III

O trem dos suburbios ia partir, quando Adolpho e Argemiro entraram na

gare da Central. Adeante d'elles corria uma multidão pressurosa e

atrapalhada, sobraçando embrulhos e arrastando crianças.

--A hora do jantar aqui é uma hora perigosa, Argemiro! E digam que o

feijãozinho não tem prestigio!

Nesse instante sentiram-se empurrados. Eram umas senhoras que lhes

tomavam a deanteira no assalto, muito nervosas, olhando para traz, a

contar-se, com medo que não ficasse alguma extraviada.

--Isto é uma ignominia. Obriga tua sogra a vir cá para baixo.

--Imagina se não lhe tenho pedido! Cada vez que vou vêr minha filha é

este horror! E perco um tempo!

Caldas rogou uma praga.

--Que foi isso?! olha se te mandam para o xadrez!...

--Aquelle sujeito ia-me arrebatando o pacote dos _marrons_ de tua filha!

Não lhe basta a carga. Gente amiga de embrulhos, a dos suburbios! Olha.

--Não tenho tempo. Entra.

Entraram ambos para um carro.

Cheirava a carvão de pedra e havia calor.

Argemiro continuou, depois de sentado:

--Minha sogra tem razão; ella vive como uma abbadessa de convento rico;

tem um prestigio por toda aquella redondeza que nem calculas... Muito

boa, muito esmoler, é o centro de uma população de pobres e de

familias que, se não dependem d'ella materialmente, acostumaram-se á

sua tutela moral e não a dispensam. Eu comprehendo-a e dou-lhe razão.

Ha ainda outro motivo que a obriga a viver na chacara: é o empenho de

ter a neta só para si. Minha mulher, não sei se já te disse, era

filha unica e criada com um mimo raro; durante o tempo em que vivi

casado tive occasião de conhecer a mãe mais extremosa que jámais vi.

Para mim foi de uma bondade e de uma ternura encantadora. Amava-me

porque via bem quanto eu fazia a filha feliz... A neta reproduz para

ella a filha morta. Gloria foi para casa da avó, muito pequena; foi

ella quem a criou, julga-se com todo o direito a guardal-a para

sempre... E é para tel-a só para si, nos mesmos logares em que cresceu

minha mulher, que teima em não sahir do seu canto...

--E comtigo não se conta?

--Considera-me muito, mas entende, e com razão, que não posso ter

Gloria em minha companhia.

--E se te casares?

--Ella sabe bem que isso não acontecerá nunca. Minha sogra herdou o

ciume da filha... Sabes que minha mulher me pediu que não me tornasse a

casar...

--Todas as mulheres rogam aos maridos a mesma coisa, e afinal... todos

os viuvos se casam! Mais depressa que os solteiros, nota.

--Sinto-me bem assim.

--Teu sogro aferra-se tambem por gosto a este sitio?

--Por gosto e por economia. Elle explica melhor a sua predilecção pelo

campo, dizendo que, á sombra das suas mangueiras, se sente mais longe

da republica...

--Ahi está! e eu nunca o ouvi falar em politica...

--Não é homem que discuta factos consummados. Depois, está velho e é

amigo do repouso... Fez-se botanico, para entreter os ocios da chacara.

Teve uma mocidade tempestuosa; a mulher não foi feliz; agora então,

para compensal-a, dá-lhe toda a soberania e é um cordeiro. O bom velho

fez esquecido o mau rapaz...

Argemiro reparou que ainda tinha nas mãos distrahidas um lequezinho de

papel apanhado á entrada do vagão. Revirou-o entre os dedos: tinha uma

vareta quebrada, unida ás outras por um fio de linha.

--Deve ser d'aquella moça que se remecheu ha bocado procurando qualquer

coisa... Pensei que lhe tivessem roubado o relogio!

--Talvez faça falta...

Era d'ella. Argemiro ao entregar-lhe o leque notou lhe um movimento de

alegria mal disfarçada. Voltou a sentar-se e Caldas instou:

--Influe teu sogro a vender as suas terras em Minas. O Barreto pediu-me

para organizar uma colonia suissa, para a industria dos lacticinios...

e convem-lhe adiccionar ás d'elle as terras do barão. Dão-lhe

resultado?

--Filho, não sei. Meu sogro é um homem calado e eu fujo de mostrar

interesse por questões de dinheiro. Mas onde diabo vaes tu arranjar

suissos?!

