Carimuque tinha-me feito um presente valioso, n'uma porção de farinha de

mandioca, o melhor alimento que ali podia ter, para mim tão doente e tão

debilitado.

N'essa noute quiz comer uma pouca de farinha, e fui encontrar o saquinho

que a continha completamente vazio.

Entrando em averiguações do caso, sube que fôra o meu muleque Catraio

que a furtara e comêra.

N'essa noute, um drama terrivel passou-se junto do meu campo, no meio

das trevas.

Foi o combate cruento entre um bùfalo e um leão, que terminou pêla morte

d'aquelle em arrancos de agonia, ao passo que o seu vencedor dava

prolongados rugidos, acompanhados por um côro de hyenas. De manhã, a 100

metros do acampamento, fomos encontrar os despojos do bùfalo, cuja

cabêça estava intacta, e do qual existiam apenas ossos e farrapos de

carne deixados pêlas hyenas.

Segui viagem, e depois de cinco horas de navegação, entre ilhas

divididas por canalêtes, formando um systema complicado, aportei sôbre

um ràpido desnivelado de um metro, primeiro elo da cadea de cachoeiras

que vai terminar pêla grande cataracta de Mozi-oa-tunia.

Com o basalto reapparece a floresta lindissima, onde, entre outras

àrvores, sôbressahem já os baobabs, esses gigantes da flora Africana,

que eu não via desde Quillengues.

Desembarquei, e fui deitar-me á sombra de um d'esses colossos vegetaes.

Tinha terminado a minha navegação no alto Zambeze, e d'ali até encontrar

o missionario o meu caminhar era de nôvo a pé.

A povoação de Embarira distava seis milhas do ponto onde eu estava, e

para lá partíram os marinheiros com as cargas.

Eu adormeci, e só acordei por noute escura. Só o Verissimo, Camutombo e

Pépéca estavam junto de mim. Perguntei-lhes ¿porque estàvamos ainda ali?

respondendo-me o Verissimo, que não tinha querido interromper o meu

sono. Apesar do escuro da noute, ia pôr-me a caminho, quando reparei que

não tìnhamos uma só arma. O Verissimo, que de vez em quando fazia

asneira, deixara levar as minhas armas para Embarira. Não fiquei

socegado, vendo-me sem armas no meio de uma floresta infestada de feras.

Mandei-os logo juntar lenha para fazer uma fogueira, mas ás escuras

elles nenhuma encontravam que servisse.

Pépéca lembrou-se então de ter visto perto de nós um barco velho, que

effectivamente encontrámos, mas a dura madeira do Mucusse resistia ao

corte da minha faca de mato.

Lembrei-me de o jogar como arìete contra o tronco do baobab, e logo nós

três dando-lhe o movimento de vai-vem, o lançámos com a màxima fôrça. A

canôa fez-se em rachas na parte que soffreu o choque. Esta operação,

repetida algumas vêzes, forneceu lenha e com ella uma bôa fogueira.

Estàvamos dispondo-nos a dormir ali, quando sentímos gente, e logo

appareceu o Augusto com alguns homens, que vinham procurar-me.

Parti com elles, e cheguei a Embarira pêla meia noute. O chefe da

povoação tinha-me preparado uma casa, onde me recolhi cheio de febre e

fadiga.

Estava em Embarira, na margem esquêrda do rio Cuando, cujas nascentes

havia descoberto e determinado três mezes antes.

Estava pròximo a alcançar o missionario, de quem esperava auxilio para

poder continuar a minha viagem, e estava em vèspera de novas aventuras,

que não calculava ainda.

O estado da minha saude muito melindroso, a dùvida no futuro, as

apprehensões do presente, e milhares de persovejos, que tinha a casa

onde me recolhi, fizéram-me passar uma noute atribulada.

Depois, uma outra idéa, não me sahia da mente. Ao chegar ali, sube, que

um branco (Macua), que não era nem missionario nem commerciante, estava

acampado de fronte de mim, na outra margem do Cuando.

¿Quem seria o meu companheiro n'aquellas remotas paragens?

Ardia em curiosidade, e contava os instantes para o alvorecer do dia

seguinte.

CAPÌTULO SUPPLEMENTAR.

A pàginas 184, em capìtulo anàlogo a este, tratei por modo succinto, dos

paizes comprehendidos no meu caminho entre a costa de Oeste e o Bihé.

