Se, porém, julgando-a, me não compadecia d'ella, era-me impossivel
pensar em mim, sem padecer em todas as fibras do meu ser. Quanto amor eu
tinha, quanta affeição filial, ternura piedosa, e veneração, exhalava-se
de mim como vapores, e dissolvia-se em lagrimas amargas, que eu tragava,
sobre a cruz onde a sorte immisericordiosa me cravára. Estorturava-se,
este amor, como joven robusto que saboreou a vida e não quer morrer. A
affeição de filho, que eu naturalmente lhe dera, por causa da differença
de nossas idades; a piedosa ternura que ella me inspirava, como um bem
suavissimo; a veneração, em summa, que lhe era a ella um incenso grato,
isso tudo, o melhor de minha existencia, desfazia-se em meu coração, e
evaporava-se lentamente em caricias de effluvios e perfumes. Qual
viajor, surprehendido, ao despertar, nas steppes infinitas da Asia, por
um turbilhão fluctuando raso com o chão, tal eu me sentia perplexo nas
minhas revoluções, prudencia, e coragem. Em redor de mim tudo se movia
vagarosamente, derramando-se em fórmas confusas: fugia tudo; memorias
queridas, votos superfluos, ternos desejos, pezares, aspirações, tudo se
esvahia nas distancias do meu sonhar, e me deixava, sósinho, n'um grande
espaço. E desse turbilhão nevoento de sensações, vontades, e habitos;
densas oscillações impalpapeis de penas, prazeres, e esperanças,
prolongadas até ao extremo limite que meus olhos viam, surdia emfim um
phantasma enorme que subia, subia até ao céo, tristemente involvido em
pallida mortalha. Este phantasma reconheci-o na amargura que tinha
impresso na face assombrada, no atrophiamento da sua attitude, na sua
mudez, no rir amargo que lhe circuitava os labios descorados. Ah! uma
vez o tinha eu já visto crescer para mim, e me sentira estalejar com
elle nas dobras de seu sudario. Vinte annos tinha eu. Foi quando perdi
minha mãe, e da sepultura d'ella, revolvida de fresco, sahia e me
aferrara nos braços a glacial SOLIDÃO.
Eu chorava. Tudo estava em redor de mim fallando-me d'ella. Todo o mal
que me fizera, esqueci-o. Mil vestigios deixára Fanny n'aquelle quarto
que eu preparava amorosamente para recebel-a. N'aquelle tecto que lhe
cobrira a cabeça, nos tapetes pisados por ella, nos moveis que tocaram
suas roupas, em tudo me apparecia serena e consoladora. Aqui me abria os
braços de veludo, a poltrona onde ella se assentava tantas vezes; ali a
molle pegada do seu sapato, no coxim em que ella descançava os pés;
acolá, resequidas, nos vazos chinezes, desfolhando-se tristemente, as
flôres que ella amava; além, as cortinas que ella tantas vezes levantava
com sua mão timida; ali, se move ainda o pendulo do relogio, para o qual
ella estava olhando sempre; aqui, o véo d'ella, aqui as cartas, seus
dôces reflexos; além, o pente embalsamado com o perfume dos seus
cabellos; e acolá, finalmente, frio e cerrado como um tumulo, o leito
onde tantas vezes chorávamos.
Agora, me assoberbava a memoria, tudo o que dissemos, pensamos, e
esperamos. Como longinqua musica, trazida na viração do mar, soava-me
nos ouvidos o cantar de suas palavras; como emanação de flôres que se
evapora com o orvalhar das noites, deliciava-me o olfacto, o perfume de
sua cutis olorosa; como bafejo de primavera, perpassavam-me nos labios
os effluvios de seus beijos. Ardia-me a mão que ella tocara; ardia-me a
fronte que ella afagara em seu seio; ardiam-me os olhos que ella
adorara, a boca em que a sua apremara nas vertigens da paixão, o peito
que ella duplicara com o seu peito. Oh! que prazer me era sorrir-lhe ao
retrato, e remecher nas cartas d'ella! Affigurava-se-me ouvil-a ainda;
esperal-a ainda, como nos dias passados; vêl-a chegar assustada, como a
cerva dos bosques, a esconder-se em meus braços. Mas, ao mesmo tempo,
não sei que vaga essencia se desprendia de mim em soluços e gemidos.
Quebrantava-me uma tristeza profunda; uma lethargia sem nome paralisava
todas as minhas idéas. Meditativo, como póde sêl-o o homem no leito da
morte, eu dizia commigo:--Acabou tudo! não nos tornaremos a vêr, nós,
que tanto nos amamos!...