*A saudade e a sciencia em dialogo*
Dois mezes depois de fechado o parlamento, D. Theodora Figueirôa, farta
de escrever cartas, e de esperar respostas que lhe iam a razão de uma
por dez, mandou chamar aquelle Braz Lobato, professor de instrucção
primaria, e, com os olhos vermelhos de chorar, abriu do peito oppresso
estas palavras:
--Que me diz vocemecê sr. Braz, á demora do meu homem?
--Eu estou passado, fidalga!--disse o mestre-escola empunhando e
sacudindo o queixo inferior.--Seu marido, a minha opinião é que ficou
por lá embeiçado n'alguma mulher. Lisboa é uma Babylonia, fidalga. Quem
para lá vae com um bocado de temor de Deus, perde-o; e quem não tiver
muito lume no olho, e alguns annos de tarimba e experiencia do mundo,
como eu, póde contar que em lá chegando fica reduzido á expressão mais
simples.
--E que é ficar reduzido á... que? como disse vocemecê? perguntou D.
Theodora.
--Quero dizer que dá com as canastras n'agua. Foi o que succedeu ao
fidalgo, futura-se-me isto! Sabio era elle, mas faltava-lhe a pratica do
mundo. Foi uma asneira mandal-o a côrtes; eu bem não queria... mas
emfim... tanto me azoinaram os abbades e os lavradores, que eu deixei-me
ir com os outros... (O impostor que tinha votado em si!) E que diz elle
nas cartas a v. ex.^a?
--Lá por milagre recebo alguma... Aqui tem vocemecê a que veiu aqui ha
dias atraz. Ora leia lá isso.
Braz montou os oculos de cobre, e leu:
«Prima Theodora. Cessa de ter cuidado com a minha saude: eu passo
soffrivelmente. Não me pude ainda desembaraçar dos negocios do estado,
que me não deixam tomar fôlego. Á vista te contarei o que tenho feito a
favor da nação. Tem tu saude, e descança da vida trabalhosa que tens. Ha
de ir ahi um sujeito de Bragança para lhe entregares oito centos mil
réis. Vende o grão todo que houver, e diz aos lavradores que por lá tem
dinheiro a juro que eu preciso recolher essas quantias para negocio de
mais interesse. Teu primo e affectuoso marido _Calisto_.»
Ahi tem vocemecê!--continuou a esposa atribulada, com os braços em cruz
e as mãos nos sovacos.--O dinheiro, que ha sete mezes tem saido d'esta
casa, é um louvar a Deus! Ainda o dinheiro vá que o leve a breca! mas
andar-me por lá o marido, o meu homem, que d'antes, se ficava uma noite
fóra de casa, era lá uma vez de anno a anno, e dizia elle que não estava
bem senão á beira de sua mulher!... Que me diz a isto sr. Braz? Então
vocemecê é de parecer que elle está por lá embeiçado? Pois o meu Calisto
seria capaz d'isso?!
--Olhe fidalga--respondeu o professor de instrucção primaria fazendo com
os beiços um bico e logo um arco, tregeitos meditabundos com que elle
usava solemnisar os dizeres graves.--Um homem cá nas aldeias é uma
coisa, e nas cidades é outra. Eu corri mundo, e sei o que fui. As
mulheres das cidades tem umas artes e manhas, que, se um homem se não
precata, ás duas por tres, não sabe de que freguezia é. Ainda que a
gente não queira aquelles demonios taes esparrelas armam, que não ha
remedio senão cair em fragilidades proprias da fragil natureza humana,
como o outro que diz. O sr. morgado já não é rapaz; mas tambem não é
velho. Aquillo, em quanto a mim, e oxalá que eu me engane, deu por lá
com alguma menina que o embruxou...
--Sabe vocemecê que mais--interrompeu com abrupta resolução D.
Theodora--pégo em mim, metto-me n'uma liteira, e vou por ahi abaixo até
á capital. É o que eu faço!
--Essa idéa precisa de ser pensada com prudencia--observou o
mestre-escola, erguendo-se, e dando alguns passeios na eira, onde
estavam dialogando--Se a fidalga fôr, esta casa fica sem dono, entregue
á criadagem, e o sr. morgado póde zangar-se. De mais a mais, ora
supponhamos nós que o senhor seu esposo está, como elle diz na sua,
occupado em negocios do estado; a ida de v. ex.^a vae atrapalhal-o, por
que elle não a ha de deixar sosinha na estalagem. Depois a fidalga vae,
palavra puxa palavra, um diz uma coisa, outro diz outra, e afinal
desavem-se, e começam a viver de esguêlha. A minha opinião é que v.
ex.^a se deixe estar em sua casa, e espere a vêr para onde correm os
ventos. Se elle por lá anda com a cabeça a juros, deixal-o pagar o
tributo, que elle cairá em si. Antes isso que quebrar uma perna. Lá o
dinheiro isso é o menos. A casa dá para tudo, graças a Deus. A fidalga
não sabe o que tem de seu. Lá em quanto ao marido, uma extravagancia não
lhe dá nem tira. Salomão foi o mais sabio dos homens e teve trezentas
mulheres e setecentas concubinas, e mais acho que foi santo. David,
tambem era santo, e caiu tambem na fraqueza de amar a mulher de um
capitão, general, ou uma coisa assim. As sagradas escripturas contam
muitos casos d'estes... Pois emfim, a fidalga não esteja ahi a chorar.
Seu marido ha de voltar são e salvo. O mais que eu posso fazer-lhe é ir
por ahi abaixo ter com elle, e desenganar-me por meus proprios olhos.
--Isso é que era bom, sr. Braz!--exclamou Theodora, limpando as lagrimas
ao avental de chita.
--Eu estou ainda com a idéa ferrada do habito de Christo. É cá uma birra
com o boticario, que disse ao cirurgião que eu havia de ser cavalleiro
do habito quando elle fosse papa. O sr. morgado não me responde ás
cartas: é um ingrato d'aquella casta; mas, emfim, os favores que lhe fiz
na eleição não me arrependo de lh'os fazer... Emfim, fidalga, se v.
ex.^a quer, eu vou ter-me com o sr. morgado, e póde ser que venha com
elle para cima e com o habito.
--Está dito!--clamou Theodora--Vocemecê vae, e eu faço-lhe as despezas.
--Isso lá como v. ex.^a quizer... Eu, a fallar verdade, não estou muito
indinheirado, e alguns vintens que tenho todos me hão de ser precisos
para pagar os direitos da mercê.
* * * * *
Ahi vem Braz Lobato, caminho de Lisboa.