XXVIII

Porém, nos mais violentos accessos de meu ciume, inraivecia-me vêr-lhe

no semblante aquelle seu ar pudico, que ella conservava sempre, mesmo na

mais avida vertigem do goso. Ora isto, com o correr do tempo, deu para

me irritar. Tomei a peito depraval-a, buscando abafar este amor nas

cinzas do fastio: Fanny ficava sempre a mesma! Estavam alli duas almas

diversas a exhalarem-se-lhe dos labios e dos olhares. Uma era a de

Phrynea absorvida, e séria, nutrida dos mais finos primores como das

especiarias mais corrosivas da paixão, o que, alternadamente, se

assignalava por um sorrir estranho e vago. A segunda era a de um anjo

immaculado. Ai! aquelle olhar d'ella! Aquella expressão de spasmo que

reluzia perpetuamente em seus olhos azues, tão rasgados, sob as placidas

e destacadas palpebras! Ainda agora me seguem e arrebatam! Sinto-os

sempre, fitos nos meus! Interrogam-me, e fascinam-me! Não poderei jámais

esquecer os olhos d'ella?...

Fanny, no garbo de suas attitudes, no meneio da cabeça, no andar, tinha

algumas vezes um não sei que que denunciava appetites de um sensualismo

profundo e vehemente, e mesmo alguma coisa dessa monstruosa concessão

duplicada, que tanto a meus olhos a invilecia. De subito, com uma

palavra só, transfigurava-se, e julgal-a-ieis uma outra mulher.

«Que mulher és tu, pois?» lhe disse eu, em seguida a uma discussão em

que me havia manifestado sentimentos os mais contraditorios. Levantou

ella a face, e encarou-me com os seus olhos tranquillos e lympidos;

porém, commoção interna lhe dilatava as azas nazaes e avermelhava de

leve as faces.

--Não posso viver sem amar--respondeu ella pausadamente--Não posso viver

sem ser amada. Minhas qualidades boas, e meus defeitos, são cousas

secundarias: todas as mulheres tem d'umas, e d'outros. Mas o que é

exclusivo meu, é a minha paixão.--E com leal exaltação, ajuntou:

«comprehendes-me?»

Fanny: estudo · 第 41 / 94 题