XLIX

Os primeiros dias, que seguiram esta noite horrivel, passei-os n'um

estado de stupor de que não havia arrancar-me. Esperava não sei que, que

devia terminar-me a vida e os males.--Isto não póde acabar assim!--dizia

eu. Vinte vezes ao dia, pedia a minha correspondencia mas nem se quer

abria as cartas que o meu creado me trazia. Bastava-me vêr a lettra dos

sobre-escriptos. De Fanny não vinha alguma. Affigurava-se-me que ella

tinha morrido. Isto amedrontava-me. Cheguei a duvidar da minha rasão.

Ao oitavo dia, depois da nossa ultima entrevista, tive um presentimento

de que ia vêl-a. Preparei tudo o que queria dizer-lhe. Senti-me vencido.

Queria pedir-lhe perdão; declarar-lhe que estava prompto a submetter-me;

queria supplicar-lhe alguma piedade para os meus padecimentos. Esperei-a

em vão até noite fechada, contando as horas nas pulsações alternadamente

precipitadas e desfallecidas do meu pulso. Não veio. Não escreveu.

Ninguem me deu um instante de esperança fazendo vibrar a campainha da

minha porta.

Ao anoitecer, sahi na direcção da casa d'ella. Chegando á alameda fiquei

surprehendido, vendo tudo fechado. A ideia de Fanny ter ido para longe,

tão longe que eu não podesse vêl-a mais, atravessou-me o cerebro como um

dardo. Com horrivel angustia, mas affoitamente, como um covarde, a cuja

cabeça subiram as fumaças da bravura, bati á porta e perguntei ao creado

se a senhora estava em casa. Eu estava pallido e tremulo; mas elle não

deu fé.--A senhora está no campo--respondeu, «Onde? em Chaville?»--sim,

senhor.

Fui encostar-me a uma arvore por que me sentia desmaiar.

Ao cabo de alguns minutos decedi-me a ir para casa. Era meia consolação

saber que Fanny estava ausente. Comprehendi, emfim, o motivo que lhe

estorvara a vinda; mas não comprehendi por que me não escrevera durante

oito dias. Eu deveria suppor tambem que ella esperaria carta minha; mas

havia ainda muito egoismo no meu despeito.

--Quem sabe se ella me espera lá--dizia eu para consolar-me.

Apenas esta ideia se me abriu no espirito que um desejo imperioso de vêr

Fanny, á custa de tudo, e logo, me assaltou. Estava então perto de casa.

Entrei rapido e pedi o meu cavallo. Ajudei mesmo o creado a

apparelhal-o. E lancei-me ao caminho, cheio de esperança, com as esporas

cravadas nas ilhas sacudindo as redeas, á desfilada, enlameando

passageiros, sem mandar arredar ninguem.

Tanto corri que receei ter-me desencaminhado, e não conheci a casa de

Fanny, que estava em frente de mim, vagamente alumiada, debaixo das

agigantadas arvores. Mas, alçando-me sobre os estribos, para olhar por

cima do muro conheci o pavilhão. Apeei, e entrei no bosque para prender

o cavallo a uma arvore. Depois, retrocedi, e vi com surpreza que a

graderia do jardim estava aberta. Um creado de farda estava á porta. Ao

cabo da aléa, no cunhal da casa, vi brilhar as duas lanternas d'uma sege

immovel.

A meio caminho entre a casa e a grade, um pouco á esquerda, no centro de

um amplo taboleiro de relva, os vidros coloridos do pavilhão fulguravam

aos raios d'um candieiro posto no interior.

--Que segnifica tudo isto?--perguntei eu, caminhando ao longe do muro

para encontrar a brecha por onde eu passára duas vezes. Mas apenas puz o

pé no jardim, fiquei como pregado no chão. Estava ouvindo imprecações e

soluços; do pavilhão, a vinte passos de mim, é que elles sahiam.

Cobriu-me o corpo todo um suor frio. Eu tremia como a folhagem dos

arbustos, sob as quaes me escondera.

