Perdoem-me as deidades, mas tu diva
Que no liquido marmore es gerada,
A luz dos olhos teus, celeste e viva,
Tens por vicio amoroso atravessada:
Nós petos lhe chamâmos: mas quem priva
De luz o dia, baixa e socegada
Traz a dos seus nos meus, qu'eu o não nego,
E com toda esta luz sempre estou cego.
Agora diga quem nasceo para sentir as bellezas da natureza, se ha em
Theocrito ou Virgilio, ou algum outro poeta antigo ou moderno, um desafio
igual a este, ou se póde chegar a mais a perfeição humana. E eis-aqui as
duas Eglogas com que alguns individuos, que tendo olhos e tempo para ler
muito, os não tiverão para observar a natureza, e conhecer com que
ampliações ou restricções se devem entender e applicar os preceitos de
Aristoteles e Horacio, pretendêrão provar que o nosso poeta não possuia o
estilo bucolico. Certo que não ha na republica das Letras sevandijas mais
nojentas, que certos homens de espirito acanhado, que enfatuados com graos
de Doutores e titulos de Academicos, sem nunca terem produzido nem serem
capazes de produzir cousa alguma, se arrogão o direito de taxar o
merecimento e preço das obras dos grandes homens.
Mas inda quando fosse verdade que da frauta se não podesse tirar mais que
um som unico, e a respeito destas Eglogas a razão da parte delles, e não da
nossa estivesse, ousarião esses Aristarchos dizer que em todas as mais, e
com especialidade na 8.ª, 9.ª, 10.ª, 11.ª, 13.ª, 14.ª se não encontra o
verdadeiro estilo bucolico, e em tal perfeição que nenhuma inveja podemos
ter a Theocrito ou Virgilio? E se estes dous poetas que neste genero se
recommendão como modelos, julgárão não offender os preceitos d'arte,
aquelle em levantar o estilo a ponto de poder celebrar na humilde avena os
louvores de Ptolomeo Philadelpho e alguns dos trabalhos de Hercules, que
parecião mais proprio assumpto para uma Ode Pindarica, este de tornar a
selvas dignas do Consul, sem que por isso deixassem de ser olhados como
oraculos; por que lei ou com que autoridade pretendem esses guarda-portões
do Parnaso expulsar o nosso poeta do lugar que ao lado desses primeiros
mestres, lhe assinou o mesmo Apollo.
Doze Elegias temos do nosso poeta, (porque as que nas edições posteriores á
de Faria se forão introduzindo, assim como os tres Cantos da Criação do
homem e alguns Sonetos, que atéqui andavão com o titulo de _Obras
Attribuidas_, evidentemente não são delle, e por isso os rejeitamos nesta
edição) e ainda que destas doze apenas quatro ou cinco se podem
propriamente chamar Elegias; dellas se vê que tambem neste estilo era
excellente.
Temos tambem tres Comedias suas, a de ElRei Seleuco, que he um pequeno
Drama, daquelles a que os nossos antigos chamavão Autos, a dos Amphytriões,
que não he, como diz Severim de Faria, uma traducção de Plauto, mas sim uma
composição sua, e a de Filodemo, ambas em cinco actos: as quaes se não
podem appresentar-se como modelos de verdadeira Comedia, todavia he preciso
confessar que ha nellas muito que admirar. E muito mais se considerarmos
que forão escritas nos seus primeiros annos, antes de sahir do Reino, e não
para se representarem em Theatro publico, que nesse tempo não havia, mas
para divertimento particular.
E se nos versos maiores deixou a perder de vista todos os mais poetas
peninsulares, tambem nas Redondilhas e outras composições de verso menor
(nas que de impulso proprio escreveo; que muitas andão impressas, que elle,
se fosse vivo, não dera á luz) se lhes avantajou muito. E assim por
consenso universal lhe foi conferido o titulo de Principe dos poetas
heroicos e lyricos de Hespanha.
Emfim poucas nações se podem gloriar de haverem produzido um homem como
Luis de Camões; raras vezes se vírão reunidos n'um só sujeito tantos
talentos e dotes da natureza, tão vasta erudição e doutrina, tanta
facilidade em exprimir seus pensamentos. Igualmente versado nas artes da
paz e da guerra, Achilles e ao mesmo tempo Homero, com a espada e com a
penna toda a vida trabalhou por illustrar a sua patria: e se a Fortuna lhe
impedio igualar a fama dos grandes capitães, não lhe pôde estorvar (porque
nas obras de engenho não tem imperio a Fortuna) igualar a dos summos
escritores, e levar a nossa gloria literaria a ponto de hombrear com a
militar.
Porém desgraçadamente, quando uma ia emparelhando com a outra, confundio
tudo a Fortuna, que a seu arbitrio dispõe das cousas humanas; e ambas
desapparecêrão com a nossa liberdade e independencia. Se nenhuma nação
subio mais alto, tambem nenhuma deo maior quéda. Cumprida está a primeira
parte da prophecia do fundador da monarchia: resta cumprir-se a segunda;
que tambem se ha de cumprir. Quando expurgados os vicios que nos ficárão da
antiga prosperidade, e reformados nossos costumes na frágoa da desgraça,
tiver renascido no coração de todos os Portuguezes aquelle amor de patria,
que tanto distinguio nossos maiores, brilharemos outra vez nas armas,
brilharemos nas letras; tornaremos a ser o que ja fomos. E para isso nada
póde tanto contribuir, como a contínua e reflectida lição das obras do
nosso immortal Camões, que, se foi grande escritor, inda foi melhor
cidadão. Por isso com tanto cuidado as estamos alimpando dos muitos erros e
vicios das primeiras edições, para que melhor sejão entendidas e gostadas:
na esperança de que o seu poema dos Lusiadas virá a ser uma trombeta, que
assim mesmo enrouquecida como está pela abominavel Censura, fara um dia
resurgir os mortos.