No dia 10, continuei a mandar pescar nas lagôas para ter que comer e os

meus.

Passei o dia trabalhando; e tendo para o lado de oeste um horizonte sem

fim, onde, como em pleno mar, o espaço azulado vinha unir-se á terra em

cìrculo enorme, lembrei-me de determinar a variação da agulha magnètica

pêla amplitude, mèthodo mais simples do que o dos azimuthes, que eu

tinha sido forçado a empregar até então.

Preparei a agulha de marcar, e estava dispondo-a para a observação,

muito antes de tempo, porque o sol estava ainda elevado do horizonte uns

dez graos; quando um phenòmeno curiosissimo se deu na atmosphera. Estava

ella lìmpida, de um azul um pouco carregado mas sem uma nuvem, sem um

extracto no horizonte. De repente o limbo inferior do sol começou a

perder a sua forma circular, e a desapparecer lentamente, como se eu

observasse um occaso no oceano; e isto dez graos acima do horizonte, por

ceo na apparencia limpo, como ja disse. Só depois do seu completo

desapparecimento é que se podia mal perceber, pêlo feixe de luz que em

leque se espargia no ceo, uma barra de extractos, tão iguaes em côr ao

azul da atmosphera, que a vista mais apurada a confundiria com ella;

parecendo que a limpidez do firmamento não era interrompida até ao

horizonte. Algumas vêzes mais observei igual phenòmeno, mas não a tanta

altura, nem tão perfeitamente definido.

Como eu esperava, n'esse dia, não me appareceu, nem Caiumbuca, nem a

gente que Lobossi devia mandar-me.

Na noute de 10 para 11, eu queria observar um reapparecimento do 1^o

satèlite de Jùpiter, que deveria ter logar pròximo da meia-noute; e como

eu não quizesse perder essa observação, por encontrar grande differença

em longitude na posição do Zambeze, recomendei ao Augusto, que me

chamasse quando a lua estivesse na altura que lhe indiquei, o que

correspondia ás 11 horas; e cheio de fadiga, deitei-me cêdo, e adormeci

profundamente; esperando que Augusto velasse, depois da instante

recommendação que eu lhe tinha feito. Por noute fora acordei ao

chamamento de Augusto, e acordei sem sobresalto, julgando ser a hora

indicada por mim; mas, logo que respondi ao meu fiel nêgro, elle

disse-me, cheio de commoção: "Senhor, estamos atraiçoados; a gente fugio

tôda, e roubáram tudo."

Levantei-me, e sahi da barraca.

O acampamento estava deserto.

La fora, Augusto, Verissimo, Camutombo, Catraio, Moêro e Pépéca, e as

mulheres dos muleques, estavam silenciosos e pasmados olhando uns para

os outros.

Não pude conter uma gargalhada.

O que me admirava ali, era ver Augusto, o Verissimo e Camutombo ao pe de

mim.

Era tão crìtica a minha posição, vivendo no meio de tantas miserias,

rodeado de tantos perigos, que não sei mesmo quem n'elles quereria ser

meu socio. Ànimos mais fortes e espìritos mais enèrgicos do que os dos

prêtos que acabavam de fugir, não teriam querido partilhar da minha

sorte.

Sentei-me, rodeado das oito pessôas que haviam ficado e puz-me a indagar

o succedido. Queria pormenores que ninguem me dava. A gente tinha fugido

tôda, sem que algum dos presentes a presentisse. Os cães, habituados com

elles, não ladráram. O Pépéca foi passar revista ás barracas, e nada

encontrou.

As poucas cargas que tinham ficado á porta da minha barraca, e que

consistiam em pòlvora e cartuxos, haviam desapparecido.

Fugíram roubando a minha propria miseria. Só me restava o que havia

dentro da minha barraca. Eram os meus papéis, os meus instrumentos, e as

minhas armas; mas armas de nenhum valor, porque uma das cargas roubadas

continha os meus cartuxos, e sem elles de nada serviam.

