Em troca d'estas dôres, que por serem silenciosas, não eram menos
crueis, nenhuma consolação eu recebia. Os meus prazeres eram extinctos.
A duvida resequira as novas flôres d'elles com seu impuro sopro.
Apenas meus sentidos se atrophiavam, vinha logo a mão adunca da
mysantropia cravar-se-me no hombro. A lembrança d'aquelle que, na logica
da minha paixão, eu nomeava meu vival, como spectro de suplicio infindo,
vinha interpor-se entre mim e ella, com uma atroz ironia, para
empeçonhar nossas caricias.
Eu via os traços d'elle nas palavras, nos gestos e modos e costumes da
mulher que eu adorava. N'aquelles braços que me apertavam ao coração,
estavam os seus moldes. No sangue que ondeava desordenado nas arterias
de Fanny, se infiltrára elle. Via-o na fronte pallida, no rosto
contemplativo, nos olhos amortecidos, todo n'ella, abraçando-me, com
ella, e suspirando nos seus suspiros... Como eu invejava amigos meus
abandonados, que se aturdiam juntos, nas bachanaes, ao tilintar do oiro
sobre os panos verdes das mesas do jogo, ás francas gargalhadas das
mulheres perdidas! E todos os amantes desdenhados, que, de braços
abertos e olhar internecedor, perseguem, sonhando, uma sombra altiva! E
ainda todos os amantes separados! Nenhum d'elles--dizia eu
lastimosamente--soffreu jámais por seu amor infertil, tanto quanto eu
soffro por meu amor partilhado. Zombaria atroz da possessão! quando nos
não fatigas, deshonras-nos.