Pois se o homem chamava-se assim!?
Deus sabe que tristezas eram as d'elle por causa deste _Nunes_. O rapaz
tinha talento de mais para escrever folhetins lyricos, e outras cousas.
Pois nunca escreveu por que não queria assignar-se _Nunes_.
Ha appellidos que parecem os epitaphios dos talentos.
Um escriptor _Nunes_ morre ao nascer.
Bem o sabia elle.
Houve em Portugal um escriptor chamado _Antonio José_. Se a inquisição o
não queima, ninguem se lembrava hoje d'elle.
Francisco Nunes só poderia viver na memoria da posteridade, se S.
Domingos fizesse o milagre de reaccender as fogueiras nos subterraneos
do theatro de D. Maria.
Outros lá soffrem tractos agora, mas é em cima, no palco... Se, ao
menos, Francisco Nunes escrevesse uma comedia...
Não escrevia nada; mas falava muito, e, quasi sempre, sósinho, em casa,
e na rua. Não incommodava ninguem; era um anjo; tinha só a perversidade
de chamar-se _Francisco Nunes_.
Elle ahi vae, faz agora tres annos, por uma rua do Porto, vizinha da de
Cedofeita, falando só, e falando, ao que parece, enraivecido. Ninguem o
escuta, se não eu, porque lhe vou na alheta, com subtis sapatos de
borracha.
Esta rua, por um lado, tem raros edificios; pelo outro é marginada por
um comprido muro de quintaes que pertencem ás casas da rua parallela.
Nunes, de tempo a tempo, sustem o monologo para puxar com sorvos
sibilantes o vapor de um charuto. Depois, faz um tregeito iracundo, com
o pé com sanha, e prorompe na imprecação interrompida, do seguinte theor:
«Arado pelo fogo do inferno seja o torrão maldito onde nasceu a folha
d'este charuto!
«A chuva candente de Sodoma e Gomorrha tisne a folha do tojo e do
carrasco que nascer no terreno que te produziu!
«Frieiras, gotta, paralysia, e morte tolham os dedos que te colheram!
«O sol, que te seccou, morra nos olhos de quem te trouxe aqui!
«As mãos que te enrolaram, charuto infame, sequem-se e mirrem-se
como as das mumias de Memphis.
«E para vós, contractadores, caixas, comarqueiros, e estanqueiros do
contracto do tabaco, para vós o inferno illimitado, a região tenebrosa
dos condemnados, onde ha o ranger dos dentes, e o sempiterno horror!
«Para vós, Borgias, para vós, raça de Locusta, e de Brinvilliers, para
vós, envenenadores impunes, o patibulo n'este mundo, d'onde fugiu
espavorida a vergonha e a justiça; e as caudaes de sulphur em combustão
eterna nas furnas tartareas, onde é de fé que dá urros medonhos um
condemnado chamado _Nicot_, que trouxe para a Europa o tabaco, e teve a
impudencia de o trazer a Portugal em 1560, onde viera com embaixada de
França.[1]
«Porque os vossos charutos, propinadores de venenos, ennegrecem as
substancias organicas, como o acido sulphurico.
«São amargos e causticos como o acido nitrico.
«Calcinam os beiços como o acido hydrochlorico.
«Queimam a laringe como o acido phosphorico.
«Laceram o esophago como o acetato de chumbo.
«Fulminam e despedaçam como o acido hydrocianico.»
Em quanto elle repuxava o vapor do incombustivel rôlo de erva-santa (que
blasfemia! _santa!_) façamos tremendas reflexões:
Um «manual de chimica para uso dos leitores de romances» é instantemente
reclamado. Sente-se na litteratura este vazio desde que a novella é um
extendal da sciencia humana; e esta póde, sem immodestia, graduar-se assim.
Quando se escreviam bacamartes para as gerações soffredoras, que os
lêram, o sabio repunha ahi em azedo vomito as indigestas massas, que
ainda agora resistem ao dente roaz da carcoma e da ratazana, nos lotes
esboroados das bibliothecas.
O in-folio era uma crença, uma religião, uma faculdade d'aquellas gordas
almas, que resumavam pingue chorume por tres mil paginas em typo-breviario.
Não vos faz melancolia vêr a lombada d'esses enormes volumes aprumados
n'uma estante? Não ha n'aquelle aspeito triste alguma cousa que vos faz
crer que o in-folio chora pelo frade?
Agora não se escreve d'aquillo, posto que o saber humano seja mais
vasto, e opulentado com as vigilias de dois seculos laboriosos. Reina o
romancista, que é o successor do frade, na ordem das intelligencias
productivas.
Ora, o romancista ha-de, por força de sua natureza scientifica, despejar
no romance a sciencia que lhe traz intumecido o estomago intellectual; e
o romance, assim, deixará de ser lido, se o conselho superior de
instrucção publica não organisar os estudos de modo que as sciencias
transcendentes, em consorcio com as da natureza physica, desbravem o
espirito-charneca de muito leitor sandio, que não póde entender a
iracundia chimica de Francisco Nunes.
O qual continuou assim:
«Ha cinco seculos que a raça proscripta de Israel soffreu em Pariz uma
perseguição sanguinolenta. Morreram milhares de judeus entre labaredas,
porque a calumnia, infamando a religião do Messias, disse que o povo
judaico tentára envenenar as fontes e poços de França.
