Paris, fevereiro.
_Minha cara amiga._--O hespanhol chama-se D. Ramon Covarubia, mora na
Passage Saulnier, 12, e como é aragonez, e portanto sobrio, creio que
com dez francos por lição se contentará amplamente. Mas se seu filho já
sabe o castelhano necessario para entender os _Romanceros_, o _D.
Quichote_, alguns dos «Piccarescos», vinte paginas de Quevedo, duas
comedias de Lope de Vega, um ou outro romance de Galdós, que é tudo
quanto basta lêr na litteratura de Hespanha,--para que deseja a minha
sensata amiga que elle pronuncie esse castelhano que sabe com o accento,
o sabor, e o sal d'um madrileno nascido nas veras pedras da Calle-Mayor?
Vai assim o dôce Raul desperdiçar o tempo que a Sociedade lhe marcou
para adquirir idéas e noções (e a Sociedade a um rapaz da sua fortuna,
do seu nome e da sua belleza, apenas concede, para esse abastecimento
intellectual, sete annos, dos onze aos dezoito)--em quê? No luxo de
apurar até a um requinte superfino, e superfluo, o mero instrumento de
adquirir noções e idéas. Porque as linguas, minha boa amiga, são apenas
instrumentos do saber--como instrumentos de lavoura. Consumir energia e
vida na aprendizagem de as pronunciar tão genuina e puramente que pareça
que se nasceu dentro de cada uma d'ellas, e que por meio de cada uma se
pediu o primeiro pão e agua da vida--é fazer como o lavrador, que em vez
de se contentar, para cavar a terra, com um ferro simples encabado n'um
pau simples, se applicasse, durante os mezes em que a horta tem de ser
trabalhada, a embutir emblemas no ferro e esculpir flôres e folhagens ao
comprido do pau. Com um hortelão assim, tão miudamente occupado em
alindar e requintar a enxada, como estariam agora, minha senhora, os
seus pomares Touraine?
Um homem só deve fallar, com impeccavel segurança e pureza, a lingua da
sua terra:--todas as outras as deve fallar mal, orgulhosamente mal, com
aquelle accento chato e falso que denuncía logo o estrangeiro. Na lingua
verdadeiramente reside a nacionalidade;--e quem fôr possuindo com
crescente perfeição os idiomas da Europa vai gradualmente soffrendo uma
desnacionalisação. Não ha já para elle o especial e exclusivo encanto da
_falla materna_ com as suas influencias affectivas, que o envolvem, o
isolam das outras raças; e o cosmopolitismo do Verbo irremediavelmente
lhe dá o cosmopolitismo do caracter. Por isso o polyglota nunca é
patriota. Com cada idioma alheio que assimila, introduzem-se-lhe no
organismo moral modos alheios de pensar, modos alheios de sentir. O seu
patriotismo desapparece, diluido em estrangeirismo. _Rue de Rivoli_,
_Calle d'Alcalá_, _Regent Street_, _Wilhem Strasse_--que lhe importa?
Todas são ruas, de pedra ou de macadam. Em todas a falla ambiente lhe
offerece um elemento natural e congenere onde o seu espirito se move
livremente, espontaneamente, sem hesitações, sem attritos. E como pelo
Verbo, que é o instrumento essencial da fusão humana, se póde fundir com
todas--em todas sente e aceita uma Patria.
Por outro lado, o esforço contínuo de um homem para se exprimir, com
genuina e exacta propriedade de construcção e de accento, em idiomas
estranhos--isto é, o esforço para se confundir com gentes estranhas no
que ellas têm de essencialmente caracteristico, o Verbo--apaga n'elle
toda a individualidade nativa. Ao fim de annos esse habilidoso, que
chegou a fallar absolutamente bem outras linguas além da sua, perdeu
toda a originalidade de espirito--porque as suas idéas forçosamente
devem ter a natureza incaracteristica e neutra que lhes permitta serem
indifferentemente adaptadas ás linguas mais oppostas em caracter e
genio. Devem, de facto, ser como aquelles «corpos de pobre» de que tão
tristemente falla o povo--«que cabem bem na roupa de toda a gente».
Além d'isso, o proposito de pronunciar com perfeição linguas
estrangeiras constitue uma lamentavel sabujice para com o estrangeiro.
Ha ahi, diante d'elle, como o desejo servil de _não sermos nós mesmos_,
de nos fundirmos n'elle, no que elle tem de mais seu, de mais proprio, o
Vocabulo. Ora isto é uma abdicação de dignidade nacional. Não, minha
senhora! Fallemos nobremente mal, patrioticamente mal, as linguas dos
outros! Mesmo porque aos estrangeiros o polyglota só inspira
desconfiança, como sêr que não tem raizes, nem lar estavel--sêr que rola
através das nacionalidades alheias, successivamente se disfarça n'ellas,
e tenta uma installação de vida em todas porque não é tolerado por
nenhuma. Com effeito, se a minha amiga percorrer a Gazeta dos Tribunaes
verá que o perfeito polyglotismo é um instrumento da alta _escroquerie_.
E aqui está como, levado pelo dilettantismo das idéas, em vez d'um
endereço eu lhe forneço um tratado!... Que a minha garrulice ao menos a
faça sorrir, pensar, e poupar ao nosso Raul o trabalho medonho de
pronunciar _Viva la Gracia!_ e _Benditos sean tus ojos!_
exactissimamente como se vivesse a uma esquina da _Puerta del Sol_, com
uma capa de bandas de velludo, chupando o cigarro de Lazarillo. Isto
todavia não impede que se utilisem os serviços de D. Ramon. Elle, além
de Zorrillista, é guitarrista; e póde substituir as lições na lingua de
Quevedo por lições na guitarra de Almaviva. O seu lindo Raul ganhará
ainda assim uma nova faculdade de exprimir--a faculdade de exprimir
emoções por meio de cordas de arame. E este dom é excellente! Convem
mais na mocidade, e mesmo na velhice, saber, por meio das quatro cordas
d'uma viola, desafogar a alma das coisas confusas e sem nome que n'ella
tumultuam, do que poder, através das estalagens do mundo, reclamar com
perfeição o pão e o queijo--em sueco, hollandez, grego, bulgaro e
polaco.
E será realmente indispensavel mesmo para prover, através do mundo,
estas necessidades vitaes d'estomago e alma--o trilhar, durante annos,
pela mão dura dos mestres, «os descampados e atoleiros das grammaticas e
pronuncias», como dizia o velho Milton? Eu tive uma admiravel tia que
fallava unicamente o portuguez (ou antes o minhoto) e que percorreu toda
a Europa com desafôgo e conforto. Esta senhora, risonha mas dyspeptica,
comia simplesmente ovos--que só conhecia e só comprehendia sob o seu
nome nacional vernaculo de _ovos_. Para ella _huevos_, _oeufs_, _eggs_,
_das ei_, eram sons da Natureza bruta, pouco differençaveis do coaxar
das rãs, ou d'um estalar de madeira. Pois quando em Londres, em Berlim,
em Paris, em Moscow, desejava os seus ovos--esta expedita senhora
reclamava o famulo do Hotel, cravava n'elle os olhos agudos e bem
explicados, agachava-se gravemente sobre o tapete, imitava com o rebolar
lento das saias tufadas uma gallinha no chôco, e gritava _ki-ki-ri-ki!_
_kó-kó-ri-ki!_ _kó-ró-kó-kó!_ Nunca, em cidade ou região intelligente do
Universo, minha tia deixou de comer os seus ovos--e superiormente
frescos!
Beijo as suas mãos, benevola amiga--Fradique.
V