*Outro abysmo*
Esta pungente lancetada não esvermou a postema do peito de Calisto de
Barbuda. Desde que qualquer sujeito perde o siso do coração, escusado é
esperar que a razão lh'o restaure: em tão boa hora que elle o recupera
depois das amargas provas. O homem, porém, que amanhece tolo aos
quarenta e quatro annos, a mim me quer parecer que ao entardecer-lhe a
vida a tolice refinará.
Tenho dois grandes exemplos d'isto: um é Calisto de Caçarelhos; o outro
é Henrique VIII de Inglaterra. Este, ahi pelas alturas dos quarenta
annos, tão bom homem era, que até escrevia contra o impio Luthero, e
vivia santamente com sua esposa, Catharina de Aragão. Insandeceu de
amor, vinte annos depois de marido exemplar, e d'ahi por diante sabe o
leitor que golpes elle deu no peito invulneravel do papa e no fragil
pescoço das pobres mulheres.
Calisto Eloy não será capaz de repudiar nem degolar Theodora, porque
n'este paiz ha leis que reprimem os patetas sanguinarios; todavia, eu
não assevero que elle seja incapaz, alguma hora, de lhe chamar parva e
hedionda, e de lhe atirar com a touca e com o lenço azul de tres pontas
á cara vermelha de pudor. Veremos.
Calisto, digamol-o sem refolhos, caiu. Atascou-se. Foi de cabeça ao
fundo do pégo em que deram a ossada o ultimo rei dos godos, e Marco
Antonio, e o rei enfeitiçado pela comborça Leonor Telles, e Simplicio da
Paixão, e varias pessoas minhas conhecidas, que experimentaram todos os
systemas de desfazer a vida, desde o muro de S. Pedro d'Alcantara até ás
cabeças dos palitos phosphoricos.
Este enguiçado Barbuda, na volta de Campolide, não teve uma lagrima que
chorasse sobre a sua dignidade esfarrapada. Circumvagou a vista pelos
seus livros, figurou-se-lhe vêr na lombada de cada in-folio o olho de um
demonio zombeteiro, bem que aquelles pergaminhos encadernassem almas, no
céo bem-aventuradas, e na terra immorredoiras, almas que n'este mundo se
chamaram fr. João de Jesus Christo, fr. Pantaleão d'Aveiro, fr. Antonio
das Chagas, e dezenas d'estes talismans, que tem salvado o leitor e a
mim de soçobrarmos nos parceis que esbravejam á volta de Calisto.
Eram duas horas da manhã, quando o morgado experimentou uma sensação,
que viria a definir-lhe o espirito, se alguem carecesse de vêr este
homem a luz extraordinaria.
Nas aguas-furtadas do andar, em que elle morava, residia uma viuva de um
tenente, senhora d'annos insuspeitos, de muitas lerias, minguada de
recursos, e, por amor d'isso, se offerecêra a cuidar da casa e da
cosinha do deputado. Ás duas horas, pois, bateu Calisto á porta da
visinha, e, como ella lhe fallasse, exprimiu elle a sensação imperativa,
que o levou alli, por estes termos:
--Sr.^a D. Thomazia, ha por ahi alguma coisa que se coma?
--Não ha nada feito; mas eu vou fazer chá, sr. Barbuda, e o que v. ex.^a
quizer.
--Olhe se me póde frigir uns ovos com presunto--volveu elle.
--Pois lá vão ter d'aqui a pouco.
--Veja lá que se não constipe, sr.^a D. Thomazia--recommendou elle.
--Não tem duvida. Olhe que eu tenho muito que lhe dizer. Achou um
bilhete de visita na escrevaninha? perguntou D. Thomazia pelo buraco da
fechadura.
--Não achei.
--Pois lá está. Faz favor de ir, que eu vou vestir-me.
--Então a sr.^a D. Thomazia está-se constipando? Ora esta! Isso é que eu
não queria!... Cá desço, e até logo.
O bilhete, que o deputado encontrou, dizia: Iphigenia de Teive Ponce de
Leão, e logo a lapis: _viuva do tenente general Gonçalo Telles Teive
Ponce de Leão_.
Desfilaram por diante do espirito de Calisto Eloy regimentos de
illustres familias oriundas dos Telles e dos Teives e dos Ponce de Leão.
Na linhagem dos Barbudas tambem alguma vez tinham entrado os Teives, e
uma decima nona avó de Calisto viera de Hespanha, e era Ponce, dos
Ponces genuinos dos duques de Banhos.
Estava o morgado combinando estes parentescos contrahidos ahi pelo
ultimo quartel do seculo XII, quando D. Thomazia entrou com o presunto e
ovos. Calisto assentou o prato sobre dois volumes da Historia
Geneologica, que lhe tomavam a banca: e quanto a deglutição lh'o
permittia, n'alguns intervalos, foi perguntando:
--Então quem é esta senhora, que me procurou?
--Eu só sei dizer, respondeu D. Thomazia, que é uma creatura linda,
linda quanto se póde ser!
--Como assim?! atalhou Calisto, retendo uma lasca de presunto entre os
dentes molares, pois ella não é a viuva de um tenente general, que
naturalmente havia de morrer velho?
--Póde ser que elle morresse velho; mas a viuva o mais que póde ter é
trinta annos.
--E com que então galante?
--É uma imagem de cera. V. ex.^a ha de vêl-a. E então elegante! A
cintura cabe aqui, proseguiu D. Thomazia, formando um annel com dois
dedos. Eu, quando ouvi parar uma carruagem, cuidei que era v. ex.^a e
vim abrir as portas do escriptorio. A senhora veiu subindo, e puchou á
campainha. Eu espreitei lá de cima, e, a fallar verdade, lembrei-me se
seria a sua esposa, que lhe quisesse fazer uma agradavel surpreza.
