O romance estava acabado. Os meus numerosos admiradores, que
eu regalára com a leitura d'essas duzentas paginas, haviam asseverado,
com a costumada franqueza, que este volume era a flor da virtude a
rescender perfumes de deleitosa aspiração para as almas. Um d'esses,
cujo voto muito respeito pela _massa_ de conhecimentos que _amassou_ em
Frederico Soulié e Alexandre Dumas, accrescentou que o romance _O que
fazem mulheres_ era a flor do meu talento. Cheio de encantadora
modestia, perguntei se a virtude da minha heroina precisaria de mais
tres ou quatro capitulos para ser vista a toda a luz celestial com que a
Providencia lhe irradiára o espirito. Disseram-me, á uma, que não
escrevesse mais uma só linha, que deixasse á perspicacia das leitoras o
desvelarem mysterios do coração, que eu não saberia illuminar sem
profana'-los, que deixasse ás lagrimas das almas sensiveis o fecho
d'esta historia, que esperasse, finalmente, alguns annos, para então
escrever a segunda parte da biographia da baroneza de Celorico de
Basto, que talvez os collegios de meninas adoptassem para uso das
educandas.
Convenci-me d'isto, e mandei ao meu editor o romance, com a prophecia de
ser este um livro cuja decima edição apenas bastaria para aquietar as
ancias d'um terço do paiz. Disse-me em linguagem fria o meu editor que
uma virtude em duzentas paginas por quinhentos réis era, pequena de mais
para o comprador que prefere um livro em trezentas. Redargui-lhe, com
argumentos de grande calibre logico e moral, que a unidade da acção era
inatacavel no romance.
_Item_: que o estirar uma idéa para avolumar a lombada de um livro era
chatinar a mercancia litteraria.
_Item_: que muitas capacidades largas e agudas, ás quaes eu submettera o
meu manuscripto, se compromettiam a dizerem que este livro era a quinta
essencia de tudo que se tem escripto acerca das mulheres virtuosas desde
Sancta Agatha até ás Virgens do Thirol.
Chamei em meu abono Aristoteles, Longino, e mais alguns legisladores que
eu não conhecia, para convencer o interprete do publico de que as raias
do meu trabalho de chronista não podiam transpôr as da realidade. Por
quanto:
Não é inventada esta historia;
Não quadram os incidentes imaginados com o essencial de um conto
verdadeiro;
Não tolera um leitor sisudo que se lhe encampe á credulidade enfadonhas
narrativas que agorentam a verosimilhança, ou enfastiam a attenção
benevola.
Após uma renhida desavença da qual ia resultando a perda do manuscripto,
que eu insensatamente sacrificaria ao meu bem entendido orgulho, viemos
ao accordo de se publicar o magro volume com grandes margens, grandes
entrelinhas, exuberancia de reticencias, e alguns juizos criticos dos
meus amigos que serviriam de indigitar ao leitor em que paginas estão as
bellezas que elle não viu.
Concertados assim, estava o typographo com a ultima pagina, quando eu
fiz uma excursão ao Minho, e encontrei no Senhor do Monte o cavalheiro
que me contára o contexto d'este romance, nos ultimos dias do mez de
janeiro proximo passado.
A nossa conversação de algumas horas vae ser trasladada em paginas
supplementares.
Antes, porém, de entrar n'essa tarefa que realmente me dóe, seja-me
permitido verter uma lagrima no degrau do altar onde eu collocára
Ludovina, onde ella se collocára, e de onde se me afigura que...
Não dou ansa a juizos temerarios do leitor. Leiam, e decidam se a
virtude perfeita não é uma utopia impossivel n'um livro que tiver mais
de duzentas paginas.
Cumpre dizer quem é a pessoa, destinada pela providencia dos romances a
figurar n'este supplemento.
V. ex.as de certo a conhecem. Viram-na já muitas vezes no theatro, nos
bailes, e na missa dos Congregados, na dos Clerigos, na do Carmo, em
todas as missas classicas em que se vê tudo, e se ouve tudo, menos o
padre e a missa.
Eu dou os signaes do homem.
Tem uma bella cabeça, uns bellos cabellos, uns bellos olhos... Já
conheceram?
De vinte leitoras, dez estão na duvida. Se v. ex.ª é uma das dez
perplexas, desperte as suas reminiscencias com os seguintes traços:
O nariz é a feição mais caracteristica d'este homem. Na base tem um
promontorio, no centro uma protuberancia, na ponta uma recurva como o
bico de um passaro. Chamam-se estes narizes _Bourbons_. Agora
conheceram-no todas. Na escola dos physionomistas, este nariz tem
significações espantosas. É um nariz que individualisa um homem; é um
livro aberto; é o porta-voz dos segredos da alma; é em summa, uma
biographia.
Foi o que me approximou d'este homem. Se a natureza lhe désse a elle um
nariz vulgar, o leitor não se decidiria na leitura d'este romance. Vejam
de onde eu tirei um livro! O nariz de Cyrano de Bergerac foi causa de
vinte duellos de morte. Do nariz do meu amigo podem pender vinte volumes.
Fascinou-me, e fui eu que me offereci á sua amizade. Achei-o um homem
raro, sabendo profundamente a vida de v. ex.as, quero dizer, todas as
virtudes que v. ex.as escondem, todas as perfeições que a sociedade não
vê, sem lh'as explicarem.
