Quem ha ahi que possa o calix
De meus labios apartar?
Quem, n'esta vida de penas,
Poderá mudar as scenas
Que ninguem pôde mudar?
Quem possue n'alma o segredo
De salvar-me pelo amor?
Quem me dará gotta de agua
N'esta angustiosa fragua
D'um deserto abrasador?
Se alguem existe na terra
Que tanto possa, és tu só!
Tu só, mulher, que eu adoro,
Quando a Deus piedade imploro,
E a ti peço amor e dó.
Se soubesses que tristeza
Enlucta meu coração,
Terias nobre vaidade,
Em me dar felicidade
Que eu busquei no mundo em vão.
Busquei-a em tudo na terra,
Tudo na terra mentiu!
Essa estrella carinhosa
Que luz á infancia ditosa
Para mim nunca luziu.
Infeliz desde creança,
Nem me foi risonha a fé;
Quando a terra nos maltrata,
Caprichosa, acerba, e ingrata,
Céo e esp'rança nada é.
Pois a ventura busquei-a
No vivo anceio do amor.
Era ardente a minha alma;
Conquistei mais d'uma palma
Á custa de muita dôr.
Mas estas palmas taes eram
Que, postas no coração,
Fundas raizes lançavam,
E nas lagrimas medravam
Com fructos de maldição.
Em ancias d'alma, a ventura
Nos dons da sciencia busquei.
Tudo mentira! A sciencia
Era um signal de impotencia
Da vã razão que invoquei...
Era um brado, um testemunho
Do nada que o mundo é.
Quanto a minha mente erguia
Tudo por terra cahia,
Só ficava Deus e a fé.
Lancei-me aos braços do
Eterno Com o fervor de infeliz;
Senti mais fundas as dôres,
Mais agros os dissabores...
O proprio Deus não me quiz!
Depois, no mundo, cercado,
Só de angustias, divaguei
De um abysmo a outro abysmo
Pedindo ao louco cynismo
O prazer que não achei.
Tristes correram meus annos
Na infancia que em todos é
Bella de crenças e amores,
Terna de risos e flores,
Santa de esperança e de fé.
Assim negra me era a vida
Quando, ó luz d'alma, te vi
Baixar do céo, onde, outr'ora,
Te busquei mão redemptora
Procurando amparo em ti.
Serás tu a mão piedosa,
Que se estende entre escarcéos
Ao perdido naufragado?
Serás tu, ser adorado,
Um premio vindo dos céos?
E eu mereço-te, que immenso
Tem já sido o meu quinhão
De torturas não sabidas,
Com resignação soffridas
Nos seios do coração.
Que ternura e amor e afagos
Toda a vida te darei!
Com que jubilo e delirio,
Nova dôr, novo martyrio,
De ti vindo, acceitarei!
Se na terra um céo desejas
Como o céo que eu tanto quiz,
Se d'um anjo a gloria queres,
Serás anjo, se fizeres,
Contra o destino, um feliz.
Faz que eu veja n'estas trevas
Um relampago d'amor,
Que eu não morra sem que diga:
«Tive no mundo uma amiga,
Que entendeu a minha dôr.
«Deu-me ella o estro grande
Das memoraveis canções;
Accendeu-me a extincta chamma
Da inspiração que inflamma
Regelados corações.
«Os segredos dos affectos
Que mais puros Deus nos deu,
Ensinou-m'os ella um dia
Que d'entre archanjos descia
Com linguagem do céo.
«Os mimosos pensamentos
Que, de mim soberbo, leio,
Inspirou-m'os, deu-m'os ella
Recostando a fronte bella
Sobre o meu ardente seio.
«Morta estava a phantasia
Que o gêlo d'alma esfriou;
Tinha o espirito dormente,
Só no peito um fogo ardente,
Quando o céo m'a deparou.
«Agora morro no gôso
D'uma saudade immortal.
Foi ditosa a minha sorte;
Amei, vivi: venha a morte,
Que morte ou vida é-me igual.