Fui sem detença fazer inventario do meu miseravel haver, e achei-me com

trinta tiros de balas d'aço para a carabina Lepage, e com vinte e cinco

cartuxos de chumbo grosso da espingarda Devisme, que de pouco ou nada

serviam. Era tudo quanto possuia.

Não pude deixar de curvar a cabêça ante este ùltimo golpe que me feria,

e um atroz confrangimento de coração trouxe-me, pêla primeira vez em

Àfrica, o presentimento de que estava perdido. Estava no centro

d'Àfrica, no meio da floresta, sem recursos, dispondo de trinta balas

apenas, quando só da caça poderia viver e só a caça me poderia salvar; e

tinha em tôrno de mim só três homens, três crianças e duas mulheres!

Augusto exprobrava-se o ter adormecido, quando eu o mandara velar, e

entrou n'um furor louco, querendo ir na pista dos fugitivos e matar

tôdos. Custou-me a conter a ira feroz do meu prêto fiel; e sem

consciencia do que dizia, sem a menor convicção nas palavras que

proferia, ordenei-lhes que se fossem deitar, que não receiassem nada,

porque eu remediaria tudo. Eu ficaria de véla. Recolhidos ás barracas,

eu fiquei junto da fogueira, quasi inconsciente e sem fôrças. O abalo

moral tinha despedaçado o côrpo, já fortemente abatido pêlas febres.

Sentado, com os braços encostados nos joêlhos e a cabêça encostada ás

mãos, eu olhava fito para a crepitação da chama, sem ter um pensamento,

sem uma idéa, em perfeito estado de imbecilidade. Contudo, o instincto

filho do hàbito, fêz-me sentir, que estava desarmado; chamei o meu

muleque, e sem ter consciencia d'isso, pedi-lhe uma arma. Elle entrou na

barraca e trouxe-me uma, que eu, sem reparar, colloquei sôbre os

joêlhos.

Durou muito tempo aquelle estado de abatimento, até que as idéas

principiáram a vir mostrar-me os horrôres da minha posição. Havia muitos

mêzes, que eu caminhava ávante, pobre e sem recursos; havia muito tempo

que eu contava ùnicamente com a caça para sustentar a minha caravana.

Essa idéa perfeitamente arraigada no meu espìrito, tinha-me dado sempre

a fôrça de seguir, de ter fé e de esperar. De repente sentia em mim um

vazio enorme. A idéa tinha cahido por terra, e desapparecido com a caixa

que continha os meus tiros, o meu thesouro, o meu ùnico recurso.

Deve ser ao encarar uma posição como a minha que o homem se suicida.

Com aquella pungente agonia que me dilacerava a alma, deixei pender a

cabêça e os meus olhos fixáram-se na carabina que eu tinha pousada nos

joêlhos. Olhei, a talvez meio minuto, e uma idéa atravessou-me o

espìrito. De um salto entrei na barraca, e corri a levantar as pelles do

meu leito, debaixo das quaes, para levantar a malinha que me servia de

travesseiro, estava um estôjo de couro, rectangular, baixo e comprido.

Foi com mão febril que abri aquelle estôjo esquècido, e apalpei trèmulo

os objectos que elle continha. As idéas occorriam-me de nôvo em tumulto.

Deixei o estôjo, e abri a mala dos instrumentos, onde a caixa do meu

sextante Casella estava entalada por duas latas, que senti debaixo da

mão com que apalpava. Sahi precipitadamente da barraca e do acampamento,

e corri ao mato, onde de dia tinha posto a enxugar o meu grande

tresmalho, depois da pesca. A rêde estava estendida, e tensa pêlo peso

do chumbo que lhe envolvia a tralha.

Apalpei phrenètico aquelle chumbo, e colhendo a rêde voltei ao campo,

curvado ao pêso d'ella. Cheguei junto á fogueira, e depuz no chão o meu

fardo.

