Num bello sabbado, o Barão do Cerro Alegre trouxe a neta á cidade e
foi depôl-a no escriptorio do pae, que a esperava, já impaciente. O
velho não se demorou; tinha horror ás ruas abafadas e ás feias salas
dos escriptorios. Mostrava-se mesmo apressado em se desembaraçar da
incumbencia, temendo ser cumplice em algum desastre que acontecesse a
Maria, que via cercada de perigos, sempre que sahia da sua chacara.
Ainda assim, não se pôde conter e recommendou ao genro:
--Dizem que por ahi ha muitas febres... é preciso ter prudencia! A
avó pede-lhe que não deixe a Maria comer dôces na confeitaria. Ella
póde abusar, é gulosa...
--Vá descansado; e obrigado!
Emquanto Argemiro despachava uns papeis, Maria ora se debruçava na
sacada, ora remexia todo o escriptorio do pae.
Mas Argemiro tinha pressa tambem de atravessar as ruas com a sua
Gloriazinha pela mão, e abreviou o trabalho. Sahiram; e as
recommendações dos pobres velhos foram absolutamente esquecidas...
Maria da Gloria agarrou-se ao pae, atordoada com o borborinho do povo
com que ia esbarrando; aquillo alvoroçava-a sem divertil-a, mas a pouco
e pouco, a cada paragem para uma conversa de minutos, em que os amigos
do papae lhe beijavam a mão, como a uma princeza, acordava nella uma
curiosidade extranha por esta vida da cidade, tão embaraçada de
enleios. Queria ver tudo, retinha Argemiro em frente das vitrinas,
embarafustava pelas lojas; e como via em exposição muitas coisas que
não tivera nunca, exigia-as do pae, que, docil como a cêra molle, ia
comprando tudo, sentindo-se ainda feliz por satisfazer assim a sua
Maria, só d'elle, nesse sabbado bemdito.
Quando chegaram ás Laranjeiras, o pae subiu logo para o seu quarto e
recommendou a Gloria que esperasse na sala Alice Galba, a quem mandou
avisar, pelo Feliciano, que viesse receber a menina.
Maria recostou-se no sofá, esmagando no estofo as papoilas do seu
chapeu á jardineira. A antipathia da avô suggerira-lhe instinctiva
repugnancia por essa intrusa, como chamavam lá em casa a governante das
Laranjeiras. Ah, mas Gloria tinha o seu plano, não deixaria que a outra
tomasse confiança comsigo. Uma alugada, uma mercenaria!
E dava-se ares de grande dama, muito atirada sobre os almofadões de
pellucia, com uma expressão de desprezo afeiando-lhe a bocca e as suas
faces rosadas, de criança. Realmente aquella attitude não era
agradavel, o chapeu sobretudo incommodava-a mortalmente, e sentia
enterrar-se-lhe nas costas, como um castigo, a ponta de um colchete.
Supportou o sacrificio heroicamente, até que viu entrar na sala, com o
modo mais simples e desembaraçado do mundo, uma moça, nem bonita nem
feia, vestida de cinzento, com aventalzinho preto e um molho de chaves
pendentes da cintura.
Gloria impertigou-se mais. Alice approximou-se d'ella sorrindo e
estendeu-lhe as mãos, duas mãos muito brancas e longas. Gloria
levantou-se, sem se dignar tocar nessas mãos, e disse com aspereza:
--Quero vêr o meu quarto.
Alice contemplou-a com tristeza e curiosidade; depois, voltando as
costas:
--Siga-me...
Atravessaram o corredor, subiram uma escada e entraram em um quarto
forrado de azul, com janellas abertas para os lados do Sylvestre e duas
camas brancas.
--É aqui?!
--É aqui.
--De quem é esta cama?
--Sua.
--E aquella?
--Minha.
--Eu quero dormir sózinha; não sou medrosa. Arrange outro quarto para
mim. Agora, tire-me o chapeu!
Gloria sentou-se na cama, brutalmente. Alice tirou-lhe o chapeu e
endireitou-lhe o cabello. A menina foi ao espelho, achou-se bem penteada
e lá no fundo da sua consciencia concordou que jámais sentira pousar
sobre a sua cabeça mãos mais habilidosas. Voltando-se, contemplou
Alice de alto a baixo, e perguntou:
--Quantos annos tem?
--Vinte e tres.
