XIII

*Regeneração*

Ó coração sensivel! ó peccadora Catharina, que vaes agora expiar o teu

crime nas agonias da saudade! Aquelle Calisto, cuidando que te salvava,

matou-te!

Não foi tanto quanto diz a apostrophe; mas, de feito, Catharina, quando

recebeu de Bruno de Mascarenhas uma carta saturada de sãs doutrinas e

reflexões, como as faria S. Francisco de Salles a mad. du Chantal,

entendeu de si para comsigo que devia morrer de despeito e raiva. O

fugitivo escrevia-lhe pouco antes de embarcar-se. Não referia o dialogo

com Calisto; dava porém como certa uma tempestade a prumo das cabeças

d'elles delinquentes. «Irei, dizia elle, morrer longe da mulher que amo,

para lhe não sacrificar os creditos e os filhos. Se souberes que eu

morri, recompensa-me esta virtude rara, dizendo em tua consciencia que

eu te amei, como já ninguem ama sobre a face da terra.»

Depois, seguiam-se na carta os conselhos ajustados á felicidade da vida.

Expunha as consequencias funestas das paixões. E terminava dizendo que

as lagrimas o não deixavam continuar.

Que dama resistiria, depois d'isto, á morte?

Encerrou-se a filha do desembargador, no intento de providenciar em

artigo de morte, e entrouxar para a eternidade.

N'estas cogitações a surprehendeu a mana Adelaide, mostrando-lhe uma

carta de um certo Vasco da Cunha, que escrevia desde muito, e

honestamente a menina solteira, no proposito de casamento. Este Vasco,

de boa linhagem, conhecia Bruno, e via com desprazer os amores da dama,

que havia de ser sua cunhada. Eventualmente soubera elle do embarque do

Mascarenhas. Pessoas que o viram a bordo, referiram-lhe que o sujeito,

perguntado ácerca dos amores de Catharina Malafaya, respondera

fatuamente que se ia escapando a um aguaceiro de escandalos, com que

elle não queria brincar, por que a mulher, enthusiasta e apaixonada mais

que o necessario, seria capaz de o fazer assumir as funcções de marido

não canonico.

Pouco mais ou menos, era d'aquella amavel contextura o periodo que D.

Adelaide leu a sua irmã lagrimosa.

D. Catharina levantou-se com fidalgos brios, chamou pelos filhos,

abraçou-se n'elles, e disse á irmã:

--Estou bem! Deus me perdoará, rogado por estes innocentes. Meu amado

marido, como eu te quero hoje! como eu sinto o teu coração a consolar-me

n'estes remorsos!...

Ora, eu não tenho a caridade de crêr nos remorsos de D. Catharina; mas

piamente acredito que a mulher se estava sentindo mais amiga do marido,

fineza que elle devia agradecer-lhe com as suas mais melifluas caricias.

E veiu logo a succeder que o esposo, surprehendido pela extremosa

ternura da senhora, estranhou o caso, e requereu brandamente a

explicação da improvisa mudança. Catharina, imaginosa como todas as

pessoas que amam muito, explicou, entre alegre e lagrimante, que a final

se convencera de que o seu Duarte a não trahia: suspeita de tanta força

para ella, que podéra empeçonhar, com as serpes do ciume, a felicidade

de duas almas, ligadas por paixão.

Duarte ficou lisongeado e satisfeito. Seguiu-se confessar elle tambem as

suas vagas desconfianças emquanto á lealdade da esposa. Aqui é que foi a

scena, digna de mais conspicuo narrador. A offendida senhora pregou os

olhos no firmamento de madeira, espreitou por elle o azul do empyreo,

com a dupla vista que dá a angustia, e murmurou:

--Céos! que injustiça!

Era dôr que lhe encolhia os folipos das lagrimas. Não arranjou a chorar.

Caíu de golpe na poltrona de mais capacidade e flacidez para quedas

d'aquella natureza! e, tapando a face com as mãos alvissimas, balbuciou,

desentallando-se dos suspiros:

--Oh! que infeliz! que infeliz!

Duarte inclinou-se com os labios ao colo de Catharina, e disse

affectuosamente:

--Perdoemos um ao outro. Estes ciumes reciprocos dizem que nos amavamos

por egual.

Não queria a magoada senhora perdoar; porém, como lhe faltasse fôlego de

despejo para sustentar a scena, envergonhou-se de si mesma, e teve dó do

marido, a quem ella, e pae, e irmã, deviam a decencia, estado,

representação e sociabilidade com as primeiras familias de Lisboa.

Instantes foram estes de consciencia rehabilitada, que poderam muito com

ella no decurso da vida, e promettem ser-lhe amparo até ao fim.

É-me pequeno o peito para o prazer que sinto, relatando este caso, que é

unico dos meus apontamentos, em egualdade de circumstancias. Ainda ha

gente boa e de muitissima virtude: isto é que é verdade.

O fautor d'este successo, com que a gente se consola, foi, sem debate,

Calisto Eloy, aquelle anjo!

Com que delicias d'alma contemplava elle a restaurada ventura d'aquelles

casados, e o jubilo do desembargador! E os agradecimentos do ancião, que

bem lhe faziam ao peito honrado! E os affectos de Catharina, que de todo

ignorava ter sido elle o agente do seu socego; porém muito lhe queria

pelo tom grosseiro, mas paternal com que lhe admoestára a culpa!

Afóra o desembargador, uma pessoa unica sabia que o morgado tinha sido o

conciliador engenhoso da paz da familia: era Adelaide. Esta menina

vivera receosa de que o seu Vasco, rapaz timbroso, a não quizesse

esposar, fazendo-a cumplice dos desvios da irmã. Agora, já mais

esperançada na realisação do casamento, via com olhos agradecidos o bom

provinciano, e attendia-o com os disvelos de extremosa amiga. A isto a

incitava o pae, que frequentes vezes lhe dizia:

--Se este honrado fidalgo fosse solteiro, e podesses amal-o, filha, que

prazer o nosso se...

---Oh! papá...--atalhava quasi sempre a menina--pois eu havia de casar

com elle?...

--Por que não? Honra, riqueza, sciencia e nobreza... que mais querias

tu, filha?--perguntava o pae.

Adelaide sorria-se, e murmurava de si comsigo.

--Ainda bem que elle é casado, senão eu tinha que vêr com a jarrêta da

creatura!...

No entanto, a reconhecida senhora, no auge da sua gratidão, jogava a

sueca emparceirada com Calisto de Barbuda, e ensinou-lhe a jogar as

damas, prenda em que o morgado revelou uma inhabilidade que excede todo

o encarecimento.

A Queda d'um Anjo: Romance · 第 23 / 53 题