--Á China, talvez... Que pergunta! Irei á Suissa, homem!

--Sempre arranjas uns negocios!

--Nunca os procuro. Elles entram por seus pés em minha casa; ahi, ou os

recebo ou atiro-os pela porta fóra. Fica certo que negocios procurados

não prestam. Não ha nada como um sujeito passar por homem rico, para

enriquecer... O proprio individuo chega até a illudir-se e a ficar mais

bonito... Conheces maior volupia que a do dinheiro, senhor absoluto do

mundo todo? Só o que é bom e caro, dá prazer...

Argemiro sorriu, lembrando-se do lequezinho quebrado, e do gesto de

contentamento que fizera a dona ao rehavêl-o. Pobrezinha...

Caldas, por ter confiança no amigo, entrou a falar-lhe baixo da sua

cooperação nos relatorios do Vieirinha, ainda maior trabalho do que

tivera com os relatorios do Theobaldo, quando ministro da fazenda...

--Dize-me cá, atalhou Argemiro. Em que disposição está o presidente

a respeito do Pedrosa, sabes?

--O burro do Pedrosa vae ser ministro.

Argemiro riu-se; Caldas retomou o fio das suas confidencias

interrompidas.

O trem corria de estação em estação, com os seus guinchos

ensurdecedores. Uma criança chorava no collo da mãe afflicta; um grupo

de rapazes amarellos e desdentados falava de eleições do Club

Riachuelo, ao pé de uma senhora de cabellos grisalhos, bem vestida, e

que viajava só.

Lá fóra a paizagem estendia-se larga, banhada de sol escaldante. Um

véu fino de pó dourava a atmosphera. Laranjeiras pequenas, de grandes

fructos dourados, alegravam aqui e acolá um ou outro ponto dos campos

mal tratados, onde em gramados secos trilhas barrentas descreviam linhas

tortuosas.

--Isto é desconsolador... observou Argemiro, apontando para a extensa

pradaria, onde em vários trechos se agrupavam casinhas feias.

--E este trem poderia rolar entre pomares cheirosos. O Brasil é a terra

da flôr exquisita e da fructa saborosa. De um lado e de outro d'estas

estradas, se tivessemos camponezes e agricultores de bom gosto,

veriamos, Argemiro, lindas orchideas suspensas na galharia de arvores

fructiferas. Olha bem para aquillo! É precizo não ter absolutamente

gosto nem instincto, para se fazer uma cerca assim, de paus tortos, aqui

no paiz do bambú. Do lindissimo bambú! Ah! o Japonez! que povo feliz e

aproveitador... Vou lembrar ao Barreto instalarmos aqui uma colonia de

Japonezes, com a condição de fazerem elles mesmos as suas casas e

trazerem muitas musmés bonitas...

--Condição essencial!

--E que tu com toda a tua viuvez aproveitarias melhor do que eu...

--Aprecio pouco o typo e detesto a raça...

Adeante, o grupo de rapazes augmentára com outros sujeitos, que,

abandonando os seus logares, tinham vindo discutir a eleição do club.

Um dos moços, no calor da discussão, sentára-se no braço do banco em

que viajava a senhora de cabellos grisalhos. Ella encolheu-se, com ar

constrangido. O rapaz gritava aos outros:

--Se eu não tivesse educação, não teria contido o impeto que tive de

esbofetear o Andrade, alli mesmo no club!

Um outro advertiu-o de que elle estava incommodando a viajante; elle

levantou-se com uma desculpa e foi nesse instante que o trem parou em

Madureira.

Caldas e Argemiro encontraram na estação a victoria do barão, que os

esperava.

--Lá em casa todos bons? perguntou Argemiro ao cocheiro.

--Todos bons.

--Nota esta exquisitice, Adolpho; só me lembra que minha filha póde

estar doente, no momento em que me approximo d'ella. Assalta-me então o

terror de a ir encontrar de cama...

A chacara do barão ficava a um kilometro da estação. O carrinho

partiu ao galope de um cavallo ligeiro, e dez minutos depois transpunha

o largo portão da chacara, seguindo até á porta da habitação, por

uma extensa rua de mangueiras bellissimas.

--Como isto repousa a gente! exclamou Caldas, aspirando com força o

aroma da flôr de fructa e pascendo o olhar pela frescura d'aquellas

sombras.

--O Paraiso... murmurou Argemiro, esticando o pescoço, a vêr se via,

ainda que de longe, a filha.