«Igual, sim, que o amor profundo,
Como foi na terra o meu,
Não expira, é sempre vivo,
Sempre ardente, e progressivo
Em perpetuo amor do céo.»
Assim, querida, meus labios,
Já moribundos, dirão,
Nas agonias supremas,
Essas palavras extremas,
Do meu ao teu coração.
Sabes quem é, n'este mundo,
Quasi igual ao Redemptor?
É quem diz: «Sou adorada
Pela alma resgatada,
Por mim, das ancias da dôr.»
«Por ora, vejo que supplicas amor--disse eu.--A tua poesia é um
requerimento que póde ficar _esperado_ muito tempo no gabinete do despacho.
--Fala d'outra maneira... Eu soffro demais para te achar graça. Não é um
requerimento esta poesia, meu amigo, é uma expansão de reconhecimento. O
amor ditoso chega a entristecer. Tenho a segurança, a segurança que nos
dá o coração, de que a alma de Ludovina me pertence.
«Por consequencia tens tudo... Enganei o publico...
--Como enganaste o publico?!
«Puz em romance a historia que me contaste, e disse que a baroneza era
uma rocha inabalavel de virtude.
--E receias mentir?!
«Eu já sabia que me não acreditavam... Pois tenho pena, palavra de
honra! A meiga imagem de Ludovina havia de ser sempre nova e pura na
minha imaginação, como o eterno typo das duas formosuras enlaçadas, a do
corpo e a da alma. Rasgava o romance, se elle não estivesse já no prelo,
e o dinheiro d'elle transformado n'um cavallo. É tarde para reivindicar
a minha honra de romancista ingenuo ou palerma, que anda n'este mundo a
querer provar, que as onze mil virgens nunca de cá sahiram.
--Pois que esperavas tu de Ludovina?
«Que morresse abraçada á sua cruz, que désse o exemplo da esposa martyr,
da filha sacrificada ao bom nome de sua mãe; que sahisse apenas da sua
cella para redobrar de paciencia aos pés do altar; que nunca
consentisse que corações degenerados como o teu, e o meu, concebessem a
esperança de profana'-la.
--Estás a fazer a alta comedia, ou crês sinceramente que Ludovina
degenera? Põe de parte a consciencia de romancista, e deixa fallar a do
ente pensante e racional,--e se tu e eu somos indignos de aspirar ao
amor da baroneza, crês que um outro, cahindo das nuvens determinadamente
por ella, a absolveria do crime horrivel de ter coração?
«O coração de Ludovina estava cheio de sensações, que o faziam
participante do amor divino. Que precisão tinha ella do amor dos homens?
Estragou uma bella biographia, essa mulher. Talvez fosse unica, e
apontada á posteridade como molde. Era uma virtude original;
converteu-se em um vicio vulgar. A minha heroina fez bancarrota, falliu,
e deixou-me em hypotheca a palavra que eu dei a paginas 170, pouco mais
ou menos, de que eram solidos os fundos em virtude, e grandes os haveres
em creditos d'esta mulher inimitavel, typica, e biblica, deixa-me dizer
assim, porque ella merecia todos os epithetos levantados e grandiosos.
--Mas que fez a pobre senhora para descredito tamanho?
--O que fez?! é boa! auctorisou-te a canta'-la em quintilhas! Um homem
de mais alma que tu és, vasaria a inspiração em versos endecasyllabos.
Uma mulher assim amada em redondilha maior! É horrivel e immoral!
--Bem! Ainda agora te comprehendi. Estás zombando com ella e comigo, e
não sei se com o publico, a quem prometteste uma virtude enfadonha e
monotona, como deve ser o teu romance, se te não salvares com a rapida
narração que te vou fazer da mais sublime virtude, da virtude por
excellencia de Ludovina.
--Qual virtude?
--A de me receber dez cartas, escriptas com o sangue do coração, e...
não me responder a nenhuma.
