XX

*Proh dolor!...*

Adelaide, temerosa de algum imprevisto accidente, que a desmerecesse no

conceito de Vasco, por causa do morgado da Agra, relatou ao pae o

dialogo da antevespera, e a promessa da poesia para a noite seguinte.

O desembargador duvidou do entendimento da filha, antes de acreditar na

insania do seu melhor amigo. Como havia de crer elle no intento

deshonesto de um homem que lhe emergira a outra filha da voragem? E,

crendo, como se comportaria em lanço de tanto melindre?

Meditou, e discretamente resolveu que suas filhas e genro fossem passar

alguma temporada da primavera na sua quinta de Campolide; e se

pretextasse a doença de uma neta, para que a saida se fizesse n'aquelle

mesmo dia. Pôde mais com o velho a gratidão que a offensa.

Calisto Eloy chegou á hora costumada. Já não entrava á presença do

magistrado com a facilidade e lhanesa de outros dias. A sisudeza do

semblante arguia o incommodo da consciencia. Mais lh'a inquietava a

estudada jovialidade, com que Sarmento o recebeu. Antes de perguntar

pelas senhoras, lhe disse o velho o motivo da inopinada saida para ares.

Calisto passou o restante da noite com os amigos da casa; porém,

insolitamente abstraido, concorreu a augmentar a lethargia d'aquelles

velhos soporosos, que pareciam ajuntar-se para se narcotisarem, e

entrarem emparceirados nas silenciosas regiões da morte.

Fez sensação na assembléa tirar Calisto de uma charuteira de prata um

charuto, e baforar columnas de fumo, com uns modos aperalvilhados, e

improprios de sua gravidade. Sarmento, com delicada liberdade, observou

a preponderancia que os costumes de Lisboa iam actuando sobre o animo do

seu bom amigo. Sentiu que os ruins exemplos vingassem quebrantar aquella

admiravel singeleza de trajo e maneiras que o morgado trouxera da sua

provincia. Lamentou que, em menos de tres mezes, o modelo do portuguez

dos bons tempos, se baralhasse com os usos modernos e viciosos.

Calisto Eloy defendeu-se froixamente, allegando que as mudanças

exteriores não faziam implicancia ás faculdades pensantes; e ajuntou

que, sciente de que tinha sido incentivo da mofa entre os seus collegas,

á conta da simpleza um tanto anachronica dos seus costumes, entendera

que a prudencia o mandava viver em Lisboa consoante os costumes de

Lisboa, e na provincia, segundo o seu genio e habitos aldeãos. Concluiu,

dizendo que: _Cum fueris Roma, Romam vivito mora_,[20] e que o fazer-se

singular importava fazer-se ridiculoso; e que os seus annos não eram

ainda bastantes para authorisarem a distinguir-se no mero accidente dos

trajos.

Perguntado por que deixára de tomar rapé, costume indicativo de homem

pensador e estudioso, respondeu que alguns escriptores modernos

attribuiam á ammoniaca componente do rapé, o deperecimento das

faculdades retentivas, pela acção deleteria que o poderoso alcali

exercitava sobre a massa encephalica. Além de que a fumarada do charuto,

sobre ser purificante e anti-putrida, dava aos alvéolos solidez, e

consistencia aos dentes.

Estas explicações não evitaram que o desembargador, com os seus velhos

amigos, prognosticassem o derrancamento do morgado da Agra, depois que

elle se retirou, algum tanto azedado das reflexões d'aquella gente

encanecida.

Sarmento não o convidára a ir visitar as filhas a Campolide, nem de

leve; no correr da noite, fallou d'ellas. Calisto Eloy tambem não

suscitou conversação relativa ás senhoras, porque já a doblez do

espirito lhe tolhia a usual franqueza e familiaridade.

Entrou a dementar-se aquella desconcertada cabeça. A saudade, em vez de

lhe tirar lagrimas do intimo amadurou-lhe temporamente a apostêma de

sandices, que em todo homem se cria paredes-meias com o coração. Ahi

começa elle a imaginar que o desembargador Sarmento, adivinhando os

amores mal recatados de Adelaide, a obrigara a sair de Lisboa.

Corroborava a suspeita não o convidar elle a visitar as damas. Isto

sobre excitou-lhe o sentimento; por que, a seu vêr, Adelaide estava

penando, havia uma victima, um coração sopesado, uma alma em abafos de

paixão.

Esta conjectura atirou com Calisto para os tempos cavalleirosos.

O olhar em si, e ver-se maneatado pelos vinculos sacramentaes, não o

reduzia á compostura e honestidade de seu estado e annos. Ainda assim,

sejamos justiceiros e ao mesmo tempo misericordiosos com esta alma

enferma: na cabeça allucinada de Calisto de Barbuda não havia idéa

ignobil e impudica.

O amor, resaltando da cratera abafada quarenta e quatro annos, dizia-lhe

que era fidalguia de alma não transigir, por conveniencias e respeitos

sociaes, com a oppressão, e alvedrio paterno. Se Adelaide o amava como e

quanto Calisto já não podia duvidar, sua honra d'elle era pôr peito á

defesa da oppressa, beber metade do absyntho do seu calix, luctar, sem

desdouro da probidade de um Barbuda, até perecer, exemplo de amadores de

antiga tempera.

Amou quem isto lê, e tresvariou aos vinte annos? Passou por uns hórridos

eclipses de entendimento, que apoz si deixam lagrimas tardias e

vergonhas insanaveis?

Amisere-se, pois, d'aquelles lucidissimos espiritos de Calisto, que por

um se vão apagando ao ventar rijo da paixão, quaes se apagam em céo de

bronze as estrellas do mar alto, já quando o naufrago desesperançado

finca os dedos recurvos na espuma das vagas.

Ó mal-sorteado Calisto! que aureola de patriarcha te resplendia em volta

do teu chapéo de merino e aço, quando entraste em Lisboa! Que anjo eras,

entrajado na tua casaca de saragoça sem nodoas! Aquella scientifica boa

fé com que procuravas monumentos em Alfama, e agua depurante do muco

catharroso no chafariz d'El-Rei, e querias que os aljubêtas da rua de S.

Julião te dessem conta do chafariz dos cavallos!...

Que te valeram as maximas de boa vida colhidas a centenares nos teus

classicos, e enceleiradas n'essa alma, refractaria á ternura de tanta

moça escarlate e succada, que, lá em Caçarelhos, se enfeitava para achar

graça em teus olhos?

Cairias tu nas piozes d'esta princeza dos mares, d'esta Lisboa que

filtra aos nervos dos seus habitantes o fogo que lhe estua nas

entranhas?

Cairias tu, anjo?

A Queda d'um Anjo: Romance · 第 35 / 53 题