N'este capìtulo buscarei epitomar o que nos meus trabalhos escolhi de

mais interessante, relativo ao vasto territorio que medea do Bihé ao

curso superior do rio Zambeze, até onde termina a narrativa da minha

viagem na pàgina antecedente.

Apresentando um resumo das minhas determinações astronòmicas, dos meus

estudos meteorològicos, etc., sem pedantismo o faço, e creio apenas,

n'isso cumprir um dever, tornando pùblicos um certo nùmero de estudos e

trabalhos de que fui encarregado, e que, se não interessam a alguns

leitores, podem merecer attenção de outros.

Sem querer alcunhar-me de sabio, declarar-me ignaro seria affectação.

Àlém da carta geral d'Àfrica tropical do sul, quiz eu apresentar algumas

cartas parciaes dos paizes que mais merecéram a minha attenção no

caminho que segui, por poder dar a estas um desenvolvimento de detalhes

que a pequena escala d'aquella não comportaria.

Vou tratar d'esse enorme tracto de territorio, debaixo do ponto de vista

geogràphico, com tanto mais interesse, quanto elle é desconhecido aos

geògraphos; que nas suas cartas o t[~e]m preenchido até hoje com linhas

mal seguras, traçadas pela mão trèmula da dùvida, colhida nas

informações pouco idòneas e contradictorias de gente ignara.

Um Europeo, Silva Porto, atravessou aquella parte da planura Africana,

antes de mim, e em grande parte muito mais ao sul do caminho que segui;

mas Silva Porto nunca publicou as suas interessantissimas notas, que

agora anda pondo em ordem; e é preciso dizer, que, se essas notas dam um

valioso subsidio ao estudo da ethnographia Africana, pelo muito que a

sua vista observadora perscrutou dos costumes e do viver dos nêgros, dam

ellas um fraco auxilio ás sciencias geogràphicas, em que elle, por falta

de elementos, não pôde fazer um trabalho sério.

Sam paizes completamente novos á geographia aquelles que apresentei nos

antecedentes capìtulos, e de que vou tratar n'este.

As coordenadas geogràphicas dos principaes pontos do meu itinerario

fôram calculadas dos elementos que adiante publíco.

Começarei por descrever o systema fluvial d'esta parte da planura

Africana.

As ùltimas àguas que correm á costa de Oeste nascem em tôrno do Bihé,

dentro de um V enorme formado por dois rios, o Cubango e o Cúito, que,

depois de se unirem em Darico, vam correr a S.E. no Deserto do Calaari.

O systema fluvial da Costa Oeste, entre a foz do Cuanza e a do Cunene,

termina quasi ali; recebendo ainda o Cuanza alguns affluentes de Leste,

que vam buscar as suas àguas ao meridiano 18 E. Greenw.; taes sam: o rio

Onda, que ainda nasce dentro do àngulo formado pelo Cubango e Cúito, e o

Cuiba e o Cuime, que entrelaçam as suas nascentes com as do Cúito e as

de outro rio, o Lungo-é-ungo, que pelo Zambeze vai lançar no mar Indico

àguas bebidas nos charcos de Cangala, por 18 de longitude; e que

percorrem a enorme distancia de mil quatrocentas e quarenta milhas, para

atingirem a meta que a natureza lhes marcou. A latitude destas

nascentes, que, em amigavel convivio, partilham as suas àguas para

pontos da terra tão distantes, é pròximamente de 12° e 30', isto é, está

n'essa faxa, comprehendida entre os parallelos 11 e 13, onde nascem os

dois rios gigantes da Àfrica Austral, o Zaire e o Zambeze, e seus

principaes affluentes.

Entre o Equador e o parallelo 20 austral, esses dois rios formam dois

systemas d'àguas perfeitamente definidos, mas que t[~e]m um traço commum

de união no parallelo 12 e na faxa que borda esse parallelo 60 milhas ao

Sul e ao Norte, entrelaçando ali as suas origens muitos dos grandes

affluentes dos dois colossos, e formando de per-si cada um d'elles um

systema d'àguas que vai engrossar as duas artérias principaes.

Assim pois, entre os meridianos 18 e 35 a leste de Greenwich, e os

parallelos 8 e 15 austraes, tôda a àgua que corre ao Norte vai entrar no

Atlàntico por 6°, 8', com o nome de Zaire; tôda a que corre ao sul entra

no Oceano Indico por 18°, 50', com o nome de Zambeze.

