II

«Ludovina fica hoje no quarto--disse D. Angelica, respondendo á pergunta

admirada do bacharel.

--Doente?

--Sim, passageiramente doente; mas é tão debil a pequena, tão melindrosa...

--É um corpo que não póde com o espirito... Eu comprehendo o que são

esses desfallecimentos d'alma. A filha de v. ex.ª tem uma organisação

muito semelhante á minha. As minhas enfermidades são sempre quebrantos,

estherismos, lethargia, procedentes das fadigas intellectuaes, ou dos

anceios do coração. Compleições infelizes, não acha, minha senhora?

--Oh! infelicissimas, de certo...

--Se, todavia, v. ex.ª tivesse a bondade de dizer a sua filha que

fizesse um esforço para me vir contar os seus padecimentos, talvez que

uma medicina toda espiritual...

--A curasse?... talvez...

--Sorriso de incredulidade, não é assim? V. ex.ª é sobejamente

espirituosa para desconhecer a influencia que exerce uma alma sobre

outra, quando as correntes magneticas...

--Não lhe dá treguas a sua paixão magnetica, sr. Sá!... A Ludovinasinha

queixa-se de enxaqueca... Eu voto, d'esta vez, por medicamentos

caseiros... Talvez que uns sinapismos...--proseguiu ella, rindo, sem

ferir o orgão maniaco do bacharel--dispensem uma descarga electrica.

--V. ex.ª não quiz entender-me, ou eu tenho sido confuso na exposição

das minhas convicções.

--É clarissimo sempre, sr. Sá; mas desconfio da inefficacia da sua

vontade sobre a enxaqueca de Ludovina. E depois, convém-nos que ella

esteja doente por um quarto de hora. Vamos falar a respeito d'ella.

--Tenho razões para suspeitar que minha filha não é indifferente a v. s.ª.

--De certo, não.

--Póde dizer-me até que ponto me devo lisonjear com a affeição que

Ludovina lhe merece?

--Voto á sr.ª D. Ludovina um sentimento profundamente respeitoso...

--Só?

--Uma affeição nobre e desinteressada...

--Amor?

--De certo... amor... reflectido, e bem intencionado...

--Uma paixão verdadeira, não é verdade?

--Quanto em mim cabe, minha senhora... quanto é possivel

apaixonar-se um homem de vinte e oito annos, apalpado já pelas

desillusões, e esterilisado tanto ou quanto pelos ventos contrarios dos

revezes da alma...

D. Angelica fez um geito de quem ouvia chamar; ergueu-se com a mais

destra simulação, dizendo:

--Minha filha tocou a campainha... As creadas não a ouvem de certo, eu

volto já...

Ricardo de Sá fez mentalmente o seguinte monologo:

--D. Angelica vae propôr-me o casamento da filha. Eis-me entalado n'uma

crise imprevista! Está explicado o enygma da carta que Ludovina me

escreveu hoje. Receia que eu me esquive á proposta; e tem razão. Eu não

caso. Esta mulher está abaixo dos meus calculos. Lisonjeia um amante,

mas não póde satisfazer as complicadas necessidades de um marido... É

horrorosa a minha posição!... Sei que faço uma victima... de certo a

mato... Estudemos uma evasiva, não obstante...

O monologo continuava, quando Ludovina, conduzida machinalmente por sua

mãe, se collocava atraz de uma vidraça da alcova immediata á sala.

D. Angelica era um assombro de esperteza. A leitora já admirou a

eloquencia persuasiva com que ella abalou o coração da filha; já disse,

de si para si, que, com tal mãe, não ha filha que rejeite o casamento de

um brasileiro rico; já leu as paginas que ahi ficam á mãesinha para que

ella saiba os argumentos com que se vence a desobediencia das filhas, em

casos identicos. Pois, se gostou e admirou as palavras de D. Angelica,

ha de tambem admirar-lhe as obras.

D. Angelica viu o mais secreto do animo do bacharel; previu o

desenvolvimento da conversação, e quiz dar á filha o mais rude, mas

tambem o mais proveitoso desengano.

--Nada era... ou era muito... Queria saber como v. s.ª estava--disse a

matreira esposa do sr. Pimenta.

--E ella como está agora?

--Soffre bastante... Falei-lhe no seu magnetismo, e a tolinha córou...

Era talvez o clarão da descarga electrica, seria?

--V. ex.ª sempre «fazendo espirito» com os axiomas da sciencia... Ha de

convencer-se... A experiencia lhe apontará as evidencias...

