Depois d'este dia só em Paris nos tornamos a vêr. Era facil a Fanny
ausentar-se, agora que a ninguem devia contas de suas sahidas. Por isso
tornamos ao antigo viver. O que eu, porém, previra realisava-se com um
rigor de desesperar. Não era só o pensamento senão a vida de Fanny que
estavam n'outro logar. Cada vez o sentia mais. Nossa tranquillidade,
prazeres, expansões, jubilos dependiam absolutamente das cartas que o
marido lhe escrevia. Se faltava o correio, ficava distrahida, não me
ouvia. Se recebia de manhã carta inquietadora, ficava preoccupada e
taciturna. Quando a carta era de esperanças, irrompia ella em explusões
d'amor e d'alegria. Esta alegria, porém, molestava-me muito mais que a
tristeza, e aquelle amor, cuja explosão atava a alguma coisa que não
derivava d'elle mesmo, indignava-me. Gélido deante de sua inquietação,
mudo se ella estava triste, irritado pela sua alegria, recuzava
energicamente a receber a repercussão das novidades que tanto a
preoccupavam; e quiz-me parecer que Fanny não se incommodava ou nem dava
fé dos meus enfados. Isto desesperava-me.
Em summa, aborrecido de me vêr assim atado ao meu rival pela mulher,
que, repartindo-se equitativa por nós, dava todos os seus pensamentos
aquelle que ella julgava ter mais urgente precisão de suas sympathias;
indignado por compartir dessas penas, e esperar-lhe anciosamente as
alegrias que só podiam fertilisar as minhas; aguilhoado da tristeza, do
ciume, e da desgraça, resolvi tentar um supremo esforço para recobrar o
socêgo, arrancando-lh'a a elle. Desde muito que se me gerava no animo o
desejo de exigir de Fanny o maior sacrificio que ella podia fazer-me;
mas, retido pelo vago receio d'uma recusa dolorosa, deferi de dia para
dia o momento de sollicitar-lh'o. Azou-se a occasião. Foi ella que a
deu.