--Parece mais velha.
Alice sorriu.
--Eu tenho doze...
--Parece mais criança...
--Hein?! toda a gente diz que já pareço uma moça! É myope?
--Parece criança no juizo, minha amiguinha, e é por eu vêr muito bem
que lhe digo isto... Não seja má... venha lavar as mãos; seu pae
espera-a para jantar; não está ouvindo o tympano? É o signal...
Gloria tremia, sem atinar com a resposta para semelhante affronta.
Depois, num desabafo:
--Você é muito grosseira!
Alice apoiou-se ás costas da cama e fechou os olhos.
--Bem diz vovó: sempre é mulher de annuncio!
--Quê?!
Gloria não respondeu, e correu, rindo ás gargalhadas, para a mesa do
jantar.
Argemiro esperava-a de braços abertos.
--Ah! como a tua alegria me faz bem ao coração! Senta-te aqui e
conta-me: por que te ris tanto?
--Por nada... átoa!
--Átoa! como é bom rir átoa!
Como eu preciso da tua innocencia ao pé de mim! Ri sempre, meu
amôr!... Olha o guardanapo... Estás contente?... aqui tens o teu
pãozinho... É a primeira vez que jantas sozinha com teu pae... que te
parece? Olha a tua sopinha... Está a teu gosto?
--Eu não quero sôpa.
--Estás sem apettite?
--Eu não gosto de sôpa.
--Ah, aqui é preciso gostar de tudo, minha senhora! uma pessoa de
educação nunca diz a uma mesa:--eu não gosto d'isto, eu não gosto
d'aquillo... toma a tua sopinha... E agora dize-me: como achaste a D.
Alice?
--Horrenda.
Feliciano sorriu, sorriu com tamanha indiscreção, que Argemiro
reprehendeu-o com um olhar.
--Seja boa e é o que se quer... precisas tratal-a com delicadeza e
amizade; ouviste? é, graças a ella que te tenho hoje aqui... Queres
vinho? muito pouco... com agua... assim... Ora, a minha Gloria! Tomára
já ver-te moça e tomando conta definitivamente d'isto tudo, para
ter-te sempre aqui... sempre!
Gloria, que recusára a sôpa, comia agora com satisfação. O pae
revia-se nella, todo contente.
A mesa estava bem posta; desde que Alice entrára não deixára de haver
flôres e fructas ao jantar.
Gloria, confundindo a elegancia com o luxo, exclamou:
--Que mesa rica, papae!
--Se viesses jantar commigo antes da D. Alice estar aqui, não dirias
isso, embora na mesa estivessem as mesmas porcellanas e os mesmos
talheres. Repara nisto, minha filha, que a arte e o gosto dão ás
coisas mais simples uma apparencia de conforto e de alegria muito
agradaveis á vida. A minha mesa era triste... agora é assim!
Feliciano franziu as sobrancelhas, mal humorado. Gloria confessou:
--Lá em casa só se botam flôres na mesa em dia de visitas...
--Porque tua avó é uma senhora velha e cansada. Compete agora a ti
esse trabalho. Informa-te com a D. Alice a esse respeito. Ella parece
perita na arte de fazer _bouquets_. Repara para aquelle...
--Quem não sabe!
--Pensas que é facil?
--Tenho certeza.
--Pois então incumbo-te de fazeres todos os dias um ramo para a mesa de
teu avô...
--Está dito.
Argemiro não cessava de olhar para a filha, num embevecimento de noivo,
muito sollicito em servil-a, provocando-lhe as expansões, com uma
alegria de moço. Ella percebia a adoração e abusava, ora rindo, ora
franzindo o narizinho aos pratos que o Feliciano lhe apresentava.
Entre as peças da baixella figurava nesse dia na mesa do jantar um
candelabro de prata fosca, que Argemiro reconheceu com difficuldade, tal
era o tempo em que esse objecto vivêra segregado no fundo escuro de um
armario. Na verdade, Alice caprichára em adornar a mesa! Seria uma
homenagem a esse jantar de festa, só de dois talheres, para um homem
quasi velho, e uma menina quasi moça?
Quando o Feliciano offerecia a Gloria uma fatia de coelho assado, ella
exclamou, batendo com o cabo do garfo na mesa:
--D. Fuas morreu, papae!
Argemiro contemplou-a com espanto; mas desatou logo a rir deante da
expressão de seriedade quasi comica da filha.