--A mim? ora essa! Terá v. s.ª a infausta idéa de me magnetisar?

Adormecer-me... isso é facil; bastam os livros que tratam da sciencia,

não é precisa a acção... Não «faço mais espirito» como v. s.ª diz...

Vamos á nossa pratica interrompida que é muito séria:

Disse o sr. Sá que minha filha lhe merecia um sentimento profundamente

respeitador, uma affeição nobre e desinteressada, um amor reflectido e

bem intencionado, e finalmente uma paixão, que não era bem uma paixão,

por quanto desillusões, revezes, _et coetera_, lhe haviam... não me

recordo...

--Esterilisado a alma...

--Foi isso... Em toda a sua resposta só ha de desagradavel essa

esterilidade de alma; todavia, eu creio que tão boa alma ha de sempre

florescer e fructificar, quando a cultura fôr confiada a uma mulher de

bom coração, meiga, docil, maviosa, em fim, a uma que não inveje as

boas qualidades de minha filha.

--De certo... assim o penso, minha senhora--balbuciou o bacharel,

forçado pelo silencio interrogador de D. Angelica.

--Minha filha ama-o, sr. Sá. Ama-o delirantemente, perdidamente, quer

ser sua ou da sepultura, não acceita admoestações nem esperanças

tardias, quer unir-se ao esposo da sua alma, mas já, já, senão... diz

que, mais tarde, será victima da sua paixão. Sabia v. s.ª que era

tamanho o seu dominio n'aquella innocente alma?

--Sabia... desgraçadamente sabia.

--_Desgraçadamente!_... essa palavra faz tristeza! Pois nem sequer o

orgulho de ser assim amado o alegra?

--Sim, minha senhora--tartamudeou o bacharel, afagando as guias do

bigode--tenho orgulho de ser assim amado... _Desgraçadamente_ disse eu,

porque me doem os soffrimentos da sr.ª D. Ludovina...

--Estando na sua vontade o mais facil e desejado remedio d'elles? é

singular!

--Ainda assim... ha situações na vida...

--Sei o que quer dizer--atalhou a zombeteira senhora--ha situações em

que quizeramos immediatamente felicitar as pessoas que soffrem por nossa

causa. Isso é assim... Pois bem. Tratemos definitivamente da felicidade

da nossa Ludovina. Minha filha, como v. s.ª sabe, não tem dote. É pobre,

supposto que o fausto com que vive queira desmentir esta triste verdade.

Em riquezas de espirito é millionaria. Nas do coração, sabemos nós o

que ella é. A «fortuna» porém, é muitas vezes a inimiga da verdadeira

felicidade, não é assim?

--De certo, minha senhora...

--V. s.ª tem uma habilitação, tem uma vasta intelligencia, sobram-lhe

expedientes para grangear o sufficiente para duas almas venturosas;

agouro a ambos uma felicidade duradoura. Entrego-lhe minha filha, na

certeza de que nunca me será turvado o prazer d'este instante de

expansão maternal pelo arrependimento da minha leviandade. Dê-me um

abraço, que já começo a consideral'-o meu filho.

--Minha senhora--disse o enfiado bacharel, extendendo a mão a D.

Angelica--eu estou cordealmente penhorado pela confiança que mereço a v.

ex.ª. Cumpre, porém, reflectir n'um passo tão momentoso. Eu amo em

extremo a sr.ª D. Ludovina, toda a minha ambição é identifica'-la ao meu

destino sobre a terra, mas, minha senhora, eu não posso dispôr da parte

de obediencia que devo a meu velho e respeitavel pae, sem consulta'-lo,

porque dependo d'elle, em quanto não entrar na carreira da magistratura,

e o cabedal dos meus estudos não me abona tanto quanto v. ex.ª imagina

que póde proporcionar-me a intelligencia.

--Pensa mui judiciosamente--redarguiu D. Angelica formando com a

prolongação dos beiços, e o abrimento dos olhos, um tregeito de mui

sisuda approvação--e qual conjectura v. s.ª que seja a resposta de seu pae?

--Não sei, minha prezada senhora...

--Se fôr negativa?

--Se fôr negativa...

--Obedece?

--Como filho dependente; mas os dias da minha existencia serão poucos, e

attribulados...

--Mas isso é horrivel, sr. Sá! Minha pobre filha succumbe... V. s.ª mata

a mulher que mais o amou, a unica n'este mundo que o compreendeu, um

anjo que não viu outro homem digno d'ella... Que diz a uma mãe

consternada, sr. Sá?

