Os primeiros dias, que seguiram esta noite horrivel, passei-os n'um
estado de stupor de que não havia arrancar-me. Esperava não sei que, que
devia terminar-me a vida e os males.--Isto não póde acabar assim!--dizia
eu. Vinte vezes ao dia, pedia a minha correspondencia mas nem se quer
abria as cartas que o meu creado me trazia. Bastava-me vêr a lettra dos
sobre-escriptos. De Fanny não vinha alguma. Affigurava-se-me que ella
tinha morrido. Isto amedrontava-me. Cheguei a duvidar da minha rasão.
Ao oitavo dia, depois da nossa ultima entrevista, tive um presentimento
de que ia vêl-a. Preparei tudo o que queria dizer-lhe. Senti-me vencido.
Queria pedir-lhe perdão; declarar-lhe que estava prompto a submetter-me;
queria supplicar-lhe alguma piedade para os meus padecimentos. Esperei-a
em vão até noite fechada, contando as horas nas pulsações alternadamente
precipitadas e desfallecidas do meu pulso. Não veio. Não escreveu.
Ninguem me deu um instante de esperança fazendo vibrar a campainha da
minha porta.
Ao anoitecer, sahi na direcção da casa d'ella. Chegando á alameda fiquei
surprehendido, vendo tudo fechado. A ideia de Fanny ter ido para longe,
tão longe que eu não podesse vêl-a mais, atravessou-me o cerebro como um
dardo. Com horrivel angustia, mas affoitamente, como um covarde, a cuja
cabeça subiram as fumaças da bravura, bati á porta e perguntei ao creado
se a senhora estava em casa. Eu estava pallido e tremulo; mas elle não
deu fé.--A senhora está no campo--respondeu, «Onde? em Chaville?»--sim,
senhor.
Fui encostar-me a uma arvore por que me sentia desmaiar.
Ao cabo de alguns minutos decedi-me a ir para casa. Era meia consolação
saber que Fanny estava ausente. Comprehendi, emfim, o motivo que lhe
estorvara a vinda; mas não comprehendi por que me não escrevera durante
oito dias. Eu deveria suppor tambem que ella esperaria carta minha; mas
havia ainda muito egoismo no meu despeito.
--Quem sabe se ella me espera lá--dizia eu para consolar-me.
Apenas esta ideia se me abriu no espirito que um desejo imperioso de vêr
Fanny, á custa de tudo, e logo, me assaltou. Estava então perto de casa.
Entrei rapido e pedi o meu cavallo. Ajudei mesmo o creado a
apparelhal-o. E lancei-me ao caminho, cheio de esperança, com as esporas
cravadas nas ilhas sacudindo as redeas, á desfilada, enlameando
passageiros, sem mandar arredar ninguem.
Tanto corri que receei ter-me desencaminhado, e não conheci a casa de
Fanny, que estava em frente de mim, vagamente alumiada, debaixo das
agigantadas arvores. Mas, alçando-me sobre os estribos, para olhar por
cima do muro conheci o pavilhão. Apeei, e entrei no bosque para prender
o cavallo a uma arvore. Depois, retrocedi, e vi com surpreza que a
graderia do jardim estava aberta. Um creado de farda estava á porta. Ao
cabo da aléa, no cunhal da casa, vi brilhar as duas lanternas d'uma sege
immovel.
A meio caminho entre a casa e a grade, um pouco á esquerda, no centro de
um amplo taboleiro de relva, os vidros coloridos do pavilhão fulguravam
aos raios d'um candieiro posto no interior.
--Que segnifica tudo isto?--perguntei eu, caminhando ao longe do muro
para encontrar a brecha por onde eu passára duas vezes. Mas apenas puz o
pé no jardim, fiquei como pregado no chão. Estava ouvindo imprecações e
soluços; do pavilhão, a vinte passos de mim, é que elles sahiam.
Cobriu-me o corpo todo um suor frio. Eu tremia como a folhagem dos
arbustos, sob as quaes me escondera.
