Desde essa noite, uma só preoccupação me dominou--dissipar do meu
cerebro a imagem do que vira. Quiz, á custa de tudo, esquecer aquillo
que me humilhava e esmagava o coração. Como eu me castigava do que
fizera! Absurda cubiça de conhecer o que ella tão de siso me escondera,
e que eu devia ignorar sempre!
--Oh! não--me dizia eu--nunca mais ouvirei fallar deste homem temivel;
nunca mais lhe encontrarei os olhos dominantes; nunca os nossos halitos
hão-de encontrar-se na atmosphera da mesma sala; nunca mais, deante de
mim, ha-de a mão d'elle apertar a tua, ó mulher serena e docil!
Tres dias depois, quando veio a minha casa, não viu ella em mim mudança
alguma. A colera, a pouco e pouco, enchera-me de suas fezes a alma; mas
dôr era esta que simulava a quietação da paz.
Com apparencias de socegado, sentia-me ferido de morte. Golpeado no
coração, conservava o meu aspecto antigo, como aquelles fructos
escarlates cuja pele fina e tenra cobre carne que devora um verme
invisivel. E assim, de nada suspeitou Fanny. Todavia, como eu lhe
fallava d'ella, de mim, de tudo em summa, excepto do que mais a
preoccupava, Fanny parecia esperar anciosa. Por ultimo, no extremo da
minha contrafeita eloquencia, propellido pelo anceio de vingar-me d'uma
dôr nunca experimentada e cuja causa innocente ella era, lhe disse com
amargura:
--Tu queres saber o que eu penso de teu marido, e talvez que te dês por
venturosa se o juizo que esperas não lhe fôr desfavoravel. Mas, Fanny,
tu nunca has-de saber o sentimento que elle me inspira.
Pareceu-me que, ao ouvir-me estas palavras, todo o sangue do coração lhe
refluiu á face. Pobre mulher conciliadora! tanta alegria em chamar-me a
sua casa, para me vêr mais a miudo, para me unir a todos os entes doces
e queridos que lhe decoravam o coração!...
--D'onde vem essa mudança, Roger?--murmurou ella com penoso esforço.
«D'onde vem?!» exclamei eu infurecido... mas vi-lhe então o rosto
innundado de lagrimas; e logo, cahindo a seus pés, abraçando-a pelos
joelhos, disse-lhe brandamente:
«É que eu sou horrivelmente desgraçado, Fanny!... É porque me devoram
ciumes...
Ergueu-se de subito, como estupefacta, sem me repellir. Reteve-me
ajoelhado, pesando-me sobre os hombros com as mãos: eu permanecia de
joelhos, sem a comprehender. Fitou-me por largo espaço, profundamente,
explorando os intimos arcanos de minha alma inquieta. Depois ergueu
ligeiramente os hombros; e, baixando-se para me apertar a face ao seio,
exclamou:
«Filho, meu pobre e querido filho!»
E desde ahi, não tornou mais a fallar, por si mesma, neste assumpto.
Eu, porém, pensava n'elle incessante e dolorosamente, sem poder
abster-me de o recordar. Affagava-me então ella, e reprehendia-me.
«Perdes o tempo»--dizia-me, sorrindo-me, e abraçando-me, se me eu
detinha muito na exposição das minhas tristezas. E seus braços se me
inroscavam no pescoço com ameigadora volupia, com a fascinação dos olhos
me violentava a olhal-a, com graciosa e morbida ternura collava aos meus
seus labios. Mas tudo em vão. Já se não franziam meus labios para
saborear beijos d'amor; agora era o confrangerem-se soluçando gemidos.