Quem visse o que eu tinha feito havia alguns minutos, julgarme-hia

louco, e louco estava eu de contente.

O avaro devorando com os olhos àvidos de cubiça o thesouro que empobrece

a sua miseria, não deve ter na vista expressão differente da que eu

tinha a olhar para aquella carabina. É que ella para mim era a vida, a

salvação, e tudo. É que ella para o meu paiz era uma expedição coroada

de èxito; era a realização de um voto formulado por elle no seu

parlamento; era o bom èxito obtido, tanto mais meritorio, quanto mais

estorvado.

A arma que afagava nas mãos, como afagaria uma filha estremecida, a arma

que me ia salvar, e comigo a expedição atravez d'Àfrica, era a Carabina

d'El-Rei.

No estôjo d'aquella arma havia apparêlhos para fazer balas, e tudo o

necessario para se carregarem os cartuxos, logo que existissem os

invòlucros metàlicos, cada um dos quaes, pêlo seu systema de

construcção, pode servir muitas vêzes. Uma pequena caixa, que vinha no

estôjo ja quando El-Rei me offerecêra o valioso presente, continha

quinhentos fulminantes.

As idéas que se succediam em mim quando me lembrei d'aquelle recurso,

trouxéram-me a reminiscencia de duas latas de pòlvora que eu desde

Benguella empregava, á falta de cousa melhor, para entalar a caixa do

sextante dentro da mala. Faltava o chumbo, mas a minha rêde de pesca ia

fornecer-m'-o.

Assim, pois, eu podia dispor de alguns centos de tiros; e com alguns

centos de tiros sentia-me com fôrça de criar recursos n'esse paiz de

caça.

O resto da noute foi para mim como manhã bonançosa depois de noute de

temporal.

Ao alvorecer, ainda não tinha formado um plano, mas estava tranquillo e

confiante.

Mandei chamar o chefe da aldeola pròxima, e convenci-o a mandar dois

homens a Lialui contar o succedido ao rei Lobossi; disse-lhe tambem, que

ia mudar o meu campo para mais pròximo da aldea, e logo nós quatro, eu,

Verissimo, Augusto e Camutombo, construímos quatro barracas e um forte

cercado, onde nos recolhémos com o meu magno espolio.

N'esse dia trabalhei como um rude lenhador, e de machado em punho,

cortei a madeira para a minha barraca, e construi-a eu mesmo.

Durou o trabalho até depois do meio dia, hora a que me estendi nas

pelles de leopardo do meu leito, dormindo a sono sôlto até ao

pôr-do-sol.

O meu Augusto tinha pescado, e tinham armado laços aos patos,

conseguindo agarrar um. Entretivémos com aquella alimentação sem

condimentos a fome ja impertinente, e eu volvi a deitar-me, mas dormi

pouco e pensei muito. Sustentar nove pessôas era mais facil do que

sustentar uma grande comitiva, e por isso a questão mais momentosa e que

mais urgente era resolver, estava, se não resolvida, pêlo menos muito

simplificada por si mesmo.

A idéa de proseguir na minha viagem estava perfeitamente arraigada em

mim, e sem ainda saber como, sem ter chegado a formular um projecto,

sabia que havia de ir, porque queria ir. A minha confiança era tal, que

os meus homens ja estavam descuidosos e indifferentes. Diziam elles, que

eu sabia o que havia de fazer, e quando lhes dizia, que não tinha ainda

formado um plano, riam-se e diziam:--"o Senhor bem sabe ja."

Passei o dia preparando cartuxos da Carabina d'El-Rei. Tinha 2

kilogrammas de pòlvora finissima, e como a carga de cada cartuxo era de

5 drachmas (8 grammas e meia), podia com aquella pòlvora carregar

duzentos e trinta e cinco tiros, que com alguns que eu ainda possuia, e

com os trinta de balas d'aço da carabina Lepage, prefaziam um total de

trezentos cartuxos.