--Minha senhora... a nossa posição é desgraçadissima.

«Remedeie-a, que póde. Se seu pae o não acceitar casado, tem a casa de

sua mulher, onde será recebido como filho... Oh! que insensibilidade! o

senhor não ama Ludovina!

--Se a não amo! Isso mata-me, snr.ª D. Angelica!

«V. s.ª é que mata uma santa, uma martyr...

--Segui'-la-hei na morte...

«Pois o melhor é viverem ambos!--disse D. Angelica, desafivelando a

mascara da amargura, e abrindo o riso mais galhofeiro e fulminante que

imaginardes, leitores phantasiosos--V. sr.ª tem sido logrado

desapiedadamente, snr. Ricardo de Sá. Peço-lhe que viva muito tempo,

porque uma pessoa como v. s.ª não deve morrer, em quanto a tristeza, que

foge ao riso, andar por este mundo. Snr. Sá, é preciso dizer-lhe que

minha filha ouviu esta nossa scena comica, e acredite que o magnetismo

não operou a approximação. Eu comecei a falar-lhe em minha filha

para pedir ao seu cavalheirismo que não a inquietasse, porque vae

esposar um homem que seu pae lhe escolheu. V. s.ª alumiou-me o

entendimento, deu-me um alegrão inapreciavel; e voltou as minhas idéas

para o lado opposto. Fui buscar minha filha, para assistir ao

espectaculo do coração de v. s.ª, e dei-lhe um bello espectaculo. Snr.

Sá, a sua posição é desagradavel, e faz-me pena, por não dizer tedio. Um

homem como v. s.ª nunca devera erguer os olhos para uma menina honesta.

D. Angelica retirou-se da sala, soberba como uma rainha na descida do

throno.

O auctor possivel do SECULO PERANTE A SCIENCIA, emergindo do estupor

momentaneo, procurou a bengalinha de Suzana a saír do banho, e caminhava

atordoado para a porta, quando entravam Melchior Pimenta, e um sujeito

desconhecido ao bacharel.

--Ólá, por cá, snr. Sá?

«É verdade, snr. Pimenta.

--Ninguem lhe falou?! estava sósinho?!

«Saiu da sala, n'este instante, a snr.ª D. Angelica.

--E Ludovina?

«Está de cama, creio eu.

--De cama!? ella ficou boa quando eu saí... Alguma dôr de cabeça...

«Creio que sim... Dá-me as suas ordens, snr. Pimenta?

--Saude, meu amigo, appareça á noite, que lhe quero dar o

conhecimento d'este meu amigo, que será provavelmente o marido de minha

filha...

«Sim?... estimo muito conhecer... Ás suas ordens, meus senhores.

Saíu; e o snr. João José Dias (que é o tal), franzindo a testa, disse ao

pae da esposa promettida:

--Que diabo de cousa é isto? Cuidei que me picava o bom do homem com os

galhos do bigode! Eu corto as orelhas ambas e duas, se aquillo não fôr

um patarata!

«É um pobre diabo que lê novellas, e não é mau rapaz--respondeu o snr.

Melchior, limpando o suor da testa.

--Novellas!... hum!--este _hum_ do snr. João José Dias é uma cousa

semelhante a um grunhido roufenho; aquelle _hum_ é a these de uma

dissertação que elle, em tempo opportuno, ha de fazer contra a leitura

immoral dos romances--A sua filha lê novellas, snr. Melchior?--continuou

elle pondo os olhos de esguelha, como molosso desconfiado.

«Entretem-se com a mãe, ás vezes, n'essa leitura; mas lê sómente as que

a mãe já tem lido.

--Pois não faz bem. As novellas são a perdição das mulheres. Lá no Rio

está aquillo mal de religião e virtude desde que pegaram a ler romances

as moças. Em minha casa é sujidade que não entra. Eu já uma vez, para

ver o que era aquillo, puz-me a lêr uma novella, chamada... chamada...

era de um tal... d'um tal _Kocles_, ou _Koques_, e, meu amiguinho, era

maroteira de ferver bicho.

A snr.ª D. Angelica interrompeu a parlenda acrimoniosa de João José

contra os romances.

«Aqui t'o apresento--disse Melchior.

D. Angelica mirou-o de alto a baixo, e fez-lhe uma ligeira cortezia. No

rosto expressivo da sympathica senhora, liam-se estas dolorosas

palavras: _Minha pobre filha, que impressão vaes receber!_

O que fazem mulheres: Romance philosophico · 第 17 / 46 题