--Mas tu disseste-me ainda agora que tinhas a segurança de que a alma de
Ludovina te pertence.
--E tenho.
--Não te respondendo ás tuas cartas? Não entendo.
--Não me respondeu a dez cartas...
--Bem.
--Mas eu escrevi-lhe vinte, e ella respondeu á ultima.
--Ah! isso então muda de figura... E a resposta foi tal que te deu a
segurança de seres o proprietario do coração da baroneza!...
--Queres ver a resposta? Franqueza e confiança. Lê lá.
Era um bilhete que rezava assim:
«Tenho recebido por delicadeza as suas cartas. Basta dar-me v. ex.ª o
nome de amiga para que eu as aprecie. Não me julgava na obrigação de
responder. Hoje, porém, que v. ex.ª me lembra esse dever, peço perdão da
falta, e castigo-me devolvendo-lhe as suas vinte cartas, de cuja
posse sou indigna, porque não soube corresponder-lhe.
«Com verdadeira estima, attenciosa veneradora de v. ex.ª--_Ludovina
Pimenta_.»
--Isto é lisongeiro!--disse eu sorrindo.--Com um documento d'estes, é
indispensavel a posse que tomaste do coração da baroneza. Eu creio que
podia ser assim o proprietario mais abastado do genero...
--Espera lá.. Ainda tenho outros titulos da propriedade. Já agora has-de
examina'-los todos, e dizer-me no fim se os meus direitos serão
litigiosos. Recebi as vinte cartas, e escrevi mais dez. Que dez cartas!
Que estylo! que dez causticos para fazerem supurar um coração!
--Deixas ver a resposta?
--A resposta foram dez cartas.
--Incendiarias?
--Que duvida? Eram as minhas, lacradas, sem um vinco, direitinhas como
foram!
--E teimaste?! Seria necessario muito despejo e indignidade!
--Não teimei: cahi doente, tive febre, assustei a minha familia, e fiz
que me chorassem as minhas primas, companheiras conventuaes da baroneza.
Ao nono dia de enfermidade, a medicina suspeitou que o sangue me refluía
á cabeça. Correu que eu enlouqueceria, ou morreria. A baroneza mandou
saber de mim duas vezes n'um dia.
--Oh! isso é muito! No dia immediato foste agradecer-lhe o cuidado...
--Não fui, não podia ir. O abalo, a certeza, de que era amado,
exacerbou-me a febre, escaldou-me a imaginação a ponto de delirar.
Durante um curto intervallo de tranquilidade de espirito, escrevi á
baroneza uma duzia de linhas quando muito. Dava-lhe parte de que tinha a
morte sentada á cabeceira do meu leito de agonias; dizia-lhe que pediria
por ella ao Senhor, se a gloria celestial me fosse dada como premio do
muito que soffrera, e da muita paciencia com que soffrera na terra os
rigores de uma alma que não quiz comprehender-me; perdoava-lhe com a
mais evangelica generosidade de moribundo, e emprazava-a para me
restituir o coração na eternidade.
--Isso devia fundir em lagrimas de remorso a pobre senhora.
--Estás ludibriando a minha angustia?--interrogou Marcos Leite com
ironico enfado.
--Não ludibrio a tua angustia, faço a apologia da tua astucia. Tu não
tinhas febre, nem vias a morte á cabeceira do teu leito, fala a verdade.
«Tinha febre, palavra de honra, porque sou muito nervoso; e se me
persuado que tenho uma ponta de febre, sinto-me logo em labaredas. Tenho
tido vinte e tantos d'esses typhos, com as vinte e tantas mulheres que
tu sabes. O que vale é ser rapida e segura a convalescença.
--Convalesceste depressa? Já vejo que o teu bilhete conseguiu...
«Um triumpho!
--Como um triumpho?!
«Uma gloria imprevista, um lance tão arrojado de venturas, que ainda
agora me salta o coração no peito.
--Guarda os extases para o fim, e vamos ao ponto.
