O trem dos suburbios ia partir, quando Adolpho e Argemiro entraram na
gare da Central. Adeante d'elles corria uma multidão pressurosa e
atrapalhada, sobraçando embrulhos e arrastando crianças.
--A hora do jantar aqui é uma hora perigosa, Argemiro! E digam que o
feijãozinho não tem prestigio!
Nesse instante sentiram-se empurrados. Eram umas senhoras que lhes
tomavam a deanteira no assalto, muito nervosas, olhando para traz, a
contar-se, com medo que não ficasse alguma extraviada.
--Isto é uma ignominia. Obriga tua sogra a vir cá para baixo.
--Imagina se não lhe tenho pedido! Cada vez que vou vêr minha filha é
este horror! E perco um tempo!
Caldas rogou uma praga.
--Que foi isso?! olha se te mandam para o xadrez!...
--Aquelle sujeito ia-me arrebatando o pacote dos _marrons_ de tua filha!
Não lhe basta a carga. Gente amiga de embrulhos, a dos suburbios! Olha.
--Não tenho tempo. Entra.
Entraram ambos para um carro.
Cheirava a carvão de pedra e havia calor.
Argemiro continuou, depois de sentado:
--Minha sogra tem razão; ella vive como uma abbadessa de convento rico;
tem um prestigio por toda aquella redondeza que nem calculas... Muito
boa, muito esmoler, é o centro de uma população de pobres e de
familias que, se não dependem d'ella materialmente, acostumaram-se á
sua tutela moral e não a dispensam. Eu comprehendo-a e dou-lhe razão.
Ha ainda outro motivo que a obriga a viver na chacara: é o empenho de
ter a neta só para si. Minha mulher, não sei se já te disse, era
filha unica e criada com um mimo raro; durante o tempo em que vivi
casado tive occasião de conhecer a mãe mais extremosa que jámais vi.
Para mim foi de uma bondade e de uma ternura encantadora. Amava-me
porque via bem quanto eu fazia a filha feliz... A neta reproduz para
ella a filha morta. Gloria foi para casa da avó, muito pequena; foi
ella quem a criou, julga-se com todo o direito a guardal-a para
sempre... E é para tel-a só para si, nos mesmos logares em que cresceu
minha mulher, que teima em não sahir do seu canto...
--E comtigo não se conta?
--Considera-me muito, mas entende, e com razão, que não posso ter
Gloria em minha companhia.
--E se te casares?
--Ella sabe bem que isso não acontecerá nunca. Minha sogra herdou o
ciume da filha... Sabes que minha mulher me pediu que não me tornasse a
casar...
--Todas as mulheres rogam aos maridos a mesma coisa, e afinal... todos
os viuvos se casam! Mais depressa que os solteiros, nota.
--Sinto-me bem assim.
--Teu sogro aferra-se tambem por gosto a este sitio?
--Por gosto e por economia. Elle explica melhor a sua predilecção pelo
campo, dizendo que, á sombra das suas mangueiras, se sente mais longe
da republica...
--Ahi está! e eu nunca o ouvi falar em politica...
--Não é homem que discuta factos consummados. Depois, está velho e é
amigo do repouso... Fez-se botanico, para entreter os ocios da chacara.
Teve uma mocidade tempestuosa; a mulher não foi feliz; agora então,
para compensal-a, dá-lhe toda a soberania e é um cordeiro. O bom velho
fez esquecido o mau rapaz...
Argemiro reparou que ainda tinha nas mãos distrahidas um lequezinho de
papel apanhado á entrada do vagão. Revirou-o entre os dedos: tinha uma
vareta quebrada, unida ás outras por um fio de linha.
--Deve ser d'aquella moça que se remecheu ha bocado procurando qualquer
coisa... Pensei que lhe tivessem roubado o relogio!
--Talvez faça falta...
Era d'ella. Argemiro ao entregar-lhe o leque notou lhe um movimento de
alegria mal disfarçada. Voltou a sentar-se e Caldas instou:
--Influe teu sogro a vender as suas terras em Minas. O Barreto pediu-me
para organizar uma colonia suissa, para a industria dos lacticinios...
e convem-lhe adiccionar ás d'elle as terras do barão. Dão-lhe
resultado?
--Filho, não sei. Meu sogro é um homem calado e eu fujo de mostrar
interesse por questões de dinheiro. Mas onde diabo vaes tu arranjar
suissos?!
