--Que Custodio é este!?
N'isto, assomou Calisto Eloy.
Bruno de Mascarenhas adiantou-se a recebel-o, e disse-lhe maravilhado.
--Eu já tive a honra de comprimentar v. ex.^a no escriptorio da _Nação_.
V. ex.^a é o sr. Calisto Eloy de Barbuda.
--Sou, e agora me recordo que já tive o prazer de o encontrar...
--Mas v. ex.^a n'este bilhete diz que é Custodio!--tornou Bruno.
--Custodio, que é sinonymo de anjo-da-guarda, ou anjo-custodio da
ex.^{ma} sr.^a D. Catharina Sarmento.
Abriu o moço a bôcca, e disse:
--Ah... agora é que eu entendi... Mas... queira v. ex.^a sentar-se... Eu
não sei que allusão possa ser esta... que... a respeito de...
Calisto sentou-se, estendeu o braço direito com a mão aberta, e atalhou
o enleio de Bruno, dizendo solemnemente:
--Vou fallar.
E, apoz curta pausa, relanceou discretamente os olhos á porta, como quem
receia ser ouvido.
--Póde v. ex.^a fallar, que eu fecho a porta, disse o confuso
Mascarenhas.
--O sr. Bruno de Mascarenhas--proseguiu o morgado--é solteiro. Cedo ou
tarde ha de ser casado, por que é varão de preclarissima linhagem, e
duas forças invenciveis hão de compellil-o a propagar-se: o sentimento
congenito da especie, e a gloria, que vangloria não é, da prosecução da
raça.
(Este exordio abrupto invencilhou os espiritos de D. Bruno, os quaes
eram pouco entendidos em estylo garrafal.)
Façamos de conta--proseguiu Calisto--que v. ex.^a é hoje, como será,
volvidos mezes ou annos, casado com uma dama egual em sangue, de honrada
fama, acatada do conceito geral, dama emfim, na qual v. ex.^a empregou
suas complacencias todas. Á boa dita de esposo succede-lhe a
prosperidade de pae. Vê v. ex.^a em redor de si umas alegres
creancinhas, que o beijam e o furtam com graciosas blandicias ás graves
cogitações dos negocios, e aos aborrimentos que salteam as existencias
mais descuidadas e desprendidas. A mãe dos filhinhos de v. ex.^a é o
cofre de oiro: as creanças são as joias inestimaveis que v. ex.^a lá
encontrou e lá encerra.
A mãe é a flôr, os filhos são o fructo. V. ex.^a arde de amores d'elles
e d'ella. Por que a sua familia é não sómente a sua alegria domestica,
senão que lhe é fóra de casa um pregão da honestidade e honra que vae
n'ella.
De repente, quando v. ex.^a está meditando nos jubilos da velhice, com
seus filhos já homens, com sua esposa laureada pelas cans sem macula, de
repente, digo, ha um amigo em lagrimas, ou um inimigo secretamente
satisfeito, que, lhe diz: «Tua mulher deshonra-te; essas creanças, que
tu affagas, e para quem estás multiplicando os teus haveres, podem não
ser teus filhos, por que tua mulher prevaricou.» Pergunto eu ao ex.^{mo}
Bruno de Mascarenhas: a sua agonia, n'essa hora de atroz revelação, como
hão de expressal-a os que a não sentiram ainda?
--Não sei...--respondeu Bruno--Só, no caso de se darem as circumstancias
que v. ex.^a diz, é que se póde responder.
--Todavia, o seu entendimento e coração, já antes da experiencia, podem
antever qual deva ser a agonia do marido deshonrado pela ignominia de
sua mulher...
--Sim...
--Até aqui a hypothese em v. ex.^a: agora o exemplo em Duarte de
Malafaya, marido de D. Catharina Sarmento. Duarte era rico, e dos mais
fidalgos; por excesso de amor casou com D. Catharina, filha de um
nobilissimo cavalheiro, porém magistrado empobrecido pelos desconcertos
da politica. Duarte entrou n'aquella casa, restaurou a decencia antiga,
e encostou ao seio as cans do magistrado octogenario, assegurando-lhe o
socego e contentamentos dos annos ultimos da vida.
Decorridos cinco annos, Duarte tem cinco filhos. São anjos que descem a
povoar o paraiso d'aquella ditosa familia. Brincam á volta de sua mãe, e
como que lhe estão dando os alegres emboras da felicidade que elle está
gosando, e lhe augura a elles.
É n'este ensejo que o inferno se abre aos pés d'esta familia honrada e
ditosa. Surge das tenebrosas agonias um homem que despedaça ás mãos os
laços humanos e divinos da santa união do velho, da filha, do genro, e
dos netos. Ora, o homem que os assaltou no seu eden, foi o sr. D. Bruno
de Mascarenhas.
--Eu!...--exclamou o moço com artificial espanto.
--V. ex.^a. Vejo-o admirado, não sei se da minha affoitesa, se da
responsabilidade que lhe pesa, sr. D. Bruno!
--Mas que houve em casa do Sarmento?--perguntou alvoroçado o fidalgo.
--O que eu antes de hontem vi foi a face do ancião lavada de lagrimas. O
que eu vi hontem á noite foi Duarte de Malafaya fitar os olhos nas
creancinhas, e escondel-os para que o não vissem chorar. O que hoje
verei em casa do desembargador Sarmento, se v. ex.^a o não presagia...
Não temos tempo para conjecturas: a chaga deve ser cauterisada já, para
não ser gangrena ámanhã. Quer v. ex.^a ajudar-me a conjurar a nuvem
negra que vae rasgar-se em torrentes de desgraças?
D. Bruno reflectiu dois segundos, como se houvesse pejo de responder, no
primeiro instante:
--Da melhor vontade. Eu desisto d'estas relações, para evitar desgostos
serios á sr.^a D. Catharina.
--Falla-me um honrado portuguez, que tem o appellido dos Mascarenhas?
perguntou com solemnidade o Barbuda.
--Juro pela honra de meus avós.
--Que vae fazer v. ex.^a?--tornou Calisto.
--Antecipo um passeio que mais tarde tencionava fazer á Europa. Parto no
paquete de ámanhã para França.
--Sem dizer, nem fazer saber á sr.^a D. Catharina que esteve aqui um
amigo do desembargador Sarmento...
--Nada direi sr. Barbuda.
--Aperto-lhe e beijo esta mão. Agradeço-lh'o em nome dos cinco filhos de
Duarte de Malafaya, ou dos cinco anjos que lhe chamam pae.
--E saíu com os olhos marejados.
* * * * *
D. Bruno cumpriu a promessa com tanta pontualidade como o faria um
sujeito de menos fidalgos brios, se lhe dissessem: «Afasta-te, se não
queres o encargo de amparar uma familia, cujo esteio estás quebrando.»
É coisa que pouquissimo custa, em condições analogas, o ser pontual. Ás
vezes, até se vinga fama de prudente e ajuizado.
Como quer que fosse Calisto Eloy foi d'alli em direitura á poltrona do
magistrado, e disse-lhe:
--Cobre animo, amigo e senhor meu. O inimigo levantou o cerco. A
maledicencia descaridosa, se não mudar de juizo, esquece-se.
Seguiu-se a narrativa do acontecido, e as alegrias do ancião
interpolladas de agradecidas lagrimas.