Mas o meu ciume, esse não estava morto, nem se quer entorpecido: apenas
tinha variado um pouco de objecto. Desde que o marido estava auzente, já
não podia soffrer por causa de uma partilha que não existia; mas os
menores sentimentos que Fanny me deixava adivinhar, inquietavam-me.
Afóra os filhos, e a mãe que ella via ás escondidas, eu não lhe
consentia amar ninguem. Fanny sorria, encolhendo os hombros. D'este modo
nos tyrannisavamos mutuamente.
Um dia, quando eu lhe tirava o «corpete», uma carta grande e
quadrada--lhe fôra entregue quando saía de sua casa--escorregou-lhe do
peito e caiu aos meus pés. Levantei-a. Tinha o sêllo de Londres. Encarei
Fanny, que, pallida, estendia a mão tremula a tomal-a.
«Teu marido escreve-te?» disse-lhe eu, entregando-lh'a.
--Que pergunta!--disse ella.
--Escreve-te regularmente?--ajuntei eu, depois d'um momento de silencio,
durante o qual eu sentia as garras do meu antigo furor atassalhar-me o
espirito.
--Pois então!... disse ella--todas as semanas.
«Porque te escreve elle?... Separados por tão violenta discussão,
parecia que os corações deviam separar-se para sempre.
Fanny olhou-me com espanto e ficou pensativa. Mas, como eu esperasse
resposta, replicou:
--Espantam-te sempre as mais singelas coisas. Não é natural que meu
marido me diga dos seus negocios, e me falle dos seus filhos?
«É justo... Eu não tinha pensado n'isso--murmurei.
Fallou-se de muitas coisas; mas, a sós commigo, reflexionei immenso.
«Respondes ás cartas de teu marido?
Fanny fez-se livida, hesitou, e deu signaes de impaciencia. Depois
simulou um ar de indifferença, respondendo:
--Escrevo-lhe raras vezes;
--Sim? e, diz-me cá, que lhe escreves?
--Não sei. Escrevo-lhe friamente. Falla-se de negocios. Isto não te
interessa nada.
Fiquei um tanto inleado; mas não pude reprimir-me.
--Como é que nunca tiveste a idéa de mostrar-me as cartas de teu marido?
Roger! Roger!--exclamou sorrindo contrafeita--eu creio que estás louco!
Uma mulher póde por ventura confiar a alguem, principalmente áquelle que
ama, o segredo dos negocios de seu marido?
--Tambem é verdade--murmurei eu.
Fanny quiz logo aproveitar a vantagem que obtivera.
--Feliz seria eu, disse ella, podendo mostrar-te essas cartas que te dão
tanto que pensar. Provar-te-iam que é uma sem-razão recear alguma coisa.
Sabe, pois, espirito desconfiado, que não se póde viver em menos união
do que eu vivo com meu marido.
--De certo!
--Como podes suspeitar o contrario depois que te confiei as minhas
amarguras?
--D'antes, tambem me confiavas o segredo dos negocios domesticos: não
esqueças isto, Fanny.
--Oh! hoje é muito differente.
--Porque?
--Porque... cá me entendo.
Isto fez-me reflectir novamente. Fanny levou as mãos ao céo com piedosa
expressão; eu estava como involto nas sombras da morte. E assim nos
contemplavamos. Era-me impossivel a quietação. Agitava-me d'um para
outro lado.
--Se dizes a verdade, Fanny, por que me não mostras as cartas que lhe
mandas?
--Não é possivel. Quem lêsse uma, comprehenderia as outras.
--Não obstante, eu bem quizera conhecer o tom das tuas cartas. Porque
lhe não escreves agora, mesmo aqui? Falla-lhe de tudo menos do que não
quizeres que eu comprehenda. Eu mesmo levo a carta ao correio.
Supplico-te, Fanny... Se nada temes de ti, dá-me esta prova de
confiança, para me tranquillisar que eu soffro muito.
--Não é possivel--redarguiu ella, com signaes de offendida.
A raiva que me devorava o coração estalou desassombrada:
--Que lhe escreves tu que não queres que eu saiba? Juraste matar-me?
Falla, se tens na alma sombra de piedade! Torturas-me barbaramente como
um algoz!
Fanny ergueu-se, pegou-me da mão e disse brandamente:
--Roger, eu não queria magoar-te.
--Pois que! que mais querias tu fazer-me? Vae! Tu és mulher de duas
caras; eu nunca fui amado por ti!
A esta phrase injusta, lançou-se-me ao pescoço, abafando-me com beijos
as palavras. Eu continuei:
«Como podiam magoar-me as tuas cartas, se, depois d'essa horrivel
contestação, ficaste despeitada com teu marido?
--Sê rasoavel: uma mulher póde ficar despeitada com seu marido?
«Pois que?--exclamei furtando-me aos braços d'ella--tu perdoaste-lhe?
--Rigorosamente não--disse ella, sentando-se quebrantada--mas foi-me
preciso acceitar as suas desculpas. D'esta vez, ainda assim, está tu
certo que não esquecerei mais os ultrages passados.
«Perdoaste-lhe! perdoaste-lhe, Fanny!--Bradei, de pé em frente della,
que olhava para mim assombrada--Não tens, pois, dignidade alguma? Não te
sentes das injurias? És assim vil? Amal-o? Mentiste-me, pois, a mim? Ah!
isto é que eu não acreditaria nunca!
Fanny continuava a ouvir-me silenciosa.
«Diz-me cá: por que me occultaste tanto tempo que elle te insultava?
--Não queria deshonral-o. Se tivesses mais alguma experiencia, não te
espantarias do que succede. Em summa, eu não quero fallar mais n'isto.
Seja-te bastante saber que se me elle restringe a liberdade, ou diz
arrebatado coisas indignas, tem pesar do que faz e diz, passada a
colera. Affirmo-te que o julgas mal. É possivel que eu exaggerasse os
factos no primeiro momento da indignação.. mas.
«Calla-te!--bradei eu--se tens pudôr, calla-te! Ha uma coisa que parece
passar-te desapercebida, e é que, á proporção que vaes fallando, não sei
que idéa peçonhenta lucta, em mim, com o meu amor. Não accrescentes uma
só palavra. Acceito ainda isso, por que sou vil, por que sou um fraco,
por que te amo muito, por que não posso dissuadir-me de te amar; mas
sabe tu que maior mal não m'o podias fazer. Supplico-t'o--não digas mais
nada.
E lançando-me a seus pés, exclamei:
«O despresares-te a ti propria, seria, sobre tudo, cruelissimo!