Inraivecido por não poder vencer a pertinacia do caracter de Fanny,
trahi-a. Amor e ciume, quiz tentar matal-os na devassidão.
Conspurquei-me voluntariamente, e acintamente, ao contacto de labios
impuros da luxuria estupida. Cada noite, de proposito, como ladrão que
se embusca no angulo d'uma rua, entrava rindo sarcasticamente de mim
mesmo, no infame prostibulo onde eu contava apagar a sêde de vingança.
Sorria amargamente ainda, como traidor que pensa na confiança dos
ludibriados, eu arrastava commigo, aos braços da mulher querida, a torpe
recordação das creaturas degradadas, cujas caricias não tinha podido
sevar-me o rancor; e deste modo eu achava um meio de identificar Fanny
commigo, sem o ella saber, e ingolphal-a commigo nas mesmas execraveis
immundices.
Mas era-me maior a vergonha na sahida que a cegueira do furor na
entrada. Estorcia-me os pulsos na rua, e arrancava os cabellos
desesperado. Mais ciumento, mais aferrado, mal vingado, castigado por
minhas proprias mãos, martyrisava-me com o profundo pensamento da
inutilidade dos meus esforços. Não sei que desgosto corporal me subia
aos labios. Era um horror de mim mesmo. Vagava, de ventura, toda a
noite, como miseravel sem abrigo, esperando vencer com a fadiga do corpo
os tormentos do cerebro. Debruçado sobre o parapeito das pontes via
redemoinhar a onda negra do Sena, menos sombria e mais lodacenta que os
pensamentos, irriquietos do meu espirito attribulado. Eu chafurdava nos
lamaçaes, como para destruir sobre immundices impalpaveis, a impalpavel,
mas real immundice que imporcalhava o meu amor. E sempre diante de mim,
perpassando como phantasma nas sombras que se tiravam ao longo das ruas,
via a imagem de Fanny, com o seu ar tranquillo, fronte serena, olhar
sombrio, como que a visitar-me, mas forçando-me a pensar n'ella quando
eu ia cuidando em matar-me para esquecêl-a. Oh! que terrivel estado
aquelle, sem repouso nem treguas ás minhas angustias! que me exacerbava
e prostrava! que incharcando no nôjo a minha desesperação, infamava o
meu ciume sem applacal-o!