Por muitos e longos annos durou a minha nefanda peregrinação n'aquelle
terrivel deserto, onde não penetrava sequer um raio do sol. Occultos,
durante o dia pela espessura do arvoredo,--aguardavamos tristemente o
silencio da noite para dar largas á nossa voracidade famelica. Então, não
passava pessoa alguma, por aquellas solidões tenebrosas, em quem não
procurassemos, desde logo, embeber a esponja corrosiva do veneno e da
maldição,--o cutello do algoz e do malvado.
Aviltante e funesta condição a minha! A principio o remorso levantava-se
irado contra tamanhas torpezas e monstruosas infamias. Mais tarde a minha
alma, já de si callejada no erro e no crime, nada mais quiz ouvir;
empallideceu terrivelmente nas trévas, e nunca até hoje tornou a guiar os
passos incertos da minha vida depravada.
Nada mais pungente e superiormente bestial do que locupletar-se um
individuo qualquer com o ouro roubado aos seus semelhantes. O trabalho
honesto nobilita o seu auctor. Procurar illicitamente um interesse, que nos
não pertence, isso, além de ignominiosamente villão, toca ainda as balizas
da perfidia.--Não ha necessidade que só de per si possa abonar
satisfactoriamente semelhante corrupção e baixeza d'animo!
A despeito de tudo isto, porém, não duvidei iniciar os dias da minha vida
social em tão rude aprendizagem e degradante profissão. E bem cruel me foi
esse engano!
Dentro em poucos dias, do esterquilinio do vicio e da maldição havia eu
passado, rapida e insensivelmente, para o fundo de medonha enxovia. A
justiça humana, no seu incessante vôo, não despegara a vista do desgraçado
cadaver, que, ainda no recondito de arida floresta, lampejava chispas de
fogo amedrontador.
E tudo foi bem assim!
Ao vêr cerrar-se sobre mim a solitaria porta do carcere, que rangia
lugubremente nos seus enormes gonzos de ferro, senti um movimento
involuntario e repulsivo, e tive o pavor de quem vê seu peito ferozmente
esmagado pelo duro pé do inimigo victorioso!
Então veiu a sacratissima imagem de minha mãe dulcificar-me o amargor da
desventura. Lembrei-me de Therezinha. Erin, a bella indiana, de quem nunca
mais tivera noticias, calou-me no espirito não sei que indefinivel
sentimento, que me fazia antever uma felicidade duradoura, se, por acaso,
não houvesse desprezado o seu immenso amor para comigo.
X
Ao penetrar na escuridão do ergastulo julgara ter encontrado o meu
epitaphio, assignalado, com letras de bronze, sobre a lousa sepulchral, que
se me antolhava n'aquelle extenso e terrivel horizonte. Illudira-me, porém,
o meu juizo. Havia-me Deus predestinado neste mundo para grandes e
temerarias emprezas.
Por mero acaso, acontecera um dia ter eu lançado as mãos a um varão de
ferro, que me interceptava a passagem para um longo claustro, por onde se
me tornava facil a sahida para a rua. Recobrei alento, e não foram
frustradas as minhas esperanças.
Coadjuvado por antigos companheiros, que haviam escapado milagrosamente ás
garras da humana justiça, e com quem eu continuava ainda a nutrir relações
de camaradagem,--púde aproveitar o silencio d'uma longa e tempestuosa noite
de inverno para os fins a que me propunha.
Fui feliz no meu arrojado commettimento. Ás occultas consegui embarcar em
um navio inglez, que se fazia de véla para a Europa.
Assim, no espaço de pouco tempo, abandonei o paiz dos meus sonhos
tristemente desfolhados aos ventos do infortunio e de medonhas calamidades.
E o certo é que, se não vinha tão rico, como de principio o havia
imaginado, pelo menos trazia meios sufficientes para viver em Portugal,
como capitalista de modesta apparencia.
Tudo isso se desfez, porém, ante a maxima desventura, que, neste instante,
me aguarda terrivelmente.
A nossa embarcação jaz nas alturas da ilha de S. Vicente. O estado do mar é
deveras assolador; não ha meio de resistir-lhe. Naufragio inevitavel! Estão
talhadas as nossas mortalhas. Já a morte nos sorri satanicamente por entre
a negra agitação do oceano. Lucta infernal! Que diabolico tufão! Meu Deus!
meu Deus! Angustiadas lagrimas, sentidos suspiros, supplicas sinceras,
fervorosas orações!... tudo em vão!... Não ha duvida: seremos devorados
irremessivelmente pela sanha do mar! Que profundo abysmo nos espera! Como a
esperança nos é ainda meigo amparo nesta hora extrema e funebre! E como
estamos todos profundamente unidos pelo mesmo pensamento, pelo mesmo amor!
Oh! Só Deus é infinitamente justo e bom! Emfim, estão lavradas as nossas
sentenças! A redempção do céu, essa, só de ti a poderei supplicar, que
decerto não deixarás de interceder na terra pelo descanço de teu desditoso
filho. E adeus,... adeus,... para todo o sempre!... Uma sentida saudade
para Therezinha, o anjo immaculado dos meus sonhos!... adeus...
adeus!...
* * * * *
Eis o conteúdo d'este interessante manuscripto, no fim do qual estava
assignado Ernesto, e era dirigido laconicamente a Maria dos Anjos, moradora
no Porto, aos Clerigos. Após longas e infructuosas pesquizas, consegui
saber que Maria dos Anjos era fallecida, tendo instituido por universal
herdeira de seus bens a Therezinha, hoje noviça no convento de Arouca. Para
lá foi remettida esta preciosa reliquia, e com ella a infeliz herança de
seu esperançoso noivado. Por certo não faltariam lagrimas de bem viva
saudade a orvalhar aquelle extremo legado d'um coração diluido nas grandes
luctas d'um amor infindo e de constante tenacidade!
Antes assim!
*UM DIA DE NOIVADO*