«Mandou-me visitar por um medico do Porto, que fôra de proposito medicar
D. Angelica.
--Consiste n'isso o triumpho?!
«Que mais querias tu!
--Mais nada... A um doente a maior prova de estima que póde dar-se é
mandar-lhe um medico.
«O peor foi dizer o doutor que a minha enfermidade era imaginaria.
Mandou-me dar longos passeios a cavallo, e a pé, comer alimentos pouco
volumosos e muito substanciaes, e dormir o maximo numero de horas que
pudesse. Reflecti-lhe que sentia a morte no coração; a isto redarguiu,
sorrindo, o medico matreiro, que verificando-se a morte d'esta viscera,
entregasse ao estomago o exercicio das attribuições do coração. Não sei
o que elle foi dizer á baroneza: é certo que os cuidados da parte d'ella
não esfriaram, e eu, melhor avisado, entendi que não precisava morrer
para ser amado. Logo que me ergui do leito...
--Da agonia, ou da dôr para variar...
«Nada de chacóta. D'aqui em diante fala-se serio. Logo que sahi fui ao
convento. Era por uma bella tarde de maio. Soprava de leste uma viração
suavissima, que, sacudindo as urnas das flôres, embalsamava a
atmosphera de fragrantes aromas. No horisonte...
--Se me pudesses dispensar do idyllio!... Guarda as reminiscencias
bucolicas para o inverno, quando estivermos ao fogão. Por mais que
phantasies não deslumbras a realidade do bello espectaculo que nos está
dando aqui a natureza em primeira mão. Descarna as descripções, e diz o
que passaste no convento com a baroneza.
«Estás materialmente estupido, homem. Foi-se-te a poesia toda no fabrico
dos romances. Vocês, os que trabalham no coração humano com o escalpello
sanguinario da analyse, tornam-se áridos, brutaes, e famulentos de
sensações rijas...
--É assim; todavia, prefiro a descripção da tarde de maio á catilinaria
insolente que vaes disparar-me.
«Nem uma nem outra. Vou abreviar o conto, para que a inveja mais
depressa te castigue. A baroneza mandou-me entrar n'uma grade, e
appareceu sósinha. Era a primeira vez que me recebia a visita sem vir
acompanhada das minhas primas ou de D. Angelica.
--Esse facto é profundamente significativo! Vou gosar o prazer de ouvir
um dialogo de amorosas finezas, cortado de suspiros maviosos... Já
principiam as disciplinas da inveja a verberar-me...
«Saberás tu o que se passou?!
--Se sei o que se passou!?
«Sim... dizes com tão ironica zombaria o prospecto do dialogo...
--Nada, não: é que me vou aquecendo ao teu enthusiasmo, e o estylo
principia a aquecer tambem.
«Ahi vae lealmente, a scena final do definitivo triumpho. Eu tinha posto
grandes esperanças na minha pallidez. Tres semanas de cama seriam
capazes de fazer amarello um camarão cosido. A primeira decepção, que
recebi ao entrar na grade, foi dizer-me a baroneza:
«Ninguem dirá que esteve doente, sr. Marcos! A vida socegada de tres
semanas deu-lhe um colorido de saude, que d'antes não tinha.
--Como assim, sr.ª baroneza! Pois a minha pallidez...
«Está enganado; pelo contrario, está côr de rosa, acredite. Eu chamo as
suas primas, e verá se ellas não dizem o mesmo.
--Não chame as minhas primas, sr.ª baroneza. Eu preciso que v. ex.ª me
escute. Este é o momento solemne da vida ou morte. Hei-de hoje ouvir
aqui a minha sentença. A pedra da sepultura já está erguida para mim; o
seu braço suspendeu-a; o seu braço ha-de afastal-a de sobre o peito, que
me esmaga, ou deixa'-la abafar o meu derradeiro gemido.