--O teu gato?
--O meu coelho branco... Todas as manhãs, quando me levantava, a
primeira coisa que eu fazia era correr para o páteo da criação... D.
Fuas conhecia-me e vinha para mim... eu levava sempre muita couve para
elle, e gostava de ver aquelle focinhinho, toca que toca, mastigando a
verdura... Hontem desci, e nada de D. Fuas! Procura para aqui, procura
para alli, e fomos achar o coitado embaixo da paineira, todo
esticadinho, e ainda mais branco porque estava cobertinho de paina...
Então eu e a Emilia fizemos uma cova, forramos a terra com a paina
limpinha, deitámos alli D. Fuas, tornámos a cobril-o com paina, depois
com terra, e acabou-se!
--Choraste?
--...Chorei... mas vovô prometteu-me outro!
--Á saude do outro que ha de vir e que te consolará!
Argemiro bebeu convictamente á saude do coelho, como se o fizera á de
uma illustre personagem. Como elle adorava e era grato a tudo o que
alegrasse a vida da sua Gloriazinha!
Ouvia-a com tal interesse, que a chamma infantil dos olhos d'ella
ateava-lhe n'alma curiosidades de criança, tambem. Eram dois meninos á
mesa, áquella mesa que Alice enfeitara como para um noivado.
Passaram então a discutir as qualidades dos animaes predilectos.
Argemiro elogiou os gatos. Gloria repellia-os; preferia os cães e cães
de fila, que mordessem os outros e a adorassem a ella! Confessou ter
muito desejo de ver leões e elephantes. Contou que uma onça, fugida do
Jardim Zoologico, andára rondando a chacara: mas que, visse o pae que
exquisitice! ella só se lembrava de temer a féra á hora de ir para a
cama, quando estava toda a casa fechada... De dia não; corria pela
horta, pelo pomar... Mas á noite!...
--És medrosa?
Ella fez notar ao pae, com um olhar, o Feliciano.
--Que mulherzinha! pensou Argemiro; e riu-se. Embora quizesse, elle não
pôde prolongar a demora na mesa; Gloria ardia de impaciencia; comêra
muito depressa, com a idéa de andar pela casa toda, a _sua casa_, que
ella dentro de poucos annos governaria... E relanceou um olhar de
dominio em redor de si.
--Bem, meu amor, gira um pouco pela casa e vai depois fazer companhia á
D. Alice...
Feliciano informou:
--Ella está jantando.
--Ella janta na cozinha? perguntou Gloria no tom mais natural do mundo.
--Não, filha; ella tem a sua mesa.
--Então cada criado aqui tem a sua mesa? Lá em casa...
Feliciano riu-se. Argemiro atalhou:
--Não digas mais. D. Alice não é uma criada; representa aqui a dona
da casa.
--Tal qual como se fosse mamãe?
Feliciano olhou de esguelha para o patrão.
--Tal qual, não; basta dizer que á D. Alice eu não a vejo nunca, e
que estava sempre ao pé de tua mãe; mas para manter a ordem da casa e
dirigil-a, é como se fosse.
O ciume da avó relampejava agora nos olhos da neta. Gloria olhava para
o pae numa attitude de desafio.
Toda ella crescera em um instante, como se a raiva a insuflára; e no
momento mesmo em que ia formular um protesto, que lhe custava a
articular, o padre Assumpção entrou na sala, dando risonhamente as
bôas noites.
Argemiro despegou vagarosamente os olhos da filha e ficou por um bocado
alheio a tudo o mais, sem responder aos cumprimentos do amigo.
--Que tens tu?! perguntou-lhe o padre, que lhe pousou no hombro a mão
espalmada depois de ter abraçado a menina.
--Nada... Chegas a proposito; vem ao meu escriptorio. Gloria, vai tocar
um pouco; experimenta o teu piano, emquanto D. Alice acaba de jantar.
--Eu não preciso d'ella!... resmungou a menina, dirigindo-se para a
sala.
--Ouviste? Eu não preciso d'ella! A prevenção da minha sogra imbuiu
no espirito de minha filha uma antipathia medonha por esta pobre moça
que tenho em casa e que ainda verdadeiramente nenhum de nós conhece!
