ECCLESIASTES.

_TERCEIRA EDIÇÃO_

LISBOA

PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA

LIVRARIA EDITORA

_Rua Augusta, 50, 52 e 54_

1903

Officinas typographica e de encadernação, movidas a vapor

Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.º

LISBOA

I

A caza está situada de esguêlha, sobre um comoro de areia, á orla da

praia, olhando de soslaio o oceano, como desconfiada d'elle. É uma casa

baixa, de pavimento plano, com um recinto ao rez do chão, um portal,

seis janellas, e uma chaminé de gêsso, meio esburacada, no cume do

telhado.

Á primeira vez que de longe a vi, caminhando eu atravez de desertos

cabedellos, tinha ella um tão triste aspecto, que eu senti serrar-se-me

o coração. Estava inscripto o desamparo nas largas fendas que

desconjunctavam as paredes, e nas rachas profundas das telhas

desmantelladas. Gemia a porta a cada bulcão do vento que a embatia

contra o gonzo unico. Das montanhas aquosas do oceano erguia-se, como um

sudario, a nebrina que a envolvia.

Fazia frio. Uma briza cortante sacudia, silvando o dorso das vagas,

marulhando-as, revolvendo-as, e espedaçando-as. Rolos de areia, de

mistura com entulho, limos e cardos, refluiam até á testada da porta. Do

outro lado, á maneira d'uma nodoa verde-escura, crescia a herva, que

invadia o antigo jardim.

Uma pobre arvore, vergada sobre a parede, do lado de terra, escassamente

sustentava a ramagem que a ventania furiosa atormentava. Junto á raiz,

conservava apenas alguns restos de folhas dessecadas. Com lamentavel

aspecto, se erguia ella, dentre os sacões do vento, mas a goteira de

chumbo, pendida da cornija, e açoitada pelas refegas oppostas,

rossando-lhe nas grimpas, desfazia-lh'as a pedaços.

Eu, ao querer desterrar-me da sociedade, lembrei-me d'esta abegoaria,

que meu pae me herdára, e era o restante d'um casal, já desbaratado. Vim

alli procurar o silencio e a solidão. Mas não reparei o solar da porta,

nem fiz cultivar o jardim. Deixei as fendas do tecto, pelas quaes se

coava a chuva; deixei as fendas nas paredes, por onde irrompia o

asperrimo furacão das noites do outono. Não chumbei o gonzo do portal.

Não levantei a goteira de chumbo. Não me amiserei da velha arvore que se

estorcia como um crucificado contra o muro, por que a sorte não se

amiserára de mim.

Installei-me na salla unica sem alterar nada da sordida mobilia. Um

banco de pau foi a minha cadeira; um monte de cisco, revessado pelo mar,

foi o meu leito. Nunca na chaminé se accendeu lume. Nutri-me do pão

negro e duro dos marujos. Bebi agua empoçada que me dava a cisterna.

E desde o dia que entrei ahi até ao dia em que isto escrevo, nunca mais

sahi da casa triste. Prostrado sobre a folhagem dura, sentado no banco

estreito, com os joelhos justa-postos, os braços pendidos, as mãos

inclavinhadas, a face descaida, deixei correr os dias indifferentemente.

Como os bois corpulentos, que eu via, na minha infancia, ajoelhados

entre as hervagens dezertas, eu ruminava o pasto amargoso das minhas

remeniscencias.

Com tudo, algumas vezes, com o passo vacillante dos ébrios, transpunha

eu o limiar da porta, e errava lentamente, e cambaleando, em roda da

minha habitação maldita. Á luz gélida e palida das estrellas de

novembro, contemplava-a eu, comparando-a a tumulo abandonado, que

apodrece debaixo das hervas, e espantava-me sempre de a vêr em pé,

gemebunda, sob os açoites do vento que a verberavam.

Nunca, porém, me alonguei d'ella. Fóra d'ahi quem poderia attrahir-me? O

oceano, d'um lado, desdobrava suas ondas enfurecidas com clamor monotono

e afflictivo; do outro, o areal, mosqueado de manchas verdes,

alongava-se a perder de vista; por cima, rolavam as nuvens pesadas e

silenciosas. A minha casa era a unica, que recortava o horisonte

carrancudo com seu triste perfil; e o promontorio de rochas pardacentas,

ante mim, alongava sempre no flanco do mar o seu grande braço

minacissimo.

Fanny: estudo · 第 16 / 94 题