Antes que o carro chegasse á casa, Maria da Gloria atravessou aos

gritos um grande relvado lateral da rua e irrompendo d'entre as

mangueiras atirou-se para o carro alegremente:

--Papae! papae!

O cocheiro mal teve tempo de diminuir a marcha do animal e ella trepou

para o estribo, enfiando no carro a cara afogueada e risonha. O pae

segurou-a, puxando-a para dentro, sem coragem de ralhar com ella por

aquella imprudencia. Tentou falar, ella cobriu-lhe as barbas e a bocca

de beijos.

--Que exhuberancia! exclamou Caldas, rindo.

Chegavam á porta do velho palacete dos barões do Cerro Alegre.

No patamar da escada, o sogro de Argemiro, barbeado de fresco, com o seu

corpo franzino dentro de brins bem alvejados e o boné de seda preta

seguro na mão fina e nervosa, sorria á espera dos hospedes, a quem

abraçou.

--Mamãe?

--Espera-os na sala do meio. Entrem.

Argemiro aprendera com a mulher a chamar a baroneza de mamãe;

percebendo agora quanto aquelle titulo commovia o coração da velha,

continuava a dispensal-o de bom grado. Era como se a alma da morta lhe

passasse pelos labios todas as vezes que dizia essas duas syllabas

amadas.

A baroneza era uma senhora gorda, alta, de lindos olhos negros e

cabellos completamente brancos.

Tinha as faces flacidas, a carne do pescoço descahida, a boca larga, a

testa curta e ainda roubada pela espessura das sobrancelhas escuras.

Cosia sentada em uma cadeira de balanço, ao lado de uma mesa redonda,

coberta de um panno escuro e onde floria em um vaso um ramo de

crysantemos pallidos.

--Bemvindos sejais! exclamou ella com a sua voz forte, de contralto.

Argemiro beijou-lhe a mão e sentou-se a seu lado. Caldas entreteve-se a

conversar como barão, que, pedida a vénia, cobrira com o boné de seda

os seus cabellos brancos e encaracolados.

--Então, meu filho, como acha sua filha?

--Forte... muito alta!

--Cresce de dia para dia! Se não vivesse no campo, com esta liberdade,

não sei que seria... Precisa ralhar com ella: está muito

voluntariosa...

--Tem a quem sahir...

--A mãe era um cordeirinho...

--Mas a avó é energica. E eu...

--Você é um homem. Sua mulher puxava toda ao typo do pae; Gloriazinha

sahiu mais a mim... olhe para aquellas sobrancelhas!...

--Parecem uns bigodes! retrucou Argemiro para fazer zangar a filha. E

depois de a beijar nos olhos: E a respeito de estudos?

--Isso! falle-lhe nisso! É uma vadia de força... o avô não se cança

de a chamar e de ensinar-lhe as lições. Mas santos de casa...

--Pois chamemos os de fóra. Vae buscar os teus livros, Gloria.

--Ora, papae... depois... eu...

--O que ella quer é andar como os cabritos, aos saltos e correrias...

eu, emfim, consinto nisso, porque com aquelle crescimento não deve

haver sujeição... Graças a Deus, ella tem uma saude de ferro.

--Por isso mesmo precisa ter outros modos... se a puzessemos em um

collegio?

Pelos olhos da baroneza passou a sombra de um desgosto e ella disse:

--Se quizerem matal-a...

O barão protestou:

--Isso nunca. Collegios nem para rapazes. São logares de perdição. O

que temos a fazer é interessal-a pelo estudo.

--Mas como?

--Ha de haver um meio... Ó Gloria, vae tocar a tua ultima lição,

anda. A professora de musica não está descontente...

Gloria amuou.

--Eu não sei nada!

--Como não sabes?! Vae tocar!

--Não...

--Gloria!

--Não...

--Esta menina!

Argemiro olhava para a filha com desgosto. A baroneza interveio:

--Depois do jantar teremos tempo; ella está com vergonha... manda botar

o jantar na mesa, Gloria; depois tocarás...

Gloria aproveitou o ensejo e correu para o interior, onde d'ahi a

instantes soavam as suas gargalhadas fortes, muito barulhentas.

O pae informou-se, voltando-se para o sogro:

--Como vae ella na leitura?

O velho abanou a cabeça, sorrindo; mas a avó exclamou, dirigindo-se ao

Caldas:

--Se ella quizesse! não imagina o talento que aquella menina tem!

aprende tudo com uma facilidade espantosa, de relance!

