Ao cabo de seis semanas entrei em plena convalescença. Já os amigos me
tinham deixado. Perguntou-me, muitas vezes, o creado, se eu queria
receber aquella pessoa que tanto parecia amar-me, e cuja presença tão
mal me fizera uma vez. Sempre com repellão lhe disse que o expulsava se
a deixasse entrar. O desejo, porém, de a vêr, entrou commigo, e
tornou-se emfim n'uma irresistivel necessidade. Fiz fallar o creado
sobresaltado, que não intendia a minha frieza. Contou-me tudo que eu não
sabia; que ella vinha diariamente, e elle já não sabia que dizer-lhe,
para estorvar-lhe a entrada. Se ella vier hoje,--murmurei eu
impetuosamente, corrido de vergonha,--recebo-a.
Sentia-me eu abalado como se alguma funesta esperança tentasse renascer
em mim. Com o abatimento da molestia, quasi que a cólera se desvanecera;
mas ganhara-me uma dôr intensa, e eu assentava--tamanho desgosto era o
meu por tudo--que não podia viver. Aquella noite terrivel da traição,
lembrava-me como um sonho máo. A um tempo, amava e desprezava a mulher
graciosa e perfida, cuja imagem era commigo sempre. O que eu esperava
para acabar com tudo, era alguma cousa indelineavel.
Estava eu sentado n'uma poltrona, ao pé da minha janella, com os olhos
fechados, repassando no animo o que eu diria á prejura, quando senti
apertarem-me a mão, e misturarem-se n'ella os beijos com as lagrimas.
Abri os olhos. A meus pés, de joelhos, livida, mas formosa ainda,
formosissima, estava Fanny, olhando-me com eloquente ternura. Senti o
perfume d'ella. Nada diziamos. Eu sei que chorava.
Fanny ergueu-se, abraçou-me maternalmente a fronte e os cabellos, com os
seus dois braços nús. Não resisti, porque me era aprazivel receber
aquellas caricias, a que eu tinha direito, em quanto não fallasse. E por
isso mesmo é que não fallava. Finalmente, como eu chorava sempre e a não
abraçava, Fanny disse:
--Foi-se o teu amor, Roger?
--Ainda não--respondi, tapando o rosto com as mãos. Ella não intendeu, e
deteve-se em pé e agitada defronte de mim.
--Fanny, diz-me que é um sonho, ou que estou doido. Diz-me que não devo
odiar-te, porque este odio dilacera-me.
Não córou. Não impallideceu. Pura como a chamma, e crendo-se talvez ella
mesmo pura, amimou-me internecida, com apparencias de admirada.
Foi então que eu, reunindo as minhas forças todas, a tomei pela cintura
gentil em meus braços, e a fiz sentar defronte de mim. E disse-lhe:
--Sei tudo.
«O que? tu que sabes?
--Vi tudo.
«Mas que?
--Porque me trahiste? Tu não cedeste, porque foste tu quem o procurou,
não foi elle a ti. Foste tu, que trocando despejadamente o papel, o
seduziste a elle.
Fanny não perdeu ainda a côr, e quiz fallar. Eu, porém, com os olhos
cravados n'ella, sem cólera, e frio como o aço, continuei:
--É necessario dizer-te tudo? Não merecias confiança. Comprei a caza
vizinha da tua, em Chaville...
Aqui, impallideceu, e disse:
«E depois?
--Uma noite, horrivel noite!... depois de te espiar em vão quinze dias,
arriscando a minha vida, consegui introduzir-me sobre o balcão da tua
casa. Não sei que hora era. Ajoelhado por traz da vidraça do quarto de
teu marido, pude vêl-o. Como te vejo agora, tudo vi. Estava elle só.
Entraste...
«Isso é falso!» exclamou Fanny, mais horrivelmente pallida. Semelhava um
cadaver sentado n'uma cadeira defronte de mim.
--Será preciso dizer mais?--accrescentei.--Vestias um chambre de
cachemira azul. Trazias os cabellos em desalinho, e o peito nú. Calçavas
chinellas de setim. Nús, trazias os braços. Serena como sempre, no
momento mesmo em que prejuravas, não amaldiçoaste aquelle que vinhas
saciar, por que ha em ti dois corações, para amar dois homens, Fanny, a
elle, e a mim.
Fanny sacudiu rapidamente a cabeça, e disse com voz abafada:
«É falso! é falso! tu não me conheces!
--Será preciso dizer mais?... Exprobraste-lhe a traição, que é
certissima. Defendeu-se elle, a sorrir. Tu, cem vezes, passaste diante
de teu marido, por que querias fascinal-o, sem lh'o dar a intender, com
os teus exteriores pudibundos. Sahiu-te tudo ao pintar, por que elle
puchou-te para sobre o coração, e tu deixaste-te sentar sobre os
joelhos, e nem de mim te lembravas, de mim, a agonisar, com aquelle
espectaculo diante...