Neste momento, a sege correu a grande trote dos cavallos para a grade;
de certo o cocheiro obedeceu a um chamamento que eu não tinha ouvido. Ao
chegar defronte de mim, parou, e o creado da almofada abriu a
portinhola. Tinham cessado os gritos e os soluços. Sahiu um homem do
pavilhão, e fechou-se a porta. Reconheci-o. Que outro poderia ser?
Assentou-se nos coxins, o creado subiu para a almofada, o cocheiro picou
os cavallos, a sege passou a grade, rodou sobre a calçada sonora, e a
grade foi fechada pelo creado de farda que estava ao pé.
Logo que este homem, caminhando para casa, se sumiu entre o arvoredo,
avancei precipitadamente, sem precauções. Antes, porém, de levantar o
trinco da porta, examinei atravez dos vidros. No centro do pavilhão
estava uma meza redonda, com um candieiro em cima. Em toda a roda corria
um amplo divan; e deitada sobre este divan, vi uma mulher chorando, com
a face entre as mãos, dando soluços de rasgar o coração, era ella!
Fanny! ella! Entrei precipitadamente abri-lhe os braços, e lancei-me de
joelhos a seus pés.
Mal me havia reconhecido, quando expediu um grito lacerante, apertou-me
a cabeça entre os braços, e abafou-me contra o seio. Eu não podia fallar
nem respirar. Fanny beijava-me os cabellos, desgrenhava-os com a face,
mordia-os para suffocar os gritos; depois ergueu-me a cabeça e eu senti
cahirem-me lagrimas nas faces, em quanto os seus labios frementes se
agitavam sobre os meus vertiginosamente, e suas mãos palpitavam por
sobre meus hombros, face, pescoço, em phrenetica inquietação.
Finalmente, cahindo desfallecida e quebrada de dôr tirou por mim, e
arrastou-me na quéda sobre o divan. Ergui-me. A partida do marido, e as
lagrimas d'ella, eram-me coisas incomprehensiveis. Entretanto, fiz
quanto pude por chamal-a á vida. O candeeiro, cahindo, apagara-se.
Caminhei para Fanny ás apalpadellas, arranquei-lhe os colchetes do
vestido, e tirei-lhe a pedaços o colete. Depois, á força de caricias,
rogos e orações, aquecendo-lhe as mãos com as minhas, e bafejando-a com
o meu halito ardente, consegui reanimal-a. Soltou um longo suspiro, e
ergueu-se amparada nos meus braços, e parecia reflectir. Torrentes de
lagrimas lhe rebentaram dos olhos, e lançou-se a mim com tanto amor, e
com ar de tanta piedade, que eu, a soluçar tambem, a comprimi ao peito.
--Oh! Roger! meu Roger--exclamou Fanny com a voz entrecortada--se
soubesses que desgraçada eu sou! Consola-me. Ama-me. Soccorre-me. Oh!
que bem me faz o chorar sobre o teu coração... Meu querido Roger!
Os soluços embargaram-lhe as palavras. Instei com ella que se
explicasse. Eu não sabia ainda que dôr podia ser esta, que rompia em
gritos de indignação.
--Teu marido sabe tudo, sim? disse-lhe eu. Fanny fez um meneio de cabeça
negativo, e respondeu:
«Não, não é isso; mas ha um anno que te minto. Eu sou a mais desgraçada,
a mais humilhada, a mais insultada das mulheres. A escoria, o opprobrio,
as infimas mulheres não são mais desgraçadas que eu!
A este grito, que lhe fugia do peito não tinha eu que oppor. Fiquei
estupido e estupefacto. Não achava palavra que lhe dissesse. O que eu
fazia era abraçar convulsamente a lagrimosa mulher. Subito, um raio de
luminosa previdencia me esclareceu o espirito.--Se não aproveito esta
occasião para confessal-a, nunca saberei nada--dizia eu commigo.
Tranquilla deste lance, nunca mais fallará.
