IX

Por muitos e longos annos durou a minha nefanda peregrinação n'aquelle

terrivel deserto, onde não penetrava sequer um raio do sol. Occultos,

durante o dia pela espessura do arvoredo,--aguardavamos tristemente o

silencio da noite para dar largas á nossa voracidade famelica. Então, não

passava pessoa alguma, por aquellas solidões tenebrosas, em quem não

procurassemos, desde logo, embeber a esponja corrosiva do veneno e da

maldição,--o cutello do algoz e do malvado.

Aviltante e funesta condição a minha! A principio o remorso levantava-se

irado contra tamanhas torpezas e monstruosas infamias. Mais tarde a minha

alma, já de si callejada no erro e no crime, nada mais quiz ouvir;

empallideceu terrivelmente nas trévas, e nunca até hoje tornou a guiar os

passos incertos da minha vida depravada.

Nada mais pungente e superiormente bestial do que locupletar-se um

individuo qualquer com o ouro roubado aos seus semelhantes. O trabalho

honesto nobilita o seu auctor. Procurar illicitamente um interesse, que nos

não pertence, isso, além de ignominiosamente villão, toca ainda as balizas

da perfidia.--Não ha necessidade que só de per si possa abonar

satisfactoriamente semelhante corrupção e baixeza d'animo!

A despeito de tudo isto, porém, não duvidei iniciar os dias da minha vida

social em tão rude aprendizagem e degradante profissão. E bem cruel me foi

esse engano!

Dentro em poucos dias, do esterquilinio do vicio e da maldição havia eu

passado, rapida e insensivelmente, para o fundo de medonha enxovia. A

justiça humana, no seu incessante vôo, não despegara a vista do desgraçado

cadaver, que, ainda no recondito de arida floresta, lampejava chispas de

fogo amedrontador.

E tudo foi bem assim!

Ao vêr cerrar-se sobre mim a solitaria porta do carcere, que rangia

lugubremente nos seus enormes gonzos de ferro, senti um movimento

involuntario e repulsivo, e tive o pavor de quem vê seu peito ferozmente

esmagado pelo duro pé do inimigo victorioso!

Então veiu a sacratissima imagem de minha mãe dulcificar-me o amargor da

desventura. Lembrei-me de Therezinha. Erin, a bella indiana, de quem nunca

mais tivera noticias, calou-me no espirito não sei que indefinivel

sentimento, que me fazia antever uma felicidade duradoura, se, por acaso,

não houvesse desprezado o seu immenso amor para comigo.

X

Ao penetrar na escuridão do ergastulo julgara ter encontrado o meu

epitaphio, assignalado, com letras de bronze, sobre a lousa sepulchral, que

se me antolhava n'aquelle extenso e terrivel horizonte. Illudira-me, porém,

o meu juizo. Havia-me Deus predestinado neste mundo para grandes e

temerarias emprezas.

Por mero acaso, acontecera um dia ter eu lançado as mãos a um varão de

ferro, que me interceptava a passagem para um longo claustro, por onde se

me tornava facil a sahida para a rua. Recobrei alento, e não foram

frustradas as minhas esperanças.

Coadjuvado por antigos companheiros, que haviam escapado milagrosamente ás

garras da humana justiça, e com quem eu continuava ainda a nutrir relações

de camaradagem,--púde aproveitar o silencio d'uma longa e tempestuosa noite

de inverno para os fins a que me propunha.

Fui feliz no meu arrojado commettimento. Ás occultas consegui embarcar em

um navio inglez, que se fazia de véla para a Europa.

Assim, no espaço de pouco tempo, abandonei o paiz dos meus sonhos

tristemente desfolhados aos ventos do infortunio e de medonhas calamidades.

E o certo é que, se não vinha tão rico, como de principio o havia

imaginado, pelo menos trazia meios sufficientes para viver em Portugal,

como capitalista de modesta apparencia.

Tudo isso se desfez, porém, ante a maxima desventura, que, neste instante,

me aguarda terrivelmente.

A nossa embarcação jaz nas alturas da ilha de S. Vicente. O estado do mar é

deveras assolador; não ha meio de resistir-lhe. Naufragio inevitavel! Estão

talhadas as nossas mortalhas. Já a morte nos sorri satanicamente por entre

a negra agitação do oceano. Lucta infernal! Que diabolico tufão! Meu Deus!

meu Deus! Angustiadas lagrimas, sentidos suspiros, supplicas sinceras,

fervorosas orações!... tudo em vão!... Não ha duvida: seremos devorados

irremessivelmente pela sanha do mar! Que profundo abysmo nos espera! Como a

esperança nos é ainda meigo amparo nesta hora extrema e funebre! E como

estamos todos profundamente unidos pelo mesmo pensamento, pelo mesmo amor!

Oh! Só Deus é infinitamente justo e bom! Emfim, estão lavradas as nossas

sentenças! A redempção do céu, essa, só de ti a poderei supplicar, que

decerto não deixarás de interceder na terra pelo descanço de teu desditoso

filho. E adeus,... adeus,... para todo o sempre!... Uma sentida saudade

para Therezinha, o anjo immaculado dos meus sonhos!... adeus...

adeus!...

* * * * *

Eis o conteúdo d'este interessante manuscripto, no fim do qual estava

assignado Ernesto, e era dirigido laconicamente a Maria dos Anjos, moradora

no Porto, aos Clerigos. Após longas e infructuosas pesquizas, consegui

saber que Maria dos Anjos era fallecida, tendo instituido por universal

herdeira de seus bens a Therezinha, hoje noviça no convento de Arouca. Para

lá foi remettida esta preciosa reliquia, e com ella a infeliz herança de

seu esperançoso noivado. Por certo não faltariam lagrimas de bem viva

saudade a orvalhar aquelle extremo legado d'um coração diluido nas grandes

luctas d'um amor infindo e de constante tenacidade!

Antes assim!

*UM DIA DE NOIVADO*

Miniaturas Romanticas · 第 47 / 52 题