*Tenta o seu anjo da guarda salval-o mediante uma carta da esposa*
Calisto dormiu mal.
As alvoradas de um dia feliz são mais temporãs que as da estrella
d'alva. O coração acorda primeiro que os passaros. O amor diz o seu
_fiat lux_ primeiro que Deus. Estas tres sentenças, a meu vêr, são mais
intelligiveis que o contentamento do morgado da Agra, ao levantar-se da
cama em que dormitára algumas escassas horas alvoroçadas.
O desastre de Campolide quebrantaria um homem qualquer que viesse a
cumprir n'este mundo os vulgares destinos da maxima parte dos mortaes.
Individuos notaveis já sairam scepticos e bravos cynicos de aperturas
menos dilacerantes. Os annaes ensanguentados da humanidade estão cheios
de facinoras, empuxados ao crime pela ingratidão injuriosa de mulheres
muito amadas e perversissimas. Superabundam casos de embaçadellas
analogas á de Calisto: d'estes lances obscuros tem saido aparvalhada
muita gente que era escorreita, e que se volve daninha á republica. São
uns homens que vos namoram as criadas, se vos não podem requestar a
familia; uns vampiros de sangue femeal, que trazem o demonio da vingança
no corpo, demonio meridiano e nocturno, que bebe lagrimas de mulher, em
quanto os possessos d'elle bebem cognac e absyntho. Um homem d'estes,
encostado a frade de esquina, é o leão que espreita da sua caverna
lybica a antilopa descuidosa. Officiala de modista, que se espaneja nas
verduras do jardim da Estrella, como alvéola nas praias borrifadas de
espuma, se o anjo da guarda a desampara um quarto de hora, tem os seus
dias contados. O scelerado, com o simples auxilio de um gallego, em que
por vezes se ingere e chafurda o confidente de Fausto, arranca da fronte
da alegre palmilhadeira de botinhas a grinalda de laranjeira em botão,
que esperava a sua primavera, o seu abrir-se e rescender, no primeiro
dia nupcial. Que tristeza! E ninguem falla d'isto senão eu, porque me
cumpre fazer o elogio de Calisto Eloy, que não fez cousa nenhuma
d'aquellas.
Assim que se ergueu cuidou em aformosear a saleta, cuja decoração era
menos de modesta. Saiu açodado ao armazem dos mais elegantes estofos, e
comprou alfaias magnificas. O homem pasmava dos nomes d'aquelles
objectos, nenhum dos quaes soava portuguezmente.
--Porque chamam a isto _chaise-longue_?--perguntava Calisto Eloy ao
engenhoso Margoteau.
--Porque chamam?!
--Sim: eu creio que se não offende a França no caso de chamarmos a este
movel uma cadeira longa, ou uma preguiceira, que sôa melhor. E _étagère_
e _console_ e _téte-à-tête_, e _onaise_? E é carissimo tudo isto! A
gente, pelos modos, de fóra parte os objectos, tambem paga a lição de
francez de samblador, que vem aqui aprender?
Sem embargo d'estes reparos, o oiro saiu-lhe generosamente da algibeira
bem apercebida.
A pobre saleta do morgado, dentro em pouco, transformou-se em recinto
digno de uma Ponce de Leão. Calisto, refestelado nos coxins elasticos da
ottomana, contemplava os restantes adornos do aposento, quando lhe
chegou do correio carta da sua esposa.
Dizia assim:
«Já com esta são tres que te escrevo, e ó por hora nem uma nem duas da
tua parte. Marido! que fazes tu, que não respondes? Ando a futurar que
não tens o miolo no seu logar. Longe da vista, longe do coração, diz lá
o ditado. Ora, queira Deus que não seja por minga de saude; e, se é,
dil-o para cá, que eu estou aqui estou lá.
«O primo Affonso de Gamboa esteve cá ha dias, e a modo de caçoada foi-me
dizendo que lá na capital as mulheres inguiçam os homens, e fazem
d'elles gato sapato. Eu fiquei sem pinga de sangue, meu Calisto! Mal fiz
eu em te deixar ir ás côrtes. Bem tolo é quem está bem na sua casa, e se
mette n'estas coisas dos governos, que só servem para quem não tem que
perder, como diz o primo Affonso.
O peor é se tu pegas a doidejar com as mulheres, e saes do teu sério.
Eras um marido perfeito como a santa religião o quer, e tenho cá uns
agouros no peito que me não deixam fechar olho ha tres noites. Deus te
defenda, homem, e te traga aos braços da tua mulher são e escorreito da
alma e do corpo.