--Á China, talvez... Que pergunta! Irei á Suissa, homem!
--Sempre arranjas uns negocios!
--Nunca os procuro. Elles entram por seus pés em minha casa; ahi, ou os
recebo ou atiro-os pela porta fóra. Fica certo que negocios procurados
não prestam. Não ha nada como um sujeito passar por homem rico, para
enriquecer... O proprio individuo chega até a illudir-se e a ficar mais
bonito... Conheces maior volupia que a do dinheiro, senhor absoluto do
mundo todo? Só o que é bom e caro, dá prazer...
Argemiro sorriu, lembrando-se do lequezinho quebrado, e do gesto de
contentamento que fizera a dona ao rehavêl-o. Pobrezinha...
Caldas, por ter confiança no amigo, entrou a falar-lhe baixo da sua
cooperação nos relatorios do Vieirinha, ainda maior trabalho do que
tivera com os relatorios do Theobaldo, quando ministro da fazenda...
--Dize-me cá, atalhou Argemiro. Em que disposição está o presidente
a respeito do Pedrosa, sabes?
--O burro do Pedrosa vae ser ministro.
Argemiro riu-se; Caldas retomou o fio das suas confidencias
interrompidas.
O trem corria de estação em estação, com os seus guinchos
ensurdecedores. Uma criança chorava no collo da mãe afflicta; um grupo
de rapazes amarellos e desdentados falava de eleições do Club
Riachuelo, ao pé de uma senhora de cabellos grisalhos, bem vestida, e
que viajava só.
Lá fóra a paizagem estendia-se larga, banhada de sol escaldante. Um
véu fino de pó dourava a atmosphera. Laranjeiras pequenas, de grandes
fructos dourados, alegravam aqui e acolá um ou outro ponto dos campos
mal tratados, onde em gramados secos trilhas barrentas descreviam linhas
tortuosas.
--Isto é desconsolador... observou Argemiro, apontando para a extensa
pradaria, onde em vários trechos se agrupavam casinhas feias.
--E este trem poderia rolar entre pomares cheirosos. O Brasil é a terra
da flôr exquisita e da fructa saborosa. De um lado e de outro d'estas
estradas, se tivessemos camponezes e agricultores de bom gosto,
veriamos, Argemiro, lindas orchideas suspensas na galharia de arvores
fructiferas. Olha bem para aquillo! É precizo não ter absolutamente
gosto nem instincto, para se fazer uma cerca assim, de paus tortos, aqui
no paiz do bambú. Do lindissimo bambú! Ah! o Japonez! que povo feliz e
aproveitador... Vou lembrar ao Barreto instalarmos aqui uma colonia de
Japonezes, com a condição de fazerem elles mesmos as suas casas e
trazerem muitas musmés bonitas...
--Condição essencial!
--E que tu com toda a tua viuvez aproveitarias melhor do que eu...
--Aprecio pouco o typo e detesto a raça...
Adeante, o grupo de rapazes augmentára com outros sujeitos, que,
abandonando os seus logares, tinham vindo discutir a eleição do club.
Um dos moços, no calor da discussão, sentára-se no braço do banco em
que viajava a senhora de cabellos grisalhos. Ella encolheu-se, com ar
constrangido. O rapaz gritava aos outros:
--Se eu não tivesse educação, não teria contido o impeto que tive de
esbofetear o Andrade, alli mesmo no club!
Um outro advertiu-o de que elle estava incommodando a viajante; elle
levantou-se com uma desculpa e foi nesse instante que o trem parou em
Madureira.
Caldas e Argemiro encontraram na estação a victoria do barão, que os
esperava.
--Lá em casa todos bons? perguntou Argemiro ao cocheiro.
--Todos bons.
--Nota esta exquisitice, Adolpho; só me lembra que minha filha póde
estar doente, no momento em que me approximo d'ella. Assalta-me então o
terror de a ir encontrar de cama...
A chacara do barão ficava a um kilometro da estação. O carrinho
partiu ao galope de um cavallo ligeiro, e dez minutos depois transpunha
o largo portão da chacara, seguindo até á porta da habitação, por
uma extensa rua de mangueiras bellissimas.
--Como isto repousa a gente! exclamou Caldas, aspirando com força o
aroma da flôr de fructa e pascendo o olhar pela frescura d'aquellas
sombras.
--O Paraiso... murmurou Argemiro, esticando o pescoço, a vêr se via,
ainda que de longe, a filha.