«Que linguagem, sr. Marcos!--disse ella--Pelo amor de Deus, faça-me a
justiça de me não julgar creança. O infortunio emancipou-me. Não posso
ser illudida, nem illudir-me. Tenho aquella dolorosa penetração que
adquire o espirito á medida que a boa fé do coração se perde. Com que
fim emprega tantos esforços baldados para inquietar-me?
--Eu queria fazer a sua felicidade pelo amor.
«A intenção é generosa, e eu não sou ingrata. Mil vezes agradecida, sr.
Leite; mas o amor não póde dar-me felicidade. Imagino que elle possa ser
a alegria de muitas almas puras e impuras; dou credito a tudo o que se
diz de sublime e celeste ácerca d'esse sentimento, o mais mavioso de
todos: mas sem coração essa flor não póde dar perfumes de uma hora. O
meu coração desfez-se em lagrimas, cuja historia não é nova para o sr.
Marcos Leite. Eu não o amo, não o posso amar, apenas lhe vejo todas as
boas qualidades que se podem desejar n'um amigo. Quadra-lhe esta
affeição? quer-me para sua amiga? está decidido a acceitar deveras este
offerecimento que tantas vezes acceitou, e outras tantas desprezou?
--Desprezei?
«Sim; pois que outro nome se deve dar ás suas cartas escriptas com um
fogo que me deslumbra sem me queimar, instantes depois que me promettia
respeitar a minha posição, compadecer-se dos meus infortunios, e
acolher-me á sua estima como uma alma quebrantada de enfermidades, que
só os melindres d'uma verdadeira amizade podem suavisar? Não é meu
amigo, sr. Marcos. O senhor imaginou que eu tinha uma fibra do coração
capaz de sustentar o peso de alguma grande desgraça, e quiz parti'-la.
«Enganou-se; nem essa já tenho. Que mais quer que eu lhe diga?
--Mais alguma cousa: disse-me v. ex.ª que me não amava; agora diga que
me despreza.
--Não posso. Sou sua amiga: não ha n'este mundo outro homem a quem eu
possa dizer o mesmo. Sou para si, apesar da minha inutilidade, o mais
que posso ser... Agora, se me dá licença, vou ao quarto de minha mãe,
que está doente e só.»
O meu amigo Marcos Leite, fechando assim o dialogo com a esposa de João
José Dias, fixou-me de um modo que parecia perguntar-me a razão porque
eu me não ria.
--Esses triumphos são parecidos com as minhas derrotas--disse-lhe eu.
--É que tu não sabes nada do coração humano!--replicou o singular
provinciano, com um sorriso, que poderia ser definido infatuamento tolo
por quem não conhecesse a intelligencia clara de Marcos Leite.
Vaes agora ver que todos estes atalhos conduzem á estrada real da terra
da promissão--proseguiu elle;--Josué está defronte das muralhas de
Jericó. A trombeta da anniquillação vae soar. A virtude de Ludovina está
abalada desde os alicerces, e desabará como todas as virtudes possiveis
no romance, e impossiveis na vida qual ella é, e como bom é que ella
seja para que este mundo se supporte desde o amanhecer até que o sol
refresca a sua fronte abrasada nas aguas do oceano.. Deleitei-te com
esta nesga de estylo? Até os olhos se te riem quando ouves tolices
euphonicas!... Vou concluir.
--Já?!
--Achas que é cedo?
--Parece-me que o triumpho está muito longe ainda para concluires tão
depressa.
--Lê esta carta, e prova-me que conheces alguma cousa do coração, dando
como infallivel a minha victoria.
Comecei a lêr com ávida curiosidade a seguinte carta de Ludovina:
«Eu procurei este abrigo, cuidando que encontrava n'elle paz,
esquecimento, anceios para Deus, balsamo de piedade para as chagas de
minha mãe e minhas, o desejo suave de morrer com ella, e um acabar a
vida melhor que o principio.
«Gosei alguns mezes, se não a realidade, ao menos a esperança d'estes
bens. Por que infortunio estava confiada ao sr. Marcos a missão de
inquietar-me até me affligir com a mortificação das suas instancias
impertinentes, perdoe-me a clareza da idéa...?»
