potentados. Veja-se o que tem acontecido no Muatayanvo; veja-se o que
aconteceu a Monteiro e Gamito no Muata-Casembe; veja-se o que me tem
acontecido a mim com Lobossi, no Lui.
O sertanejo Biheno, na cubiça de obter o marfim, dá tudo ao règulo;
chêga a dar-lhe a roupa que leva vestida, e volta ao Bihé de tanga de
pelles, como os seus carregadores.
No Lui, quando era muito frequentado por sertanejos Bihenos, havia o
costume, de elles entregarem tudo ao règulo, e esperarem que elle lhes
desse pêla factura que levavam, o que entendesse sufficiente.
O explorador que hôje chêgue ali e não faça o mesmo, está perdido.
Àlém d'esta, outra razão deve aconselhar o explorador a evitar os
grandes potentados; é ella o caso de uma aggressão, sempre de recear.
Com os pequenos senhores que povôam a maior parte da Àfrica austral,
poderá, em tal caso, levar a melhor; em quanto nos grandes imperios será
forçosamente esmagado.
Isto pensava eu voltando ao meu campo nas montanhas de Catongo, a 17 de
Setembro, depois de ter comido leite coalhado e batatas em casa de
Machauana.
Cheguei a Catongo ja noute, e sube que o meu Augusto tinha morto uma
gazella, o que nos fazia òptimo arranjo.
As armadilhas improvisadas continuavam a dar patos e francolins.
Nos dias seguintes, os trabalhos tomáram-me tôdo o tempo; podendo obter
uma longitude muito approximada, e fazendo uma rigorosa determinação da
declinação da agulha, estudos meteorològicos, etc.
No dia 19, ainda não tinha recebido mais novas do rei Lobossi, e decidí
mandar lá o Verissimo, a saber se a offerta das canôas era ou não
comedia. N'esse dia apparecêram ali uns prêtos, que pêlo typo conheci
logo não serem do paiz. Diziam elles serem da Luêna, e querendo indagar
onde ficava essa terra, elles mostravam-me o N.E., e por meio de nòs
dados em uma correia fina, faziam-me comprehender que tinham andado
vinte e seis dias para chegar ali. Vinham em nome do seu chefe
comprimentar o rei Lobossi, e sabendo que estava um branco no paiz,
viéram ver-me, por ser animal nôvo para elles.
Para falarmos, servia-me de intèrprete o velho chefe da aldeola, que
falava a lìngua dos Machachas, lìngua em que elles se exprimiam bem,
dizendo, ainda assim, ser muito differente da sua. Disséram-me, haver no
seu paiz muitos elephantes, e serem caçadores; empregando para isso a
azagaia, ùnica arma de que usam. Sam franzinos de côrpo e de pequena
estatura, com feições bastante regulares. Uns vinte que eu vi, traziam,
quasi tôdos, na cabêça uns penachos feitos de sêdas de elephante,
demonstrando cada penacho um elephante môrto pêlo que o traz. Vestem
pelles como os do Cuchibi, e trazem pannos de _liconde_ para se
cobrirem.
Traziam manilhas de ferro e de cobre fabricadas por elles. A
difficuldade que havia de nos entendermos não me permitio levar muito
longe as averiguações ácerca do paiz d'elles e dos terrenos que
atravessáram para chegar ali.
No dia 21, Verissimo voltou de Lialui, dizendo, que as canôas estavam
promptas, e que Lobossi me mandava pedir para ir ficar na cidade no dia
immediato. Enviei logo um homem ao rei, dizendo-lhe que só iria em dois
dias, por estar doente; sendo o verdadeiro motivo d'essa demora, o ter
de fazer observações e completar estudos meteorològicos no dia 22. Por
esse mesmo enviado mandei dizer a Gambela, que me apromptasse aposento
em sua casa, porque iria ser seu hòspede. Eu queria fazer do ladrão
fiél.
