XXXIV

«Uma mulher que se aliena--disse-me ella, uma vez, sem nexo que

explicasse o improviso, e olhando-me com ar piedoso--Uma mulher, que se

aliena, não pode amar sem tornar o seu amante o mais desgraçado dos

homens. Quanto mais me examino, Roger, mais conheço que, fartes vezes,

com desgosto meu, te devo fazer soffrer muito.

Commovido por este exordio, respondi balbuciante:

--E, todavia, a nossa alliança podia ser ditosa.

«Sim--disse ella amargurada--O que ha de mais entre nós é o amor.

O castigo secreto d'esta ligação é isso. Estas relações só duram com a

condição de serem banaes; e, se o são, devem repugnar a corações nobres

e delicados; se são profundas e intimas, tornam-se o supplicio de quem

as sente.

E suspirou. Respondi assim:

--Vou mais longe que tu, Fanny.

Um amante, ainda mesmo que o seu amor seja mero capricho, deve soffrer

com uma partilha que offende os sentimentos humanos todos. O amor

proprio, por igual com o amor, tem seus ciumes, seu pudor, suas

torturas. Uma amante, qualquer que seja o seu theor d'amar, conhece

sempre a existencia do marido. O marido, por via de regra mais feliz,

não conhece a existencia do amante.

«Isso é ir longe de mais--disse ella a meia voz; depois, alçando os

hombros, poz os olhos no céo, e exclamou:--Que é o amor proprio, Deus

meu?

Folgando em fim de encontrar Fanny em tal disposição de espirito,

aventurei-me. Peguei-lhe da mão, e erguendo-me, em quanto ella me olhava

affectuosa, disse, n'um tom supplicante:

«Com tudo... se tu quizeres...»

Fanny corou logo, comprehendendo que se demaziava.

--Que queres tu dizer-me?

Não ousei responder; mas ella, por certo me adivinhou, por que me

apertou meigamente a mão, e disse suspirando:--creança!

Eu fiz com a cabeça um gesto negativo! «Deixa-me!--disse ella de

sobresalto, em tom de precipitada--Curar-te has assim? Não posso

fazer-te feliz. Caza-te!»--A dôr anniquilou-a. Repelli-lhe rudemente a

mão, e fitei-a colerico, por essas phrazes que me pareceram uma ameaça.

Mas tão quebrantada a vi, que não tive coragem de a levar ao extremo, e

murmurei por de mais:

--Bem sabes que não é possivel isso.

Replicou:

«Dei-te quanto podia haurir d'affectos em meu coração, e és tu quem me

castigas!

Estava offendida: foi preciso aquietal-a, e jurar-lhe submissão; ella,

porém, não perdoava assim, e exclamou:

«Que queres que eu faça mais?

--Se me amas, como creio, o teu dever está traçado.

Corou outra vez: é que comprehendera.

«Meu dever! meu dever! Muito indiscreto és em proferir semelhante

palavra, Roger! Ignoras tu que o meu mais restricto dever me ordena de

não deixar a caza que governo?

--Ah! Fanny!--exclamei eu--que insignificancia tu trazes para me

ferir... que confronto!...

«A caza--replicou ella baixando os olhos--é o posto d'honra confiado á

mulher! Mulher que se respeita, não a abandona nunca!

Quiz interrompêl-a, mas ella continuou, de repente applacada, e

olhando-me com ternura:

«Raciocina um pouco, meu querido filho: póde uma mulher abandonar sua

familia honorifica, sem perder a estima de si propria? Póde ella

desquitar-se publicamente de todos os seus deveres sem despenhar-se aos

olhos do mundo entre as mulheres perdidas?

--São bem tristes considerações as da sociedade quando as cotejas com a

minha vida...--respondi eu.

Ficamos em silencio, alguns minutos. Fanny proseguiu:

«Se eu seguisse os conselhos que me deixas adivinhar por que és muito

honesto para m'os dar claramente, ser-te-hia forçoso, algum dia,

fazer-me arrepender.

Eu quiz jurar; mas ella cortou-me a palavra.

«Podemos nós supprimir o passado? Não és tu zeloso mesmo do passado? Oh!

quero poupar-te!--accrescentou Fanny, levantando-se, e lançando-me um

braço em roda do pescoço, em quanto com a mão sobre o meu peito, cravava

ternamente nos meus os seus olhos azues--«Em teu logar, crê-me, eu seria

tambem ciosa... Muito resististe!... disse ella, cahindo sobre uma

cadeira, e escondendo entre as mãos a face: «Por que me não fugiste,

quando era ainda tempo!

«Já era tarde, Fanny, bem o sabes, no dia mesmo em que te vi, pela

primeira vez, passar deante de mim.

Ergueu-se outra vez, e abraçou-me com mudo transporte. Pensativo,

alheado, recebia, como insensivel, as caricias. A final, pude dizer-lhe:

--O amor, Fanny, póde consolar muitas dôres, remir muitas humilhações,

substituir muitos affectos. Diz tu: o que é a estima do mundo, os

tranquillos sentimentos da familia, comparados á absorpção d'uma

existencia por outra existencia? É acaso tão longa a vida que possamos

consentir em immolal-a a coisas tão frivolas? E, de mais, que se lucra?