--Mas o diabo é que ella não quer! asseverou o avô, rindo.

--Ora! não é tanto assim; o sr. Caldas é capaz de pensar que a nossa

Gloria é uma analphabeta!

--Quasi.

--Ora, não digas isso! Ella lê... e escreve... e demonstra muito geito

para a musica. Afinal, não se educa para doutora nem para professora.

No meu tempo não se exigia tanto...

--Não é razão. A mulher hoje precisa ser instruida, solidamente

instruida, mamãe, e eu quero, eu exijo que minha filha o seja.

--Está direito, mas sempre quero saber se o sacrificio do estudo tem

compensações verdadeiras! Andar atrás de uma pobre creança o dia

inteiro, fazendo-a conjugar verbos e compôr e recompôr orações

grammaticaes, atirando-lhe para dentro da cabeça nomes de terras e

complicações mathematicas; curvar-lhe a espinha em cima de mappas e

linhas geometricas, cançar-lhe a vista antes de tempo, roubando-lhe a

liberdade que dá saude, alegria e ousadia, olhem que não me parece

obra de amôr nem de caridade! Eu, cá por mim, confesso: fujo da sala

do estudo quando vejo meu marido chamar a neta para a lição...

--Eu imagino que elle ha de ser muito rispido... commentou Caldas,

sorrindo. Argemiro pegou nas mãos da sogra e disse:

--Mamãe, talvez que a senhora tenha razão; mas a verdade é que a

Gloria já chegou a uma edade em que não deve ser tratada como o

animalzinho amimado que é. Precisamos preparal-a para o futuro, que é

sempre incerto. Imagine que um dia, que infelizmente ha de vir, faltem

á nossa Gloria os seus cuidados, os do avôsinho e os meus... que será

d'ella, se fôr uma ignorante, ella que é tão impulsiva e... e tão

geniosa; hein?

--Quando isso acontecer, para longe o agouro, sua filha estará casada!

--Estará ou não. E se fôr mal casada? Se o marido esbanjar toda a sua

fortuna e a atirar depois ás ortigas?

Os olhos da baroneza encheram-se de lagrimas; o velho pigarreou,

advertindo o genro que avançara demais no caminho das hypotheses; mas a

baroneza reagiu, sorrindo:

--Gloria casará bem, com um homem que a ame e a respeite. Não faltava

mais nada! minha neta mal casada! pobre... desprezada... precisando

trabalhar para viver... que coisa horrivel!

--O que é horrivel, mamãe, não é trabalhar; é não saber trabalhar!

--Ora... a necessidade é o melhor mestre; se algum dia... oh! não! nem

pensar nisso!... A minha Gloria nasceu para ser amada. Eu leio naquelles

olhos esse destino... É um pouco brusca... é um tanto auctoritaria...

ora adeus! os homens gostam d'isso.

Riram-se e o riso abafou um suspiro em que o Argemiro murmurou:

--Eu queria-a mais meiga...

--Vovó! o jantar está na mesa! gritou Gloriazinha do corredor,

fallando com a bocca cheia.

--Já ella me foi ás nozes... não tenho remedio senão concordar que

ella é um diabinho e que é assim que eu a amo!

Foi só á sobremesa que Argemiro declarou ter tomado uma governante

para casa, e querer d'ahi em deante ter uma visita da filha todas as

semanas. Era um sacrificio para elle, homem tão occupado, ir alli a

miude. Assim dividiriam o trabalho.

A sua Gloriazinha iria jantar com elle todos os sabbados, que era o seu

dia mais livre.

A sogra parecia aterrada.

--Uma governante!... quem a inculcou? perguntou ella, mal disfarçando a

sua má impressão.

--Ninguem; respondeu o genro placidamente; arranjei-a por annuncio.

A baroneza pulou na cadeira.

--Por annuncio! metteu em sua casa, na casa da milha filha, uma mulher

por annuncio! E quer confiar-lhe a sua filha durante as horas em que

ella estiver na cidade? Oh! meu amigo, isto não parece seu!

--Que queria, mamãe, que eu fizesse! Quantas e quantas vezes lhe pedi

que me ajudasse a arranjar uma preceptora para Maria e que fôsse ao

mesmo tempo governante da minha casa, e a senhora não se quiz nunca dar

a esse trabalho... afinal eu não lhe roubo a neta. Maria da Gloria irá

só aos sabbados. É justo que eu tambem gose um pouco da companhia de

minha filha. Voltará no proprio sabbado, ou no domingo pela manhã...