Neste momento, a sege correu a grande trote dos cavallos para a grade;

de certo o cocheiro obedeceu a um chamamento que eu não tinha ouvido. Ao

chegar defronte de mim, parou, e o creado da almofada abriu a

portinhola. Tinham cessado os gritos e os soluços. Sahiu um homem do

pavilhão, e fechou-se a porta. Reconheci-o. Que outro poderia ser?

Assentou-se nos coxins, o creado subiu para a almofada, o cocheiro picou

os cavallos, a sege passou a grade, rodou sobre a calçada sonora, e a

grade foi fechada pelo creado de farda que estava ao pé.

Logo que este homem, caminhando para casa, se sumiu entre o arvoredo,

avancei precipitadamente, sem precauções. Antes, porém, de levantar o

trinco da porta, examinei atravez dos vidros. No centro do pavilhão

estava uma meza redonda, com um candieiro em cima. Em toda a roda corria

um amplo divan; e deitada sobre este divan, vi uma mulher chorando, com

a face entre as mãos, dando soluços de rasgar o coração, era ella!

Fanny! ella! Entrei precipitadamente abri-lhe os braços, e lancei-me de

joelhos a seus pés.

Mal me havia reconhecido, quando expediu um grito lacerante, apertou-me

a cabeça entre os braços, e abafou-me contra o seio. Eu não podia fallar

nem respirar. Fanny beijava-me os cabellos, desgrenhava-os com a face,

mordia-os para suffocar os gritos; depois ergueu-me a cabeça e eu senti

cahirem-me lagrimas nas faces, em quanto os seus labios frementes se

agitavam sobre os meus vertiginosamente, e suas mãos palpitavam por

sobre meus hombros, face, pescoço, em phrenetica inquietação.

Finalmente, cahindo desfallecida e quebrada de dôr tirou por mim, e

arrastou-me na quéda sobre o divan. Ergui-me. A partida do marido, e as

lagrimas d'ella, eram-me coisas incomprehensiveis. Entretanto, fiz

quanto pude por chamal-a á vida. O candeeiro, cahindo, apagara-se.

Caminhei para Fanny ás apalpadellas, arranquei-lhe os colchetes do

vestido, e tirei-lhe a pedaços o colete. Depois, á força de caricias,

rogos e orações, aquecendo-lhe as mãos com as minhas, e bafejando-a com

o meu halito ardente, consegui reanimal-a. Soltou um longo suspiro, e

ergueu-se amparada nos meus braços, e parecia reflectir. Torrentes de

lagrimas lhe rebentaram dos olhos, e lançou-se a mim com tanto amor, e

com ar de tanta piedade, que eu, a soluçar tambem, a comprimi ao peito.

--Oh! Roger! meu Roger--exclamou Fanny com a voz entrecortada--se

soubesses que desgraçada eu sou! Consola-me. Ama-me. Soccorre-me. Oh!

que bem me faz o chorar sobre o teu coração... Meu querido Roger!

Os soluços embargaram-lhe as palavras. Instei com ella que se

explicasse. Eu não sabia ainda que dôr podia ser esta, que rompia em

gritos de indignação.

--Teu marido sabe tudo, sim? disse-lhe eu. Fanny fez um meneio de cabeça

negativo, e respondeu:

«Não, não é isso; mas ha um anno que te minto. Eu sou a mais desgraçada,

a mais humilhada, a mais insultada das mulheres. A escoria, o opprobrio,

as infimas mulheres não são mais desgraçadas que eu!

A este grito, que lhe fugia do peito não tinha eu que oppor. Fiquei

estupido e estupefacto. Não achava palavra que lhe dissesse. O que eu

fazia era abraçar convulsamente a lagrimosa mulher. Subito, um raio de

luminosa previdencia me esclareceu o espirito.--Se não aproveito esta

occasião para confessal-a, nunca saberei nada--dizia eu commigo.

Tranquilla deste lance, nunca mais fallará.