Caminhando a E.S.E. afastava-me da bem pronunciada linha divisoria das

àguas dos dois grandes rios, e ao passo que os meus ex-companheiros se

entregavam ao estudo de um d'esses systemas d'àguas filial do Zaire, eu

seguia passo a passo outro filial do Zambeze; e á medida que avançava no

interior do continente, esse systema ia-se apresentando firmemente

definido e claro.

Os paizes de que falei nos anteriores capìtulos, os mesmos de que estou

tratando aqui, sam a sede de um systema fluvial, que forma um dos

principaes, se não o principal, affluentes do Zambeze.

O rio Cuando, artèria principal d'este systema, nasce, por 18°, 57' de

longitude, 12°, 59' latitude, n'um pequeno charco apaülado, superior ao

nivel do mar em 1362 metros.

A sua foz, na confluencia com o Zambeze, está collocada em 17°, 49' de

latitude, 25°, 23' de longitude, na altura de 940 metros do nivel do

mar. A extensão do seu curso é de 540 milhas geogràphicas, ou

pròximamente mil kilòmetros. O seu desnivelamento da nascente á foz é de

422 metros, ou de um metro em cada 2369 metros de curso.

Os affluentes do rio Cuando, pela maior parte navegaveis, representam

uma extensão de vias fluviaes não inferior a mil milhas geogràphicas, ou

pròximamente mil e oitocentos kilòmetros, que com o curso d'aquelle rio

perfaz um total superior a 1600 milhas, ou perto de tres mil kilòmetros.

Estes algarismos enormes representam a importancia d'aquella parte do

planalto Africano.

Forçando a minha marcha, entre mil difficuldades, pude seguir a linha

das nascentes do grande rio e seus principaes affluentes, que ficáram

perfeitamente determinados nos seus cursos superiores.

Aos traçados hypothèticos, a que a maior parte dos geògraphos preferiam

deixar na carta d'aquella parte d'Africa um branco enorme, pude

substituir um traçado firme e seguro do paiz ignoto.

O rio Queimbo, o Cubanguí, o Cuchibi e o Chicului, sam todos rios

navegaveis, banhando fèrteis paizes e promettendo um futuro áquella

parte do continente nêgro, livre do zê-zê, a môsca terrivel, que corta

cerce o porvir de muitos outros terrenos Africanos.

Agora, que em breves traços apresentei o grande e principal systema

d'aguas das terras comprehendidas entre o Bihé e o Zambeze, vou

succintamente falar da sua orographia.

Para isso preciso antes dizer duas palavras da constituição geològica do

solo, que facilmente explica os pequenos accidentes d'elle.

O solo Africano Austral é rocha das èpochas primitivas. Se junto ás

costas, nos terrenos baixos observamos os depòsitos sedimentares, e o

trabalho da àgua, elles acabam ali, para não deixar perceber mais do que

a acção do fôgo.

Os calcàreos terminam nas escarpas oeste das montanhas que formam os

primeiros degraos do planalto. Succede-lhes immediatamente o terreno

plutònico, e encontramos até ao Bihé o granito primitivo, profusamente

distribuido. Do Bihé para leste o granito vai desapparecendo, e àlém

Cuanza é substituido pelos xistos argilosos, e micaxistos.

É sempre o terreno eruptivo, mas debaixo da acção do metamorphismo.

Effectivamente, do Cuanza ao Zambeze o solo é metamòrphico.

Sam xistos e micaxistos, tornados de tal modo plàsticos, pela acção das

grandes àguas, que do Bihé ao Zambeze, se algum viajante tencionar um

dia ali atirar alguma pedrada, eu recommendo-lhe, que leve pedras do

Bihé e d'onde termina a região granìtica, porque em todo o caminho que

segui não encontra uma só.

A natureza do terreno explica por si mesma o seu pouco accidentado, e a

falta de cataractas e ràpidos nos rios d'esta região Africana. Em tôdo o

caminho que segui ha uma depressão constante no terreno até ao leito do

Zambeze, formando uma inclinação suave. Esta depressão é de 292 metros,

em 720 kilòmetros, que medeiam da margem do rio Cuanza á planicie do

Nhengo.

A orographia d'aquella região é produzida pela acção da àgua, e

perfeitamente marcada pelas depressões dos leitos dos rios.

30 a 40 metros acima do nivel das àguas correntes, se elevam systemas de

montes de cumiadas arredondadas e uniformes, acompanhando sempre sem

excepção o curso das àguas.