Antes que o carro chegasse á casa, Maria da Gloria atravessou aos
gritos um grande relvado lateral da rua e irrompendo d'entre as
mangueiras atirou-se para o carro alegremente:
--Papae! papae!
O cocheiro mal teve tempo de diminuir a marcha do animal e ella trepou
para o estribo, enfiando no carro a cara afogueada e risonha. O pae
segurou-a, puxando-a para dentro, sem coragem de ralhar com ella por
aquella imprudencia. Tentou falar, ella cobriu-lhe as barbas e a bocca
de beijos.
--Que exhuberancia! exclamou Caldas, rindo.
Chegavam á porta do velho palacete dos barões do Cerro Alegre.
No patamar da escada, o sogro de Argemiro, barbeado de fresco, com o seu
corpo franzino dentro de brins bem alvejados e o boné de seda preta
seguro na mão fina e nervosa, sorria á espera dos hospedes, a quem
abraçou.
--Mamãe?
--Espera-os na sala do meio. Entrem.
Argemiro aprendera com a mulher a chamar a baroneza de mamãe;
percebendo agora quanto aquelle titulo commovia o coração da velha,
continuava a dispensal-o de bom grado. Era como se a alma da morta lhe
passasse pelos labios todas as vezes que dizia essas duas syllabas
amadas.
A baroneza era uma senhora gorda, alta, de lindos olhos negros e
cabellos completamente brancos.
Tinha as faces flacidas, a carne do pescoço descahida, a boca larga, a
testa curta e ainda roubada pela espessura das sobrancelhas escuras.
Cosia sentada em uma cadeira de balanço, ao lado de uma mesa redonda,
coberta de um panno escuro e onde floria em um vaso um ramo de
crysantemos pallidos.
--Bemvindos sejais! exclamou ella com a sua voz forte, de contralto.
Argemiro beijou-lhe a mão e sentou-se a seu lado. Caldas entreteve-se a
conversar como barão, que, pedida a vénia, cobrira com o boné de seda
os seus cabellos brancos e encaracolados.
--Então, meu filho, como acha sua filha?
--Forte... muito alta!
--Cresce de dia para dia! Se não vivesse no campo, com esta liberdade,
não sei que seria... Precisa ralhar com ella: está muito
voluntariosa...
--Tem a quem sahir...
--A mãe era um cordeirinho...
--Mas a avó é energica. E eu...
--Você é um homem. Sua mulher puxava toda ao typo do pae; Gloriazinha
sahiu mais a mim... olhe para aquellas sobrancelhas!...
--Parecem uns bigodes! retrucou Argemiro para fazer zangar a filha. E
depois de a beijar nos olhos: E a respeito de estudos?
--Isso! falle-lhe nisso! É uma vadia de força... o avô não se cança
de a chamar e de ensinar-lhe as lições. Mas santos de casa...
--Pois chamemos os de fóra. Vae buscar os teus livros, Gloria.
--Ora, papae... depois... eu...
--O que ella quer é andar como os cabritos, aos saltos e correrias...
eu, emfim, consinto nisso, porque com aquelle crescimento não deve
haver sujeição... Graças a Deus, ella tem uma saude de ferro.
--Por isso mesmo precisa ter outros modos... se a puzessemos em um
collegio?
Pelos olhos da baroneza passou a sombra de um desgosto e ella disse:
--Se quizerem matal-a...
O barão protestou:
--Isso nunca. Collegios nem para rapazes. São logares de perdição. O
que temos a fazer é interessal-a pelo estudo.
--Mas como?
--Ha de haver um meio... Ó Gloria, vae tocar a tua ultima lição,
anda. A professora de musica não está descontente...
Gloria amuou.
--Eu não sei nada!
--Como não sabes?! Vae tocar!
--Não...
--Gloria!
--Não...
--Esta menina!
Argemiro olhava para a filha com desgosto. A baroneza interveio:
--Depois do jantar teremos tempo; ella está com vergonha... manda botar
o jantar na mesa, Gloria; depois tocarás...
Gloria aproveitou o ensejo e correu para o interior, onde d'ahi a
instantes soavam as suas gargalhadas fortes, muito barulhentas.
O pae informou-se, voltando-se para o sogro:
--Como vae ella na leitura?
O velho abanou a cabeça, sorrindo; mas a avó exclamou, dirigindo-se ao
Caldas:
--Se ella quizesse! não imagina o talento que aquella menina tem!
aprende tudo com uma facilidade espantosa, de relance!