Ora, eu preciso de uma mulher em casa, exactamente para poder chamar
minha filha a mim, e gosar, embora fortuitamente, a sua companhia; e
vêm-me a criança cheia de azedumes e idéas preconcebidas contra a
unica pessoa a quem posso confial-a! Como ha de ser?
--Fazer com que se estimem.
--Mas como?! Sem convivencia, e com más insinuações... não ha
amisade possivel. A minha filha tem ciumes! Herdou o tormento da mãe,
que tão bem conheceste, e o unico defeito da avó... isto é, herdaram
ambas, d'ella, o mesmo sentimento, porque só são ciumentas de mim!
Minha sogra confessa nunca ter tido ciumes do marido, e, entretanto,
não dou um passo em que não sinta a sua vigilancia!
A alma da filha parece ter-se incarnado nella, e é essa talvez a
attracção poderosa que me chama a si... mas esse excesso de zelos vae
estragar-me á pequena... Não imaginas o gesto de revolta que ella
fazia no momento em que entraste, só porque eu prestigiava a
governante! E agora?!
--Agora vaes sahir por umas duas horas, e eu ficarei seroando com a
nossa Maria e a tal senhora.
Quero vel-as a ambas reunidas; não fazes obra acertada atirando tua
filha, muito selvagem mas muito innocente, para os braços de uma
creatura que tu não conheces... Convem estudal-a...
--Mas, homem de Deus! não me trouxeste, tu mesmo, as melhores
informações d'essa _tal senhora_?
--Sim... disseram-me que é uma moça honesta... de boa familia...
pobre... saude de ferro... Foi o que me disseram; mas isso bastará?
Para governar teus criados, sim; para captar Maria e conviver, mesmo que
por poucas horas, com ella... não!
--Neste caso voltamos á mesma. Despeço a mulherzinha e nunca mais
tornarei a ter a minha filha aqui, commigo, só commigo, livre um
bocadinho d'aquella atmosphera da chacara, que a faz tão malcriada...
tão aborrecida e até antipathica. Acabou-se.
--Nada acabou; tudo começa agora. Foste sempre prejudicado pela tua
impaciencia, homem! é tempo de te corrigires. Vai passear. Dizem que ha
bonitas coisas ahi pelos theatros... resigna-te a perder um pouco do teu
tempo indo ver qualquer d'ellas... Ahi tens o jornal, escolhe.
--Não tenho pachorra...
--Eu iria a uma magica. Contam maravilhas d'esta--_Fada Azul_...
--És um homem innocente!
--Sou padre... mas se te não diverte a magica, vae a outra parte, mas
vae! Que diabo! lembro-te tão bom alvitre e ainda vacillas!
--Vaes aborrecer-te...
--Menos do que tu...
--É possivel...
--É certo. O teu chapeu está alli... queres que te procure a bengala?!
--Parece-te que estou á espera que me dês com ella no lombo para
então sahir?
--Já me lembrei d'isso...
--Se não fosses padre...
--Não proporia zelar por tua filha com tamanho interesse...
--Por que?!
--Porque seria provavel que estivesse velando pela minha...
Argemiro levantou os olhos para o padre Assumpção, com uma pontinha de
espanto, e mal lhe percebeu nos labios finos um fio subtil de ironica
amargura.
--Está bem; cedo-te por instantes o meu logar e dir-me-ás depois se
elle vale a solidão a que te condemnaste!...
O padre Assumpção desceu á sala onde Maria arranhava o teclado com
uma furia de gata brava. Encostou-se ao piano, ouvindo as desharmonias
d'aquella criança, em que elle sentia um vago perfume da saudade
materna. Quão differente fôra a mãe, toda delicadeza e graça, do que
era agora a filha! Na penumbra da sala reconstruia-lhe o vulto airoso e
fino, que os bandós loiros illuminavam de uma luz branda, de sol de
primavera.
Que linda a vira naquella mesma sala, áquella mesma hora...
Maria levantou-se com impeto. O padre Assumpção attrahiu-a a si e
beijou-a na testa, com infinita ternura.
--O senhor está tremulo... Onde está papae?
--Teu pae sahiu. Manda accender o gaz da saleta e convida D. Alice para
vir passar o serão comnosco.
--Não gosto d'ella...
--Por que?
--Não sei... e o senhor?
--Eu gosto de toda a gente, minha filha... de uns mais... de outros
menos, mas não quero mal a ninguem. Vae pedir á D. Alice, com muito
bom modo, que nos faça o favor da sua companhia por umas duas horas...
