A GUERRA JUNQUEIRO

Paris, maio.

_Meu caro amigo._--A sua carta transborda de illusão poetica. Suppôr,

como V. candidamente suppõe, que trespassando com versos (ainda mesmo

seus, e mais rutilantes que as flechas de Apollo) a Igreja, o Padre, a

Liturgia, as Sacristias, o jejum da sexta-feira e os ossos dos Martyres,

se póde «desentulhar Deus da alluvião sacerdotal», e elevar o Povo (no

Povo V. decerto inclue os conselheiros de Estado) a uma comprehensão

toda pura e abstracta da Religião--a uma religião que consista apenas

n'uma Moral apoiada n'uma Fé--é ter da Religião, da sua essencia e do

seu objecto, uma sonhadora idéa de sonhador teimoso em sonhos!

Meu bom amigo, uma Religião a que se elimine o Ritual

desapparece--porque as Religiões para os homens (com excepção dos raros

Metaphysicos, Moralistas e Mysticos) não passa d'um conjunto de Ritos

através dos quaes cada povo procura estabelecer uma communicação intima

com o seu Deus e obter d'elle favores. Este, só este, tem sido o fim de

todos os cultos, desde o mais primitivo, do culto de Indra, até ao culto

recente do coração de Maria, que tanto o escandalisa na sua parochia--oh

incorrigivel beato do idealismo!

Se V. o quer verificar historicamente, deixe Vianna do Castello, tome um

bordão, e suba commigo por essa antiguidade fóra até um sitio bem

cultivado e bem regado que fica entre o rio Indo, as escarpas do

Hymalaia, e as arêas d'um grande deserto. Estamos aqui em Septa-Sindhou,

no paiz das Sete-Aguas, no Valle Feliz, na terra dos Aryas. No primeiro

povoado em que pararmos V. vê, sobre um outeiro, um altar de pedra

coberto de musgo fresco: em cima brilha pallidamente um fogo lento: e em

torno perpassam homens, vestidos de linho, com os longos cabellos presos

por um aro d'ouro fino. São padres, meu amigo! São os primeiros

capellães da humanidade,--e cada um d'elles está, por esta quente

alvorada de maio, celebrando um rito da missa Aryana. Um limpa e

desbasta a lenha que ha de nutrir o lume sagrado; outro pisa dentro d'um

almofariz, com pancadas que devem resoar «como tambor de victoria», as

hervas aromaticas que dão o _Sômma_; este, como um semeador, espalha

grãos de aveia em volta da Ara; aquelle, ao lado, espalmando as mãos ao

céo, entoa um cantico austero. Estes homens, meu amigo, estão executando

um Rito que encerra em si toda a Religião dos Aryas, e que tem por

objecto propiciar Indra--Indra, o sol, o fogo, a potencia divina que

póde encher de ruina e dôr o coração do Arya, sorvendo a agua das regas,

queimando os pastos, desprendendo a pestilencia das lagôas, tornando

Septa-Sindhou mais esteril que o «coração do mau»; ou póde, derretendo

as neves do Hymalaia, e soltando com um golpe de fogo «a chuva que jaz

no ventre das nuvens», restituir a agua aos rios, a verdura aos prados,

a salubridade ás lagôas, a alegria e abundancia á morada do Arya.

Trata-se pois simplesmente de convencer Indra a que, sempre propicio,

derrame sobre Septa-Sindhou todos os favores que póde appetecer um povo

rural e pastoral.

Não ha aqui Metaphysica, nem Ethica--nem explicações sobre a natureza

dos deuses, nem regras para a conducta dos homens. Ha meramente uma

Liturgia, uma totalidade de Ritos, que o Arya necessita observar para

que Indra o attenda--uma vez que, pela experiencia de gerações, se

comprovou que Indra só o escutará, só concederá os beneficios rogados,

quando em torno ao seu altar certos velhos, de certa casta, vestidos de

linho candido, lhe erguerem canticos dôces, lhe offertarem libações, lhe

amontoarem dons de fructa, mel e carne d'anho. Sem dons, sem libações,

sem canticos, sem anho, Indra, amuado e sumido no fundo do Invisivel e

do Intangivel, não descerá á terra a derramar-se na sua bondade. E se

vier de Vianna do Castello um Poeta tirar ao Arya o seu altar de musgo,

o seu pau sacrosanto, o almofariz, o crivo e o vaso do _Sômma_, o Arya

ficará sem meios de propiciar o seu Deus, desattendido do seu Deus--e

será na terra como a creancinha que ninguem nutre e a que ninguem ampara

os passos.

