A minha vida ia com ella. Melancolicamente encostado ao peitoril de
minha janella, via-a por entre as fisgas das persianas, passar na rua.
Lá ia vagarosa, simples, tranquilla, bella. As duas fimbrias de seu véo
fluctuavam-lhe docemente sobre os hombros, acarinhando-lhe de cada lado
a face.
A barra do vestido, relevada de folhos de seda, sussurrava com o
movimento. Com ambas as mãos ajustadas sobre a cintura, comprimia as
dobras da cachemira que a involvia desde a nuca até ao artelho. Nunca se
voltava. Encostava-se ao longo das paredes para evitar o embate dos
caminheiros. Emfim, chegando ao angulo da rua, desapparecia; e eu
atirava-me sobre o leito, escondia nas mãos o rosto, avocando,
hallucinado, todas as minhas remeniscencias esparsas para ainda assim me
illudir com possuil-a.