--Papae foi ao theatro?
--Não.
--Onde foi?
--Não sei... d'ahi, talvez tivesse ido ao theatro...
--Sem mim?!
--Sem ti.
--Que desaforo!
--Hein?! Ah! Maria, precisamos mudar de genio... Não te quero assim...
faze o que te disse, anda.
--Vamos antes para a janella.
--Não. Vae chamar D. Alice.
--Ella é muito enjoada! muito feia!
--Seja como fôr; quero conhecel-a.
--Ah! se é só para isso! Que bicha!
Maria percebeu de relance que havia uma intenção occulta naquella
insistencia e movida pela curiosidade acabou por ceder á ordem do
padre.
E o serão correu tranquillamente. Alice trouxera a sua cestinha de
trabalho e um livro de historias, confiando pouco nos seus meritos de
conversadora.
Vendo que Maria se impacientava, propoz-lhe ensinar-lhe um ponto facil
de _crochet_, com a lã do seu agrado, Maria repelliu o offerecimento;
mas, aconselhada pelo padre, acceitou-o por fim. Ella detestava os
trabalhos de agulha, que achava difficeis de comprehender. Alice tinha o
condão de explicar tudo com tamanha simplicidade e clareza que a
intelligencia mais rebelde se esclarecia ás suas palavras limpidas e
teimosas. Maria interessou-se, por fim, tentada por uma meada de lã
vermelha; e, ora vendo ora tentando fazer, guiada pelas mãos pacientes
e ageis da moça, conseguiu aprender não só esse ponto como outro mais
complicado.
--A senhora é paciente... Gosta de crianças?
--Muito!
--Tem irmãs pequenas?
Alice olhou para o padre Assumpção com ar de queixa. Para que
interrogal-a, naquella hora distrahida, acordando-lhe a saudade da
familia ausente ou perdida?
Foi isso que o padre pareceu sentir na expressão da moça.
Entretanto, ella disse:
--Tive... uma...
Como Gloria se atrapalhasse, tirou-lhe o trabalho das mãos,
adiantando-o um pouco, para influir a menina.
--Repare bem; olhe... uma volta... outra volta... vou bem devagar...
comprehende?
Maria arrancou-lhe a agulha e o novello das mãos com impaciencia, morta
por fazer ella mesma o trabalho. O padre reprehendeu-a; Alice sorriu.
--Deixe... são todas assim!
Decididamente, esta rapariga não é uma rapariga vulgar, pensava de si
para si Assumpção, olhando para a moça. Havia no seu vestido pobre,
de lã barata, uma elegancia reservada e distincta. O cabello, sem
frizados, de um castanho escuro, desnudava-lhe a testa clara,
enrolando-se num penteado de uma graça discreta. As mãos bem tratadas,
longas e pallidas, traçavam os gestos com firmeza de quem conhece o seu
valor; e a sua voz, um pouco grave, tinha a doçura de uma queixa
disfarçada. As feições vulgares não lhe offereciam nenhum traço
caracteristico, e o padre Assumpção impoz-se penitencias, para
castigar a sua vaidade, presumindo que na curta convivencia de duas
horas, pudesse conhecer bem uma mulher! Começava a ter medo de
sympathisar com esta, e que esse sentimento lhe tolhesse mais tarde
acções imprescindiveis para a salvação do amigo e de Maria...
Conversaram os tres durante todo o serão. E afinal, qual foi o
resultado de tantas palavras ditas e ouvidas? Nenhum... no serão o
lucro correra todo para Gloria, que aprendera a fazer _crochet_ e ainda
ficara de uma assentada dona da agulha e da meada de lã.
V
Argemiro ouvia um constituinte no seu escriptorio da rua da Quitanda. A
causa era chôcha; o homem expressava-se mal, perdendo palavras sobre
palavras. O advogado deixava-o fallar, olhando silencioso para os
raminhos azues do papel reles, como se pedisse ás paredes encardidas a
paciencia de que deviam estar impregnadas.
Effectivamente, toda aquella casa, onde o cupim voraz trabalhava de
parceria com os medicos especialistas, advogados e solicitadores,
parecia derrear-se ao peso da sabedoria e da malicia.