«Basta!»--exclamou Fanny, e ficou a olhar para mim. Parecia soffrer
horrorosamente; mas não chorava. Dilatavam-se-lhe as pupilas, e
crispavam os labios resequidos. Com pena d'ella, baixei os olhos, mas
accrescentei:
--Sabe que eu estive ali, eu, que te adorava, e é de crêr que a vergonha
e a dôr não matem, por que eu vi tudo, e não morri.
Como duas estatuas fronteiras, nas bordas d'um jazigo, assim ficamos em
contemplação, e immoveis. Por fim, disse ella:
«Eu devo fazer-te horror!
--Fazes.
Ergueu-se, levantou as mãos ao céo, lançou-se a mim, como sobre uma
preza, apertou-me entre os braços, sentou-se-me nos joelhos, peito a
peito, e a buscar-me os labios, com estas exclamações:
--Não importa! eu adoro-te sempre.
Mas eu, levantando-me, sacudi-a, e atirei-a ao chão, e ella ahi ficou.
Abismada a meus pés, como a Magdalena, soltas as tranças, nodados os
braços aos meus joelhos, desfeita em pranto, exclamava:
«Perdão! piedade! Eu tinha perdido o juizo! estava doida! mas amo-te
sempre! Tem compaixão de mim.
E prometteu submetter-se a tudo que eu exigisse d'ella. Propôz-me a
fuga, bradando:
«Mata-me, e não me repulses! Esmaga-me aos teus pés. Sou culpada, mas
não me abandones. Amo-te. Rasga-me o coração...
Fiz que se erguesse e sentasse. Estava corada, e escondia o rosto; mas
eu sentia-me impiedoso. Recrudescera o meu furor com a narração do meu
supplicio. Voltei as costas áquella mulher, cuja soberba, por tanto
tempo me mentira. Ainda assim queria ella violentar-me, estendendo para
mim os braços; mas fiz-lh'os recuar á face, com um gesto.
--Sabe que te detesto e adoro--disse-lhe eu--É isto o meu castigo, por
que eu fiz minha, a mulher d'outro, e devo ser castigado. Tu, para mim,
és uma deshonra, e mais nada. És um idolo attascado em lama. Vi-te, em
attitude pudica, com o rosto angelical, e olhar infantil; vi-te grotesca
e disforme, raivar e uivar, como a loba mordida pelos cães. Cala-te! tu
fizeste peor que as creaturas com quem esse homem hediondo te compara:
essas, ao menos, não mentem.
«Mas elle é meu marido!--disse Fanny.
--Não tens consciencia? Diz-me com franqueza se é certo seres tu um ser
intelligente, e se uma idéa dirigiu a tua acção funesta. Quem te
obrigava a ir procural-o?
Fanny, com grande esforço, respondeu:
«Eu via que elle se desprendia de mim. Não o amo, por que te amo, mas
dependendo d'elle. Não é natural? Repartida entre o desejo de conservar
sua affeição, e o receio de ser forçada a mostrar-lhe uma affeição
semelhante, quiz segural-o quando me fugia, e, quando se approxima, é
escusado tentar eu fugir-lhe. Cedi ao dever. Reciei que me deixasse. O
temor de me vêr abandonada com os meus filhos, inlouqueceu-me.
Perdoa-me. A mulher, que elle conheceu em Londres, é a causa de tudo. Eu
preciso de paz, socega-me tu. Fiz mal, por que te amo; mas sou mulher, e
tu não conheces as mulheres. Não calculas quanta honestidade pode haver
nas traições d'ellas.
--E o teu juramento?--exclamei. Fanny contorcia as mãos afflictivamente.
Eu prosegui:
--Mentes, quando dizes que cedeste ao dever. Não cedeste senão ao
orgulho. Intristecia-te o ser abandonada por esse homem que não amas, e
te não ama, e te opprime, e te despreza e insulta. Não cedeste tambem á
sêde d'um prazer abominavel? Repito-te que ouvi tudo.
Neste conflicto, encontraram-se os nossos olhos. Fanny fez-se escarlate,
quiz fugir, tornou para mim, e cahiu de joelhos, exclamando:
«Se soubesses quanto eu me abomino! Eu queria arrancar o coração deste
corpo. O meu coração está puro. Vêr-te, ouvir-te, sentir-te ao meu lado,
bastára-me sempre. Por isso mesmo que te amo, é que tu és o unico ente,
mais que homem para mim. Tu és neste mundo o meu amor unico. És a minha
vida.
--Amas-me!--bradei eu com raiva.--Mas de que modo me amas? Acima de mim,
em teu coração tão puro, estão vãs considerações do mundo, razões de
sociedade, costumeiras mesquinhas, está teu marido. Não me falles de
teus filhos. Que amor é aquelle que não conhece a virtude dos
sacrificios? que recua diante de qualquer respeito? que é limitado? que
soffre prescripções? que não é uma abnegação absoluta do individuo, de
todos os seus pensamentos, e affectos, e deveres e virtudes? Quem se
perde pelo ente que ama, e destroe a honra e segurança do seu futuro, e
chega, por amor delle, até ao crime, e se tortura a inventar maiores
provas ainda, não dá o mais radioso testemunho da paixão exclusiva,
intolerante, e soberba. Tu nunca soubeste que o amor não vive senão de
si, e nada reserva fóra de si. Renegado sublime, piza os mais santos
objectos, forte da felicidade que inventa, e que lhe justifica a
impassibilidade. Porém, tu! mulher das dedicações mesquinhas, das
virtudes pequenas, dos deveres timidos, chamas loucura a tudo isto. É
alto de mais para ti! a tua vista não alcança tanto. O que tens,
superior a ti, é a tua casa, é o teu bem-estar, é o luxo que te cerca, é
a falsa estima do mundo que tanto se dá de ti como das outras, são as
relações banaes, é um complexo de coisas miseraveis. E dizes que me
amas! Supportarias tu o abandono da sociedade? Offereci-te tudo que
tinha; dar-t'o era a minha felicidade; para ti roubaria eu os
indigentes. Ainda assim, aceitarias tu o menor incommodo como preço da
minha felicidade? Não ultrajes, pois, o amor, a paixão soberanna, que
não quer ouvir em redor do seu throno, uma voz que não seja a sua. Crês
que amas por te haveres entregado? Vai, já te disse que vi tudo. Estavas
com elle como commigo. Custou-te tanto a passar dos meus braços para os
delle como d'um vestido para outro.
Fanny, ergueu-se desesperada, e quiz partir; mas eu retive-a, atirei-a
para o fundo da alcova, e collocando-me diante da porta, com os braços
cruzados, exclamei:
--Hasde ouvir tudo!
Faltou-me a expressão. Arquejava de anciedade. As minhas palavras eram
gritos. Cerrei os punhos em postura ameaçadora; Fanny olhava-me de revéz
com inexpremivel terror. As palavras vieram, depois, impetuosas:
--Eu nunca tive crença em ti. Tanta certeza eu tinha de que me
atraiçoavas, que, por minha desgraça, quiz conspurcar o nosso amor.
Sabe-o, se nunca o supposeste; sabe que eu, teu adorador, atraiçoei-te
com as mais rasteiras mulheres.
Fanny não me acreditava. Attribuia á impotencia do furor o que eu
dissera, e fez um gesto de denegação soberba. Máo grado meu, repassado
de angustia, fallei n'um tom de voz supplicante, e branda. Toda a minha
cólera cahiu sob o pezo da piedade.
--Sabe, pois, murmurei eu com as mãos erguidas, que eu te amava ao mesmo
tempo com amor de mãe, de mulher, de creança. Quanta piedade, respeito,
e ternura que podem resumir-se em amor no coração, quantas delicias,
tocam a divinisação pela maviosidade, todas senti por ti, desde o
primeiro dia em que te vi passar com tuas graças, com a tua serena
suavidade, com a tua formosura. Sabe que te adorei piedosamente; que só
em ti pensava; que eras a minha segunda alma; que me doiam mais teus
males que os meus; que, por desvanecer-te do animo uma incerteza, teria
dado, risonho, a vida, que eu só amava por que te era aprazivel. Vê que
choro. Tudo que era teu, amei: teus filhos, tua mãe, tua casa, teus
creados; as irregularidades irritaveis do teu caracter, os teus
vestidos, e as tuas rendas. Creio até que o amava a elle, por que, em
meu espirito, a tua imagem andava associada á d'elle. Nem minha mãe amei
como a ti. Por ti, têl-a-hia abandonado, com tudo que venero. Eras o meu
eterno espirito, o meu bem mais caro, a imagem perfeita das coisas
puras.
«Perdão!» exclamou ella, recahindo de joelhos.
--E tu, Fanny, calcaste aos pés este respeito, este amor incomparavel,
este coração...
«Piedade!
--Recalcaste-me como a féra impassivel que esmagou com as garras as
primeiras flôres do campo. E agora... aqui me tens sem futuro, como um
desgraçado que não pode amar alguem, como o ancião, que viu em roda de
si, morrerem todos os seus. Tudo feneceu, tudo apodreceu em meu coração.
Estou velho! tenho cem annos! vou morrer! sou um sepulchro! Tu sabes de
mais que estou sósinho no mundo...
«Piedade! perdão!--exclamou Fanny, indo hallucinada, esbarrar nos moveis
e nas paredes.--Não me digas que és desgraçado!
--Oh! desgraçado! e não digo bem o que sou. A lingua não tem voz que o
diga.
Ingrata! Não te bastava ser senhora da minha alma, do meu coração, da
minha vida; vens ainda tirar-me o que eu mais amava no mundo... a estima
de ti... que me era mais que tu mesma!
«Piedade! piedade!»--continuava ella exclamando.
--Assassinaste-me a mocidade. Pois bem! ouxalá que nunca soffras o que
eu estou soffrendo... Adoro-te, e horrorisas-me!
Dito isto, quiz feril-a e abraçal-a ao mesmo tempo; mas cahi
desfallecido: e, por noite, quando abri os olhos, e a procurei no quarto
ás apalpadellas, não a encontrei.