Ao contemplar a situação que a Portugal cabe n'este assumpto, e a
perspectiva das vantagens ou desdouros que d'ella podem depender,
conforme a politica e procedimentos que forem adoptados, quaesquer
reflexões que nos animos desejosos do bem e da boa reputação do seu paiz
poderiam originar-se, estão bem definidas n'aquellas palavras de uma
authoridade digna do melhor conceito, pelo seu conhecimento do assumpto,
e pela sua comprovada illustração. Tal é a do sr. Augusto de Castilho,
digno official da armada, que durante varios annos governou com superior
intelligencia o districto de Lourenço Marques.
N'uma memoria a tal respeito recentemente publicada, diz elle entre
outras cousas, o seguinte:
«No assumpto (de Lourenço Marques) somos tão directamente interessados,
que devemos tirar partido das circumstancias, e prepararmo-nos da
maneira mais vantajosa para promover a prosperidade do districto de
Lourenço Marques.
«Lembremo-nos de que persistindo nós na politica de _isolamento e
inacção que nos teem distinguido_, estamol-o criminosamente conservando
agrilhoado a um revoltante estacionamento; _fica inutil para nós e
inutil para os outros_.
«Lourenço Marques sem o caminho de ferro não passa do que tem sido ha
300 annos; não porque não tenha em si os recursos para o seu
desenvolvimento; mas porque não ha entre nós o genio colonisador, não ha
iniciativa e não ha capitaes.
«A Africa felizmente é grande bastante, e tem logar para muita gente;
está porém ainda n'um tal estado de atrazo e mesmo tão pouco conhecida
em geral, que ha alli muito campo para que todos trabalhemos sem nos
acotovelarmos e incommodarmos mutuamente.
«Concorra cada um segundo suas forças para o concerto geral e unisono, e
veremos que os beneficos resultados se não hão de fazer esperar muito.
Pelo facto de sermos nós os possuidores do melhor porto de toda a costa
da Africa austral e oriental, desde o cabo da Boa Esperança até
Moçambique, _não é licito já hoje que conservemos fechado esse porto_, e
o territorio adjacente ao nosso e os territorios estrangeiros que com
elle confinam, privados dos beneficios civilisadores que elles teem
direito a exigir da nossa dominação de tantos annos.
«A politica das nossas auctoridades na costa oriental deveria ser uma
politica de _cordura_, de _intelligencia_ e de _conciliação para com os
nossos visinhos, attenuar em vez de avolumar, umas mesquinhas e mal
entendidas rivalidades_ que nascem em alguns individuos pouco
instruidos, ou mesmo mal intencionados, e a que só uma imprensa que
falseie a sua missão, pode dar importancia e corpo.
«E antes de mais nada, lembremo-nos de que em assumptos africanos,
_parar é retroceder, é demolir o que está feito_, é ser inevitavelmente
atropellado. Trabalhar é a civilisação, é o engrandecimento do nosso bom
nome, é a perpetuação das nossas passadas tradições.
«Trabalhemos pois, cada um no seu tanto, cada um conforme as suas
forças, cada um por seu modo, mas todos com a mira no grande lábaro
sagrado que se chama a patria».
Com aquelle enthusiasmo que nasce da convicção profunda, assim se
expressava o sr. Castilho, pouco antes da nova feição que o assumpto
tomou, em vista do addiamento da sua solução, pela recusa da camara
electiva do parlamento portuguez em ratifical-o; addiamento votado em 7
do corrente junho, um anno depois da negociação concluida, como se um
anno não fosse prazo demasiado para pensar na importancia de uma
convenção, que por seu caracter de internacional não deveria estar
sujeita áquellas contingencias comesinhas, a que se subordinam as
questões concernentes ás ninharias de regimen interno.
Os escrupulos sobre attribuições, aliás claramente estatuidas, podem
n'um caso d'estes ser taxados, não de acto de consciencia, mas de
pretexto frivolo.
O addiar é ás vezes peior do que o rejeitar. Este póde ser consequencia
de um estudo mal comprehendido; aquelle por tardio e capcioso dá logar a
ser interpretado como desattenção e indifferença, menos de esperar para
com os que aguardam uma decisão, nunca presumindo que ésta seja uma
extemporanea evasiva, como ás vezes se usa para com os mendigos
importunos.
Addiar não é somente, como diz o sr. Castilho, _parar, retroceder,
demolir_; é tambem dar plausibilidade áquella imputação que nos fez Sir
C. Napier na sua historia da guerra civil da successão, quando affirma
ser o caracter predominante dos portuguezes, mesmo nas occasiões
urgentes, _não fazer hoje nada do que se pode deixar para ámanhã_,
accrescentando que como nação nada poderemos _emquanto não riscarmos
aquella palavra «ámanhã» do nosso diccionario_.
Addiar, é sempre mau, pelo que significa em absoluto; e mais ainda no
caso especial, em que a pachorra no proceder e a evasiva no decidir, dão
causa a provocar para o acto, uma qualificação publica de falta de
cortezia, o que entre nações póde ser interpretado como a reserva de
outra designação, que nem é lisongeiro pensar n'ella, nem nas possiveis
consequencias.
É sempre mau o addiamento do que é urgente de resolver; mas peior é
ainda a pretenção de o impôr aos que não seguem o culto do _ámanhã_ de
que falla Napier. Para alguns a dilação de um dia, é menos indifferente
do que para outros a de um anno. Por isso os assumptos internacionaes,
em que é necessario sair da politica domestica, difficilmente pódem
estar subordinados á rotina caseira que pode prejudical-os. Nem as
questiunculas de politica partidaria podem sanar quaesquer faltas,
mediante a acrimonia das recriminações. Poderão éstas significar justos
desabafos, mas nada com estes lucrará a causa do Paíz.
Se existe o mal, a todos cumpre desejar-lhe o remedio e procural-o, de
preferencia a apontar os culpados. Se peccar é mau, peior é ser
impenitente. Não foi para estes que Metastasio disse: «Cangianno i sagj
secondo il lor miglior consiglio.»
Consignando estas ponderações ácerca do tratado de 30 de maio de 1879,
sua importancia e conveniencia, ha um ponto ácerca do qual não resta
duvida, e tal é a persuasão de que, nem o desassombro e franqueza com
que ellas são expressas, nem a convicção mais intima e leal que as
dicta, poderão poupar a quem as redige, de ser apodado de
antipatriotico.
Quem assim fôr peremptoriamente sentenciado no tribunal dos impugnadores
do tratado, terá como attenuação, o lembrar-se de que ficará em boa
companhia. Em todo o caso basta-lhe a consciencia de não merecer tal
sentença.
É aquelle o argumento, ou antes o recurso de que se servem, os que
encontram menos difficuldade em o dizer, do que de facilidade em o
provar; mas julgam assim acobertar a injustiça do dito, escudando-o com
a invocação de um sentimentalismo, que para ter valor deveria pelo menos
não ser deslocado.
Haverá quem de boa fé esteja illudido nas suas apreciações pró ou
contra; haverá quem obedeça ás influencias de qualquer logar commum
muito vulgarisado; outros porém terão menos desculpa, e taes são os que
impugnam o tratado ainda antes de o ter lido, ou aliás sem o ter
comprehendido.
O patriotismo não está sómente nas vãs declamações. Os que sinceramente
desejam para Portugal uma posição honrosa e distincta, e a sua elevação
no conceito das nações cultas, não podem ser indifferentes a tudo quanto
haja de contribuir para que, mediante a sensata apreciação das cousas, a
atilada conducta dos homens de estado, e o bom juizo dos poderes
publicos, um tão importante e melindroso assumpto internacional, obtenha
prompta solução, condigna d'elle, e das nações n'elle empenhadas, de
cujo accordo, harmonia, amisade, e leal cooperação, estão dependentes,
não só os seus reciprocos interesses, como tambem outros de tão vasto
alcance, quaes são os do progresso e da civilisação de uma grande parte
do Mundo.
Lisboa. Junho de 1880.