Á noite, fechados os escriptorios e cubiculos, os ratos, passeando por
aquelles corredores e alcovas desertas, commentariam as chicanas, as
mentiras e os segredos, com que a sciencia transfigura a verdade e uns
homens enganam os outros... E não seriam poucos os ratos, porque ás
vezes, mesmo á plena luz do meio-dia, surgia de qualquer canto obscuro
o focinhito agudo de um d'esses roedores mais curioso, como a querer
tomar contas do que se passasse; e a sua murrinha vagava na casa, de
frente a fundo, enchendo-a como uma alma.
O constituinte de Argemiro voltava ao principio da sua exposição;
temia ter esquecido algum detalhe precioso, e a consulta era cara... foi
num desses pontos de repetição que o criado apresentou ao advogado um
cartão da Pedrosa.
--A mulher do Ministro!
Argemiro abotoou o collete de fustão e prometteu ao homenzinho que
faria tudo por elle, mas que se fosse embora!...
O outro atropellou as ultimas perguntas e marcou nova entrevista.
Atravez a meia parede de tabique ouvia-se na sala proxima o _frou-frou_
das sedas abafadas em lãs e um sussurro de vozes femininas. Logo, a
Pedrosa não viera só... Argemiro não a via desde a noite em que fôra
cumprimentar o marido pela sua nomeação. Que a traria alli?
O aroma do _Bouton d'or_ introduzia-se pelas frinchas das portas,
invadindo tudo, soberanamente.
Argemiro considerou aquelle aroma como muito indiscreto, mas gostou.
A Pedrosa afinal... Ora, com que então estava no seu escriptorio a
mulher do Ministro!... elle ageitou o nó da gravata e foi recebel-a á
porta. Ella entrou logo, com o olhar reprehensivo, o busto impertigado e
um sorriso amigo na bocca descorada. Atrás d'ella vinha a filha, muito
espigada, mais alta do que a mãe, com um arzinho petulante no rosto
claro, de feições miudas.
--Seu mau! então é preciso que a gente o venha ver aqui?!
--Oh, minha senhora...
--Não se desculpe, nem me agradeça a visita.
D'ahi rompeu a fallar, queixando-se de não ter o marido um minuto de
descanço que lhe permittisse tratar dos seus negocios particulares,
vendo-se ella na contingencia de intervir, como fazia agora, a
contragosto... Ia consultar o advogado e o amigo...
Argemiro agradeceu.
Emquanto a Pedrosa remexia na sua bolsinha de camurça, procurando um
documento qualquer, o advogado olhou para a Sinhá, que não desviava o
olhar de cima d'elle, numa expressão perturbadora, de mulher amorosa.
--Diabo! pensou elle comsigo.
A consulta representava um pretexto. O negocio dispensaria a
intervenção do advogado; todavia, a Pedrosa parecia não se importar
de passar por estupida: repetia as perguntas com uma difficuldade de
comprehensão que dava tempo á filha de espichar a alma pelos olhos
fóra.
Mas o coração do viuvo parecia fechado a sete chaves e duro como uma
pedra. Sinhá levantou-se, deu um giro pelo escriptorio, riu, fallou,
interrompeu a mãe e sentou-se depois mais perto do Argemiro,
deixando-lhe cahir de encontro a um joelho, por descuido, a sua linda
sombrinha de seda e rendas brancas.
Como o assumpto da consulta já não désse de si, a Pedrosa
embarafustou por outras portas: as ultimas récitas do Lyrico, o jantar
do Presidente, o casamento do Angelo Barros... aquelle Angelo que dizia
ter feito tambem o juramento de ficar solteirão!
E a proposito a Pedrosa perguntou ao Argemiro quando teria de assistir
ao seu...
--Eu já me casei, minha senhora...
--Sabemos; mas ser viuvo é como ser solteiro...
--Estou velho...
--Pois sim, a verdade é que eu conheço mais de uma moça bonita que se
daria por feliz se o senhor a escolhesse... Olhe, na festa da
apresentação de Sinhá, houve uma que ficou enfeitiçada pelo senhor.
Mãe e filha trocaram um olhar e riram alto. Depois, a Pedrosa
continuou:
--É raro o homem que enviuva que se não torne a casar; o que é a
melhor prova a favor das mulheres... Ora, o seu coração por que ha de
ser mais insensivel que os dos outros? Um segundo casamento é ainda uma
homenagem ao primeiro... Só procuramos repetir os actos que nos trazem
felicidade...