A flora que se nos apresenta no Bihé, e onde a planura attinge a sua

maior elevação, mais pobre em àrvores, mas riquissima em arbustos e

plantas herbàceas; na parte leste do paiz do Bihé, e sobre tudo

àlém-Cuanza, já recupera, com a menor elevação do solo, tôda a sua

riqueza tropical.

A caça, que escaceia desde o paiz do Huambo até pròximo da nascente do

Cuando, reapparece abundante d'ali até ao Alto Zambeze. Seis raças

perfeitamente distinctas, e que os sertanejos da costa confundem debaixo

do nome genèrico de Ganguelas, assentam as suas povoações do Cuanza ao

Nhengo.

O paiz a leste do Cuanza, na parte que é cortado pelos rios, Cuime, Onda

e Varea, e seus pequenos affluentes, é habitado pelos Quimbandes.

Do Cuito á nascente do Cuando, assentam as suas povoações os Luchazes.

Os affluentes de E. do Cuando, este mesmo rio, sam povoados de gentes de

raça Ambuela.

Como disse na minha narrativa, o paiz dos Luchazes está sendo invadido

por uma emigração enorme de Quiôcos ou Quibôcos, que tendem a

estabelecer-se nas margens do rio Cuito. Entre este rio e o Cuando e

muito para o sul, o paiz, sem povoações fixas, é com tudo occupado por

uma grande população nòmada, os Mucassequeres.

A margem sul do rio Lungo-é-ungo e seus pequenos affluentes, sam

habitados por os Lobares. Tres d'estas raças, os Quimbandes, Luchazes e

Ambuelas, falam a mesma lìngua, o Ganguela, com pequenas modificações.

Os Quiôcos e Lobares falam dialectos differentes, e os Mucassequeres uma

lìngua original, tão diversa das outras, que é impossivel serem

comprehendidos de povos estranhos.

Os Quimbandes sam indolentes e pouco guerreiros, pouco agricultores e

pobres em gados, occupando um paiz fertilissimo, em todas as condições

de dar a riqueza aos seus possuidores.

Formando federação, não deixam de andar em questões continuadas com os

vizinhos da mesma raça.

Não sam bravos, mas sam ladrões, e atacam sempre as comitivas do Bihé

que vam negociar cêra mais ao interior, logo que essas comitivas sam

fracas e elles conhecem que podem vencer.

É certo, logo que desfila uma comitiva no paiz, estarem elles embuscados

a contar as espingardas que traz, e o nùmero de caixas de pòlvora, que

se distinguem pelo seu invòlucro de pelle de leopardo, costume adoptado

pelos sertanejos Bihenos.

Se alguem entrar no paiz dos Quimbandes com 50 espingardas e seis ou

oito caixas de cartuxos, pode dormir descançado, que só terá d'elles

amizade e respeito.

Os Luchazes, um pouco mais agricultores do que os Quimbandes, não

possuem já rebanhos bovinos, e apenas ha aqui e àlém algum gado caprino

de inferior especie.

Já cuidam de colher cêra, e sam um pouco mais industriosos do que os

seus vizinhos de oeste.

Em quanto a valor e honestidade, orçam pelo mesmo. Constituidos em

federação como aquelles, cada povoação tem um chefe independente, um

pequeno senhor, que não se dá ares de tyranno com o seu pôvo.

Os Ambuelas, de muito melhor ìndole, não sam nada guerreiros. Sam talvez

a melhor gente indìgena d'Àfrica Austral.

Grandes cultivadores, não trabalham menos na colheita da cêra. Sam

pobres, podendo ser riquissimos se tivessem gados.

Formam federação como os outros, mas os chefes conservam um pouco mais

de independencia.

Em geral, vi n'Àfrica, que mais felizes e livres sam os povos governados

por pequenos senhores. Não se praticam ali as scenas de horror tão

vulgares nos grandes imperios regidos por autòcratas.

Se o roubo é vulgar, é desconhecido ali o assassinio, ao passo que entre

os grandes potentados o roubo vem depois do homicidio.

Sem pertenções a propheta, quero crer, que, um dia, será entre aquelles

povos que se estabelecerám os mais seguros elementos de civilisação

Europea n'Àfrica.

É minha opinião, que nos paizes occupados pelas confederações Africanas,

regidos por pequenos règulos, de ìndole menos guerreira, por se

reconhecerem mais fracos, é que deve entrar a civilisação com mão forte,

debaixo da forma do commercio, do missionario e do explorador.