É provinciano o sr. Marcos Leite: dê-se-lhe este nome. Visita o Porto
duas vezes cada anno, uma no carnaval, outra na estação do theatro
italiano.
Consta que nunca teve namoro que o entretivesse nas duas estações.
O nome da mulher, que adora, até á demencia, no carnaval, quasi sempre
lhe esquece na Paschoa seguinte. Em compensação, as mulheres rejeitadas,
quando o leão volta das suas selvas nataes, apenas dão fé que Marcos
está no theatro das suas façanhas pelo estrupído extraordinario do
cavallo, que elle atira em arremettidas e sacões pelas ruas mais sonoras
da cidade eterna. A não serem as mulheres o que providencialmente são,
Marcos Leite seria prea dos dentes do remorso, ha muito tempo. Não ha
uma só das esquecidas damas, que lhe não incendiasse no mais intimo do
peito um amor eterno... de tres semanas.
Algumas possuem cartas de uma paixão tão frenetica, que as exclamações
de Werther, comparadas com ellas, são frias e chatas como um rol de
roupa suja.
Foi, pois, este cavalheiro, respeitavel em todos os sentidos, que me
contou o essencial da historia do barão de Celorico, accrescentando que
tinha visto duas vezes de relance, n'uma grade d'um mosteiro do Minho,
proximo ao seu solar, a figura celestial da baroneza, e a sympathica e
ainda juvenil physionomia de D. Angelica.
Por essa occasião, lhe perguntei eu se traçava alguma rede á virtude
heroica de Ludovina. Respondeu-me o narrador, que não ousava escalar uma
fortaleza em cujo assalto era forçoso triumphar, ou morrer.
Accrescentou, que, nem ainda cooperado por duas primas que tinha no tal
convento, elle se animava a revelar a Ludovina uma affeição, que,
desprezada, se tornaria em loucura furiosa.
Pareceu-me sensata a resposta de Marcos. Que homem conseguiria alvoroçar
aquelle coração, que eu imaginava esmagado sob a pressão de uma virtude
exaltada?
Decorreram quatro mezes, e, como disse no prefacio, fui, ha dias,
surprehendido no Senhor do Monte por Marcos.
Conhecem aquelle saudosissimo arvoredo, que rumoreja na sumidade da
serra, e aquella fresca alameda que está tapetando a entrada para a _mãe
d'agua_? Foi alli que o encontrei, encostado á mesa de pedra, lendo LES
REVERIES de Senancourt; leitura que eu aconselho a todas as pessoas que
precisam idealisar um mundo medio entre o asquerosamente lôrpa em que
vivemos, e o absurdamente inintelligivel que nos promettem as religiões.
Quando me viu, Marcos Leite correu a abraçar-me, exclamando:
«O meu coração tinha-te invocado. Abominaria quantos homens e mulheres
me apparecessem aqui, menos tu, e ella...
--Temos ELLA!
«E tu vieste para este sitio com o coração vazio?!
--Graças a Deus, não, meu poeta. Trago tecidos, membranas, valvulas,
ventriculos, veias, arterias, nervos, sangue, etc. O meu coração está
funccionando com a mais physiologica das regularidades. Respiro
desafogadamente, e completo a digestão de uns succulentos pedaços de
boi, que triturei _sub tegmine fagi_.
«Se vens assim, melhor fôra que não viesses. Eu queria que me
entendesses, como creio que me entendem, ha tres dias, estes rumores da
floresta. Escuta! Vê tu se este ermo, se este sussurro, que parece o
echo esvaido de um mundo remoto, não te está dizendo que o amor é a
vida, que a esperança é a felicidade, que debaixo do céo ha só tres
cousas grandiosas, o homem e a mulher um para o outro, e a soledade para
ambos! Não digas alguma blasphemia! Esse sorriso offende, e é um
sacrilegio aqui. Agradece ao Senhor que nos dá isto, esta fontinha, a
fresquidão d'estas sombras, o murmurio d'estas arvores, o azul do céo,
lá em baixo a melancolia poetica do valle, o som do campanario rural que
repercute na alma...
Marcos Leite tinha razão. Não pude contrafazer, por mais tempo, a minha
indole triste. Entrou-me a saudade no coração, aninhando-se no pequeno
recinto não tomado ainda pela desesperança. Lancei os olhos ao livro em
que lia Marcos, e recolhi á alma as seguintes linhas:
_La paix jointe aux lumières sera le partage d'un homme dans toute une
province. Quant au contentement, on le cherche, on l'espère même;
peut-être l'obtiendrait-on, si la mort ou la décrépitude ne survenaient
auparavant... La vie était bonne, et on lui trouve encore des douceurs
que la raison ne saurait méconnaître. Mais il importe que l'imagination,
renonçant aux écarts, et servant elle-même d'asile contre les peines,
anime seulement le repos que l'âme peut conserver quand elle est restée
pure._
«Que é isto?--perguntei eu tomando de sobre a mesa um papel escripto a
lapis.
--Versos, meu caro; linhas, é melhor dizer linhas. O coração mais poeta
creio que é o menos metrificador.
«Póde saber-se que anjo te roçou a fronte com a aza?
--Não adivinhas quem eu poderei amar assim? Ha uma só mulher n'este mundo.
«A baroneza?
--Com que frialdade proferes esse nome! Chama-lhe antes Ludovina...
«Lê os versos.
Marcos declamou com as mais maviosas modulações do sentimento a seguinte
poesia: