IX

Ao contemplar a situação que a Portugal cabe n'este assumpto, e a

perspectiva das vantagens ou desdouros que d'ella podem depender,

conforme a politica e procedimentos que forem adoptados, quaesquer

reflexões que nos animos desejosos do bem e da boa reputação do seu paiz

poderiam originar-se, estão bem definidas n'aquellas palavras de uma

authoridade digna do melhor conceito, pelo seu conhecimento do assumpto,

e pela sua comprovada illustração. Tal é a do sr. Augusto de Castilho,

digno official da armada, que durante varios annos governou com superior

intelligencia o districto de Lourenço Marques.

N'uma memoria a tal respeito recentemente publicada, diz elle entre

outras cousas, o seguinte:

«No assumpto (de Lourenço Marques) somos tão directamente interessados,

que devemos tirar partido das circumstancias, e prepararmo-nos da

maneira mais vantajosa para promover a prosperidade do districto de

Lourenço Marques.

«Lembremo-nos de que persistindo nós na politica de _isolamento e

inacção que nos teem distinguido_, estamol-o criminosamente conservando

agrilhoado a um revoltante estacionamento; _fica inutil para nós e

inutil para os outros_.

«Lourenço Marques sem o caminho de ferro não passa do que tem sido ha

300 annos; não porque não tenha em si os recursos para o seu

desenvolvimento; mas porque não ha entre nós o genio colonisador, não ha

iniciativa e não ha capitaes.

«A Africa felizmente é grande bastante, e tem logar para muita gente;

está porém ainda n'um tal estado de atrazo e mesmo tão pouco conhecida

em geral, que ha alli muito campo para que todos trabalhemos sem nos

acotovelarmos e incommodarmos mutuamente.

«Concorra cada um segundo suas forças para o concerto geral e unisono, e

veremos que os beneficos resultados se não hão de fazer esperar muito.

Pelo facto de sermos nós os possuidores do melhor porto de toda a costa

da Africa austral e oriental, desde o cabo da Boa Esperança até

Moçambique, _não é licito já hoje que conservemos fechado esse porto_, e

o territorio adjacente ao nosso e os territorios estrangeiros que com

elle confinam, privados dos beneficios civilisadores que elles teem

direito a exigir da nossa dominação de tantos annos.

«A politica das nossas auctoridades na costa oriental deveria ser uma

politica de _cordura_, de _intelligencia_ e de _conciliação para com os

nossos visinhos, attenuar em vez de avolumar, umas mesquinhas e mal

entendidas rivalidades_ que nascem em alguns individuos pouco

instruidos, ou mesmo mal intencionados, e a que só uma imprensa que

falseie a sua missão, pode dar importancia e corpo.

«E antes de mais nada, lembremo-nos de que em assumptos africanos,

_parar é retroceder, é demolir o que está feito_, é ser inevitavelmente

atropellado. Trabalhar é a civilisação, é o engrandecimento do nosso bom

nome, é a perpetuação das nossas passadas tradições.

«Trabalhemos pois, cada um no seu tanto, cada um conforme as suas

forças, cada um por seu modo, mas todos com a mira no grande lábaro

sagrado que se chama a patria».

Com aquelle enthusiasmo que nasce da convicção profunda, assim se

expressava o sr. Castilho, pouco antes da nova feição que o assumpto

tomou, em vista do addiamento da sua solução, pela recusa da camara

electiva do parlamento portuguez em ratifical-o; addiamento votado em 7

do corrente junho, um anno depois da negociação concluida, como se um

anno não fosse prazo demasiado para pensar na importancia de uma

convenção, que por seu caracter de internacional não deveria estar

sujeita áquellas contingencias comesinhas, a que se subordinam as

questões concernentes ás ninharias de regimen interno.

Os escrupulos sobre attribuições, aliás claramente estatuidas, podem

n'um caso d'estes ser taxados, não de acto de consciencia, mas de

pretexto frivolo.

O addiar é ás vezes peior do que o rejeitar. Este póde ser consequencia

de um estudo mal comprehendido; aquelle por tardio e capcioso dá logar a

ser interpretado como desattenção e indifferença, menos de esperar para

com os que aguardam uma decisão, nunca presumindo que ésta seja uma

extemporanea evasiva, como ás vezes se usa para com os mendigos

importunos.