--Era só o que faltava... Gloria dormir fóra de casa, entregue a uma

mulher sahida Deus sabe de onde! Uma mulher de annuncio! Uma... A

baroneza conteve-se; e depois de uma pausa, em que bateu com o garfo na

mesa:--é velha, ao menos, essa creatura?

--É moça...

--Hein!?

--Tem vinte e poucos annos.

--Não é possivel, Argemiro, ter essa mulher em casa!

--Porque?!

--Não é conveniente...

--Pois já lá está. Entrou esta manhã.

--Poderá sahir esta noite...

--Não. Eu já esperava esta tempestade, e pela millesima vez direi

isto: Eu não podia dispensar em casa uma pessoa que soubesse dirigir os

meus criados, coisa de que eu sou incapaz. Reparem bem para o Feliciano:

veste-se no meu guarda-roupa, fuma os meus charutos, folhéa as minhas

revistas e serve-se da minha carteira muito melhor do que eu! Os outros,

por seu lado, roubam como pódem e trazem o serviço mal acabado, feito

por favor... Além disso, _eu quero_ ter minha filha á minha mesa, uma

vez por semana, ao menos, e não podia deixal-a só, entregue a homens,

e que homens! Concordem que não é exigir muito!

--Pois sim! Fizesse tudo isso, mas arranjasse governante respeitavel,

mulher edosa e com bons certificados... Conheço o seu caracter, sei que

não poria nunca minha neta em contacto com uma... Ahi tremeu o queixo

á baroneza e ella concluiu suffocadamente:

--Pobre da minha filha!

Houve um silencio constrangido. O barão interrompeu-o:

--Bom, bom! Está tudo determinado: aos sabbados Gloria irá visitar o

pae. É muito justo...

--A moça é bonita, papae? perguntou Gloria.

A baroneza olhou para o genro com curiosidade.

--Não sei... fallei-lhe uma vez só, e ella levava a cara tapada por um

véu lavrado, muito espesso. Mas não me pareceu bonita; nem mesmo isso

me importa. Quanto aos attestados, mamãe, ella deu-m'os e bons. O Padre

Assumpção tomou algumas informações a seu respeito e todas

excellentes. Está claro que eu não tomaria levianamente uma mulher, a

quem, embora por poucas horas, terei de confiar minha filha.

--Eu preferiria que você desmanchasse a casa e viesse morar comnosco...

não sei o que parece ir uma mulher extranha para o logar de... minha

filha...

--Oh, mamãe, que lembrança! A senhora repare que esta é uma mulher

mercenaria, uma alugada, pouco mais do que criada, não passa d'isso...

O logar de Maria é insubstituivel no meu coração, bem o sabe, melhor

que ninguem. Quanto a eu morar aqui, isso é absurdo; preciso viver na

cidade: os meus negocios não me permittem este luxo do campo... Agora

só lhe peço uma coisa: tomar esta minha resolução como irremediavel

e acceital-a, ao menos, por algum tempo...

Gloria assistira a toda a scena com muita attenção. O avô só no fim

se lembrou da conveniencia de a afastar. Caldas, um pouco constrangido,

demorava-se a descascar a sua laranja, conservando um silencio discreto,

e foi só depois do jantar que elle pôde convencer o barão a vender as

suas terras ao ministro para a formação da colonia suissa, exploradora

dos lacticinios.

A baroneza retirou-se para o seu quarto, declarando uma enxaqueca

subita. Argemiro aproveitou o momento para conversar um bocado com a

filha.

--Escuta, meu amôr, porque é que tu não modificas esses teus modos de

rapaz? Já estás crescida.

Ella abraçou-o com frenesi pelo pescoço.

--Olha que me amarrotas o collarinho! disse elle rindo. Não me

respondes?

--Eu não sei!...

--Gostas de ir jantar commigo todos os sabbados?

--Se gosto! Havemos de ir ao theatro, sim, papae?

--Ainda é cedo... terás tempo...

--Eu tenho uma vontade doida de ir ao theatro!...

--Irás... irás, se fôres boasinha e docil a teus avós... teu avó

queixa-se de que estudas pouco... não quero isso.

--Não gosto de estudar; não gosto e não quero.

--Não quero?! não quero! então isso é coisa que se diga?!

