Quando recobramos a palavra, o furor, reconcentrado em mim, fez subita
explosão.
Fanny ficou estupefacta. Pronunciei, como um demente, palavras ardentes,
sem nexo. Uma especie de loucura acerava, como laminas de um punhal,
cada uma das minhas phrazes, e a raiva hervava-as de peçonha a mais
corrosiva.
O sentimento da impotencia da vingança, a certeza de que os males
d'aquella mulher deviam renovar-se infinitamente, e os meus ciumes
passados, e mais que tudo, a memoria das nossas deploraveis questões,
causadas por aquelle indigno homem, faziam-me offegar de colera como
homem que acaba de levar uma bofetada, e não pode despedaçar entre as
mãos aquelle que lhe gravou o ferrete deshonroso... Na minha demencia,
parecia-me que o amor de Fanny, perdia tanto do seu valor, quanto mais
desgraçada ella era; e, envergonhado d'esta atroz idéa, meditava em
matar, e dar por ella a minha vida. Fanny, porém, ainda abatida, mais
queria ser consolada que vingada.
Abraçou-me, e, coisa estranha! foi ella que me affagou para me
pacificar.