«Uma mulher que se aliena--disse-me ella, uma vez, sem nexo que
explicasse o improviso, e olhando-me com ar piedoso--Uma mulher, que se
aliena, não pode amar sem tornar o seu amante o mais desgraçado dos
homens. Quanto mais me examino, Roger, mais conheço que, fartes vezes,
com desgosto meu, te devo fazer soffrer muito.
Commovido por este exordio, respondi balbuciante:
--E, todavia, a nossa alliança podia ser ditosa.
«Sim--disse ella amargurada--O que ha de mais entre nós é o amor.
O castigo secreto d'esta ligação é isso. Estas relações só duram com a
condição de serem banaes; e, se o são, devem repugnar a corações nobres
e delicados; se são profundas e intimas, tornam-se o supplicio de quem
as sente.
E suspirou. Respondi assim:
--Vou mais longe que tu, Fanny.
Um amante, ainda mesmo que o seu amor seja mero capricho, deve soffrer
com uma partilha que offende os sentimentos humanos todos. O amor
proprio, por igual com o amor, tem seus ciumes, seu pudor, suas
torturas. Uma amante, qualquer que seja o seu theor d'amar, conhece
sempre a existencia do marido. O marido, por via de regra mais feliz,
não conhece a existencia do amante.
«Isso é ir longe de mais--disse ella a meia voz; depois, alçando os
hombros, poz os olhos no céo, e exclamou:--Que é o amor proprio, Deus
meu?
Folgando em fim de encontrar Fanny em tal disposição de espirito,
aventurei-me. Peguei-lhe da mão, e erguendo-me, em quanto ella me olhava
affectuosa, disse, n'um tom supplicante:
«Com tudo... se tu quizeres...»
Fanny corou logo, comprehendendo que se demaziava.
--Que queres tu dizer-me?
Não ousei responder; mas ella, por certo me adivinhou, por que me
apertou meigamente a mão, e disse suspirando:--creança!
Eu fiz com a cabeça um gesto negativo! «Deixa-me!--disse ella de
sobresalto, em tom de precipitada--Curar-te has assim? Não posso
fazer-te feliz. Caza-te!»--A dôr anniquilou-a. Repelli-lhe rudemente a
mão, e fitei-a colerico, por essas phrazes que me pareceram uma ameaça.
Mas tão quebrantada a vi, que não tive coragem de a levar ao extremo, e
murmurei por de mais:
--Bem sabes que não é possivel isso.
Replicou:
«Dei-te quanto podia haurir d'affectos em meu coração, e és tu quem me
castigas!
Estava offendida: foi preciso aquietal-a, e jurar-lhe submissão; ella,
porém, não perdoava assim, e exclamou:
«Que queres que eu faça mais?
--Se me amas, como creio, o teu dever está traçado.
Corou outra vez: é que comprehendera.
«Meu dever! meu dever! Muito indiscreto és em proferir semelhante
palavra, Roger! Ignoras tu que o meu mais restricto dever me ordena de
não deixar a caza que governo?
--Ah! Fanny!--exclamei eu--que insignificancia tu trazes para me
ferir... que confronto!...
«A caza--replicou ella baixando os olhos--é o posto d'honra confiado á
mulher! Mulher que se respeita, não a abandona nunca!
Quiz interrompêl-a, mas ella continuou, de repente applacada, e
olhando-me com ternura:
«Raciocina um pouco, meu querido filho: póde uma mulher abandonar sua
familia honorifica, sem perder a estima de si propria? Póde ella
desquitar-se publicamente de todos os seus deveres sem despenhar-se aos
olhos do mundo entre as mulheres perdidas?
--São bem tristes considerações as da sociedade quando as cotejas com a
minha vida...--respondi eu.
Ficamos em silencio, alguns minutos. Fanny proseguiu:
«Se eu seguisse os conselhos que me deixas adivinhar por que és muito
honesto para m'os dar claramente, ser-te-hia forçoso, algum dia,
fazer-me arrepender.
Eu quiz jurar; mas ella cortou-me a palavra.
«Podemos nós supprimir o passado? Não és tu zeloso mesmo do passado? Oh!
quero poupar-te!--accrescentou Fanny, levantando-se, e lançando-me um
braço em roda do pescoço, em quanto com a mão sobre o meu peito, cravava
ternamente nos meus os seus olhos azues--«Em teu logar, crê-me, eu seria
tambem ciosa... Muito resististe!... disse ella, cahindo sobre uma
cadeira, e escondendo entre as mãos a face: «Por que me não fugiste,
quando era ainda tempo!
«Já era tarde, Fanny, bem o sabes, no dia mesmo em que te vi, pela
primeira vez, passar deante de mim.
Ergueu-se outra vez, e abraçou-me com mudo transporte. Pensativo,
alheado, recebia, como insensivel, as caricias. A final, pude dizer-lhe:
--O amor, Fanny, póde consolar muitas dôres, remir muitas humilhações,
substituir muitos affectos. Diz tu: o que é a estima do mundo, os
tranquillos sentimentos da familia, comparados á absorpção d'uma
existencia por outra existencia? É acaso tão longa a vida que possamos
consentir em immolal-a a coisas tão frivolas? E, de mais, que se lucra?