A 23 de Setembro, deixei Catongo, e caminhei para Lialui, onde cheguei
ás duas horas e meia da tarde. Gambela esperava-me com pompa, e foi
conduzir-me ao alojamento que me tinha preparado. A marcha por um sol
abrasador prostrou-me de fadiga, e só á noute pude ir visitar Lobossi.
Elle recebeu-me muito bem, dizendo-me, que estava convencido de que fôra
illudido por Caiumbuca e pêlos muleques do Silva Porto; que acreditava
ser eu um enviado do governo do Mueneputo, e que me queria dar todas as
satisfacções pêlos transtornos que eu tinha soffrido nos seus estados,
de que elle dizia não ter tido a menor culpa.
Aproveitei tão bôas disposições, para renovar o meu pedido de gente e
auxilio, para seguir pêlo paiz do Chuculumbe até Caiuco, e descer depois
o Loengue embarcado, e ir ao Zumbo pêlo Zambeze. Respondeu-me, que isso
não podia ser, porque esse projecto encontrava uma grande opposição nos
velhos do seu conselho. Que o Munari (Livingstone), no tempo de
Chicreto, ja tinha feito aquella viagem com gente do Lui, e que nenhum
dos que com elle fôram para leste voltara mais ao paiz.
Os velhos falando elle n'isso, disséram-lhe, que me perguntasse o que
era feito dos seus irmãos Mbia, Caniata e Scuêbu, e muitos outros que
fôram e não voltáram. Diziam elles, que, ao partir, Livingstone
prometteu, que os tornaria a trazer ali; e ainda hôje as mulheres e os
filhos esperam por maridos e pêlos pais.
Affirmou-me, que se podesse, me daria gente, mas a resistencia do pôvo
era grande, e não lhe convinha ir contra ella. Os três barcos estavam ás
minhas ordens para descer o Zambeze, e nada mais podia fazer por mim.
A 24 de Setembro, logo de manhã recebi a visita de Lobossi, que se vinha
despedir de mim, e apresentar-me os seus escravos que deviam tripular as
canôas até umas povoações do Zambeze, onde o chefe me deveria dar novos
barcos e novas tripulações. Deu-me uma pequena ponta de marfim, para eu
offerecer ao chefe das povoações onde arranjaria os barcos, e trazia
tambem um bôi para a matalotagem. Agradeci-lhe muito, e separámo-nos nos
melhores termos de amizade. Segui a S.O., e depois de uma hora de
caminho, encontrava o braço do rio a que chamam pequeno Liambai, e pouco
depois, três pequenas canôas largavam a margem, levando a minha bagagem,
a mim, a Verissimo, Camutombo e Pépéca.
O Augusto, Moero e Catraio, com as duas mulheres, seguíram por terra,
acompanhados do caçador Jasse e do chefe Mutiquetéra, mandados por
Lobossi, para seguirem comigo, e irem dando as suas ordens aos chefes, a
fim de ter o caminho livre.
Mais dois entes, de que me tenho descurado de falar, dois entes que
representavam duas dedicações inquebraveis, aquelles que desde a minha
sahida não me haviam dado um ùnico dissabor, estavam ali comigo, sempre
promptos a seguir quando eu marchava, a pararem quando acampava, a
dispensarem-me mil caricias quando me viam triste, a divertirem-me
quando alegre estava. Eram Córa e Calungo, a minha cabrinha e o meu
papagaio.
A viagem do rio ia separar-me tôdos os dias de Córa, que não podia ir
sempre embarcada pêla exiguidade de espaço nas canôas, mas Calungo
voando sem mêdo para o meu hombro, seguio embarcado.
Depois de termos navegado ao sul por um quarto de milha, deixámos o
pequeno Liambai, e mettemos a S.O. por um canalête, por onde o braço
oeste do rio deita um pequeno veio de àgua, de lagôa em lagôa para o
braço leste.