Chumbo para ballas havia de mais, porque o peso das duzentas e trinta e

cinco balas era ao menos de nove kilogrammas, sendo o de cada bala de 35

grammas, e o chumbo da rêde devia pesar um pouco mais de trinta kilos.

Fulminantes tinha duzentos a mais.

Voltáram os portadores que mandei a Lobossi, com recado d'elle, para que

eu fôsse viver para Lialui até tomar uma deliberação.

Decidi logo não sahir do mato onde estava, e mandar o Verissimo a Lialui

tratar com elle. Dei-lhe as minhas ordens, e mandei que sahisse antes de

amanhecer no dia immediato, para ter tempo de voltar no mesmo dia.

Um violento accesso de febre prostrou-me, e tive de me recolher muito

doente.

No dia seguinte a febre tinha augmentado, e eu estive impaciente até á

volta do Verissimo, que só chegou de tarde.

Vinham com elle uns muleques do règulo, que me traziam alguma comida, e

um presente de leite coalhado, enviado por Machauana. Lobossi mandava

dizer-me, que era muito meu amigo, e que estava prompto a ajudar-me, mas

que fôsse eu viver para casa d'elle; e que com tempo decidiriamos o que

havìamos de fazer. Mandei dizer-lhe pêlos muleques, que logo que

estivesse melhor iria falar-lhe; mas que não deixaria o mato, e que me

era impossivel ir viver com elle, por causa das febres. Estava ancioso

por me achar só com Verissimo, para ter noticias de Lialui.

A primeira cousa que elle me contou fêz-me logo profunda impressão.

Disse-me, que, quando chegara a casa de Lobossi, estava reunido o grande

consêlho em discussão acalorada.

Uns enviados do Chefe de Quissique, Carimuque, tinham chegado ali,

pedindo accesso no paiz para um missionario Inglez, que estava em

Patamatenga, e queria vir ao Lui.

Á entrada d'esse sujeito no paiz do Barôze opunha-se com tôda a sua

eloquencia o ministro dos estrangeiros Matagja, e d'ahi nascêra a

acalorada discussão a que assistira o Verissimo; sendo resolvido em

consêlho, que não fôsse concedida a licença para o homem penetrar nos

estados do rei Lobossi.

O Verissimo, que me contou este incidente, a que não ligou a menor

importancia, começou a narrar-me o que tinha podido colher de noticias

ácerca das intrigas dos muleques de Silva Porto e Caiumbuca; mas eu é

que não o escutava ja, e aquelle missionario Inglez (_Macúa_, diziam

elles) não se me tirava do pensamento. Quando o Verissimo acabou o seu

aranzel, que eu não ouvi, tinha resolvido o meu problema, e a resolução

consistia, em ir encontrar aquelle missionario.

Como realizal-a não sabia ainda, mas que o encontraria era ja convicção

minha.

Fui àvidamente buscar uma pèssima carta d'Àfrica que tinha, e calculando

approximadamente onde seria Patamatenga, medi uma distancia de

seiscentos kilòmetros.

Seiscentos kilòmetros, a uma media de 10 kilòmetros por dia, eram

sessenta dias de jornada, e trezentos tiros que eu possuia, divididos

por sessenta dias, dava-me cinco tiros por dia. Ardia ja em desejos de

me pôr a caminho, mas ardia em febre tambem, e comecei por deitar-me.

Nos dias 14 e 15 a febre cresceu de intensidade, não me permittindo

sahir da barraca; mas tendo algumas melhoras na noute de 15 para 16,

resolvi logo ir a Lialui falar ao rei, e tratar de pôr em execução um

plano que tinha concebido, para ir encontrar o missionario, idéa que me

não sahia da mente.

