O dia em que tornei a vêr Fanny, era um dia explendido!
Veio a minha casa, de manhã, deliciosamente vestida, como para celebrar
dignamente as nupcias da nossa felicidade. O seu vestido côr de malva,
que tão gentilmente condizia com a frescura da sua pelle, resplendia
sobre as fórmas esbeltas e finas, e caia-lhe em reverberos, sobre os
pés. Os braços meio nús, sobresahiam das rendas das mangas, com reflexos
baços como os de marfim não lustrado ainda. Do corpete chanfrado sobre o
seio elevava-se, um pouco inclinado, o colo alvissimo. Por de sobre as
faces ondulavam-lhe os cabellos.
Nenhum ruido nos perturbava, a não ser a campainha do relogio que não
ouviamos, e, de longe em longe, o rodar precipitado e passageiro das
carruagens, estremecendo a calçada. Conversamos, mais uma vez, sós por
sós. Fanny comeu pouco, sorrindo, como a pedir perdão. Eu ergui-me para
servil-a, e abraçava-a na passagem. Ella ministrava-me o vinho, com
graça, vertendo-o d'alto, e eu todo me enlevava na formosura d'aquelle
braço que se inquadrava no vacuo sombrio da sua larga manga. Nunca o
nosso quarto nos parecera tão bonito! Queriamos d'alli não sahir mais!
Ergueu-se Fanny, e foi sentar-se no diwan. Colloquei-me a seus pés sobre
uma almofada, com o cotovello sobre o joelho d'ella, e longo tempo
estivemos assim mudos a contemplar-nos. Com uma de suas mãos,
intromettidas nos seus cabellos, levantava-os aos tufos, e devidia-os. E
eu beijava-lhe a outra mão, travada na minha.
--Oh Fanny! se tu não fosses casada!...--dizia-lhe eu com paixão. E ella
respondia:
--Oh Roger! se tu não fosses cioso!...
Não sei como se passou o dia; mas mui rapido passou! Em mutuos olhares
de extasis, em abraços doidos de ternura, em ir e vir d'uma para outra
camara, que horas tão instantaneas correram! Quiz saber a historia da
minha vida. Contei-lh'a: era simplissima. Chorou ouvindo a narrativa da
morte de minha mãe.
Muito havia que não estiveramos tão intimos, serenos, e felizes. O
rancor atroz do ciume não nos separava. Expandimo-nos sem reverva: por
isso mesmo foi completo o socêgo de nossas almas. Havia ali felicidade
que bastaria á boa fortuna de dez amantes.
Cotejando em meu espirito aquelle dia singular com todos os precedentes,
lembrou-me de repente a causa que, por mais d'um anno, nos fizera tão
desgraçados. Rompeu de minha boca uma exclamação furiosa, e, por piedade
das angustias de Fanny, tanto tempo escondidas, não pude conter-me que
não exprobrasse o oppressor.
Fiquei como empedrado quando vi Fanny franzir então a testa, e morder os
labios. Relanceou-lhe rapida na face uma sensação, como o relampago
silencioso que fende uma nuvem. Depois sorriu, e acalmou como o céo
d'uma tarde estiva. Eu, porém, curei de indagar a causa d'aquella
sensação dolorosa, e tornei-me pensativo e triste, por não sei que
confusa remeniscencia.