Fanny retirou-se sem parecer notar em mim turvação alguma. Depois que
sahiu, mil recordações uma apoz outras, como vagas d'um mar silencioso
cumulavam-me o espirito. O porte de Fanny pareceu-me agora mais que
nunca incomprehensivel.
--Esta mulher é a mais extraordinaria ou a mais vil das
mulheres!--Disse, e repassei na memoria quanto sabia d'ella. Mas, outra
vez ainda, tudo me pareceu contradictorio em sua indole.--Por que
defendia o meu rival quando eu ignorava as suas violencias? Por que o
accusou depois? Por que impallidece agora se me ouve reprovar as acções
do homem que a ultraja? Oh! é possivel supporte tamanhos despresos,
vexações tão aviltantes, e conserve a minima affeição a um homem que a
tortura e humilha!! Indecifravel enigma. Ama-me ella? Ama o marido? Que
ha ahi de commum entre essa mistura de seres, de sentimentos, de
calculos, de transações, e o amor, esta paixão absoluta, intolerante, e
exclusiva? Deste modo ajuntava, separava, e confundia todos os factos da
nossa existencia commum sem poder desinredar o inextricavel fio da
meada. Cada facto, por seu turno, vibrava-me no ouvido, como um som
agudo; e, á maneira d'um clamor synistro, estrondeando por sobre tudo,
rugia incessante aquella palavra da consciencia de Fanny, proferida, um
dia, para meu supplicio:
--Eu mentiria se dissesse que o não estimo.