--Que amabilidade!--disse eu, interrompendo a leitura.
--Lê, e não commentes por ora.
Prosegui, lendo:
«Muito egoistas são os homens, santo Deus! Ha uma infeliz mulher, como
eu, que impressiona um homem como o sr. Marcos. Sou procurada na minha
solidão por v. s.ª que me offerece o seu amor. Respondo-lhe que o
não posso acceitar, porque a infelicidade me tornou dura e insensivel
aos prazeres dos affectos do coração. Conto-lhe a minha vida com aquelle
desabafo e confidencia que fórma as amizades immorredouras. V. s.ª
escuta-me, admira-me, lamenta-me, e faz-me acreditar que a minha dôr é
para si tão respeitavel que não ousará mais despertar-me o desejo de
alegrias impossiveis para mim. Apenas decorridas algumas horas, abro uma
carta sua, em que espero encontrar a linguagem consoladora de um amigo,
e leio um longo queixume contra a minha insensibilidade, e a ameaça de
se matar, porque a sua mortificação é insupportavel.
«Egoismo, e tyrannia!
«Faltava-me a tortura da responsabilidade da sua vida, sr. Marcos! Quem
me dera ser o que creio que se é no grande mundo, que eu não tive tempo
de estudar! Lá, as mulheres experimentadas nas tempestades do coração,
sabem, creio eu, que nenhum homem morre em naufragio. Eu tenho a
innocencia de crêr que o mortifico, que o incommodo com a minha frieza,
que o não satisfaço com o grande affecto de amiga que lhe dou.
«Que futuro me queria dar, sr. Marcos? Pois não conhece a minha posição?
Não adivinha que vivo toda e exclusivamente no amor de minha mãe? Que
entrei n'um caminho de amarguras voluntarias d'onde não posso desviar-me
uma linha, sem converter em remorsos a consciencia das boas acções que
pratiquei até hoje? Deixe-me tambem ser egoista das minhas
virtudes, porque não tenho outro amparo que me sustente a coragem
para soffrer o pouco de vida que me resta.
«Eu avalio o seu coração. Confesso que, ha tres annos, o encontrarmo-nos
seria um designio da Providencia divina. Creio que seriamos felizes; que
teriamos a bemaventurança na terra.
«Agora, porém, não ha futuro para nós, nenhum futuro, meu amigo.
«São as ultimas palavras que lhe dirige a sua sempre amiga _Ludovina_.
--Que esperas agora, Marcos?--perguntei eu.
--Espero que ella se compadeça da minha humildade.
--Humildade não entendo...
--Essa carta é um esforço extremo de quem se quer segurar á aresta do
abysmo. A baroneza é mulher.
--Já sei.
--Cuidei que não sabias, e de certo não sabes o que é uma mulher.
--Então, já não aprendo.
--Vou-te ensinar o que são todas, definindo-te Ludovina.
--Escuto, sem respirar.
--A baroneza ama-me.
--Isso é bem positivo e claro? Vê lá...
--Tenho visto. Ama-me, e está sem forças para manter uma isenção
contrafeita. A mulher, quando se sente enfraquecer, revolta-se contra o
homem que a subjuga.
--E depois?
--Se esse homem acceita humildemente a revolta, é ella mesma a que se
revolta contra si, incriminando-se de ingrata e insensivel.
--É pelos modos uma enfiada de revoltas, de _bernardas_ do coração...
--Estás hoje intractavel!!
--Estou intolerante com os absurdos. Esperas que ella te mande chamar á
grade do mosteiro para assistires á queima d'esta carta na pyra do amor?
--Talvez... Tu és uma creança velha. Não sabes nada. Morres ignorante
dos segredos do coração feminino... Que lastima!