--Mas o diabo é que ella não quer! asseverou o avô, rindo.
--Ora! não é tanto assim; o sr. Caldas é capaz de pensar que a nossa
Gloria é uma analphabeta!
--Quasi.
--Ora, não digas isso! Ella lê... e escreve... e demonstra muito geito
para a musica. Afinal, não se educa para doutora nem para professora.
No meu tempo não se exigia tanto...
--Não é razão. A mulher hoje precisa ser instruida, solidamente
instruida, mamãe, e eu quero, eu exijo que minha filha o seja.
--Está direito, mas sempre quero saber se o sacrificio do estudo tem
compensações verdadeiras! Andar atrás de uma pobre creança o dia
inteiro, fazendo-a conjugar verbos e compôr e recompôr orações
grammaticaes, atirando-lhe para dentro da cabeça nomes de terras e
complicações mathematicas; curvar-lhe a espinha em cima de mappas e
linhas geometricas, cançar-lhe a vista antes de tempo, roubando-lhe a
liberdade que dá saude, alegria e ousadia, olhem que não me parece
obra de amôr nem de caridade! Eu, cá por mim, confesso: fujo da sala
do estudo quando vejo meu marido chamar a neta para a lição...
--Eu imagino que elle ha de ser muito rispido... commentou Caldas,
sorrindo. Argemiro pegou nas mãos da sogra e disse:
--Mamãe, talvez que a senhora tenha razão; mas a verdade é que a
Gloria já chegou a uma edade em que não deve ser tratada como o
animalzinho amimado que é. Precisamos preparal-a para o futuro, que é
sempre incerto. Imagine que um dia, que infelizmente ha de vir, faltem
á nossa Gloria os seus cuidados, os do avôsinho e os meus... que será
d'ella, se fôr uma ignorante, ella que é tão impulsiva e... e tão
geniosa; hein?
--Quando isso acontecer, para longe o agouro, sua filha estará casada!
--Estará ou não. E se fôr mal casada? Se o marido esbanjar toda a sua
fortuna e a atirar depois ás ortigas?
Os olhos da baroneza encheram-se de lagrimas; o velho pigarreou,
advertindo o genro que avançara demais no caminho das hypotheses; mas a
baroneza reagiu, sorrindo:
--Gloria casará bem, com um homem que a ame e a respeite. Não faltava
mais nada! minha neta mal casada! pobre... desprezada... precisando
trabalhar para viver... que coisa horrivel!
--O que é horrivel, mamãe, não é trabalhar; é não saber trabalhar!
--Ora... a necessidade é o melhor mestre; se algum dia... oh! não! nem
pensar nisso!... A minha Gloria nasceu para ser amada. Eu leio naquelles
olhos esse destino... É um pouco brusca... é um tanto auctoritaria...
ora adeus! os homens gostam d'isso.
Riram-se e o riso abafou um suspiro em que o Argemiro murmurou:
--Eu queria-a mais meiga...
--Vovó! o jantar está na mesa! gritou Gloriazinha do corredor,
fallando com a bocca cheia.
--Já ella me foi ás nozes... não tenho remedio senão concordar que
ella é um diabinho e que é assim que eu a amo!
Foi só á sobremesa que Argemiro declarou ter tomado uma governante
para casa, e querer d'ahi em deante ter uma visita da filha todas as
semanas. Era um sacrificio para elle, homem tão occupado, ir alli a
miude. Assim dividiriam o trabalho.
A sua Gloriazinha iria jantar com elle todos os sabbados, que era o seu
dia mais livre.
A sogra parecia aterrada.
--Uma governante!... quem a inculcou? perguntou ella, mal disfarçando a
sua má impressão.
--Ninguem; respondeu o genro placidamente; arranjei-a por annuncio.
A baroneza pulou na cadeira.
--Por annuncio! metteu em sua casa, na casa da milha filha, uma mulher
por annuncio! E quer confiar-lhe a sua filha durante as horas em que
ella estiver na cidade? Oh! meu amigo, isto não parece seu!
--Que queria, mamãe, que eu fizesse! Quantas e quantas vezes lhe pedi
que me ajudasse a arranjar uma preceptora para Maria e que fôsse ao
mesmo tempo governante da minha casa, e a senhora não se quiz nunca dar
a esse trabalho... afinal eu não lhe roubo a neta. Maria da Gloria irá
só aos sabbados. É justo que eu tambem gose um pouco da companhia de
minha filha. Voltará no proprio sabbado, ou no domingo pela manhã...