No intervallo entre as lagôas, ás vêzes de mais de cem metros, o navegar
é difficil, porque é difficil navegar onde não ha àgua. Foi preciso
muitas vêzes descarregar os barcos e arrastal-os sôbre um fundo de lôdo.
Nas lagôas o caniçal espêsso embaraçava tambem a navegação.
Depois de um trabalho violento e aturado, parámos ás seis horas na
margem de uma lagôa, em planicie recentemente queimada, onde não havia
com que construir o mais pequeno abrigo.
Tinha havido o cuidado de levar lenha, e com ella podémos assar carne,
que eu comi com appetite voraz, por não ter ainda n'esse dia tomado
alimento. Estendi depois a minha cama de pelles sôbre a terra hùmida e
deitei-me ao relento.
Os remadores estivéram tôda a noute assando carne e comendo; fazendo
assim desapparecer a maior parte do bôi dado por Lobossi, e mostrando
que a capacidade estomàchica dos sùbditos do rei do Lui é
verdadeiramente incommensuravel.
Depois de uma pèssima noute, parti ao alvorecer do dia 25, e naveguei em
uma lagôa por meia hora, entrando em seguida no braço principal do
Liambai. Apparecia nas margens uma tal quantidade de caça, que fiz parar
a flotilha, e entrar em serviço a Carabina d'El-Rei; que, na sua estrea,
me forneceu logo vìveres que calculei chegariam para dois dias, apesar
da voracidade dos Luinas.
O Liambai tinha ali uns 200 metros, e muito fundo. A corrente era
pequena, e essa mesma não aproveitada pêlos remadores, que receando os
hippopòtamos, que sem cessar vinham resfolgar no pego, iam sempre
encostados ás margens, onde a àgua pouco funda não permitia o accesso
aos enormes pachidermes. Tìnhamos de parar de instante a instante, para
tirarmos àgua das canôas velhas e fendidas.
Parei junto a Nariere, para calafetar o meu barco, e em quanto os prêtos
faziam trabalho com hervas e barro, medi a velocidade da corrente, que
achei ser de 24 metros por minuto. O meu rumo medio era S.E., mas o rio
dá ali voltas curtas em grande zig-zag; tendo eu em uma d'ellas navegado
por 20 minutos a N.O. Acampei na margem esquêrda, pêlas cinco da tarde,
nas mesmas condições da vèspera, sem abrigo e ao relento.
Muitas vêzes, n'aquelle dia, quando fugiamos aos hippopòtamos de um
lado, appareciam elles no outro, e corrémos perigo grave.
Eu não lhes quiz atirar, para não gastar as munições. Só quem se vê no
centro d'Àfrica com pouca pòlvora sabe o valor de um tiro.
Os barqueiros, que eram escravos do rei Lobossi, quizéram ser insolentes
comigo; mas eu metti-os na ordem a pao, segundo instrucções recebidas do
proprio Lobossi, que prevenira o caso.
O Verissimo, que desde Quillengues resistira á febre, cahio com um
violento accesso, e eu mesmo não estava sem ella.
No dia immediato naveguei apenas por espaço de uma hora, parando junto á
povoação de Nalólo, governada por uma mulhér, irmã de Lobossi. Mandei
pedir-lhe desculpa de a não ir visitar, allegando a minha doença e a
febre do meu intèrprete Verissimo. Ella aceitou a desculpa, e enviou-me
um pequeno presente de massamballa. Apesar de doente, fui caçar, para
fazer nova provisão de vìveres, e consegui matar dois antìlopes
(Pallahs). As pelles, como as da ante-vèspera, fôram sêcas com cuidado e
guardadas.
Pude trocar uma perna de carne de Pallah por um pequeno cesto de feijão
fradinho.
Verissimo peiorou muito n'esse dia, e eu á noute ardia em febre tambem,
tendo, apesar d'isso, de dormir ao relento n'um terreno hùmido. Acordei
completamente encharcado do orvalho, e muito doente. Segui viagem, e
depois de seis horas uteis de navegação, com o rumo medio de S.S.E.,
acampei, sempre na margem esquêrda.