Esta Religião primordial é o typo absoluto e inalteravel das Religiões,

que todas por instincto repetem--e em que todas (apesar dos elementos

estranhos de Theologia, de Metaphysica, de Ethica que lhe introduzem os

espiritos superiores) terminam por se resumir, com reverencia. Em todos

os climas, em todas as raças, ou divinisando as forças da Natureza, ou

divinisando a Alma dos mortos, as Religiões, amigo meu, consistiram

sempre praticamente n'um conjunto de praticas, pelas quaes o homem

simples procura alcançar da amizade de Deus os bens supremos da saude,

da forca, da paz, da riqueza. E mesmo quando, já mais crente no esforço

proprio, pede esses bens á hygiene, á ordem, á lei e ao trabalho, ainda

persiste nos ritos propiciadores para que Deus _ajude_ o seu esforço.

O que V. observou em Septa-Sindhou poderá verificar igualmente, parando

(antes de recolhermos a Vianna, a beber esse vinho verde de Monção, que

V. dithyrambisa) na Antiguidade classica, em Athenas ou Roma, onde

quizer, no momento de maior esplendor e cultura das civilisações

greco-latinas. Se V. ahi perguntar a um antigo, seja um oleiro de

Suburra, seja o proprio _Flamen Dialis_, qual é o corpo de doutrinas e

de conceitos moraes que compõe a Religião,--elle sorrirá, sem o

comprehender. E responderá que a Religião consiste em _paces deorum

quaerere_, em apaziguar os Deuses, em segurar a benevolencia dos Deuses.

Na idéa do antigo isso significa cumprir os ritos, as praticas, as

formulas, que uma longa tradição demonstrou serem as unicas que

conseguem fixar a attencão dos Deuses e exercer sobre elles persuasão ou

seducção. E n'esse ceremonial era indispensavel não alterar nem o valor

d'uma syllaba na Prece, nem o valor d'um gesto no sacrificio, porque

d'outro modo o Deus, não reconhecendo o Sacrificio da sua dilecção e a

Prece do seu agrado, permanecia desattento e alheio; e a Religião

falseava o seu fim supremo--influenciar o Deus. Peor ainda! Passava a

ser a irreligião: e o Deus, vendo n'essa omissão de liturgia uma falta

de reverencia, despedia logo das Alturas os dardos da sua colera. A

obliquidade das pregas na tunica do Sacrificador, um passo lançado á

direita ou movido á esquerda, o cahir lento das gottas da libação, o

tamanho das achas do lume votivo, todos esses detalhes estavam

prescriptos immutavelmente pelos Rituaes, e a sua exclusão ou a sua

alteração constituiam impiedades. Constituiam verdadeiros crimes contra

a patria--porque attrahiam sobre ella a indignação dos deuses. Quantas

Legiões vencidas, quantas cidadellas derrubadas, porque o Pontifice

deixára perder um grão de cinza da ara--ou porque Auruspice não arrancou

lã bastante da cabeça do anho! Por isso Athenas castigava o Sacerdote

que alterasse o ceremonial; e o senado depunha os Consules que

commettiam um erro no sacrificio--fosse elle tão ligeiro como reter a

ponta da toga sobre a cabeça, quando ella devia escorregar sobre o

hombro. De sorte que V., em Roma, lançando ironias d'ouro á Divindade,

era talvez um grande e admirado Poeta Comico: mas satyrisando, como na

_Velhice do Padre Eterno_, a Liturgia e o Ceremonial, era um inimigo

publico, um traidor ao Estado, votado ás masmorras do _Tuliano_.

E se, já farto d'estes tempos antigos, V. quizer volver aos nossos

philosophicos dias, encontrará nas duas grandes Religiões do occidente e

do oriente, no Catholicismo e no Budhismo, uma comprovação ainda mais

saliente e mais viva de que a Religião consiste intrinsecamente de

praticas, sobre as quaes a Theologia e a Moral se sobrepozeram, sem as

penetrarem, como um luxo intellectual, accessorio e transitorio--flôres

pregadas no altar pela imaginação ou pela virtude idealista. O

Catholicismo (ninguem mais furiosamente o sabe do que V.) está hoje

resumido a uma curta série de observancias materiaes:--e todavia nunca

houve Religião dentro da qual a Intelligencia erguesse mais vasta e alta

estructura de conceitos theologicos e moraes. Esses conceitos, porém,

obra de doutores e de mysticos, nunca propriamente sahiram das escólas e

dos mosteiros--onde eram preciosa materia de dialectica ou de poesia;