Divirjo, por tanto, da opinião do mais ousado dos exploradores, do mais

enèrgico trabalhador Africano, do mais dedicado apòstolo da civilisação

do continente nêgro, do meu amigo H. M. Stanley.

Diz elle, que devem os missionarios atacar a Àfrica pelos grandes

potentados.

Não penso assim, e o estudo dos factos demonstra-me o contrario.

O Matebelle desde 25 annos que possue missionarios Inglezes, e não ha

ali um só Christão! Se o chefe é catechizado, o seu pôvo obedece e finge

seguir a lei de Christo.

É como a estàtua de Nabuchodonosor, tem pes de barro aquella

civilisação.

Môrra o chefe, venha outro que não queira trocar o harém onde ceva a

brutal lascivia, pelo thàlamo nupcial onde uma só espôsa lhe acompanhe

os passos na carreira da vida, e cahio o monumento, a civilisação

desfez-se, e não ha àmanhã um só christão na igreja que hoje regorgitava

de pôvo.

O commercio é bem recebido pelo grande potentado, porque representa

interesses immediatos materiaes de que elle colhe o fruto.

No Matebelle, onde os missionarios Inglezes não t[~e]m podido fazer

escutar a doutrina de Christo, os negociantes Inglezes t[~e]m

introduzido com o vestuario e com outras necessidades que t[~e]m sabido

crear, uma civilisação relativa.

Podem apontar-me o exemplo do Bamanguato, mas eu respondo com o que já

disse. Môrra o rei Khama, e vá ao poder um sova que não queira ser

Christão, e tôdos os cathequizados se esvaïrám como fumo. Os negociantes

continuarám o seu tràfico, mas o missionario terá de repetir com elle as

orações do Domingo, ás pessôas de familia que o rodeam.

Digo-o sem receio de errar.

No Transvaal, entre pequenos règulos, vemos muitos indìgenas que seguem

a lei do Evangelho. No Basuto ha Christãos convictos, independente da

influencia d'alguns chefes que o não sam.

Se os exemplos sam estes, aquelles que vêem no missionario o primeiro

mensageiro da civilisação Africana, que ataquem os pontos fracos do

reducto, e não vam perecer ingloriamente onde o cruzamento dos fogos é

mais activo.

Eu sou apologista do missionario, merecem-me a maior consideração não só

as missões, em si mesmo, mas os seus membros espalhados no meio dos

povos bàrbaros do continente nêgro. Tenho visto em quasi todos os que

conhêço a tendencia para seguirem um caminho differente d'aquelle que

aponto.

Tôdos querem um grande nùmero de adeptos para a catechese, sem olharem

ao terreno em que semeam.

Uma vez que incidentalmente falei dos missionarios Africanos, vou

ràpidamente dizer duas palavras mais sôbre o assumpto, que me proponho a

ratar um dia largamente em obra adequada.

Eu francamente não creio o cèrebro do prêto á altura de comprehender um

certo nùmero de questões, comezinhas entre povos de raças evidentemente

superiores.

As questões abstractas sam sublimes e incomprehensiveis a tão inferiores

organizações.

Explicar theologia a um prêto equivale a expor as sublimidades do

càlculo differencial a uma assemblea de camponios.

Mas, se o prêto não está á altura de poder jàmais comprehender as

verdades da religião de Christo, têm sem dùvida o sentimento do bem e do

mal, e está nas condições de comprehender os principios de moral commum.

Marchem para entre os povos ignaros d'Àfrica Central os missionarios,

sigam sem trepidar o caminho que lhes impõe a sua missão evangèlica, mas

desvendem os olhos.

Tomem para si o que ha de abstracto na sciencia de Deus, e não queiram

ensinar aos nêgros o que ha de sublime n'ella para cèrebros mais bem

organizados. Ensinem moral e só moral, com o exemplo e com a palavra;

criem necessidades aos que a ignorancia faz prescindir de tudo;

criem-lhes necessidades, que ellas farám nascer o trabalho, e só por

elle se regenera um pôvo.

Quero missionarios, mas quero missionarios do christianismo e da

civilisação, homens que compenetrados dos seus devêres para com Deos e

para com a sociedade, saibam firmar o edificio social em sòlidas bases;

ensinando o bem e o trabalho, e tudo o que o prêto possa comprehender;

esperando a occasião que o tempo, a civilisação, não deixará de trazer,

se elle bem trabalhar, para ir pouco a pouco incutindo nos ànimos as

verdades da theologia e da moral.

