XVII

Desde este funesto dia comecei a soffrer grandes torturas. A imagem

daquelle homem incrustara-se-me na memoria, e, por mais que eu fizesse,

não havia dilil-a de lá. Póde ser que aos olhos de toda a gente fosse

elle ridiculo, mas aos meus não cuidei que o fosse. Para mim, era

sinistro, terrivel, e, cada noite, espavorido, via-o, em sonhos,

trucidar carniceiramente o espectro da minha felicidade.

O feliz era elle, que tudo ignorava. No drama começado por transportes

de amor, e agora prolongado a travez de anciedades, terrores,

desespêros, não representava elle: tão prudentes tinhamos nós sido!

Atroz mudança de papeis! Era eu que tinha ciumes d'elle! O espoliador

soffria da posse pela posse. Não lhe restava mesmo o recurso de excitar

as suspeitas do espoliado para o fazer aquinhoar das torturas!

E era-me força desconfiar e occupar-me d'elle!

A meu pesar, para evital-o, cumpria-me ser ardiloso como a lebre. Este

papel de fugidiço, de temorato, degradava-me ao livel dos covardes. Meu

Deus! se eu a não amasse!...

Em comparação dos males que deviam vir, aquelles nada eram. Principiava

a caminhar n'uma senda espinhosa, cavada de abysmos, e não sabia que

flagellações me urgia supportar antes de chegar ao termo. Desde então,

se deante do fogão, no meu quarto silencioso, eu tentava divertir a alma

da dôr presente, levando-a ás memorias de amores passados; ou esporeando

á redea solta o meu cavallo, arriscava cem vezes a vida para quebrantar

o corpo de fadiga, a fim de reverter sobre elle a fadiga de meu cerebro,

ou se pedia á orgia o esquecimento, bebendo a grandes tragos o vinho que

nunca me valeu uma gota d'agua do Léthes; ou se, n'um só lanço de azar,

expunha os meus haveres para soffrer sequer uma sensação diversa

daquella que eu execrava; ou, se emfim, envolvido nos cortinados da

minha alcova, eu passava as minhas noites inteiras a lastimar-me,

invocando os phantasmas dos seres adorados que perdi: nunca, nem no

sonho, nem no perigo, nem na embriaguez, nem no jogo, nem ainda na

remeniscencia da minha mãe morta, eu pude conseguir estrangular a

serpente que me atassalhava o coração. Comigo, a visão fatal sorria aos

meus amores juvenis; comigo, cavalgava ella o meu cavallo espantado;

zombeteando, molhava ella os labios palidos no meu copo; no copo do jogo

fazia ella o tilintar dos dados; comigo, emfim, meditava ella em minha

mãe. Á flôr de minhas recordações todas, scenas incantadoras,

affectuosas, terriveis, que eu restaurava com a memoria, do fundo de

minha alma, surdiam incessantemente outras lembranças, outras imagens

que espancavam aquellas.

E não havia remedio senão acolher aquellas abominaveis lembranças;

affrontar de rosto com aquellas funestas imagens, porque era a isso

violentado; venciam-me, e eu então, encarava-as!

Havia ahi alguma coisa horrida, humilhadora, e angustiadissima.

Só quem ama póde formar idéa vaga de minhas agonias. Era tudo claro e

patente: nenhum refugio para a duvida! E eu me reprezentava a mulher

amada, linda, elegantemente vestida, meiga, candida, assentada ao angulo

do fogão em sua sala, ou á meza, no logar de honra, em face de seu

marido, rodeada de amigos, e filhos. Affavel sempre, com attenções

delicadas para todos, attenções que são a magica linguagem da graça do

coração. E para o dominador mais carinhoso que para os mais! Era-lhe

forçoso prevenir suspeitas de homem tão prespicaz: como não seria ella

carinhosa? E, a de mais, entre elles existia a communidade de tantas

coisas--interesses, filhos, viverem juntos, a toda a hora, alegres ou

tristes, sem nunca se apartarem!... E quantas expansões naturaes!... Era

elle o leão dominador daquella adoravel existencia; e eu, o lobo temido,

e salteador, de olhar ferino, esbaforido, que, de tempo a tempo, a risco

de perigos mil, exposto a humilhações degradantes, a uma bala, o roubava

nas trevas, em quanto elle dormia, alguns restos do seu quinhão.

Oh! era isto o que me humilhava muito; mas aqui vereis o que me fazia

pedaços o coração. Eu não podia suspender o trabalho indefesso de minhas

evocações. Completava-as, ruminando minhas dôres, com satanico prazer.

Então se mudava a scena, e figurava-se-me Fanny, por noite, só por só

com elle, depois da saida dos filhos, na alcova fechada, onde o chá

fumegava nas chavenas, ao suave clarão da lampada, ao pé do lume que

docemente crepitava nas cinzas quentes. E ella a olhal-o com aquelles

mesmos olhos que eu amava tanto! E a conversar com elle, amavel, facil,

fallando pouco para lhe deixar o prazer de fallar, submissa como convém

á mulher quando é formosa, e o dominador é forte. E não cuideis que eu

ficasse n'estas imagens de seductora intimidade.

Não podia. Continuava-as, exaggerava-as... que sei eu!... ajuntava-lhe

outras. Era forçoso que assim fosse, assim devia ser. Era tarde,

agonisava a chamma no fogão obscuro, a lampada mortiça abafava os seus

lampejos no quebra-luz, callavam-se todos os rumores na casa e na rua; o

passo sonoro do caminheiro retardado, marcava a hora do repouso e do

prazer. De mais, meninos e creados, tudo estava na cama. Estavam elles

sosinhos. E eram esposos!...

Fanny: estudo · 第 30 / 94 题