Quem nol-o agradece?
«Roger! Roger!--interrompeu Fanny--que estranha moral!
E eu prosegui:
--Não estás cançada de córar, de tremer, de te esconderes? Não tens,
emfim, vergonha da vergonha? E não te repugna ao coração esperar,
esperar mais, esperar sempre, para trazer-me os beijos avidos á minha
bôca faminta? No espaço d'um anno, com grande custo, apenas teremos cem
horas de viver juntos... a felicidade, de que devemos contentar-nos, é
isto? Se ao menos essa felicidade fosse pura, estrema, absoluta! Mas tu
não pódes ouvir-me, sem que a lembrança de tuas inquietações, perigos a
que te expões, os meus proprios tormentos, te não impallideçam; e eu,
tão desgraçado! não posso uma só vez abraçar-te, sem que logo um
espectro...
«Supplico-te--bradou ella impetuosamente--se me amas, não me digas que
és desgraçado, por que me matas.
--E se tu quizesses--continuei, fitando-a internecido--se quizesses!...
Não haveria no mundo existencia para competir com a nossa. O que eu te
peço é ser eu só o encarregado de te fazer serena a vida, desvelar-me
por ti eu só, preparar, suavisar sob os teus pés a vereda do futuro; ser
só a amar-te; o que eu quero é ser para ti o meio e o fim da felicidade;
é tomar sobre mim todas as penas, e dar-te em troca todos os meus
sonhos, prazeres, e felicidades; o que eu quero é ser a um tempo teu
filho, teu amante, teu pai, reunindo sobre a tua cabeça querida as mais
dôces e solidas affeições, é concentrar em ti as lembranças do passado,
as felicidades do presente, os anhelos do porvir, de modo que venhas a
ser toda para mim, e que não haja na minha vida inspiração que não seja
tua, que não proceda de ti, que não sejas tu! Se tu quizesses... Não ha
ahi paizes onde livremente os que a sorte separou e o amor ajunta pódem
emfim saborear aquelle particular repouso que resulta da plenitude da
felicidade que é a vida? Em meus sonhos, muitas vezes me figuro que
somos voluntariamente proscriptos na immensidade d'alguma solidão, onde,
sob um céo azul sempre, á sombra d'arvores sempre veridentes, á beira
d'um mar sempre sereno e sobre tapetes de musgo sempre em flôr, ahi, nos
saboreamos por nós mesmos, como se a nossa dupla existencia mais não
fosse que uma palpavel recordação. Que desgraça poderia ferir-nos ahi?
que inquietações assaltear-nos? que suspeita incutir-se-nos? que ciume
contristar-nos na felicidade de dias sempre eguaes? se tu quizesses...
Seria pouco para mim amimar-te sempre como a uma creancinha melindrada?
procurar incessantemente debaixo de tuas palpebras o olhar meigo de teus
olhos azues? escutar-te muito tempo o halito a brincar-te por entre os
labios? dormir com a boca presa á tua espadua, a mão inlaçada na tua
mão? vêr-te todos os dias, andar, ir, voltar, mais bella, mais
tranquilla, mais graça que o sonho das virgens? Ouve mais: não seria
nada para ti o teres-me sacrificado todos os prejuizos que formam o
coração das mulheres? teres-me tirado do abysmo de tristeza, no fundo do
qual me estorço ha tanto tempo? teres-me dado tu só mais felicidade do
que homem na terra póde cobiçar? Oh Fanny! Nunca mais, a chorar, eu te
diria: «amo-te!... se tu quizesses!...»
Estava suspensa dos meus labios Fanny. Bebia-me as palavras, ebria de
prazer. Inclinada para o hombro a cabeça, cahidos os braços, as
palpebras descidas, ouvia-me como ao longe a musica, de que não queremos
perder nada, arrobada n'um extasis que reunia todas as sensações e
quebrantos. Arfavam-lhe as rozadas azas do nariz; suaves respostas
inintellegiveis lhe ciciavam os labios; convulções electricas lhe
crispavam a cutis; tremiam-lhe as mãos em vibrações dulcissimas. Já não
poderá conter-se. Correu-me ao seio, e debulhou-se em lagrimas no meu
pescoço que ella cingia soffrega. Oh! que delicioso apertar aquelle!
«Não se falle mais n'isso--disse ella, com expressão de angustia,
recuando a face, e apertando-me a fronte com a mão--Isso faz-me um
grande mal. Querido Roger, o sacrificio, que queres fazer, é egual ao
que me pedes. A felicidade debuxada por tua boca persuasiva é o mais
bello sonho dos meus encantos; mas, ai! não passa d'um sonho! Meu Roger,
amemo-nos, adoremo-n'os; mas, por piedade de mim, não falles assim mais!