Apesar de outra noute pèssima, a febre ia cedendo a fortes doses de
quinino, e no dia 28, naveguei por hora e meia para alcançar a povoação
de Moangana, cujo chefe me devia fornecer um barco por ordem de Lobossi.
O velho Moangana era um Luina de cabellos grisalhos, muito respeitoso,
que me recebeu muito bem, dizendo-me, que no dia immediato me levaria
elle mesmo á povoação da Itufa, onde eu devia pernoitar, um barco e
algum presente que me podesse arranjar.
O vento era fortissimo de leste, e encrespava as àguas do rio, que não
tinha menos de uma milha de largo. Havia perigo para canôas tão pequenas
como as nossas, mas, apesar d'isso, seguímos, e em hora e meia chegámos
a Itufa, grande aldea, na margem esquêrda.
Mais de uma vez estivémos em grande risco de soçobrar, e declaro que é
triste perspectiva a de cahir a um rio coalhado de crocodilos.
O Verissimo ia um pouco melhor e eu mesmo, apesar da febre quasi
constante que me minava, sentia-me com mais fôrças.
Ja me esperavam na aldea, prevenidos pêlos meus muleques que jornadeáram
por terra, e que, com o caçador Jasse, e com o chefe, haviam chegado
n'essa manhã.
O chefe recebeu-me bem, dando-me logo uma casa, e offerecendo-me uma
panella de leite coalhado e uma cêsta de farinha de milho; mas começou
por dizer-me, que tinham enganado Lobossi, e que elle não tinha barco.
Comi um pouco de leite e farinha, e os meus muleques n'um momento
fizéram desapparecer o resto do presente do chefe, declarando-me que
tinham fome, depois de terem comido tudo. Instei com o chefe para me
obter alguns vìveres mais; mas elle respondeu-me, que só a trôco de
fazendas m'os dariam, e como eu não as tinha, nada se poderia fazer.
Dei aos muleques as pelles dos antìlopes que tinha môrto, e a trôco
d'ellas sempre arranjáram farinha, ginguba e tabaco.
Á noute, quando me fui deitar, vi que estava rodeado de aranhas enormes,
muito chatas e nêgras, que desciam das parêdes em vagaroso caminhar; e
fugi da casa, indo deitar-me no pàteo ao relento. Estava escrito, que
durante a minha viagem no Zambeze, nem uma só noute um tecto abrigaria o
meu sono.
No dia 29, logo de manhã, chegou o velho Moangana com o promettido
barco.
Veio renovar os seus protestos de amizade, e retirou-se; dizendo-me, que
tinha cumprido as ordens do seu rei Lobossi, e esperava que eu estivesse
satisfeito, porque elle queria a amizade dos brancos.
Na Itufa continuavam as difficuldades para a outra canôa; o chefe só
fazia repetir-me, que a não tinha, e lastimar que houvessem enganado
Lobossi e a mim.
Os Luinas e Macalacas t[~e]m por hàbito esconder as canôas em lagôas
interiores cobertas de caniçal, que communicam com o rio por pequenos
canalêtes disfarçados pêla vegetação e só d'elles conhecidos. Quando não
querem que as vejam, difficil é encontral-as.
O caçador Jasse e o chefe Mutequetera, conhecedores das manhas dos
Luinas, tanto buscáram entre os caniçaes das lagôas, que encontráram uma
canôa; fazendo o chefe da Itufa mil protestos, de que ignorava que ella
estivesse ali.
As casas da Itufa sam, como tôdas as dos Luinas, de três formas
differentes, e taes como ja descrevi falando das povoações de Canhete e
da Tapa; mas aquellas que t[~e]m a forma tronco-cònica sam de muito
grandes dimensões. A que me foi offerecida pêlo chefe, a casa das
aranhas, media, no quarto interior, 6 metros de diàmetro, e no exterior
10.