Addiar não é somente, como diz o sr. Castilho, _parar, retroceder,

demolir_; é tambem dar plausibilidade áquella imputação que nos fez Sir

C. Napier na sua historia da guerra civil da successão, quando affirma

ser o caracter predominante dos portuguezes, mesmo nas occasiões

urgentes, _não fazer hoje nada do que se pode deixar para ámanhã_,

accrescentando que como nação nada poderemos _emquanto não riscarmos

aquella palavra «ámanhã» do nosso diccionario_.

Addiar, é sempre mau, pelo que significa em absoluto; e mais ainda no

caso especial, em que a pachorra no proceder e a evasiva no decidir, dão

causa a provocar para o acto, uma qualificação publica de falta de

cortezia, o que entre nações póde ser interpretado como a reserva de

outra designação, que nem é lisongeiro pensar n'ella, nem nas possiveis

consequencias.

É sempre mau o addiamento do que é urgente de resolver; mas peior é

ainda a pretenção de o impôr aos que não seguem o culto do _ámanhã_ de

que falla Napier. Para alguns a dilação de um dia, é menos indifferente

do que para outros a de um anno. Por isso os assumptos internacionaes,

em que é necessario sair da politica domestica, difficilmente pódem

estar subordinados á rotina caseira que pode prejudical-os. Nem as

questiunculas de politica partidaria podem sanar quaesquer faltas,

mediante a acrimonia das recriminações. Poderão éstas significar justos

desabafos, mas nada com estes lucrará a causa do Paíz.

Se existe o mal, a todos cumpre desejar-lhe o remedio e procural-o, de

preferencia a apontar os culpados. Se peccar é mau, peior é ser

impenitente. Não foi para estes que Metastasio disse: «Cangianno i sagj

secondo il lor miglior consiglio.»

Consignando estas ponderações ácerca do tratado de 30 de maio de 1879,

sua importancia e conveniencia, ha um ponto ácerca do qual não resta

duvida, e tal é a persuasão de que, nem o desassombro e franqueza com

que ellas são expressas, nem a convicção mais intima e leal que as

dicta, poderão poupar a quem as redige, de ser apodado de

antipatriotico.

Quem assim fôr peremptoriamente sentenciado no tribunal dos impugnadores

do tratado, terá como attenuação, o lembrar-se de que ficará em boa

companhia. Em todo o caso basta-lhe a consciencia de não merecer tal

sentença.

É aquelle o argumento, ou antes o recurso de que se servem, os que

encontram menos difficuldade em o dizer, do que de facilidade em o

provar; mas julgam assim acobertar a injustiça do dito, escudando-o com

a invocação de um sentimentalismo, que para ter valor deveria pelo menos

não ser deslocado.

Haverá quem de boa fé esteja illudido nas suas apreciações pró ou

contra; haverá quem obedeça ás influencias de qualquer logar commum

muito vulgarisado; outros porém terão menos desculpa, e taes são os que

impugnam o tratado ainda antes de o ter lido, ou aliás sem o ter

comprehendido.

O patriotismo não está sómente nas vãs declamações. Os que sinceramente

desejam para Portugal uma posição honrosa e distincta, e a sua elevação

no conceito das nações cultas, não podem ser indifferentes a tudo quanto

haja de contribuir para que, mediante a sensata apreciação das cousas, a

atilada conducta dos homens de estado, e o bom juizo dos poderes

publicos, um tão importante e melindroso assumpto internacional, obtenha

prompta solução, condigna d'elle, e das nações n'elle empenhadas, de

cujo accordo, harmonia, amisade, e leal cooperação, estão dependentes,

não só os seus reciprocos interesses, como tambem outros de tão vasto

alcance, quaes são os do progresso e da civilisação de uma grande parte

do Mundo.

Lisboa. Junho de 1880.

A Influencia Europea na Africa perante a Civilisação e as Relações Internacionaes Considerações ácerca do tratado de 30 de maio de 1879 denominado de «Lourenço Marques» · 第 17 / 17 题