Era judiciosa esta idéa. Fiz bem escutar-lhe a inspiração. Empenhei,

pois, toda a minha eloquencia para tirar desta pobre mulher o segredo,

que por tão largo tempo, me havia occultado. Instei, animei-a,

interroguei-a, mostrando-me consternado por sua dôr. Entrei, pois, no

segredo d'uma deploravel historia, não d'uma vez, mas arrancando-lh'a a

promenores, a pedaços, por que a sua exaltação, deixando-se ir até dizer

tudo, era intervallada de reticencias nos mais delicados pontos da

narrativa.

Fez-se luz então para mim tudo o que houvera escuro e incomprehensivel

na sua vida e proceder.

L

O marido de Fanny não era o homem fastidiosamente bom que eu cuidava.

Era um terrivel déspota. Mulher, amigos, creados, todos se acurvavam aos

seus caprichos e obedeciam passivamente ás exigencias do caracter

d'elle. Por zêlos, não é que elle opprimia a mulher, senão que por

indomavel espirito de vontade. Em sua casa havia uma unica pessoa que

dava regra e á qual deviam amoldar-se habilmente as de mais. Não se

tinha em conta de mero homem; dava-se ares d'uma especie de sol que

allumiava; aquecia, e communicava vida a tudo que o rodeava.

Pelo que, logo que viu sua mulher, aconselhada por mim, desviar-se

insensivelmente da norma de vida que elle traçara, ficou primeiro, como

pasmado; mas, com um carregar de sobr'olho, fez que Fanny entrasse

immediatamente na ordem. Todavia, não lhe deu canceira averiguar o por

quê d'aquella timorata tentativa de emancipação. A seu vêr, toda a

mulher era ente chimerico, dirigido por machinismo incomprehensivel, que

não merece analyse séria. Nem elle tinha arrebatado Fanny, nem a tinha

esposado por amor. Não. Seduzira-a por que era formosa, e elle queria

que uma mulher formosa fizesse as honras de sua casa. Raptou-a porque

lh'a negaram. Esposara-a porque era rica, e elle pobre, e, de mais,

queria, a um tempo, enriquecer-se e propagar-se.

E, como a visse submissa, todo elle era disvelos. Era-lhe ponto de honra

gastar cada anno, com sua mulher dobrado do rendimento do dote, e a

miudo a presenteava com ricas dadivas para ostentar sua liberalidade.

Sentia por ella, em summa, alguma coisa d'aquella rudeza attenciosa que

tem os cavalleiros arabes pelos seus cavallos de fina raça. Usam elles

mesmos arraçoal-os com uma das mãos, tendo na outra o chicote prompto a

castigar o menor desmancho.

Por largo tempo, Fanny, subjugada por aquella vontade superior,

docilmente se sugeitou. Pensou, executou, viveu por elle. Á força de

paciencia, obteve, por fim, de seu senhor uma apparencia de liberdade.

Alguns mancebos--segundo me pareceu--approveitaram isso para cortejarem

franca e assiduamente a bella mulher cujo ar de tranquillidade inculcava

um longo habito de rebellião interior, e de dôres inexpansivas. D'isso,

porém, o marido nem se quer suspeitou. Sómente o accaso lhe trouxera ás

mãos uma carta de comprometter. A scena immediata a este descobrimento

foi terrivel. Não se deram, com tudo, gritos, insultos, nem brutalidades

degradantes; nem duelo, nem explicações, nem separação forçada dos dois

imprudentes, que teriam castigado irremissivelmente o orgulho do esposo,

mesmo quando o vingavam. O intelligente marido o que fez foi declarar a

sua espoza que guardava a carta. E, desde então, cada vez que a via

inclinada a emancipar-se, servia-se da tal carta para a fazer tremer e

submetter-se. Um quarto de papel tornou-se nas mãos deste homem um

punhal com que elle espicaçava a mulher para fazel-a andar deante

d'elle.

Era, pois, um vilissimo homem? Não: era simplesmente orgulhosissimo.