[Figura 110.--Casa na Itufa.]
N'estas dimensões, não podem como as outras ser construidas só de
caniços, e umas fortes estacas verticaes sustentam o tecto, cuja armação
é de longas varas de madeira.
Ha ainda na Itufa outro typo de casas, que é original d'ali.
Sam compostas estas de uma casa ogival, a que addicionam uma
semi-cilìndrica deitada no sentido do eixo, formando assim dois
compartimentos distinctos. Estas casas sam grosseiramente construidas,
ao passo que a casa tronco-cònica, verdadeiro typo da casa Luina, é
edificada com cuidado, e muito resguardada.
Pêla primeira vez, depois de ter deixado o Bihé, vi gatos em Àfrica, que
os ha em abundancia na povoação da Itufa. Ha tambem ali muitos cães de
bôa raça, que empregam com vantagem na caça dos antìlopes.
Continuava a difficuldade de obter vìveres, mas a carabina suppria a
falta de fazendas para permutações, e sempre ìamos obtendo alguma
farinha de massambala a trôco de carne e pelles.
As tripulações estavam promptas, e os dois barcos em acção de seguir,
quando uma nova difficultade veio retardar a viagem.
Os remadores declaráram, que não embarcavam, em quanto eu não deposesse
nas sepulturas das mulheres dos antigos chefes da Itufa, alguns massos
de missanga branca.
Sem ser cumprido esse preceito, afirmavam elles estarmos sujeitos a
innùmeros perigos durante a viagem; porque as almas das mulheres dos
chefes, desassocegadas e irritadas, nos perseguiriam sem trègua. Eu, que
não tinha missanga, nem branca nem prêta, chamei o chefe e mostrei-lhe a
absoluta impossibilidade de socegar as almas das fidalgas da Itufa. Elle
a muito custo pôde resolver as tripulações a seguir, mas foi só no
primeiro de Outubro que largámos d'ali.
O meu nôvo barco era uma piroga, cavada em um comprido tronco de
Mucusse, e media 10 metros de longo, por 44 centìmetros de bôca, e 40
centìmetros de pontal.
As duas àrvores empregadas no alto Zambeze para a fabricação das
almadias, sam o _Cuchibi_ e o _M'ucussi_, enormes leguminosas das
florestas, da região das cataractas. A madeira d'estas àrvores gigantes,
é de extrema dureza, e de maior densidade do que a àgua.
A minha piroga era tripulada por quatro homens, um á proa e três a ré.
Eu ia sentado na frente, a um têrço do comprimento do barco, sôbre a
minha mala pequena, que continha os meus trabalhos. O duplicado do meu
diario, observações iniciaes, etc., levava eu amarrados ao côrpo com uma
cinta de lã. As minhas armas iam ao meu lado, e as pelles do meu leito
completavam a carga.
Na outra canôa, Verissimo, Camutombo e Pépéca, as malas da roupa e
instrumentos, e a caça que ia matando. Os remadores remam sempre de pe,
para equilibrarem as canôas, que se voltariam sem isso. O remar em taes
barcos é verdadeiro exercicio acrobàtico.
[Figura 111.--O meu Barco.
Remos.]
Uma piroga do alto Zambeze é como um patim gigantesco, em que o remador
tem de fazer tôdos os prodigios de equilibrio do patinador sôbre o gêlo,
para sustentar a posição estavel. Foi em taes condições que eu, no dia 1
de Outubro, deixei a Itufa, e me aventurei sôbre o rio gigante, cujas
ondas levantadas por um forte vendaval de leste, ameaçavam a cada
momento submergir as estreitas almadias.
Depois de quatro horas de viagem, parei na margem esquêrda, em uma
pequena enseada, onde a gente que vinha por terra tinha dado ponto de
reunião aos barqueiros. As minhas novas tripulações eram mais comedidas
do que os muleques do rei que me trouxéram a Itufa, mas começavam ja com
pedidos e exigencias.
