XXIX

Chegou o estio, ao cabo d'estas muitas e penosas discussões. Todos os

annos, Fanny ia passar aquella estação ao campo, nos arrabaldes de

Pariz. Um dia, veio ella afflicta annunciar-me a triste nova da partida;

eu, porém, recusei explicitamente conformar-me com a ausencia

«Escrever-nos-hemos» disse ella. Semelhante resignação exasperou-me. Não

sei que lhe respondi, esqueci-o; lembra-me só que combati aquella

resolução com energia de desesperado. Eu chorava tanto, estava tão

alvoroçado, tão infeliz, que ella houve piedade de mim. Apertando-me nos

braços, mil vezes me repetiu que consentia em adoptar os expedientes que

eu lhe indicasse.--Sê prudente! sobre tudo, não te arrisques--disse-me

ella, entre dois beijos, retirando.

Passados oito dias, encaminhei-me na direcção de Chaville. Á beira da

estrada real de Versaille é que estava a casa d'ella.

Quando ouvi dar a meia noite nos relogios longinquos, escalei o muro, e

fui ter a um pavilhão, cujo local me havia indicado Fanny. A vinte

passos, d'um ponto em que me occultavam as copas do arvoredo, vi um

vulto pardacento, immovel. Era Fanny. Corri para ella. Levou-me comsigo.

Fechei a porta. Estávamos ás escuras--Não falles--segredou-me ella, com

extraordinaria agitação--elle está desconfiado ha tres dias; anda

triste; deve ter suspeitas.

Aqui está uma variante nova na amargura da minha vida, com a qual eu não

contava.--Ouve--murmurou ella, com a voz tremula de mêdo--é preciso que

elle não desconfie; não quero que elle o saiba; não quero. Tu és homem,

a ti pertence dirigir o meu comportamento. Falla; e, se é de sacrificios

que vaes fallar-me não temas, que eu sou forte.--E sentindo-se

desfallecer, vendo-me perdido de dôr, disse-me com amargura:--Eu tinha

esquecido que tu não passas d'uma creança. Perdoa-me por haver-te

fallado como a um homem.

«Fanny,--disse-lhe eu solemnemente aconchegando-a de mim para fazel-a

sentar ao meu lado--serei talvez creança, mas tenho coragem de homem.

Surprehendido imprevistamente por esta cruel noticia, não sei que

inventar; mas, já que és forte, decide tu o que devemos fazer:

submetto-me. É preciso abandonar-te? Dize-o. Pela memoria de tua mãe, se

assim o queres, não me verás jámais, ainda que me procures por toda a

terra.

Não quero que morras--disse ella com voz soturna, erguendo-se, e batendo

no chão com o pé. Depois tomou-me a cabeça entre ambas as mãos e

abraçou-me convulsivamente sobre os labios. Mas o ruido de passos que

rangiam na areia impoz-nos silencio. Abraçados pela cintura, curvamo-nos

sobre a vidraça para vêr quem assim passeava no jardim a hora tal.

Era elle! Reconheci-o na largura dos hombros, nos cabellos arrussados

que volteavam ao vento sobre a cabeça nua. Caminhou parallelamente ao

pavilhão, pela rua larga e descoberta, alagada dos fulgores da lua que

cahiam sobre ella a prumo. Marchava lentamente, com as mãos enlaçadas no

dorso, cabisbaixo, as feições alteradas, como homem que leva de poz si

pensamento oppressivo. Passou ante nós, e imbrenhou-se no cerrado

arvoredo.

Tive de sustentar em meus braços a desgraçada mulher, por que os joelhos

não podiam sustel-a. «Socega, minha querida, disse-lhe eu--teu marido

nada suspeita. Está preoccupado; mas não se vê alli a inquietação febril

dos ciumosos. Eu sei bem o que é, de sobra me tenho observado a mim.

--Crês? exclamou ella n'um impeto de esperança que a vibrava.

«Tenho a certeza. Entretanto, separemo-nos. Passados oito dias,

tornarei. D'aqui até lá observa-o bem. Não sei o que é que o inquieta;

mas eu a quem tu hoje chamas creança, digo-te isto: teu marido não tem

ciumes.

Fanny: estudo · 第 42 / 94 题