--Será assim, mas o meu coração é pequeno para as saudades que
tenho. Está todo occupado pela minha morta...
Sinhá levou o lenço ao rosto e uma nuvem de _Bouton d'or_ adejou pela
feia sala do escriptorio. Argemiro percebeu o movimento e deliciou-se
com o aroma. Que significaria aquelle gesto? Colheria o lenço uma
lagrima ou disfarçaria um sorriso? Seria elle realmente amado por
aquella criança, ou simplesmente preferido por aquellas mulheres como
um marido de posição? Deveria ter pena, ou deveria ter nojo?
Ah! a pobre Sinhá talvez não tivesse culpa; quem era odiosa era a
mãe, que assim o vinha provocar no logar do seu trabalho arrastando
pelos degraus carunchosos d'aquella casa de homens, a sua filha
solteira, apenas sahida do collegio! Mas a verdade era que o olhar da
pequena perturbava-o, mais pela sua expressão, que pela sua fixidez.
Obedeceria ella á suggestão da mãe, ou agiria a mãe em obediencia a
uma supplica da filha? Argemiro, apesar de lisonjeado na sua vaidade de
homem, começou a desejar a sahida das duas senhoras; mas a Pedrosa
não parecia apressada e entrou pela seara da politica, como entrára
pela do amor.
Acertou no ponto de fascinação. Ella estava bem informada; Argemiro
abriu ouvidos curiosos e dobrou-se na cadeira para escutal-a de mais
perto. Ella era indiscreta, por ser com elle... pedia segredo de algumas
affirmações, mostrando-se de vez em quando em opposição a actos do
marido...
--Pedrosa morre por servil-o em qualquer coisa... veja se inventa um
pedido, para contental-o... concluiu ella, levantando-se com um arzinho
malicioso nos olhos espertos.
Sinhá imitou-a, quebrada de languidez, como desanimada...
Argemiro observou-a de face; ella baixou os olhos, corando. Estava
galante.
--Recebemos ás sextas-feiras e Sinhá tem umas amigas novas que desejam
conhecel-o... o senhor anda muito arredio, mas nem só de saudades vive
o homem... é preciso distrahir-se e ser amigo dos seus amigos! Até
sexta-feira?
--Até sexta-feira.
Sahiram, e ainda por alguns minutos vagou na atmosphera o aroma d'ellas.
Argemiro poz-se a remexer nos seus papeis, pensando:
--E haver quem se case assim, pescado, pescado como um peixe! Não seria
mais digno que a Pedrosa viesse a mim e dissesse: minha filha ama-o
desde a primeira vez que o viu; o senhor convem-me para genro; quer
casar com ella?
Elle mesmo se riu da idéa. Essa innocencia de costumes só passaria
pela cabeça de um doido; e de mais pol-o-ia em embaraços. Que
responderia elle á coitadinha?
D'ahi, talvez que tudo fosse velleidade sua. Os seus cabellos começavam
a estriar-se de branco e Sinhá deveria ter ideaes moços... Fôra com
certeza illusão... Não lhe faltariam a ella, bonitinha e moça, bons
partidos. Todavia...
Apoderou-se d'elle uma doce tristeza. Não poderia amar nunca mais!
Nunca mais? Fôra tamanho o encanto da sua Maria, que nenhuma outra
mulher tivesse jámais o poder do o emocionar?
Nenhuma! Ella perdurava no seu espirito como o conjunto de todas as
perfeições. A sua figura esguia e branca, que a cabelleira aureolava
de ouro pallido, plantara-se no seu coração como uma sentinella
prompta a repellir á invasão de um sentimento amoroso, por mais leve
e subtil que elle fosse.
O continuo voltou, annunciando novo constituinte.
Nas suas tócas os ratos faziam provisão de assumptos para os
commentarios da noite, nos livres passeios das salas e corredores... e o
novo consultor fornecer-lhe-ia materia para ironicas conclusões: era um
velho que procurava salvaguardar os direitos da sua casa de jogo
encapado em disfarces, com que espoliava incautos e viciosos. Argemiro
indicou um collega mais habil no assumpto. O outro sahiu, elle poz-se a
ler, á espera do Caldas para um negocio de valor.
Razão tinham aquellas paredes para parecerem desgostosas e estarem
enxovalhadas. Só a torpeza que rolava entre ellas!