nunca penetraram nas multidões para methodicamente governar os juizos ou

conscientemente governar as acções. Reduzido a catechismos, a cartilhas,

esse corpo de conceitos foi decorado pelo povo:--mas nunca o povo se

persuadiu que tinha Religião, e que portanto _agradava a Deus_, _servia

a Deus_, só por cumprir os dez mandamentos, fóra de toda a pratica e de

toda a observancia ritual. E só decorou mesmo esses _Dez Mandamentos_, e

as _Obras de Misericordia_, e os outros preceitos moraes do Catechismo,

pela idéa de que esses versiculos, _recitados com os labios_, tinham,

por uma virtude maravilhosa, o poder de attrahir a attenção, a

bemquerença e os favores do Senhor. Para _servir a Deus_, que é o meio

_de agradar a Deus_, o essencial foi sempre ouvir missa, esfiar o

rosario, jejuar, commungar, fazer promessas, dar tunicas aos santos,

etc. Só por estes ritos, e não pelo cumprimento moral da lei moral, se

propicia a Deus,--isto é, se alcançam d'elle os dons inestimaveis da

saude, da felicidade, da riqueza, da paz. O mesmo Céo e Inferno, sancção

extra-terrestre da lei, nunca, na idéa do povo, se ganhava ou se evitava

pela pontual obediencia á lei. E talvez com razão, por isso mesmo que no

Catholicismo o premio e o castigo não são manifestações da _justiça_ de

Deus, mas da _graça_ de Deus. Ora a graça, no pensar dos simples, só se

obtem pela constante e incansavel pratica dos preceitos--a missa, o

jejum, a penitencia, a communhão, o rosario, a novena, a offerta, a

promessa. De sorte que no catholicismo do Minhoto como na religião do

Arya, em Septa-Sindhou como em Carrazeda d'Anciães, tudo se resume em

propiciar Deus por meio de praticas que o captivem. Não ha aqui

Theologia, nem Moral. Ha o acto do infinitamente fraco querendo agradar

ao infinitamente forte. E se V., para purificar este Catholicismo,

eliminar o Padre, a estola, as galhetas e a agua-benta, todo o Rito e

toda a Liturgia--o catholico immediatamente abandonará uma Religião que

não tem Egreja visivel, e que não lhe offerece os meios simples e

tangiveis de communicar com Deus, de obter d'elle os bens transcendentes

para a alma e os bens sensiveis para o corpo. O Catholicismo n'esse

instante terá acabado, milhões de sêres terão perdido o seu Deus. A

Egreja é o vaso de que Deus é o perfume. Egreja partida--Deus

volatilisado.

Se tivessemos tempo de ir á China ou a Ceylão, V. toparia com o mesmo

phenomeno no Budhismo. Dentro d'essa Religião foi elaborada a mais alta

das Metaphysicas, a mais nobre das Moraes: mas em todas as raças em que

elle penetrou, nas barbaras ou nas cultas, nas hordas do Nepal ou no

mandarinato chinez, elle consistiu sempre para as multidões em ritos,

ceremonias, praticas--a mais conhecida das quaes é o _moinho de rezar_.

V. nunca lidou com este moinho? É lamentavelmente parecido com o _moinho

de café_: em todos os paizes budhistas V. o verá collocado nas ruas das

cidades, nas encruzilhadas do campo, para que o devoto ao passar, dando

duas voltas á manivella, possa fazer chocalhar dentro as orações

escriptas e communica com o Budha, que por esse acto de cortezia

transcendente «lhe ficará grato e lhe augmentará os seus bens».

Nem o Catholicismo, nem o Budhismo vão por este facto em decadencia. Ao

contrario! Estão no seu estado natural e normal de Religião. Uma

Religião, quanto mais se materialisa, mais se popularisa--e portanto

mais se divinisa. Não se espante! Quero dizer, que quanto mais se

desembaraça dos seus elementos intellectuaes de Theologia, de Moral, de

Humanitarismo, etc., repellindo-os para as suas regiões naturaes que são

a Philosophia, a Ethica e a Poesia, tanto mais colloca o povo face a

face com o seu Deus, n'uma união directa e simples, tão facil de

realisar que, por um mero dobrar de joelhos, um mero balbuciar de

Padre-Nossos, o homem absoluto que está no céo vem ao encontro do homem

transitorio que está na terra. Ora este encontro é o facto

essencialmente divino da Religião. E quanto mais elle se

materialisa--mais ella na realidade se divinisa.