Ainda muito doente, parti logo de manhã para casa de Lobossi. Fui muito

bem recebido por elle, que negou ter sido connivente com Caiumbuca e os

prêtos do Silva Porto, na fuga dos meus _Quimbares_; o que era falso,

porque sem o consentimento d'elle, não poderiam elles ter passado o

Zambeze.

Pedi-lhe que me ajudasse a ir encontrar um missionario que eu sabia

estar em Patamatenga; ao que elle respondeu, perguntando-me, ¿como

queria eu ir para ali, não tendo carregadores? Esta pergunta do rei foi

muito applaudida pêlos assistentes, que notáram a esperteza d'elle em

m'-a fazer.

Disse-lhe, que era verdade não ter carregadores, mas que tinha o rio

Liambai, e elle tinha barcos, e se elle me desse barcos, eu dispensava

os carregadores, tanto mais que não tinha cargas.

Elle contestou, que havia effectivamente o Liambai, mas que o rio tinha

cataractas, e ¿como as poderia eu passar? Novos applausos da parte do

auditorio.

Respondi, que sabia isso, mas que ali os barcos e as cargas iam por

terra, e a jusante das quedas continuàvamos a navegar.

Elle retorquio, que o seu pôvo tinha muito pouca fôrça, e não podiam

arrastrar os barcos por terra. Novamente applaudido; estava fazendo um

gôsto immenso em patentear o seu espìrito fino diante dos ouvintes; e de

salto, sem esperar resposta, perguntou-me, ¿porque não tinha ido viver

com elle para Lialui, como me tinha ordenado?

Respondi serenamente, que não tinha ido, nem iria, por muitas razões;

sendo a principal, o ser elle um refinado velhaco, que, desde a minha

chegada, só tinha procurado enganar-me, para me roubar. Chamei-lhei

ladrão e assassino, levantei-me e puz-me a caminho.

O auditorio, estupefacto do meu atrevimento, nem se lembrou de me

embargar o passo.

Dirigi-me a casa de Machauana, onde estive conversando com Monotumueno,

o filho do rei Chipopa, e legìtimo herdeiro do poder, a quem fiz a

profecia de que ainda seria rei do Lui.[4]

Ia a retirar-me para as minhas montanhas, quando um enviado de Lobossi

veio pedir-me em nome d'elle para eu lhe ir falar. Fui logo.

O rei disse-me, que não tinha razão para me zangar com elle, que era

muito meu amigo, que ia aprontar barcos, e que o Liambai estava livre

para mim.

Eu fiz-lhe um grande sermão, em que lhe disse, que elle era mal

aconselhado; que o que tinha dado o poder e grande nome aos reis

Macololos, foi a grande protecção que dispensáram a Livingstone. Que os

Luinas queriam perder o commercio; e que elle completaria a ruina do Lui

começada por Manuanino. Que o seu pôvo, não a camarilha que o rodeava,

mas o seu pôvo sensato, ainda o expulsaria do poder, por incapaz de

governar, e não fazer mais do que disparates.

Fêz-me novos protestos de amizade, affirmando-me, que me daria os

barcos, e que não seria por culpa d'elle se eu não chegasse a alcançar o

missionario, mesmo porque queria que eu mudasse de opinião a seu

respeito.

Assegurou-me, que voltasse descançado para Catongo, onde me mandaria

dizer que os barcos estavam promptos, logo que tivesse arranjado as

tripulações. Chamou diante de mim o Chefe de Libouta, e deu-lhe ordens a

esse respeito.

Eu não acreditava em nada d'aquella comedia, e disse-lh'-o. Elle

pedio-me que não formasse maos juizos, e esperasse os factos.

Voltei a casa de Machauana, que conversou largamente comigo a respeito

de Caiumbuca e da fuga dos meus Quimbares. Por elle sube tôda a verdade,

nos seus detalhes, e só fiquei ignorando quem fôra ao longe o motor dos

acontecimentos.

Chegado ao Lui, fui sinceramente bem recebido por aquella gente, e o

nome do Mueneputo, com que eu me abrigava, foi escutado com respeito.