--Não me chores, responde: tiveste o cuidado de avisa'-la que te vinhas
suicidar nas florestas do Senhor do Monte? Meu caro Marcos, eu acredito
que conheces todas as mulheres menos Ludovina. Ha um Waterloo para cada
Napoleão d'estas conquistas incruentas. O teu é a baroneza de Celorico
de Basto. Queres poupar-te a um desgosto de amor proprio? Esquece-a.
--E a omnipotencia da vontade o que é? Hei de triumphar, ou Ludovina é
uma natureza superior á humanidade...
Sahi de Braga. O meu amigo ficou á espera da segunda «revolta» rimando a
quarta poesia em quintilhas, e os primeiros duzentos versos de uma
elegia que elle intitulava o seu epitaphio.
* * * * *
Um mez depois encontrei no Porto Marcos Leite.
--Então?--exclamei eu a custo, com as costellas apertadas n'um abraço
homicida.
--A baroneza?
--Sim... diz-me alguma cousa da ultima «revolta».
--A baroneza... cahiu miseravelmente.
--Cahiu?!
--Não o sabias? que estupida espionagem tu trazes nas casas alheias!
--Venceste, pois. Marcos! Oh minha pobre Ludovina! onde eu te havia
posto! O que dirá o publico! Despenhou-se aquelle anjo! Quando
encontrarei eu outro para o throno que ficou vago?!
--E em que lodaçal ella cahiu!...
--Creio...
--Esse _creio_ é uma affronta...
--A ella...
--Querem ver o romancista com ciumes!...
--É compaixão d'ella, e de ti...
--De mim!--tornou elle soltando uma estridente risada--de mim! Pois
cuidas que o lodaçal sou eu!? Restitue-me a minha innocencia na terrivel
torpeza que ella praticou.
--Depressa... que fez ella?
--Cahiu nos braços asquerosos de...
--De quem!
--Do marido! Não te espantas da perversidade!? Estás corrupto!
--Por consequencia está coroada a virtude da minha heroina com o
extremo supplicio.
--Pelo que ouço, denominas resignação o que no meu vocabulario equivale
a baixeza de alma! São tantas as martyres que sorriem á sucapa da tua
compaixão... Confessa que Ludovina não podia dar mais insignificante
testemunho de um espirito menos de trivial. Entregar-se de novo a João
José Dias!
--Cala-te, impio! não cuspas na face da martyr! Conta-me os promenores
d'essa reconciliação. Palpita-me que a promoveu algum grande infortunio...
--Qual? adivinha lá...
--A morte de D. Angelica.
--Justamente: morreu ha tres semanas.
--Atormentada de saudades... pobre mulher!
--Creio que sim. Disseram-me minhas primas que lhe encontraram um
retrato no seio, ainda embaciado pelo ultimo respiro que ella exhalou.
Devia ser o retrato de Antonio de Almeida. Tambem me disseram que viram
ajoelhar Ludovina ao pé do cadaver, e lhe ouviram dizer: «A sua memoria
fica sem mancha, minha mãe!»
--Isso é triste, Marcos! Comprehendes tu a santidade d'essas palavras?
--Comprehendo; mas abomino a melancolia. O mundo acceita estes heroismos
como exquisitices. Eu pertenço a este mundo, dei-lhe o que tinha de bom
no coração, e quero ter grande partilha no cynismo que elle dá em
paga.
--Não importa. Ludovina continua a ser um anjo, confessa.
--Parece-me que o seria, se não sahisse de ao pé do tumulo de sua mãe.
Se João José Dias avilta uma creatura que é só humana, com o seu
contacto, como ha-de elle sustentar as qualidades de um anjo?
--E se Ludovina acceita as torturas da convivencia com tal homem, como
provocações á morte?
--Morrerá estupidamente. Será indigna d'um necrologio, e terá apenas uma
magra local chamando os amigos do marido a assistirem-lhe aos funeraes.
* * * * *
Deixemos falar este homem sem alma, leitores!
Ludovina continua a ser a flôr da creação, o espelho de infelizes, o élo
que prende a creatura ao Creador, o anjo que chora, esperando que os
anjos a levem d'este desterro.