Francisco de Castro era natural de Aveiro. Filho de paes indigentes, e de
baixa condição, a sua juventude deslisara, naturalmente, por entre o
vegetar monótono d'aquella cidade, sem outro incentivo que não fosse a
salutar influencia de algum parente mais proximo, ou o conselho leal e
franco de algum amigo intimo.
Chegado, porém, que foi á edade da razão, os seus sentimentos
abriram-se-lhe em sensações suaves n'um porvir radiante, e despertaram
n'elle um prurido irresistivel de ir em cata de melhores horisontes por
esse mundo além.
Com este intuito, pois, deixou o nosso provinciano a terra da infancia,
antecipadamente recommendado, e sobejamente abonado por um commendador, seu
padrinho, com destino para os portos do Brasil.
Que saudades se lhe não avivaram na mente, ao ver-se longe da patria e dos
seus! que pavor não affrontou com o rugir da procella, e horrores do
naufragio no alto mar! elle, que jámais havia ultrapassado os estreitos
limites da sua terra natal! mas tambem, com que deleite, com que profunda
emoção, não mirava elle, por noites calmosas, o manto do firmamento azul,
magestosamente recamado de estrellas, que se lhe desenhavam por cima da sua
fronte! e o sereno marulhar das vagas, quebrando-se de mansinho no dorso da
fragil embarcação! e aquelle continuo acastellar de nuvens, debuxando tão
ridentes e phantasticas figuras por sobre a vastidão dos mares!...
Como elle sonhava, então!... Como se deixava arrastar tão docemente pelos
mundos ethereos de ignota phantasia, julgando ter já encontrado o almejado
thesouro que ao longe lhe sorria! regressando rico e feliz ao solo
natalicio, e vendo já os seus, agrupados em torno de si, beijando-o
alegremente! E, comtudo, como foi diversa a realidade!...
Francisco de Castro desembarcára no Rio de Janeiro a 30 de março de 1849.
Procurando saber immediatamente onde era a rua Direita, ahi se dirigiu, sem
mais delonga, aos srs. Costa Pereira & C.^a, ricos proprietarios d'uma casa
commercial, e correspondentes de seu padrinho n'aquella cidade.
Tanto que foram entregues as cartas, que devidamente o recommendavam,
appareceu um caixeiro convidando-o a entrar, e, apertando-lhe
fraternalmente a mão, como signal evidente de futura e benevola
camaradagem.
D'aqui foi o nosso provinciano levado á presença d'um dos donos do
estabelecimento, que o interrogou minuciosamente ácerca da sua vida
passada, animando-o amigavelmente a entrar no escabroso labutar d'aquelle
labyrintho commercial, e acolhendo-o para logo em sua casa, consoante a
praxe de ha muito estabelecida n'aquelle paiz.
Eis aqui, pois, como Francisco de Castro se iniciou na vida activa do
commercio, desejoso, sem duvida, de trabalhar, quanto o comportassem as
suas forças, e esforçando-se o mais possivel por grangear, dentro de pouco,
os meios de subsistencia necessarios para prover decentemente ás
necessidades de sua familia, que tanto o havia mister.
A fortuna foi-lhe, porém, adversa. Cahiu, quando menos o julgava, e cahiu,
para nunca mais se levantar.
Repugnava lhe á sua indole, em extremo ardente, o vêr-se um dia inteiro
acorrentado a um balcão, não mirando a outro horisonte, que não fosse o
sediço positivismo do--_Deve_--e _Ha de haver_.
Cançado já d'aquelle pandemonio tumultuoso de gelo e de cifras, intentava
uma ou outra vez espairecer os olhos lassos de fadiga e semsaboria,
levantando um olhar modesto e casto para uma casa fronteira, em cuja
janella voejava brandamente uma andorinha gentil.
Foi isto mais que sufficiente para elle ser despedido, ao cabo de alguns
mezes, da residencia, onde tão familiarmente havia sido acolhido, logo após
a sua chegada.
Assim vagueou incerto, por alguns mezes, bemquisto por uns, odiado por
outros, sustentando, a cada passo, uma lucta ingente e dolorosa comsigo
proprio; e regressando, mais tarde, á patria com o vivo remorso de nada
haver contribuido para o bem estar de seus paes, e de ter ido, além d'isso,
semear a desordem e a confusão no seio d'uma familia extranha.
Por isso, mingoado de recursos, apenas chegou a Portugal, Francisco de
Castro, não contando mais de trinta annos de edade, resolveu-se a tomar
ordens, expiando, com o sacrificio de seus derradeiros dias, uma mocidade,
no parecer de muitos, estouvada e febril, que jámais podera olvidar.
Estava elle, um dia, meditando deliciosamente, á sombra de annoso cedro,
recolhendo, na sua debilitada imaginação, as sombras longinquas d'esta
tragedia estupenda, que se passa entre Deus, o homem e o universo, quando
um desconhecido, eventualmente, se acercou d'aquelles sitios!
Era Alberto de Carvalhal!
Movido pela profunda tristeza, que subitamente accommettera Francisco de
Castro, e pela curiosidade irrequieta de querer sondar os arcanos d'aquella
alma formosa, que bem se deixava entrever na sua fronte generosa e ampla, e
n'aquelle seu vulto insinuante e nobre, já curvado ao peso d'uma paixão
prematura, e d'um destino atroz, que lhe seccára a seiva da vida, e lhe
emmurchecera as flores mais ridentes da sua primavera; Alberto aproximou-se
do logar, onde o presbytero se sentára, e prorompeu nos termos seguintes:
--Não sei se, da minha parte, haveria indiscrição, em vir quebrar-lhe este
momento de goso ineffavel e placida meditação, accordando-o á triste
realidade da vida?! Confio, porém, no perdão da sua generosidade.
--Bem pelo contrario, meu caro. Um amigo é sempre bemvindo, e, se uma ou
outra vez nos apraz a solidão, é certo que a sua continuação nos causaria
insupportavel tedio. Precisamos d'uma urna depositaria dos nossos segredos;
do mesmo modo que a planta carece do orvalho para vicejar e crescer.
Sente-se aqui ao meu lado, e assista comigo ao mais pavoroso de todos os
espectaculos que só a natureza nos sabe prodigalisar, e que a maioria dos
homens, no meio de seu estupido orgulho, olham indifferentes.
Travada, assim, a intimidade entre estes dois corações, que á primeira
vista pareciam entender-se bem; facil lhe foi, a Alberto de Carvalhal, que
Francisco de Castro lhe narrasse circumstanciadamente os tristes episodios
de alguns dos seus dias passados.
Com este alvitre pois, enlaçados pela mutua sympathia, aquelles dois amigos
encaminharam-se para casa, onde, depois de terem almoçado jubilosamente,
Francisco de Castro, coadjuvado pelo attencioso ardor do seu companheiro,
encetou o drama da sua vida com as palavras, que vão ler-se no seguinte
capitulo.