Era judiciosa esta idéa. Fiz bem escutar-lhe a inspiração. Empenhei,
pois, toda a minha eloquencia para tirar desta pobre mulher o segredo,
que por tão largo tempo, me havia occultado. Instei, animei-a,
interroguei-a, mostrando-me consternado por sua dôr. Entrei, pois, no
segredo d'uma deploravel historia, não d'uma vez, mas arrancando-lh'a a
promenores, a pedaços, por que a sua exaltação, deixando-se ir até dizer
tudo, era intervallada de reticencias nos mais delicados pontos da
narrativa.
Fez-se luz então para mim tudo o que houvera escuro e incomprehensivel
na sua vida e proceder.
L
O marido de Fanny não era o homem fastidiosamente bom que eu cuidava.
Era um terrivel déspota. Mulher, amigos, creados, todos se acurvavam aos
seus caprichos e obedeciam passivamente ás exigencias do caracter
d'elle. Por zêlos, não é que elle opprimia a mulher, senão que por
indomavel espirito de vontade. Em sua casa havia uma unica pessoa que
dava regra e á qual deviam amoldar-se habilmente as de mais. Não se
tinha em conta de mero homem; dava-se ares d'uma especie de sol que
allumiava; aquecia, e communicava vida a tudo que o rodeava.
Pelo que, logo que viu sua mulher, aconselhada por mim, desviar-se
insensivelmente da norma de vida que elle traçara, ficou primeiro, como
pasmado; mas, com um carregar de sobr'olho, fez que Fanny entrasse
immediatamente na ordem. Todavia, não lhe deu canceira averiguar o por
quê d'aquella timorata tentativa de emancipação. A seu vêr, toda a
mulher era ente chimerico, dirigido por machinismo incomprehensivel, que
não merece analyse séria. Nem elle tinha arrebatado Fanny, nem a tinha
esposado por amor. Não. Seduzira-a por que era formosa, e elle queria
que uma mulher formosa fizesse as honras de sua casa. Raptou-a porque
lh'a negaram. Esposara-a porque era rica, e elle pobre, e, de mais,
queria, a um tempo, enriquecer-se e propagar-se.
E, como a visse submissa, todo elle era disvelos. Era-lhe ponto de honra
gastar cada anno, com sua mulher dobrado do rendimento do dote, e a
miudo a presenteava com ricas dadivas para ostentar sua liberalidade.
Sentia por ella, em summa, alguma coisa d'aquella rudeza attenciosa que
tem os cavalleiros arabes pelos seus cavallos de fina raça. Usam elles
mesmos arraçoal-os com uma das mãos, tendo na outra o chicote prompto a
castigar o menor desmancho.
Por largo tempo, Fanny, subjugada por aquella vontade superior,
docilmente se sugeitou. Pensou, executou, viveu por elle. Á força de
paciencia, obteve, por fim, de seu senhor uma apparencia de liberdade.
Alguns mancebos--segundo me pareceu--approveitaram isso para cortejarem
franca e assiduamente a bella mulher cujo ar de tranquillidade inculcava
um longo habito de rebellião interior, e de dôres inexpansivas. D'isso,
porém, o marido nem se quer suspeitou. Sómente o accaso lhe trouxera ás
mãos uma carta de comprometter. A scena immediata a este descobrimento
foi terrivel. Não se deram, com tudo, gritos, insultos, nem brutalidades
degradantes; nem duelo, nem explicações, nem separação forçada dos dois
imprudentes, que teriam castigado irremissivelmente o orgulho do esposo,
mesmo quando o vingavam. O intelligente marido o que fez foi declarar a
sua espoza que guardava a carta. E, desde então, cada vez que a via
inclinada a emancipar-se, servia-se da tal carta para a fazer tremer e
submetter-se. Um quarto de papel tornou-se nas mãos deste homem um
punhal com que elle espicaçava a mulher para fazel-a andar deante
d'elle.
Era, pois, um vilissimo homem? Não: era simplesmente orgulhosissimo.
