Chegou o estio, ao cabo d'estas muitas e penosas discussões. Todos os
annos, Fanny ia passar aquella estação ao campo, nos arrabaldes de
Pariz. Um dia, veio ella afflicta annunciar-me a triste nova da partida;
eu, porém, recusei explicitamente conformar-me com a ausencia
«Escrever-nos-hemos» disse ella. Semelhante resignação exasperou-me. Não
sei que lhe respondi, esqueci-o; lembra-me só que combati aquella
resolução com energia de desesperado. Eu chorava tanto, estava tão
alvoroçado, tão infeliz, que ella houve piedade de mim. Apertando-me nos
braços, mil vezes me repetiu que consentia em adoptar os expedientes que
eu lhe indicasse.--Sê prudente! sobre tudo, não te arrisques--disse-me
ella, entre dois beijos, retirando.
Passados oito dias, encaminhei-me na direcção de Chaville. Á beira da
estrada real de Versaille é que estava a casa d'ella.
Quando ouvi dar a meia noite nos relogios longinquos, escalei o muro, e
fui ter a um pavilhão, cujo local me havia indicado Fanny. A vinte
passos, d'um ponto em que me occultavam as copas do arvoredo, vi um
vulto pardacento, immovel. Era Fanny. Corri para ella. Levou-me comsigo.
Fechei a porta. Estávamos ás escuras--Não falles--segredou-me ella, com
extraordinaria agitação--elle está desconfiado ha tres dias; anda
triste; deve ter suspeitas.
Aqui está uma variante nova na amargura da minha vida, com a qual eu não
contava.--Ouve--murmurou ella, com a voz tremula de mêdo--é preciso que
elle não desconfie; não quero que elle o saiba; não quero. Tu és homem,
a ti pertence dirigir o meu comportamento. Falla; e, se é de sacrificios
que vaes fallar-me não temas, que eu sou forte.--E sentindo-se
desfallecer, vendo-me perdido de dôr, disse-me com amargura:--Eu tinha
esquecido que tu não passas d'uma creança. Perdoa-me por haver-te
fallado como a um homem.
«Fanny,--disse-lhe eu solemnemente aconchegando-a de mim para fazel-a
sentar ao meu lado--serei talvez creança, mas tenho coragem de homem.
Surprehendido imprevistamente por esta cruel noticia, não sei que
inventar; mas, já que és forte, decide tu o que devemos fazer:
submetto-me. É preciso abandonar-te? Dize-o. Pela memoria de tua mãe, se
assim o queres, não me verás jámais, ainda que me procures por toda a
terra.
Não quero que morras--disse ella com voz soturna, erguendo-se, e batendo
no chão com o pé. Depois tomou-me a cabeça entre ambas as mãos e
abraçou-me convulsivamente sobre os labios. Mas o ruido de passos que
rangiam na areia impoz-nos silencio. Abraçados pela cintura, curvamo-nos
sobre a vidraça para vêr quem assim passeava no jardim a hora tal.
Era elle! Reconheci-o na largura dos hombros, nos cabellos arrussados
que volteavam ao vento sobre a cabeça nua. Caminhou parallelamente ao
pavilhão, pela rua larga e descoberta, alagada dos fulgores da lua que
cahiam sobre ella a prumo. Marchava lentamente, com as mãos enlaçadas no
dorso, cabisbaixo, as feições alteradas, como homem que leva de poz si
pensamento oppressivo. Passou ante nós, e imbrenhou-se no cerrado
arvoredo.
Tive de sustentar em meus braços a desgraçada mulher, por que os joelhos
não podiam sustel-a. «Socega, minha querida, disse-lhe eu--teu marido
nada suspeita. Está preoccupado; mas não se vê alli a inquietação febril
dos ciumosos. Eu sei bem o que é, de sobra me tenho observado a mim.
--Crês? exclamou ella n'um impeto de esperança que a vibrava.
«Tenho a certeza. Entretanto, separemo-nos. Passados oito dias,
tornarei. D'aqui até lá observa-o bem. Não sei o que é que o inquieta;
mas eu a quem tu hoje chamas creança, digo-te isto: teu marido não tem
ciumes.