--Era só o que faltava... Gloria dormir fóra de casa, entregue a uma
mulher sahida Deus sabe de onde! Uma mulher de annuncio! Uma... A
baroneza conteve-se; e depois de uma pausa, em que bateu com o garfo na
mesa:--é velha, ao menos, essa creatura?
--É moça...
--Hein!?
--Tem vinte e poucos annos.
--Não é possivel, Argemiro, ter essa mulher em casa!
--Porque?!
--Não é conveniente...
--Pois já lá está. Entrou esta manhã.
--Poderá sahir esta noite...
--Não. Eu já esperava esta tempestade, e pela millesima vez direi
isto: Eu não podia dispensar em casa uma pessoa que soubesse dirigir os
meus criados, coisa de que eu sou incapaz. Reparem bem para o Feliciano:
veste-se no meu guarda-roupa, fuma os meus charutos, folhéa as minhas
revistas e serve-se da minha carteira muito melhor do que eu! Os outros,
por seu lado, roubam como pódem e trazem o serviço mal acabado, feito
por favor... Além disso, _eu quero_ ter minha filha á minha mesa, uma
vez por semana, ao menos, e não podia deixal-a só, entregue a homens,
e que homens! Concordem que não é exigir muito!
--Pois sim! Fizesse tudo isso, mas arranjasse governante respeitavel,
mulher edosa e com bons certificados... Conheço o seu caracter, sei que
não poria nunca minha neta em contacto com uma... Ahi tremeu o queixo
á baroneza e ella concluiu suffocadamente:
--Pobre da minha filha!
Houve um silencio constrangido. O barão interrompeu-o:
--Bom, bom! Está tudo determinado: aos sabbados Gloria irá visitar o
pae. É muito justo...
--A moça é bonita, papae? perguntou Gloria.
A baroneza olhou para o genro com curiosidade.
--Não sei... fallei-lhe uma vez só, e ella levava a cara tapada por um
véu lavrado, muito espesso. Mas não me pareceu bonita; nem mesmo isso
me importa. Quanto aos attestados, mamãe, ella deu-m'os e bons. O Padre
Assumpção tomou algumas informações a seu respeito e todas
excellentes. Está claro que eu não tomaria levianamente uma mulher, a
quem, embora por poucas horas, terei de confiar minha filha.
--Eu preferiria que você desmanchasse a casa e viesse morar comnosco...
não sei o que parece ir uma mulher extranha para o logar de... minha
filha...
--Oh, mamãe, que lembrança! A senhora repare que esta é uma mulher
mercenaria, uma alugada, pouco mais do que criada, não passa d'isso...
O logar de Maria é insubstituivel no meu coração, bem o sabe, melhor
que ninguem. Quanto a eu morar aqui, isso é absurdo; preciso viver na
cidade: os meus negocios não me permittem este luxo do campo... Agora
só lhe peço uma coisa: tomar esta minha resolução como irremediavel
e acceital-a, ao menos, por algum tempo...
Gloria assistira a toda a scena com muita attenção. O avô só no fim
se lembrou da conveniencia de a afastar. Caldas, um pouco constrangido,
demorava-se a descascar a sua laranja, conservando um silencio discreto,
e foi só depois do jantar que elle pôde convencer o barão a vender as
suas terras ao ministro para a formação da colonia suissa, exploradora
dos lacticinios.
A baroneza retirou-se para o seu quarto, declarando uma enxaqueca
subita. Argemiro aproveitou o momento para conversar um bocado com a
filha.
--Escuta, meu amôr, porque é que tu não modificas esses teus modos de
rapaz? Já estás crescida.
Ella abraçou-o com frenesi pelo pescoço.
--Olha que me amarrotas o collarinho! disse elle rindo. Não me
respondes?
--Eu não sei!...
--Gostas de ir jantar commigo todos os sabbados?
--Se gosto! Havemos de ir ao theatro, sim, papae?
--Ainda é cedo... terás tempo...
--Eu tenho uma vontade doida de ir ao theatro!...
--Irás... irás, se fôres boasinha e docil a teus avós... teu avó
queixa-se de que estudas pouco... não quero isso.
--Não gosto de estudar; não gosto e não quero.
