Algumas vezes fugia de casa como d'um carcere, e ia espairecer minhas
interminaveis meditações na multidão que peja os passeios. Achando-me
entre pessoas felizes, indifferentes, occupadas; saboreando, a meu
pezar, os primeiros effluvios balsamicos da primavera, cessava de
julgar-me tão absolutamente miseravel, e classificava de creancice as
mais monstruosas hallucinações--É o ciume--dizia--que me torna absurdo.
Encontrando a cada passo tantas mulheres bonitas, elegantes, pelo braço
de cavalheiros, os quaes com ar de aborrecidos, volteam os olhos em
deredor, e escassamente lhes respondem, accrescentava eu:--Quantas
mulheres habitam sob as mesmas telhas com seus maridos, sem repararem
n'isso! Ao cabo de quatro annos de intimidade, o marido converte-se em
amigo, e nem sempre! É de toda a gente, menos de sua mulher...
Mas logo vinham as duvidas a mortificar-me, cada vez mais pungitivas, e
eu debalde a repelil-as de meu espirito. Que farte me conhecia eu para
saber que não poderia jámais adquirir o espirito de conformidade com o
meu seculo que permitte ao amante d'uma mulher cerrar a mão de seu
marido, amigo só que seja! Além d'isso, eu não queria cortejar esse
dominador, nem ajustar-me aos seus caprichos, nem tornar-me para elle o
homem indispensavel. Eu vaticinava--se as suspeitas alguma vez o
molestassem--quantas semsaborias me seria preciso fazer, quantas
mentiras engenhar, quantos desgostos e aviltamentos supportar para
destruil-as. E para aviltamento já bastava! D'aqui avante não
passo--protestava eu--já é de mais o lamaçal do meu caminho.
Mais cançado e inquieto que na sahida, voltava para casa. Os sorrisos da
primavera faziam-me vontade de chorar. A mornidão da atmosphera
ingravecia-me no cerebro os pensamentos. O espectaculo, e sussurro das
multidões ao longe, tornavam ainda mais incomportavel o silencio da
minha soledade.