Quem nol-o agradece?

«Roger! Roger!--interrompeu Fanny--que estranha moral!

E eu prosegui:

--Não estás cançada de córar, de tremer, de te esconderes? Não tens,

emfim, vergonha da vergonha? E não te repugna ao coração esperar,

esperar mais, esperar sempre, para trazer-me os beijos avidos á minha

bôca faminta? No espaço d'um anno, com grande custo, apenas teremos cem

horas de viver juntos... a felicidade, de que devemos contentar-nos, é

isto? Se ao menos essa felicidade fosse pura, estrema, absoluta! Mas tu

não pódes ouvir-me, sem que a lembrança de tuas inquietações, perigos a

que te expões, os meus proprios tormentos, te não impallideçam; e eu,

tão desgraçado! não posso uma só vez abraçar-te, sem que logo um

espectro...

«Supplico-te--bradou ella impetuosamente--se me amas, não me digas que

és desgraçado, por que me matas.

--E se tu quizesses--continuei, fitando-a internecido--se quizesses!...

Não haveria no mundo existencia para competir com a nossa. O que eu te

peço é ser eu só o encarregado de te fazer serena a vida, desvelar-me

por ti eu só, preparar, suavisar sob os teus pés a vereda do futuro; ser

só a amar-te; o que eu quero é ser para ti o meio e o fim da felicidade;

é tomar sobre mim todas as penas, e dar-te em troca todos os meus

sonhos, prazeres, e felicidades; o que eu quero é ser a um tempo teu

filho, teu amante, teu pai, reunindo sobre a tua cabeça querida as mais

dôces e solidas affeições, é concentrar em ti as lembranças do passado,

as felicidades do presente, os anhelos do porvir, de modo que venhas a

ser toda para mim, e que não haja na minha vida inspiração que não seja

tua, que não proceda de ti, que não sejas tu! Se tu quizesses... Não ha

ahi paizes onde livremente os que a sorte separou e o amor ajunta pódem

emfim saborear aquelle particular repouso que resulta da plenitude da

felicidade que é a vida? Em meus sonhos, muitas vezes me figuro que

somos voluntariamente proscriptos na immensidade d'alguma solidão, onde,

sob um céo azul sempre, á sombra d'arvores sempre veridentes, á beira

d'um mar sempre sereno e sobre tapetes de musgo sempre em flôr, ahi, nos

saboreamos por nós mesmos, como se a nossa dupla existencia mais não

fosse que uma palpavel recordação. Que desgraça poderia ferir-nos ahi?

que inquietações assaltear-nos? que suspeita incutir-se-nos? que ciume

contristar-nos na felicidade de dias sempre eguaes? se tu quizesses...

Seria pouco para mim amimar-te sempre como a uma creancinha melindrada?

procurar incessantemente debaixo de tuas palpebras o olhar meigo de teus

olhos azues? escutar-te muito tempo o halito a brincar-te por entre os

labios? dormir com a boca presa á tua espadua, a mão inlaçada na tua

mão? vêr-te todos os dias, andar, ir, voltar, mais bella, mais

tranquilla, mais graça que o sonho das virgens? Ouve mais: não seria

nada para ti o teres-me sacrificado todos os prejuizos que formam o

coração das mulheres? teres-me tirado do abysmo de tristeza, no fundo do

qual me estorço ha tanto tempo? teres-me dado tu só mais felicidade do

que homem na terra póde cobiçar? Oh Fanny! Nunca mais, a chorar, eu te

diria: «amo-te!... se tu quizesses!...»

Estava suspensa dos meus labios Fanny. Bebia-me as palavras, ebria de

prazer. Inclinada para o hombro a cabeça, cahidos os braços, as

palpebras descidas, ouvia-me como ao longe a musica, de que não queremos

perder nada, arrobada n'um extasis que reunia todas as sensações e

quebrantos. Arfavam-lhe as rozadas azas do nariz; suaves respostas

inintellegiveis lhe ciciavam os labios; convulções electricas lhe

crispavam a cutis; tremiam-lhe as mãos em vibrações dulcissimas. Já não

poderá conter-se. Correu-me ao seio, e debulhou-se em lagrimas no meu

pescoço que ella cingia soffrega. Oh! que delicioso apertar aquelle!

«Não se falle mais n'isso--disse ella, com expressão de angustia,

recuando a face, e apertando-me a fronte com a mão--Isso faz-me um

grande mal. Querido Roger, o sacrificio, que queres fazer, é egual ao

que me pedes. A felicidade debuxada por tua boca persuasiva é o mais

bello sonho dos meus encantos; mas, ai! não passa d'um sonho! Meu Roger,

amemo-nos, adoremo-n'os; mas, por piedade de mim, não falles assim mais!

Fanny: estudo · 第 47 / 94 题