V. porém dirá (e de facto o diz): «Tornemos essa communicação puramente

espiritual, e que, despida de toda a exterioridade liturgica, ella seja

apenas como o espirito humano fallando ao espirito divino». Mas para

isso é necessario que venha o Millenio--em que cada cavador de enxada

seja um philosopho, um pensador. E quando esse Millenio detestavel

chegar, e cada tipoia de praça fôr governada por um Mallebranche, terá

V. ainda de ajuntar a esta perfeita humanidade masculina uma nova

humanidade feminina, physiologicamente differente da que hoje embelleza

a terra. Porque emquanto houver uma mulher constituida physica,

intellectual e moralmente como a que Jehovah com uma tão grande

inspiração d'artista fez da costella de Adão,--haverá sempre ao lado

d'ella, para uso da sua fraqueza, um altar, uma imagem e um padre.

Essa communhão mystica do Homem e de Deus, que V. quer, nunca poderá ser

senão o privilegio d'uma _élite_ espiritual, deploravelmente limitada.

Para a vasta massa humana, em todos os tempos, pagã, budhista, christã,

mahometana, selvagem ou culta, a Religião terá sempre por fim, na sua

essencia, a supplica dos favores divinos e o afastamento da cólera

divina; e, como instrumentação material para realisar estes objectos, o

templo, o padre, o altar, os officios, a vestimenta, a imagem. Pergunte

a qualquer mediano homem sahido da turba, que não seja um philosopho, ou

um moralista, ou um mystico, o que é Religião. O inglez dirá:--«É ir ao

serviço ao domingo, bem vestido, cantar hymnos». O hindú dirá:--«É fazer

_poojah_ todos os dias e dar o tributo ao _Mahadeo_». O africano

dirá:--«É offerecer ao _Mulungú_ a sua ração de farinha e oleo». O

Minhoto dirá:--«É ouvir missa, rezar as contas, jejuar á sexta-feira,

commungar pela Paschoa». E todos terão razão, grandemente! Porque o seu

objecto, como sêres religiosos, está todo em communicar com Deus; e

esses são os meios de communicação que os seus respectivos estados de

civilisação e as respectivas liturgias que d'elles sahiram, lhes

fornecem. _Voilà!_ Para V. está claro, e para outros espiritos de

eleição, a Religião é outra coisa--como já era outra coisa em Athenas

para Socrates e em Roma para Seneca. Mas as multidões humanas não são

compostas de Socrates e de Senecas--bem felizmente para ellas, e para os

que as governam, incluindo V. que as pretende governar!

De resto, não se desconsole, amigo! Mesmo entre os simples ha modos de

ser religiosos, inteiramente despidos de Liturgia e de exterioridades

rituaes. Um presenciei eu, deliciosamente puro e intimo. Foi nas margens

do Zambeze. Um chefe negro, por nome Lubenga, queria, nas vesperas de

entrar em guerra com um chefe visinho, communicar com o seu Deus, com o

seu Mulungú (que era, como sempre, um seu avô divinisado). O recado ou

pedido, porém, que desejava mandar á sua Divindade, não se podia

transmittir através dos Feiticeiros e do seu ceremonial, tão graves e

confidenciaes matérias continha... Que faz Lubenga? Grita por um

escravo: dá-lhe o recado, pausadamente, lentamente, ao ouvido: verifica

bem que o escravo tudo comprehendera, tudo retivera: e immediatamente

arrebata um machado, decepa a cabeça do escravo, e brada

tranquillamente--«parte!» A alma do escravo lá foi, como uma carta

lacrada e sellada, direita para o céo, ao Mulungú. Mas d'ahi a instantes

o chefe bate uma palmada afflicta na testa, chama á pressa outro

escravo, diz-lhe ao ouvido rapidas palavras, agarra o machado,

separa-lhe a cabeça, e berra:--«Vai!»

Esquecera-lhe algum detalhe no seu pedido ao Mulungú... O segundo

escravo era um _post-scriptum_.

Esta maneira simples de communicar com Deus deve regosijar o seu

coração. Amigo do dito--Fradique.

A correspondência de Fradique Mendes memórias e notas · 第 24 / 46 题