Não encontrei caça no mato, mas, tendo chegado alguns bandos de patos a
uma lagôa pròxima, fui ao barco buscar a espingarda de caça miüda, de
que só tinha 25 cartuxos, e consegui matar 17 patos, de 6 tiros.
O ponto onde eu estava, era o extremo sul da grande planicie do Lui. As
duas nervuras de montanhas, que no parallelo 15 estam distanciadas de 30
milhas, convergem ali; só parando para dar um leito de dois kilòmetros
ao Zambeze. Á planicie monòtona e nua succede o paiz accidentado e
coberto de luxuosa vegetação. Ás margens de arêa branca e finissima, uma
arêa que, comprimida sôb os passos do homem, solta vagidos como os de
uma criança, produzindo uma impressão inexplicavel, porque, estando
muito sêca, imita um fraco grito humano. A essas margens de arêa tão
extraordinaria, succede, em transição ràpida, o terreno vulcànico; e sam
blocos de basalto que marginam o rio.
Foi com o maior sentimento de prazer que os meus olhos se fixáram sôbre
esses penêdos denegridos, vomitados em ondas de fôgo nas èpochas
primitivas do mundo. Desde o Bihé, que não via uma pedra, e com
satisfação olhava para aquellas que via ali.
Quando o meu cozinheiro Camutombo tratava de acender fôgo para cozinhar
os patos, o lume communicou-se á herva alta e sêca que cobria o solo, e
logo, assoprado por um vento forte, voou por sôbre a terra em ondas de
chamas.
O atear do incendio foi tão ràpido, que por um momento estivémos
envolvidos n'elle; tendo de nos precipitar nas canôas para lhe escapar.
No dia immediato parti, sempre a S.S.E., e depois de quatro horas de
navegação, comecei a encontrar grandes filões basàlticos, atravessando o
rio no sentido E.O. Alguns v[~e]m tanto á flôr d'àgua, que tornam
difficil a navegação, e ainda que a corrente é inapreciavel, foi preciso
diminuir a velocidade dos barcos para evitar choques perigosos,
n'aquelles paredões naturaes.
O rio começa, na região basàltica, a ser povoado de ilhas cobertas de
vegetação pomposa. Pêla tarde, avistámos um bando de ongiris
(_Strepsiceros kudu_) que pastavam na margem direita.
Desembarquei um pouco a montante, e consegui matar um dos soberbos
antìlopes.
Mandei seguir o barco, e eu caminhei por terra por espaço de uma hora.
Levantei bandos de francolins, codornizes, e pintadas (_Numida
meleagris_), que nunca tantos vi em Àfrica. A terrivel môsca zê-zê
tambem é abundantissima ali, incommodou-me muito na floresta com as suas
picadas dolorosas, mas inoffensivas para o homem; e tantas havia e tanto
me perseguíram, que até depois de estar no barco ainda por muito tempo
estive coberto d'ellas.
Fui acampar n'uma ilha muito extensa de um aspecto lindissimo, depois de
seis horas uteis de navegação a rumo de S.S.E.
O Verissimo estava completamente restabelecido, mas eu era devorado por
uma febre lenta e contìnua, que me minava a existencia.
No dia 3 de Outubro, segui viagem, sempre por entre ilhas formosissimas,
cobertas de vegetação luxuriante. Navegámos, havia duas horas, quando
vimos dois leões que na margem direita bebiam àgua do rio. Apesar de eu
ter estabelecido como regra não me entremetter com feras, sem a isso ser
forçado, e apesar ainda do valor que então tinham para mim os cartuxos,
os instinctos do caçador vencêram a razão, e mandei abicar a canôa á
margem, direita aos bichos.
Os leões, percebendo-nos, deixáram o rio, e fôram postar-se em uma
eminencia a duzentos metros. Saltei em terra e caminhei para elles.