Perguntou-me ella pelo sr. Barbuda de Benevides, e foi entrando comigo
para a sala. Levantou o véo, e disse: «Não está em casa?» Que voz, sr.
morgado, que voz de creatura aquella!
--E isso a que horas foi? atalhou Calisto. Era por noite alta?
--Não, meu senhor. Eram seis horas da tarde. V. ex.^a tornou ás oito,
mas saiu logo; e, quando eu voltei de fazer uma visita, já o não achei
para lhe dar esta noticia.
--E depois a senhora que mais disse?
--Mostrou-se pesarosa de o não encontrar, e prometteu de voltar hoje ás
tres horas.
--E a sr.^a D. Thomazia saberá o que me quer essa dama?
--Não sei; o que ella sómente disse foi que v. ex.^a era um genio.
--Pois ella disse-lhe isso sem mais nem menos?
--Foi a respeito de vêr aqui estes livros muito grandes, acho eu. Esteve
a reparar n'elles com uma luneta... E a graça com que ella punha a
luneta!... Mulher assim!... Os homens ás vezes por mais asneiras que
façam, teem desculpa!...
--As paixões, minha sr.^a D. Thomazia...--obtemperou o morgado, e lambeu
os beiços molhados da libação de um vinho nervoso d'aquella garrafeira
já mencionada. E proseguiu.--As paixões do amor... Nem os grandes sabios
nem os grandes santos se exemptaram d'ellas. Somos todos de quebradiço
barro; somos uns pucarinhos de Extremoz nas mãos infantis das mulheres.
O tributo é fatal: quem o não pagou aos vinte annos, ha de pagal-o aos
quarenta, e mais tarde, quando Deus quer... Deus ou o demonio, que eu
não sei ao justo quem fiscalisa estes malaventurados successos de amor,
que a historia conta e a humanidade experimenta cada dia...
--É um gosto ouvil-o!--interrompeu D. Thomazia--Bem no disse aquella
senhora: v. ex.^a é um genio, e falla de modo que se mette no coração da
gente. Quer que lhe diga a verdade, sr. Barbuda? Foi bom que v. ex.^a me
encontrasse n'esta edade. Se eu fosse moça e bonita, como dizem que fui,
um homem como v. ex.^a havia de me dar cuidados.
--Ora, minha sr.^a D. Thomazia, isso é lisonja e favor. Eu já não estou
tambem na edade de tocar corações, nem os meus habitos vão muito para
ahi!
--Edade!--accudiu a viuva do tenente--v. ex.^a póde dizer que tem trinta
e cinco annos, que ninguem lh'o duvida. É mania agora dos rapazes
quererem á fina força passar por velhos. Pergunte quem quizer á visinha
do primeiro andar se o acha velho. Está-me sempre a perguntar se v.
ex.^a me diz d'ella alguma coisa... Conhece-a?
--Bem sei: uma mocetona cheia, com umas fitas escarlates na cabeça...
Não é má...
--E sabe v. ex.^a que mais? Eu vou apostar que esta senhora, que veiu
cá, traz coisa no coração, que a obrigou. Assim uma senhora nova,
sosinha, tão encantadora!... Aquillo, em quanto a mim, é que já o ouviu
no parlamento, e apaixonou-se. Ha muitos casos assim cá em Lisboa de
senhoras apaixonadas pelos homens de talento. O talento é uma coisa
muito bonita! Meu marido casou comigo quando era sargento do treze de
infanteria, e andava nos estudos. Era feio, e ao principio tinha-lhe
medo; mas assim que elle me mandou um acrostico... V. ex.^a sabe fazer
acrosticos?
--Ainda não me puz a isso.
--Pois como eu me chamo Thomazia Leonor e tenho quatorze letras fez-me
elle um soneto que me deu volta á cabeça, e tamanho incendio me tomou o
peito, que o amei até á morte, e ainda agora, ficando eu viuva aos
trinta e nove annos, fui, sou e serei fiel á sua memoria.
N'este ponto, D. Thomazia, ferida n'alma pelo acrostico memorando,
chorou.
Calisto represou-lhe os prantos com algumas maximas consoladoras sobre a
morte, e bocejou, já por que eram tres horas e meia da manhã, já por que
o dialogo descaira nos aborrimentos de uma palestra em dia de fieis
defuntos. D. Thomazia começou a espirrar, por que se não agasalhára
bastantemente, e assim se apartaram estas duas pessoas, que uma hora de
expansão aproximara.
Calisto, conforme ao antigo uso, levou um livro para a cabeceira do
leito. Escolheu poeta, e saiu-lhe o seu já tão querido outr'ora Sá de
Miranda. Abriu ao acaso, e saiu-lhe n'uma pagina _d'Os Estrangeiros_
esta maxima: _Duas sortes de homens ha no mundo que se possam servir: ou
muito parvos ou muito namorados, e ainda os namorados tem grande
vantagem_.
A meu vêr, o espirito d'aquelle honrado doutor, que tão santo marido
fôra de Briolanja de Azevedo, até de saudades d'ella se deixar morrer,
alli lhe viera, áquella hora, relembrar occasionalmente e a ponto uma de
suas maximas, como em paga do affectuoso respeito com que Barbuda o lia
e inculcava á mocidade depravada.
Calisto Eloy pôde ainda admirar o lidimo portuguez da maxima, e
adormeceu.