--Não quero?! não quero! então isso é coisa que se diga?!
--É. Eu não quero mesmo! Se o papae soubesse como é aborrecido
estudar! Outro dia fiquei com tanta raiva que até rasguei o livro!
--Oh!
--Que espanto! olhe, foi assim: vovô lembrou-se de me chamar,
exactamente quando eu ia para a horta ajudar a Emilia a apanhar
vagens...
--É muito divertido apanhar vagens?
--É mais divertido do que estar sentada ao pé de vovô, na sala, com a
penna na mão ou o livro deante dos olhos! Eu estava lendo e estava
pensando na horta, estava escrevendo e estava pensando na horta, estava
fazendo contas e a maldita horta não me sahia da cabeça!... Vovô
ralhou commigo; eu não sei que disse e elle levantou a régua para me
dar... vovó entrou, zangou-se com vovô... Sahiram os dois, eu fiquei
sózinha... um pouco arrependida... quiz estudar... abri o livro, mas
não sei o que é que tinha nos olhos, que não via bem... Então,
desesperada, rasguei o livro...
--O que tinhas nos olhos eram lagrimas, minha filha, lagrimas de remorso
por ter respondido mal ao teu avô, que te ama tanto, e teres sido causa
de outro desgosto ainda maior...
--Oh! papae! exclamou Gloria, atirando-se de encontro ao peito de
Argemiro, lacrimejante.
--O que me vale é que tens bom coração...
Durante a viagem de regresso, Argemiro e Caldas fallaram pouco. Um
pensava na familia, o outro em negocios. Foi já quasi no fim que
Argemiro desabafou:
--Preciso tomar uma resolução séria a respeito de minha filha. Viste
bem como a educam? O avô não sabe ser severo; a avó prejudica-a pelo
seu excesso de amôr, e a menina cresce cheia de vontades e á lei da
natureza! Se fallo em collegio, arrepiam-se; se fallo em trazel-a para
mim...
--Estás doido? têl-a comtigo, como? Olha que eu não quiz nem podia
intervir naquella scena de familia; mas a tua sogra tem razão. Que
diabo! uma mulher, arranjada por annuncio, póde lá tomar conta de uma
menina que está exactamente na edade mais delicada da mulher! Deixa a
pequena com os velhos e arranja-lhe uma preceptora ingleza ou allemã.
Verás o milagre. Vocês custam a atinar com as coisas simples! São uns
complicados...
--Talvez tenhas razão...
--Por força. Eis-nos chegados. Apparece ámanhã na Camara, ás duas
horas; o Telles vae soltar o verbo. Não faltes.
Argemiro chegou a casa muito fatigado e entrou para o seu quarto.
Extranhou logo ao principio qualquer coisa que não pôde determinar o
que fosse, mas que o impressionou bem. Ao pendurar a roupa no cabide de
pé, viu que o tinham alliviado do grande peso de ternos de casimira,
que o Feliciano deixava accumulados alli semanas e semanas, por
preguiça de os escovar e guardar. Enfiando o robe-de-chambre, notou que
lhe tinham pregado um botão que lhe faltava. E pensou: Realmente, só
as mulheres sabem governar bem uma casa...
Sentou-se ao lado de uma mesa a lêr um jornal, mas a folha descahiu-lhe
das mãos e elle pôz-se a olhar para um retrato da mulher, suspenso em
um cavalletezinho de prata fôsca. A saudade da sua morta revivia todas
as vezes que vinha de vêr a filha; sentia-lhe a falta então,
poderosamente. Se ella vivesse! Ah, se ella vivesse correria tudo
suavemente!
Argemiro levantou o retrato e contemplou-o de perto. Quantas vezes
beijára aquella fronte larga e pallida, emmoldurada por cabellos
loiros, que tão mal se adivinhavam na photographia! Que pena não ter
Gloria herdado a finura d'aquellas feições, tão bem delineadas, tão
puras, nem a doçura d'aquelle caracter, que só o ciume conseguia
agitar. Pobre ciumenta, quantas torturas inventára para seu martyrio!
Que imaginação a d'ella para crear fantasmas de amôres...
Argemiro cerrou os olhos, depondo o retrato sobre a mesa; e calculou: se
ella fosse viva estaria agora com trinta e dois annos... teriamos um
rancho de filhos... um rapaz... Tanto desejei um rapaz!... e Maria teria
outra educação... Pobre da minha filha, foi a sacrificada!...