Ainda que aquella carta preciosa fosse mil vezes mais explicita, o

marido não lhe daria credito. Em quanto a elle, aquillo, quando muito,

era a prova d'uma creancice perigosa que, astutamente explorada, poderia

degenerar em apparencias de crime. Mas no crime é que elle nunca

acreditou. E acreditar, como? Era impossivel, pela simples razão de que

sua mulher não podia mostrar-se criminosa para com elle. E não podia por

que era sua mulher. E não podia, por que elle... era ELLE. Por tanto,

censurando um pouco essa creancice humilhante, não se mostrava inquieto

nem menos feliz. E continuou a amar a mulher, a seu modo, com aquelle

seu coração de ferro. Depois de quinze annos de casado, vinham ainda ás

vezes uns dias em que elle era todo amores com ella.

A arma, porém, continuava a ser arma em suas mãos, e sempre com

serventia. Primeiro, graças á carta, obteve de Fanny que não fallasse

mais com sua mãe, que elle detestava, por que o não quizera de bôa

vontade acceitar por genro. Depois, exigiu que fizesse crear os filhos

em peitos alheios, sob pretexto que os cuidados maternaes lhe

desbotariam o gosto dos prazeres da sociedade. Depois, sem consultal-a,

e sem visivel utilidade, vendeu o castello onde ella nascera, onde

passara a infancia, e o parque onde estavam sepultados seu pai e seus

dois irmãos. Finalmente, graças á prestimosa carta, não havia repressões

que não lhe ordenasse, vexações que não lhe impozesse mas sem maldade,

mas prodigalisando-lhe sempre obsequios e cortezias, principalmente em

publico. E a vida de Fanny tornou-se um inferno no qual um implacavel

demonio a torturava com uma mão, e acariciava com outra.

Quando, porém, Fanny resistia a exigencias graves, ou a ultrages brutaes

á delicadeza d'ella, é que o marido rompia em transportes inauditos.

Nesse caso, perdia a consciencia de si proprio, mas por uma hora

sómente. Deixava de ser o homem urbanamente desdenhoso que trazia na

cara os mais exquisitos matizes da superioridade de caracter, e cujo ar

affavel e franco, parecia dizer a todo o mundo: «Vede que não ha que

temer de mim.» Transfigurava-se em leão que a natureza amassara com as

suas mãos callosas, e que a educação desbastara apenas. Hirtavam-se-lhe

como crina os cabellos. Flammejavam-lhe os olhos como reflexos d'oiro

fundido. As ventas dilatadas assopravam um halito ardente. A boca

contrahida abria-se, e mostrava dentes admiraveis, como se ameaçassem

dentadas. Crispavam-se-lhe os punhos cerrados. Era medonho. Havia um

insulto que não deixava nunca de esbofetear a victima. A carta dava

sempre o pretexto. E era sempre o mesmo insulto, a mesma palavra infame

que a marcava na fronte como ferro em braza, e que a rebaixava--como

ella dizia--á ultima escaleira de todas as mulheres.

Mas a sorte, que não tem compromissos com as paixões e os caracteres,

obstinava-se por vezes a brigar com este athleta. Feriam-no successos

imprevistos: obstaculos estranhos sahiam a empecer-lhe os passos. Então

era sublime! Não blasphemava, não injuriava a sorte, por que sabia que

era inutil; mas arcava com os successos e obstaculos, e luctava

silenciosamente, friamente, pacientemente. Por custume, dominava a

sorte. Quando lhe correram risco os bens da fortuna, á força de audacia,

conseguio resarcir a melhor parte, abandonando a outra, como um favor

irrisorio aos credores, seus emulos. Outro qualquer, no logar d'elle,

esmoreceria, que vontade como a sua não havia quem a tivesse. Mas um

exito mediocre não bastava a este homem, insaciavel de exitos

estrondosos. Decidira safar o seu navio de entre os escolhos onde fôra a

pique. Queria salvar tudo, carregação, apparelhos, e até o lastro.

Jurára de não ceder ao oceano, um prego só. Eil-o ahi, que, descançando,

na meditação de oito dias, dos seus primeiros trabalhos, reapparece no

sitio do naufragio mais azafamado, mais resolvido, que na primeira vez.

Esta partida subita cauzara a ignobil disputa de que eu fôra

involuntaria testemunha.

Fanny: estudo · 第 62 / 94 题