Desde este funesto dia comecei a soffrer grandes torturas. A imagem
daquelle homem incrustara-se-me na memoria, e, por mais que eu fizesse,
não havia dilil-a de lá. Póde ser que aos olhos de toda a gente fosse
elle ridiculo, mas aos meus não cuidei que o fosse. Para mim, era
sinistro, terrivel, e, cada noite, espavorido, via-o, em sonhos,
trucidar carniceiramente o espectro da minha felicidade.
O feliz era elle, que tudo ignorava. No drama começado por transportes
de amor, e agora prolongado a travez de anciedades, terrores,
desespêros, não representava elle: tão prudentes tinhamos nós sido!
Atroz mudança de papeis! Era eu que tinha ciumes d'elle! O espoliador
soffria da posse pela posse. Não lhe restava mesmo o recurso de excitar
as suspeitas do espoliado para o fazer aquinhoar das torturas!
E era-me força desconfiar e occupar-me d'elle!
A meu pesar, para evital-o, cumpria-me ser ardiloso como a lebre. Este
papel de fugidiço, de temorato, degradava-me ao livel dos covardes. Meu
Deus! se eu a não amasse!...
Em comparação dos males que deviam vir, aquelles nada eram. Principiava
a caminhar n'uma senda espinhosa, cavada de abysmos, e não sabia que
flagellações me urgia supportar antes de chegar ao termo. Desde então,
se deante do fogão, no meu quarto silencioso, eu tentava divertir a alma
da dôr presente, levando-a ás memorias de amores passados; ou esporeando
á redea solta o meu cavallo, arriscava cem vezes a vida para quebrantar
o corpo de fadiga, a fim de reverter sobre elle a fadiga de meu cerebro,
ou se pedia á orgia o esquecimento, bebendo a grandes tragos o vinho que
nunca me valeu uma gota d'agua do Léthes; ou se, n'um só lanço de azar,
expunha os meus haveres para soffrer sequer uma sensação diversa
daquella que eu execrava; ou, se emfim, envolvido nos cortinados da
minha alcova, eu passava as minhas noites inteiras a lastimar-me,
invocando os phantasmas dos seres adorados que perdi: nunca, nem no
sonho, nem no perigo, nem na embriaguez, nem no jogo, nem ainda na
remeniscencia da minha mãe morta, eu pude conseguir estrangular a
serpente que me atassalhava o coração. Comigo, a visão fatal sorria aos
meus amores juvenis; comigo, cavalgava ella o meu cavallo espantado;
zombeteando, molhava ella os labios palidos no meu copo; no copo do jogo
fazia ella o tilintar dos dados; comigo, emfim, meditava ella em minha
mãe. Á flôr de minhas recordações todas, scenas incantadoras,
affectuosas, terriveis, que eu restaurava com a memoria, do fundo de
minha alma, surdiam incessantemente outras lembranças, outras imagens
que espancavam aquellas.
E não havia remedio senão acolher aquellas abominaveis lembranças;
affrontar de rosto com aquellas funestas imagens, porque era a isso
violentado; venciam-me, e eu então, encarava-as!
Havia ahi alguma coisa horrida, humilhadora, e angustiadissima.
Só quem ama póde formar idéa vaga de minhas agonias. Era tudo claro e
patente: nenhum refugio para a duvida! E eu me reprezentava a mulher
amada, linda, elegantemente vestida, meiga, candida, assentada ao angulo
do fogão em sua sala, ou á meza, no logar de honra, em face de seu
marido, rodeada de amigos, e filhos. Affavel sempre, com attenções
delicadas para todos, attenções que são a magica linguagem da graça do
coração. E para o dominador mais carinhoso que para os mais! Era-lhe
forçoso prevenir suspeitas de homem tão prespicaz: como não seria ella
carinhosa? E, a de mais, entre elles existia a communidade de tantas
coisas--interesses, filhos, viverem juntos, a toda a hora, alegres ou
tristes, sem nunca se apartarem!... E quantas expansões naturaes!... Era
elle o leão dominador daquella adoravel existencia; e eu, o lobo temido,
e salteador, de olhar ferino, esbaforido, que, de tempo a tempo, a risco
de perigos mil, exposto a humilhações degradantes, a uma bala, o roubava
nas trevas, em quanto elle dormia, alguns restos do seu quinhão.
Oh! era isto o que me humilhava muito; mas aqui vereis o que me fazia
pedaços o coração. Eu não podia suspender o trabalho indefesso de minhas
evocações. Completava-as, ruminando minhas dôres, com satanico prazer.
Então se mudava a scena, e figurava-se-me Fanny, por noite, só por só
com elle, depois da saida dos filhos, na alcova fechada, onde o chá
fumegava nas chavenas, ao suave clarão da lampada, ao pé do lume que
docemente crepitava nas cinzas quentes. E ella a olhal-o com aquelles
mesmos olhos que eu amava tanto! E a conversar com elle, amavel, facil,
fallando pouco para lhe deixar o prazer de fallar, submissa como convém
á mulher quando é formosa, e o dominador é forte. E não cuideis que eu
ficasse n'estas imagens de seductora intimidade.
Não podia. Continuava-as, exaggerava-as... que sei eu!... ajuntava-lhe
outras. Era forçoso que assim fosse, assim devia ser. Era tarde,
agonisava a chamma no fogão obscuro, a lampada mortiça abafava os seus
lampejos no quebra-luz, callavam-se todos os rumores na casa e na rua; o
passo sonoro do caminheiro retardado, marcava a hora do repouso e do
prazer. De mais, meninos e creados, tudo estava na cama. Estavam elles
sosinhos. E eram esposos!...