Ainda que aquella carta preciosa fosse mil vezes mais explicita, o
marido não lhe daria credito. Em quanto a elle, aquillo, quando muito,
era a prova d'uma creancice perigosa que, astutamente explorada, poderia
degenerar em apparencias de crime. Mas no crime é que elle nunca
acreditou. E acreditar, como? Era impossivel, pela simples razão de que
sua mulher não podia mostrar-se criminosa para com elle. E não podia por
que era sua mulher. E não podia, por que elle... era ELLE. Por tanto,
censurando um pouco essa creancice humilhante, não se mostrava inquieto
nem menos feliz. E continuou a amar a mulher, a seu modo, com aquelle
seu coração de ferro. Depois de quinze annos de casado, vinham ainda ás
vezes uns dias em que elle era todo amores com ella.
A arma, porém, continuava a ser arma em suas mãos, e sempre com
serventia. Primeiro, graças á carta, obteve de Fanny que não fallasse
mais com sua mãe, que elle detestava, por que o não quizera de bôa
vontade acceitar por genro. Depois, exigiu que fizesse crear os filhos
em peitos alheios, sob pretexto que os cuidados maternaes lhe
desbotariam o gosto dos prazeres da sociedade. Depois, sem consultal-a,
e sem visivel utilidade, vendeu o castello onde ella nascera, onde
passara a infancia, e o parque onde estavam sepultados seu pai e seus
dois irmãos. Finalmente, graças á prestimosa carta, não havia repressões
que não lhe ordenasse, vexações que não lhe impozesse mas sem maldade,
mas prodigalisando-lhe sempre obsequios e cortezias, principalmente em
publico. E a vida de Fanny tornou-se um inferno no qual um implacavel
demonio a torturava com uma mão, e acariciava com outra.
Quando, porém, Fanny resistia a exigencias graves, ou a ultrages brutaes
á delicadeza d'ella, é que o marido rompia em transportes inauditos.
Nesse caso, perdia a consciencia de si proprio, mas por uma hora
sómente. Deixava de ser o homem urbanamente desdenhoso que trazia na
cara os mais exquisitos matizes da superioridade de caracter, e cujo ar
affavel e franco, parecia dizer a todo o mundo: «Vede que não ha que
temer de mim.» Transfigurava-se em leão que a natureza amassara com as
suas mãos callosas, e que a educação desbastara apenas. Hirtavam-se-lhe
como crina os cabellos. Flammejavam-lhe os olhos como reflexos d'oiro
fundido. As ventas dilatadas assopravam um halito ardente. A boca
contrahida abria-se, e mostrava dentes admiraveis, como se ameaçassem
dentadas. Crispavam-se-lhe os punhos cerrados. Era medonho. Havia um
insulto que não deixava nunca de esbofetear a victima. A carta dava
sempre o pretexto. E era sempre o mesmo insulto, a mesma palavra infame
que a marcava na fronte como ferro em braza, e que a rebaixava--como
ella dizia--á ultima escaleira de todas as mulheres.
Mas a sorte, que não tem compromissos com as paixões e os caracteres,
obstinava-se por vezes a brigar com este athleta. Feriam-no successos
imprevistos: obstaculos estranhos sahiam a empecer-lhe os passos. Então
era sublime! Não blasphemava, não injuriava a sorte, por que sabia que
era inutil; mas arcava com os successos e obstaculos, e luctava
silenciosamente, friamente, pacientemente. Por custume, dominava a
sorte. Quando lhe correram risco os bens da fortuna, á força de audacia,
conseguio resarcir a melhor parte, abandonando a outra, como um favor
irrisorio aos credores, seus emulos. Outro qualquer, no logar d'elle,
esmoreceria, que vontade como a sua não havia quem a tivesse. Mas um
exito mediocre não bastava a este homem, insaciavel de exitos
estrondosos. Decidira safar o seu navio de entre os escolhos onde fôra a
pique. Queria salvar tudo, carregação, apparelhos, e até o lastro.
Jurára de não ceder ao oceano, um prego só. Eil-o ahi, que, descançando,
na meditação de oito dias, dos seus primeiros trabalhos, reapparece no
sitio do naufragio mais azafamado, mais resolvido, que na primeira vez.
Esta partida subita cauzara a ignobil disputa de que eu fôra
involuntaria testemunha.