Deixáram-me approximar a uns cem metros, e depois poséram-se lentamente
a caminho para montante do rio, parando de nôvo depois de curto espaço.
D'essa vez acerquei-me a cincoenta metros, mas elles caminháram de nôvo
e embrenháram-se em um pequeno massiço de arbustos. Eram dois leões
machos de grandeza desigual, tendo um quasi o dôbro da corpolencia do
outro.
Cheguei junto do matagal, e perscrutando a brenha, vi a cabêça de um dos
magestosos animaes, por entre os arbustos, a vinte metros de mim.
Preparei a carabina, e ao apontar, senti um tremor convulso percorrendo
tôdos os membros. Lembrei-me de que estava fraco e debilitado pêla
febre, e receei que o pulso tremêsse ao dar ao gatilho. Tive uma
sensação singular que até então não havia experimentado, e que
provavelmente era a do susto. Por um esfôrço de vontade o tremor parou,
a carabina tomou firme a direcção que eu lentamente lhe dava, e como ao
atirar a um alvo, quasi fui sorprendido pêlo meu proprio tiro. Passou
ràpida a nuvem de fumo, e nada vi no sitio onde segundos antes se
mostrava a cabêça da soberba fera. Carreguei novamente o cano vazio, e
com dois tiros promptos, dei volta ao massiço. Para o lado do Norte
seguiam as pégadas de um leão, mas de um só. O outro estava ainda ali.
Aventurei-me no cerrado de arbustos, e entre um tufo d'hervas vi o corpo
inerte do rei das florestas Africanas. A bala _express_ esmigalhando-lhe
o cràneo, cortara-lhe de golpe a vida. Chamei gente, e n'um momento a
pelle e garras fôram-lhe arrancadas.
Na massa encephàlica foi encontrada a bala que produzio a morte.[5]
Ao largar a margem, principiámos a sentir, mal distincto, um ruido
longinquo, semelhante ao do mar revolto quebrando nas rochas das praias.
Devia ser uma cataracta, e essa idéa, que logo me occorreu, foi
confirmada pêlos remadores. Pouco depois, os filões basàlticos
multiplicavam-se, formando paredões naturaes, sempre no sentido E.O.;
mas, ao contrario do que tinha acontecido até ali, o rio ja levava uma
corrente ràpida que tornava perigosissimo o navegar.
Um bando de Malancas que vimos na margem direita, obrigou-me de nôvo a
parar, e conseguindo eu matar uma, proseguindo na viagem depois de nova
interrupção de uma hora.
[Figura 112.--Acampamento na Sioma.]
Pêla tarde, fomos acampar junto das aldeas da Sioma, estabelecendo o meu
campo sôb uma gigante Figueira-Sycòmoro, perto do rio.
A viagem d'esse dia foi de cinco horas e meia, sempre a rumo S.S.E.
N'essa noute o meu sono foi acalentado pêlo ruido da cataracta de Gonha,
que, a jusante dos ràpidos da Situmba, interrompe a navegação do
Zambeze.
No dia 4, logo de manhã, depois de ter comido um prato enorme de
ginguba, presente do chefe das povoações, tomei um guia e dirigi-me para
as cataractas. O braço do Liambai cuja margem esquerda eu descia,
correndo a principio a S.E., vai vergando para O., até que chega a
correr perfeitamente E.O.; e n'essa posição recebe dois outros braços do
rio, que formam três ilhas cobertas de vegetação esplèndida. No sitio
onde o rio começa a curvar para O., ha um desnivelamento de três metros
em 120, formando os ràpidos da Situmba. Depois da juncção dos três
braços do Zambeze, toma elle uma largura de seiscentos metros apenas, e
logo ali deita um pequeno braço a S.O., pouco fundo e obstruido. O resto
das àguas encontram um corte transversal de basalto, com um
desnivelamento ràpido de 13 metros, e n'elle se precipitam com fragôr
immenso.