--É. Eu não quero mesmo! Se o papae soubesse como é aborrecido

estudar! Outro dia fiquei com tanta raiva que até rasguei o livro!

--Oh!

--Que espanto! olhe, foi assim: vovô lembrou-se de me chamar,

exactamente quando eu ia para a horta ajudar a Emilia a apanhar

vagens...

--É muito divertido apanhar vagens?

--É mais divertido do que estar sentada ao pé de vovô, na sala, com a

penna na mão ou o livro deante dos olhos! Eu estava lendo e estava

pensando na horta, estava escrevendo e estava pensando na horta, estava

fazendo contas e a maldita horta não me sahia da cabeça!... Vovô

ralhou commigo; eu não sei que disse e elle levantou a régua para me

dar... vovó entrou, zangou-se com vovô... Sahiram os dois, eu fiquei

sózinha... um pouco arrependida... quiz estudar... abri o livro, mas

não sei o que é que tinha nos olhos, que não via bem... Então,

desesperada, rasguei o livro...

--O que tinhas nos olhos eram lagrimas, minha filha, lagrimas de remorso

por ter respondido mal ao teu avô, que te ama tanto, e teres sido causa

de outro desgosto ainda maior...

--Oh! papae! exclamou Gloria, atirando-se de encontro ao peito de

Argemiro, lacrimejante.

--O que me vale é que tens bom coração...

Durante a viagem de regresso, Argemiro e Caldas fallaram pouco. Um

pensava na familia, o outro em negocios. Foi já quasi no fim que

Argemiro desabafou:

--Preciso tomar uma resolução séria a respeito de minha filha. Viste

bem como a educam? O avô não sabe ser severo; a avó prejudica-a pelo

seu excesso de amôr, e a menina cresce cheia de vontades e á lei da

natureza! Se fallo em collegio, arrepiam-se; se fallo em trazel-a para

mim...

--Estás doido? têl-a comtigo, como? Olha que eu não quiz nem podia

intervir naquella scena de familia; mas a tua sogra tem razão. Que

diabo! uma mulher, arranjada por annuncio, póde lá tomar conta de uma

menina que está exactamente na edade mais delicada da mulher! Deixa a

pequena com os velhos e arranja-lhe uma preceptora ingleza ou allemã.

Verás o milagre. Vocês custam a atinar com as coisas simples! São uns

complicados...

--Talvez tenhas razão...

--Por força. Eis-nos chegados. Apparece ámanhã na Camara, ás duas

horas; o Telles vae soltar o verbo. Não faltes.

Argemiro chegou a casa muito fatigado e entrou para o seu quarto.

Extranhou logo ao principio qualquer coisa que não pôde determinar o

que fosse, mas que o impressionou bem. Ao pendurar a roupa no cabide de

pé, viu que o tinham alliviado do grande peso de ternos de casimira,

que o Feliciano deixava accumulados alli semanas e semanas, por

preguiça de os escovar e guardar. Enfiando o robe-de-chambre, notou que

lhe tinham pregado um botão que lhe faltava. E pensou: Realmente, só

as mulheres sabem governar bem uma casa...

Sentou-se ao lado de uma mesa a lêr um jornal, mas a folha descahiu-lhe

das mãos e elle pôz-se a olhar para um retrato da mulher, suspenso em

um cavalletezinho de prata fôsca. A saudade da sua morta revivia todas

as vezes que vinha de vêr a filha; sentia-lhe a falta então,

poderosamente. Se ella vivesse! Ah, se ella vivesse correria tudo

suavemente!

Argemiro levantou o retrato e contemplou-o de perto. Quantas vezes

beijára aquella fronte larga e pallida, emmoldurada por cabellos

loiros, que tão mal se adivinhavam na photographia! Que pena não ter

Gloria herdado a finura d'aquellas feições, tão bem delineadas, tão

puras, nem a doçura d'aquelle caracter, que só o ciume conseguia

agitar. Pobre ciumenta, quantas torturas inventára para seu martyrio!

Que imaginação a d'ella para crear fantasmas de amôres...

Argemiro cerrou os olhos, depondo o retrato sobre a mesa; e calculou: se

ella fosse viva estaria agora com trinta e dois annos... teriamos um

rancho de filhos... um rapaz... Tanto desejei um rapaz!... e Maria teria

outra educação... Pobre da minha filha, foi a sacrificada!...

A Intrusa · 第 8 / 27 题