--É uma especie de loucura, a que algumas mulheres são sujeitas; mas
não me consta que nenhuma a tivesse levado a esse grau! Os filhos
unicos acarretam grandes desequilibrios aos paes. É mais uma razão
para te interessares pela pobre menina. Realmente, os mortos vão
depressa... quando não deixam as mães no mundo! Faze por esclarecer a
baroneza. Que se resigne á idéa de que, da linda Maria só existem os
ossos...
--Tal affirmação não ficaria bem na minha bocca...
--Não estará na tua consciencia?
Sorris?! pois então, filho, alimenta a fogueira em que a pobre senhora
se consome. Levas-lhe! achas e phosphoros, não te espantes de a veres
arder! Se a alma existe, a de Maria trocaria o ceu para estar ao pé da
filha... Era extremosa!
E nesse caso a baroneza tem razão...
Assumpção jardinava. De joelhos na terra, podava uma--Principe
negro--quando a mãe subiu acompanhada de visitas: Alice e Gloria.
--É quando eu gosto de o ver de joelhos!--exclamou rindo D. Sophia,
apontando para o filho, que levantou os olhos surprendido.
--Aqui!
--Viemos visitar D. Sophia!--exclamou Gloria. O senhor não merece!...
Ha dois dias que não vae lá! Vovó está zangada! De mais a mais,
papae foi para S. Paulo!
--Han?!
--Foi, sim. No mesmo dia em que viemos da chacara elle foi chamado por
um telegramma! Não sabia?
--Não!
Houve uma troca de olhares involuntaria entre Alice e Assumpção. Que!
pois ella desconfiaria?!...
A moça voltara-se para o terracinho, olhando agora para o mar, muito
azul.
Assumpção pedia desculpas, tinha as mãos sujas de terra. Correu a
laval-as, emquanto D. Sophia mandava vir cadeiras para o jardim.
--Isto sempre é mais bonito que lá dentro. Casa de uma velha e de um
padre não tem alegria. Sentem-se aqui, olhando para o mar... assim. A
vista é bonitinha, hein? Com que então, Sr.ᵃ D. Maria da Gloria,
está muito adeantada?
--Qual!
--Não?! pois é pena: está ficando uma moça! E voltando-se para
Alice:
--Como esta menina cresce! Acho-lhe uma differença!! É o pae!
--Sim... parece-se, confirmou Alice.
Gloria não se sujeitou á cadeira, levantou-se para revistar os
canteiros e uns caixotinhos que via pregados ao muro. As duas senhoras
conversavam e tão entretidas pareciam uma com a outra, que Assumpção
ao voltar do lavatorio, preferiu ir avisar Gloria de que não mexesse
nos caixotinhos, que eram casas de abelhas e iria perturbal-as.
--Eu já tinha pensado nisso, respondeu a menina. Ainda hontem D. Alice
me explicou, no jardim lá de casa, a vida d'esses bichinhos. Tudo no
mundo tem interesse, não é verdade? Eu tinha raiva das abelhas desde
aquelle dia, lembra-se, em que fui picada no pescoço por uma d'este
tamanho! Tive uma dôr! Pois agora já até quero bem ás abelhas... O
caso é haver quem nos explique as coisas!
--Que te explicou D. Alice a respeito?
--Que as abelhas frequentam as flôres para chupar-lhes o mel,
transportando o pollen de umas para as outras e...
--E explicou-te tambem o que era pollen?
--Certamente! com uma flôr na mão. Uma açucena!
--Conta tudo!
--Numa lição só não se póde aprender muito! Assim mesmo eu percebo
bem D. Alice, exactamente porque ella não ensina,--conversa. Falou das
abelhas... falou das mariposas, disse historias que eu não sabia e de
que gostei... Prometteu levar-me á Tijuca para vêr borboletas azues
muito grandes, que ha lá... Mas vovó... creio que não me deixará ir
só com ella... Se o senhor fosse!
--Irei.
Gloria bateu as palmas com alegria, mas de repente tornou-se séria,
olhando para uma roseira completamente coberta de flôres.
--Queres um ramo?
--Não. A ultima vez que fomos ao cemiterio encontrámos uma porção
d'aquellas rosas no tumulo da mamãe... Foi o senhor! E vovó pensou que
tivesse sido papae!...
--Foi teu pae... levou-as d'aqui,... mas não lhe digas nada, que elle
não gosta que se fale nisso! Olha para o mar!
--O seu jardim é muito pequenino!
--Basta para mim... olha este rainunculo...
Emquanto Assumpção fazia Gloria vêr as suas flôres, D. Sophia
conversava com Alice. Mandara subir os pequenitos. A moça puzera um nos
joelhos e annelava os cabellos do outro carinhosamente.
Que se dizia? Menos do que se adivinhava. A sympathia nascera logo entre
ambas. Assumpção pousou por um instante os olhos nellas e desviou-os
para além, para o infinito... Tinha sido aquelle o sonho da mãe: uma
mulher moça a seu lado, cercada de crianças lindas...
A tarde morria afogada em azul. Já no ceu brilhava a meia lua, e uma
neblina prateada vinha da barra, cobrindo o mar.
--É tarde, Gloria...
--Adeus!
Nessa noite, ao chá, D. Sophia disse ao filho:
--Aconselha Argemiro a casar-se com aquella moça. Ella fará a sua
felicidade.
E depois, baixo e num suspiro:
--Já que não póde fazer a tua.