de mediana estatura; cabellos (quando moço) tão louros,

que tiravão a açafroados; olhos vivissimos; nariz comprido, alto no meio, e

grosso na ponta; rosto cheio, beiços grossos, e um tanto carregado da

fronte; pelo que ao primeiro aspecto inculcava severidade; mas na

conversação e trato era summamente affavel e jovial. Era liberal com os

amigos, honrador dos benemeritos, rigido censor dos vicios, intrepido nos

perigos, constante nas adversidades. Em todos os trances de fortuna

conservou sempre a mesma serenidade de alma: de maneira que ja no leito da

morte escrevendo a um seu amigo, lhe dizia gracejando: _Quem ouvio dizer,

que em tão pequeno theatro, como o de um pobre leito, quizesse a fortuna

representar tão grandes desventuras? E eu, como se ellas não bastassem, me

ponho ainda da sua parte; porque procurar resistir a tantos males,

pareceria especie de desavergonhamento._ Emfim, de todas as virtudes foi

ornado este grande homem; e a que nelle mais sobresahia, era um extremoso e

desinteressado amor de patria, que da maneira mais evidente se manifestou

em todo o discurso da sua trabalhosa vida, e nos ultimos momentos della,

como lampada moribunda, inda despedio de si maior clarão: pois ja nos

parocismos da morte, passando em resenha todas as suas acções, parece que

nenhuma outra mágoa sentia, senão a de haver soltado n'um transporte d'ira

aquellas palavras: _Ingrata patria, não possuirás meus ossos_. Porque

julgava elle, que por maiores aggravos que um cidadão haja recebido da sua

patria, nunca, nem por pensamento, deve procurar vingança. E querendo na

sua derradeira hora deixar-nos um testimunho deste seu arrependimento,

vendo-se em tal desamparo, sem ter ninguem a seu lado, escreveo a Dom

Francisco de Almeida, que na comarca de Lamego andava allistando gente, uma

carta onde se lião estas memoraveis palavras: _Emfim, acabarei a vida; e

aqui verão todos que tão amante fui da minha patria, que não contente de

morrer nella, quiz tambem morrer com ella._

Foi enterrado sem distincção alguma na Igreja das Religiosas de S.ta

Anna da Ordem de S. Francisco; e assim jazêrão seus ossos confundidos

com os do vulgo sem nome até ao anno de 1595, em que Dom Gonçalo

Coutinho lhe mandou pôr sobre a sepultura uma campa lisa de marmore, e

nella gravar este letreiro:

AQUI JAZ LUIS DE CAMÕES,

PRINCIPE

DOS POETAS DE SEU TEMPO.

VIVEO POBRE E MISERAVELMENTE,

E ASSI MORREO

ANNO DE MDLXXIX.

ESTA CAMPA LHE MANDOU AQUI PÔR

DOM GONÇALO COUTINHO, NA QUAL SE

NÃO ENTERRARÁ PESSOA ALGUMA.

Alguns annos depois lhe mandou abrir na mesma campa Martim Gonçalves da

Camara o seguinte Epitaphio:

_Naso Elegis, Flaccus Lyricis, Epigrammate Marcus,

Hic jacet heroe carmine Virgilius.

Ense simul calamoque auxit tibi, Lysia, famam.

Unam nobilitant Mars et Apollo manum.

Castalium fontem traxit modulamine: at Indo

Et Gangi telis obstupefecit aquas.

India mirata est, quando aurea carmina, lucrum

Ingenii, haut gazas, ex Oriente tulit.

Sic bene de patria meruit, dum fulminat ense:

At plus, dum calamo bellicosa facta refert.

Hunc Itali, Galli, Hispani vertere poetam:

Quaelibet hunc vellet terra vocare suum.

Vertere fas, aequare nefas: aequabilis uni

Est sibi: par nemo, nemo secundus erit._

Achamos em Pedro Mariz que um fidalgo Alemão escrevêra a um seu

correspondente de Lisboa que lhe soubesse que sepultura tinha Camões, e

quando a não tivesse sumptuosa, tratasse com a cidade lhe désse

licença para trasladar seus ossos para Alemanha, onde lhe faria um

tumulo superbissimo, igual aos dos mais famosos antigos. Mas o Senado da

Camara attendendo á dignidade da nação, não consentio na proposta,

talvez porque tivesse em vista fazer essa mesma honra ás cinzas de tão

grande homem. Mas este projecto ficou depois em esquecimento até ao anno

de 1775, em que o grande terremoto, sovertendo aquella Igreja, confundio

os ossos debaixo das ruinas. Mas tempo virá em que a patria agradecida

erija á sua memoria um pomposo monumento, que seja digno della, digno de

tão insigne varão.

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II · 第 29 / 391 题