Busque primeiro fazer do prêto um homem, que tempo terá de fazer do

homem um Christão. Seguir o caminho contrario é edificar na areia.

No correr d'esta obra terei ainda de falar nas missões Africanas, e

falarei desassombradamente com a consciencia de que presto um verdadeiro

serviço á causa das missões e á causa da humanidade, apontando erros de

que ellas estam eivadas.

O homem que mais poderia coadjuvar o missionario em Àfrica seria o

negociante.

Infelizmente o commercio sertanejo está em mãos de bem tristes apòstolos

da civilisação.

Já falei dos Portuguezes, e com bem pesar meu tenho de metter

estrangeiros em linha igual. Por um lado, a invasão do commercio pelos

Àrabes de Zanzibar não dá em civilisação e cultura o que devia dar,

porque a dissolução de costumes de taes gentes destroe tudo quanto o

commercio adianta.

Por outro lado, os _traders_ (traficantes) Inglezes, creio que deixam

muito a desejar em moralidade, segundo ouvi dizer a missionarios seus

conterraneos. Esta questão, do commercio sertanejo como meio

civilisador, é questão que me proponho a tratar um dia, e que não é

cabida aqui, onde só por incidente falei de missões e commercio.

Volvendo a entrar em assumpto, dizia eu, que os paizes comprehendidos

entre o Cuanza e o Zambeze estam em condições de receberem com mais

facilidade do que os outros povos que conhêço em Àfrica, o impulso

civilisador que a Europa hoje se empenha em imprimir aos esquècidos

povos do grande continente.

Deixando estes paizes, dos quaes já falei detidamente nos anteriores

capìtulos, vou entrar no Alto Zambeze.

Até ali era eu o primeiro explorador a pisar aquellas paragens, o

primeiro a descrevel-as, o primeiro a apresentar uma carta geogràphica

que as representasse; ali havia sido já precedido por outro, e por outro

que se tornou tão distincto na obra da civilisação Africana, que ganhou

um tùmulo em Westminster Abbey, e repousa hoje junto dos reis, dos

grandes homens de Inglaterra. Vinte annos antes de mim, David

Livingstone percorreu aquelle paiz.

N'esse tempo era elle governado por outra raça, e eu fui encontral-o em

condições bem differentes.

As condições de geographia physica eram as mesmas; mas os geògraphos que

seguirem outros, terám sempre rectificações a fazer, terám sempre alguma

cousa a acrescentar.

Entre a carta de Livingstone e a minha ha differenças que já déram nas

vistas a alguns geògraphos Europeos.

Que o vulto respeitavel do cèlebre explorador me perdôe se eu o

contradizer em alguns pontos da sua geographia do Alto Zambeze. Era a

sua primeira viagem, e o Missionario ousado estava longe ainda de ser o

explorador geògrapho do futuro. Elle mesmo não se vexa de confessar que,

n'esse tempo, de balde tentou medir a largura do rio por um processo

trigonomètrico comezinho.

Da confluencia do Liba á do Cuando, o Zambeze apenas recebe na margem

direita dois affluentes, o Lungo-é-ungo e o Nhengo.

Quem viaja da Costa de Oeste vê logo, que entre o Nhengo e o Cuando

nenhum rio pode existir. Assim pois o rio Longo, o Banienko, etc., sam

traços filhos de informações erròneas.

Na longitude do Zambeze, no parallelo 15, encontrei tambem differença

grande para oeste; notando-se que essa differença envolve um êrro

manifesto; porque eu observava os reapparecimentos do primeiro satèlite

de Jùpiter, e havendo erro da minha parte era esse erro prejudicial a

mim, porque envolvia approximação da determinação de Livingstone.

Cada quatro segundos que eu visse mais tarde o reapparecimento, era uma

milha mais a favor d'elle.

O que poderia produzir um erro que me afastasse da posição determinada,

era eu ver o satèlite antes do reapparecimento, o que é materialmente

impossivel.

O curso do Alto Zambeze, na parte em que o visitei, isto é, do parallelo

15 á cataracta de Mozi-oa-tunia, é dividido em quatro trôços

perfeitamente distinctos. Do parallelo 15 (e mesmo muito mais do Norte)

até pròximo do parallelo 17, é perfeitamente navegavel em tôdas as

èpochas do anno.

Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo · 第 6 / 23 段