XIX

*Ó mulheres!...*

Seguiram-se horas de insomnia. O juizo dava-lhe tratos amarissimos ao

coração. O homem sentava-se na cama, e remechia-se inquieto como se o

escarneo o estivesse picando d'entre a palha do enxergão.

Os intervalos lucidos eram-lhe intervalos do inferno. Os axiomas

classicos sobre o amor caiam-lhe na memoria como chuva de dardos. Quem

mais o suppliciou foi o seu mestre e amigo D. Amador Arraiz. Este santo

bispo apresentou-se-lhe em visão, com D. Theodora Figueirôa ao lado, e

disse-lhe as palavras do capitulo XLV dos _Dialogos_: «Em a lei de

Christo a fidelidade que deve a mulher ao marido, essa mesma deve o

marido á mulher; e, se as leis civis dão mais poder aos maridos que ás

mulheres, não é para as offender e maltratar, nem para um ter mór

jurisdição sobre si que o outro.»

Seguiram-se outras visões de não somenos pavor. Ahi pela madrugada,

Calisto Eloy amodorrou-se em roncado dormir; mas a fada que lhe abrira

os thesouros virgineos do coração, a esbelta Adelaide bateu-lhe com as

azas brancas nas palpebras, e o homem acordou estremunhado a desgrudar

os olhos, que se haviam fechado com duas lagrimas, as primeiras que o

amor lhe esponjára do seio, e cristalisára nos cilios, como diria o dr.

Liborio. Então foi o trabalharem-n'o umas cogitações tão sandias, que

seriam imperdoaveis, se não estivessem na tresloucada natureza de todo

homem que ama.

Entrou a inventariar as alterações que devia fazer no substancial e

accidental da sua personalidade.

O uso do meio grosso pareceu-lhe incompativel com um galan. Aquelles

sibilos da pitada, bem que denotassem espiritos cogitantes e gravidade

de juizo, deviam de toar ingratamente nos ouvidos de Adelaide. De mais

d'isso, a saraivada de bagos de rapé que elle sacudia dos sorvedouros

nasaes, algumas vezes obrigava as damas a formarem sobre os olhos com os

dedos um antemural sanitario contra as insuflações immundas do sabio.

Deliberou, portanto, immolar as delicias pituitarias.

Viu-se no espelho de barbear, modesto utensilio do estojo de bezerro, e

conveio no deslavado prosaismo da sua cara clerical. Resolveu deixar

pera e meia barba, como transição para o bigode, que devia ir-lhe bem na

tez um tanto moreno-pallida.

Como o estudo lhe havia extenuado os olhos, e por amor d'isso usava

oculos de prata quando lia, adoptou a luneta de oiro com molas pensis.

N'este proposito, saiu a delinear as reformas capillares; fez alinhar as

bases de uma cabelleira, que trouxera escadeada da provincia; e

consentiu que lhe encalamistrassem dois topes rebeldes ao ferro.

Depois, quando a ancia de uma pitada começava a importunal-o, fez

provisão de charutos, e fumou o primeiro com afflictivas caretas, e

engulhos de estomago.

Colheu informações dos alfaiates de melhor fama, e foi ao Keil

encommendar duas andainas de fato. O artista offereceu-lhe os figurinos;

e, como lhe fallasse francez, Calisto suppoz que o attencioso alfaiate

lhe dava a conhecer os retratos de alguns sujeitos illustres da França.

Corrido do engano, depois de lêr as indicações das _toilettes_, saiu

d'alli a procurar mestre de linguas, e a comprar diccionarios e guias de

conversação.

Se o leitor, mais perseguido da fortuna esquerda, nunca passou por

lances analogos, não se tenha em conta de desgraçado.

Quem tivesse conhecido, um mez antes, Calisto Eloy de Silos e Benevides

de Barbuda, devia choral-o, quando o viu entrar n'um café a pedir agua

para combater os vomitos provocados pelo charuto!

Irá perder-se aquella alma tão portugueza, aquelle exemplar marido,

aquelle sacerdote e glorificador dos classicos lusitanos?

O amor abrirá no pavimento da camara um alçapão, onde se afunda aquelle

grande brilhante, desluzido, mas promettedor de refulgente lume?

_Di meliora piis_!

Ó Lisboa!...

Ó mulheres!...

A Queda d'um Anjo: Romance · 第 34 / 53 题