Durante a ausencia do marido, que foi de mais de seis mezes, houveram
grandes alterações na nossa vida. Eu via Fanny quasi todos os dias.
Ambos abusavamos da liberdade d'ella! Vinha passar commigo todo o tempo
disponivel. Frequentes vezes jantavamos juntos. Encontravamo-nos nos
passeios e no theatro, e nas lojas. Aqui, sem nos mostrarmos conhecidos,
trocavamos olhares furtivos, e, perpassando ao longo dos balcões,
sentiamos as delicias instantaneas do contacto. Escreviamos, além d'isso
tudo, cartas infinitas, e trocavamos flôres.
Fanny esmerava-se em attenções, para compensar-me do mal que me fazia.
Liberalisava-me aquelles delicados disvellos que as mulheres aguardam
dos homens, e dos quaes disvellos são tão economicas, quando se dignam
conceder-lh'os. Beijava-me a mão, chamava-me seu querido filho,
mostrava-se submissa, e esmerava-se por que não houvesse coisa que
turvasse a serenidade da minha vida. Nunca, porém, tratando-me como
dominador, se rebaixava. Ajoelhada deante de mim, tinha a inteira
dignidade d'uma rainha.
Ás vezes, quando as bellas noites do outono eram mais balsamicas e
suaves que as do estio, fugiamos da cidade, como aves cansadas do calôr
do dia. Hombro com hombro, recostados ao respaldo d'uma carruagem
fechada, com as mãos inlaçadas silenciosos, iamos ao bosque buscar um
pouco de ar, de silencio, e de solidão. Rentes comnosco passavam fogosas
parelhas tirando por grandes calexes descobertos, cheios de mulheres
risonhas cujos véos fluctuavam ao vento. Ouviamos o fremito das rodas na
areia, o resfolgar dos cavallos, e o estalido dos chicotes. Viamos
agitarem-se entre as arvores as luzes das lanternas, e mirarem-se na
agua morta dos lagos as sombras espessas dos bosquesinhos de pinheiros.
A lua, ás vezes tão melancolicamente ingastada no céo como nodoa de
prata, alumiava grandes moutas de espinheiros, donde subiam, razando as
hervas, nuvens alvas de vapor. Ebrios do aroma das carvalheiras, e da
mollidão dos nevoeiros luminosos, apeavamos no angulo d'algum caminho
estreito, e nos intranhavamos por debaixo da arcaria de immoveis
arvores, passeando vagarosamente, mais perdidos em nosso scismar do que
o estava a verde folhagem á sombra da noite linda. Era delicioso aquelle
momento em que Fanny, infadada, se me pendia do braço, e justapunha a
sua espadua á minha! Não fallavamos, sentia-se ali o viver, ouviamos as
nossas respirações; e, assim unidos, achavamos doçura estranha n'aquelle
nosso silencio e na incerteza de nossos passos.
Algumas vezes, com tudo, suscitavam-se ligeiras discussões,
remeniscencias attenuadas de antigas discordias. Fanny, porém,
tomando-me, a rir, pelo que eu era, uma creança, ou fazia que me não
intendia, ou, sacudindo-me o braço em ar de gracejo, dizia:
--Ora vamos, não se falla aqui do que já lá vae.
Todos os lados accessiveis da minha vida ia-os ella penetrando cada vez
mais. Como queria tudo saber, imperiosamente se senhoreava de tudo,
passado, presente, e dispunha de tudo, a bel-prazer do futuro. Eu
pensava em tudo como ella. Se me dava conselhos eu seguia-os como
ordens. Em minha casa era ella que dirigia tudo. Os moveis como que se
moviam espontaneamente para se collocarem nos logares designados por
ella; os quadros entravam n'outras molduras; os espelhos inclinavam-se á
vontade d'ella para lhe espelharem por toda a parte a imagem. Era-me
prazer grande o vêl-a assim dispôr do que era meu. A minha casa, tornada
sua, parecia afeminada. Já lá se não viam por sobre as mezas esporas,
chicotes, caixas de charutos; nem junto das paredes tropheus de armas
quarteadas; mas, em logar d'isto, estavam bocetas de flôres, alvissimas
caças rojando sobre os tapetes, mobilia colorida a lacca e incrustações
de Boule, e caixas de perfumarias. Levantavam-se do tapete agulhas e
fios de seda e lã: no rebordo da chaminé brilhavam o dedal e as
thesouras.
Foram, no drama da nossa vida, esses seis mezes uma especie de
entre-acto. Nada nos faltava para a felicidade, excepto a confiança.
Fanny estava sempre sobre-rolda receando ataque improviso, e eu
conservava no coração um certo azedume. Não havia consolar-me de não ter
podido vencer os escrupulos da mulher que eu tanto amava.
Cheguei á fraqueza piegas de pedir-lhe conselhos para a direcção dos
meus bens. Fanny não entendia nada de negocios, mas dava aproveitaveis
pareceres, porque eram sempre dictados por um espirito de desconfiança
feminil. Pois não a consultava eu até em compras de cavallos? No tocante
ao vestir era ella quem decidia soberanamente dos feitios e das côres.
Arranjava a minha roupa branca, a rir, erguida em pontas dos pés para
chegar aos lotes dos armarios, e intromettia-lhe bolsinhas odoriferas
que trazia comsigo, e nunca pude encontrar n'outra parte. Todos os
instantes dos meus dias estavam, em fim, contados. Não dava um passo sem
sua approvação; não comprava luvas ou gravatas que ella não elegesse. O
numero dos meus amigos fixou-o ella. Desprezei tres, porque tinham nomes
que não agradavam a Fanny. Tudo isto me parecia delicioso. Viver sem
ella é que eu não podia por mais que fizesse. Estava enfeitiçado.