Saberás que o mestre-escola anda de candeias ás avessas por que tu lhe
não respondes á carta em que elle te pediu uma venera. Olha se lhe
arranjas isso ainda que te custe pedir ao rei ou lá a quem é a tal
coisa. O homem tem-me feito favores, quando eu preciso que elle me leia
a relação dos foreiros. A vacca preta comeu o bicho, e morreu hontem á
noite. Lá se vão cinco moedas e um quartinho com a breca. O centeio da
tulha do meio deu-lhe o gorgulho, e tratei de o vender, a trezentos e
quinze, foi bem bom arranjo; eram mil e duzentos alqueires.
Olha cá, meu Calisto, disse-me a Joanna Pedra, que ouvira dizer ao
Manuel da Loja, que ouviu dizer ao compadre Francisco Lampreia, que veiu
de Bragança que lá lhe disseram que tu mandaras ir de casa de um
negociante mais de cem moedas de ouro!!! Fiquei estarrecida. Pois tu lá
não recebes do rei dinheiro que te sobre? Em que affundes tu tantas
moedas, homem? Vê lá no que andas mettido, Calisto! E, se te fôr muito
necessario algum dinheiro, cá estou eu para t'o mandar. Aquelle caixote
de peças de duas caras fui ha dias escondêl-o na lareira da cosinha
velha, porque tenho medo á ladroeira desde que tu andas por lá.
Não te enfado mais. Responde sem demora, que estou muito consternada.
Tua mulher que muito te quer
_Theodora_.»
Calisto Eloy dobrou a carta vagarosamente, e disse de si para comsigo:
--Pobre mulher! já me sinto enfadado com as tuas cartas... Já as tuas
sinceras babozeiras me incommodam e enjoam!... Agora vejo que tu eras
quasi nada na minha vida. Não sei em que logar do meu coração estiveste,
porque não dou pela falta, nem sequer a saudade me chama para ti!... Os
contentamentos da minha vida passada deu-m'os o estudo. O coração dormia
como os ventos da tempestade no bojo da nuvem negra, que serenamente se
vae acastellando no horisonte. Eil-a começa a desfechar agora relampagos
e coriscos. Mas o viver é isto! eu quero e preciso amar. Levam-me os
impetos de uma vontade juvenil, e «a vontade é vida» como diz o Jorge
Ferreira na Eufrozina. Amor! amor! que me caldeaste e retemperaste o
peito nas tuas forjas! emborca-me os teus nectareos phyltros,
embriaga-me este coração, que já não póde respirar de afogado nos seus
ardores!...
Disse, e tirou de uma charuteira de canudos de prata um havano, cujas
ondulações de fumo lhe perfumaram o quarto e subtilisaram a phantasia.
Depois, com forçado tregeito, estendeu o braço sobre uma banqueta de
charão, em que assentava um tinteiro de crystal, e escreveu á esposa,
n'este theor:
«Prima Theodora e estimada esposa.
Passo bem de saude; mas saudoso de ti. Não te tenho escripto, porque os
negocios do estado me levam todo o tempo. Mandei vir dinheiro de
Bragança, para emprezas de grande vantagem. Não te dê cuidado os meus
gastos, que somos muito ricos, e não temos filhos. Até aqui vivemos
miseravelmente, quando eu voltar a casa, quero que mudes de vida, prima.
Hei de reformar o nosso palacete de Miranda, e viveremos como nossos
avós, com representação e commodidades proprias d'este tempo. É preciso
gosarmos a vida, que é curta. Não andes por lá a medir grão nem a tratar
das aves. Entrega isso ás criadas, e faz-te a senhora e fidalga que és.
Em quanto ao mestre-escola, e á sua exigencia do habito de Christo, devo
dizer-te que o mestre-escola é um asno. Não respondo a taes cartas.
Manda-o á tabua, e não admittas similhante palerma á tua conversação.
Lembra-te que és uma Figueirôa, casada com um Barbuda.
Se receberes ordem minha, em mão de algum negociante de Bragança, paga o
dinheiro que disser a ordem.
Não te lembres de infidelidades do teu Calisto. O primo Gamboa é um
patarata sem juizo, que te diz essas coisas para te disfructar.
Quando vier o recoveiro de Miranda, manda-me presunto, salpicões, e
algumas ancoretas do vinho da Ribeira.
Teu muito affecto e extremoso
_Calisto_.»