Declarei os meus projectos, e elles fôram calorosamente approvados,

porque muito convinha aos Luinas estar em communicação com a costa de

Leste. Dias depois da minha chegada, rebentou no Chuculumbe a revolução,

á testa da qual se achava Manuanino, o rei destronado. Caiumbuca foi

então dizer a Lobossi, que eu não era estranho áquella revolta, e que

queria ir para Leste juntar-me aos brancos que apoiavam Manuanino.

N'essa occasião Caiumbuca levara os Bihenos a abandonar-me,

dizendo-lhes, que o rei o prevenira de que me ia mandar matar, e não

poderia impedir que fôsse morta a gente que estivesse comigo.

Os Bihenos, levados por elle, declaráram-me, que não queriam estar

comigo, e Caiumbuca fingio-se indignado.

A primeira e ùnica vez que em Àfrica faltei ao meu principio de

sertanejo, de desconfiar ali de tôdos e de tudo, fui enganado. É verdade

que Silva Porto, o homem em quem eu tinha a màxima confiança, disse-me e

escreveu-me, que podia fiar-me em Caiumbuca, e eu fiei-me n'elle.

Facilmente podia desfazer aquella intriga entre homens instruidos; mas

deve comprehender-se, que para prêtos, foi bem tramada, e não seria

facil convencel-os da verdade.

Apesar d'isso, a minha attitude chegou a convencer Lobossi, e foi então

que os muleques de Silva Porto fôram dizer ao rei, que tinham ordem de

seu senhor para me abandonarem ali, mandando-lhe elle dizer, que me

fizesse matar, se queria que os sertanejos do Bihé voltassem ali, sem o

quê não teria mais relações com Benguella.

Foi então que tentáram matar-me, affirmando Machauana, que Lobossi

sempre se opoz a isso, assim como a maioria do seu consêlho, mas que

Gambela era de opinião contraria.

Caiumbuca e os muleques de Porto fôram dizer a Lobossi, que tôdo o que

eu tinha nas minhas malas eram roupas e fazendas muito ricas,

despertando-lhe assim a cubiça, que a tantos exploradores tem perdido no

Continente Africano.

Apesar de tôdas as intrigas e dos factos que ellas produzíram, eu ia

continuar a minha viagem com a gente de Benguella, quando o ataque da

noute de 6 de Setembro m'a dizimou, e uma nova intriga dos prêtos de

Silva Porto levou á fuga os restantes. ¿Por ordem de quem trabalhou

Caiumbuca? Eis o que não pude saber.

Por sua conta creio que não; que pouco tinha a lucrar n'isso. A

encommenda vinha feita do Bihé, e eram emissarios d'ella os muleques de

Silva Porto. Caiumbuca tomou o papél principal, depois das instrucções

recebidas dos prêtos de Belmonte. O mandatario estava ao longe, muito ao

longe.

A causa estava na minha missão, e na guerra que, em nome do meu

Portugal, eu fazia, sem trèguas, ao commercio da escravatura.

Alguns exploradores Africanos, e sôbre tôdos o _Commander_ Cameron e

David Livingstone, t[~e]m apontado muitos factos horriveis e

verdadeiros, do commercio da escravatura, feito no interior d'Àfrica por

sertanejos Portuguezes.

Por muitas vêzes, a opinião pùblica em Portugal tem levantado a sua voz

potente, contra as asserções vilipendiosas dos accusadores estrangeiros,

querendo negar factos que elles asseveram; e em que ella não acredita,

porque, na sua ìndole bondosa, é incapaz de os comprehender e de os

admittir.

Infelizmente elles sam verdadeiros; e mais ou menos romantizados, não

deixam de conter um germen de realidade.

¿Mas serám esses factos uma nòdoa para Portugal? Não sam. Affirmo-o, e

sustento-o.

Os sertanejos Portuguezes, que mais se aventuram no interior do

continente Africano, quando o fazem, deixáram de ser Portuguezes.

Sam condenados, fugidos dos presidios da costa, sam homens a quem a

sociedade supprimio as garantias do cidadão, sam rèprobos a quem a

sentença infamante da justiça imprimio um indelebil ferrête de

ignominia; sam os salteadores e assassinos, a quem a patria banio do seu

seio com horror, que podéram quebrar o grilhão de ferro com que estavam

acorrentados ao patìbulo aviltante; e fugindo a um mundo onde só os

espera o desprezo da gente civilizada, vam ao longe buscar entre os

selvagens a guarida que perdêram, e continuar ali a sua vida de crimes.

Taes homens não deshonram a sua patria, porque não t[~e]m patria.

Querer tornar Portugal solidario dos crimes dos sertanejos Africanos, é

querer tornar a França responsavel dos actos da Communa, a Amèrica do

assassinio de Lincoln, a Italia dos salteadores dos Abruzos.

Ha rèprobos em tôda a parte, e não podem ser nòdoas nos povos que os

esmagam na sua justa indignação.

Dos sertanejos Europeus que t[~e]m estado estabelecidos no Bihé, de dois

apenas tenho noticia, que não pertencessem a tal ordem de gente. Sam

elles Silva Porto, e Guilherme José Gonçalves; mas estes fôram sempre

queridos e estimados do indìgena e do Europêu, gozáram sempre da

consideração que a sua honradez e probidade lhes grangeáram, fôram

cidadãos prestantes, que, com um tràfico legal e digno, nem chegáram a

fazer fortuna, e fôram muitas vêzes vìctimas dos outros.

O nome de Silva Porto é respeitado pêlo gentio, e conhecido n'uma grande

parte da Àfrica central pêla corrupção da palavra _Prôto_, e mais de uma

vez me servi d'elle para desfazer obstàculos.

Em Cassange, como em Tete, outras duas portas da Àfrica central, ha

Portuguezes dignos e nobres, que t[~e]m feito um grande serviço á

humanidade no commercio lìcito com o interior; esse commercio, que é o

mais seguro mensageiro da civilização na terra dos nêgros.

Não confundamos pois; não confundamos, e será pouco nobre ir buscar a

autoridade do explorador, para lançar, apontando factos verdadeiros, mas

nada producentes, um labéo sôbre um pôvo nobre, o primeiro que deu mão

forte á Inglaterra contra o tràfico infame; sôbre um pôvo que sacrificou

os seus interesses Africanos legislando a abolição da escravatura;

contra um pôvo, o mais livre do mundo, que estendeu a sua liberdade até

á Àfrica, mandando para lá as leis que o regem na Metròpoli; chegando ao

excesso de abolir ali a pena de morte, e de lhes mandar um còdigo que

por libèrrimo é impossivel entre gente mais que semibàrbara.

Não precisa Portugal justificação; que o defendem os factos, as leis e a

energia que emprega na grande obra da civilização Africana; mas, falando

do tràfico da escravatura de que por vêzes ia sendo vìctima, não me pude

eximir a pôr a questão nos seus verdadeiros têrmos.

José Alves, Coimbras e outros, esses nem ao menos sam Portuguezes de

nascença; não se parecem com Portuguezes na côr, sam indìgenas, sem

instrucção, verdadeiros selvagens de calças e chapéos.

Affirmo tambem, que é mais difficil viajar em Àfrica por terras onde

elles t[~e]m andado, do que nas regiões bàrbaras dos canibaes, que nunca

víram um estranho. Aqui fazem a guerra ao explorador, quando a fazem, de

armas na mão frente a frente; ali é a traição e a covardia que o

esperam. Aqui é explorar na brenha espinhosa onde o leão occulta o seu

antro; ali é caminhar n'um prado relvoso, entre venenosas serpentes.

Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo · 第 3 / 23 段