«E vós, judeus christianisados, caixas do tabaco, derramaes o veneno á
luz do meio dia, abris as vossas tendas, vendeis pelo preço de vossas
carroagens a droga homicida; mataes a mocidade de uma nação, que asfixia
ás mãos dos velhos: a vós, que alimentaes o vicio alheio com o crime
proprio, quem vos obriga a fumar um charuto de vintem?
«Portugal, tu queimavas os judeus industriosos, a quem deveste os
melhores livros de sciencia, as obras primas da arte, os dinheiros
extorquidos á pobre raça, que tão caros pagou os trinta dinheiros que
Judas não comeu! Queimavas o povo inoffensivo, nação de cafres, e dás
refrescos, e condecorações, e honrarias, e montes de ouro aos
envenenadores publicos, aos sicarios de charuto, que te desentranham a
alma n'um rôlo de fumo negro.
«Que é dos vestígios da civilisação christã? Que é da egide que protege
o fraco dos affrontamentos do forte? Em que lapide está escripta a lei
que assegura a vida do homem?
«A Roma pagã era o sanctuario da justiça. Ahi os propinadores de venenos
eram clandestinos. A mão cruenta do verdugo ia arranca'-los ao segredo
das suas fornalhas, e mandava-os de presente ao diabo. «Lucius Cornelius
Sylla, a tua lei de supplicio para os empeçonhadores vale só de per si
uma legislatura d'esta horda de togados rotos, que nos espremem da
algibeira 1$960 réis diarios, por cabeça.
«Aqui, ha o morrer sem recurso de revista, o expirar em vomitos negros,
o tossir rispido da bronchyte, as asthmas offegantes, o ronco profundo
da pieira laringea, os deliquios da cabeça atordoada, a podridão dos
dentes, as fendas carboniformes dos beiços, os abcessos pulmonares, as
hemorrhagias de sangue apostemado:--ha tudo isto, debaixo d'este céo
impassivel, na presença do codigo criminal, n'um paiz, onde trabalha a
electricidade por arames, onde se comem _omelettes sucrées_ e
_soufflées_, e d'onde se mandam rapazes para o extrangeiro estudar
BENEFICENCIA «Mentira! Mentira e escarneo!
«Se quereis beneficiar este paiz, não mandeis lá fóra, oh parvos
governadores da Barataria, não mandeis lá fóra estudar o processo do
bem-fazer.
«Vêde-me este moço, que apenas tem vinte e dois annos, e já precoces
sulcos da doença lhe enrugam a fronte. A cutis macilenta, onde deviam
vicejar as rosas da adolescencia, adhere aos ossos desmedulados e
cariados; uma tosse violenta lhe reteza os musculos do pescoço,
expedindo das glandulas salivares um pus granuloso, pardo, e
alcalino. As faculdades intellectuaes estão entorpecidas n'esse mancebo.
Estimulando-se com cognac e absynto, esta especie de cretino,
bestificado por uma enfermidade incuravel, apenas consegue dizer tres
tolices ácerca de Donizetti, sentado n'um mocho de botiquim, encostando
o corpo enervado á banca dos licores incitantes.
«Sabeis quem reduziu esse vegetal a tão quebrantado estiolamento?
«Foi o charuto!
«O contracto do tabaco empeçonhára a seiva d'esse moço, que os fados,
menos poderosos que os caixas, talvez tivessem destinado para exercer o
magisterio do folhetim, maximo esforço de intelligencia, n'uma época, e
n'um paiz, cujo amor ás letras não vale a correspondencia de uma local
bem poetica como a do baile do sr. fulano.
«Voltae para esse corpo achacadiço e apodrentado o vosso animo
beneficente, Sanchos-Panças lerdos, pantalões administrativos!
«Chamae a juizo os vampiros que sugaram o soro d'esse sangue aguado que
o faz tolhiço para tudo.
«Fazei a autopsia de um charuto como este--proseguia Francisco Nunes,
parando e contemplando as nervuras negras do rôlo de folha, que
semelhava uma rolha de cortiça queimada--e vereis que ha aqui dentro um
talo de couve lombarda, uma carocha secca, uma folha de leituga, uma
casca de bolota, e tres grãositos excrementicios de rato ou coelho.
«Horrivel, e sujamente infernal!
«Senhores deputados! não se mata assim impunemente um povo![2]
«As nações tyrannisadas, quando a oppressão requinta, erguem-se como um
só homem, e fogem para o Aventino.
«Os envenenadores congregaram-se em conciliabulo de abutres, e crearam o
charuto de vintem, a pitada do meio grosso, e o cigarro onde cresce o
musgo como em parede velha. Cadafalso para os envenenadores!
«O conselho de saude, bandeado n'este tripudio de canibaes, forma o
cortejo scientifico das parcas que nos arrebanham para a região dos
suicidas. Morte ao conselho!
«Não ha typhos, nem cholera, nem febre amarella, senhores deputados! Ha
charutos, ha o meio-grosso, e o cigarro. A epidemia não está nos canos,
senhores; está n'estes canudos, por onde os contractadores cospem
affronta e morte na face do povo!
«Que elles sejam malditos setenta vezes sete vezes, como se dizia no
Oriente!
«Na hora do trespasse, a alma d'elles, tisnada pelo remorso, será negra
como este charuto, d'onde eu sorvi um pus que me requeima os bofes...
Vae-te, infame!»
E, assim rugindo, n'uma como inprecação do moribundo atormentado,
arremessou o charuto por cima do muro para o quintal.
[1] É para espantar a memoria de Francisco Nunes, em crise de
tamanha angustia! Aquella nesga de historia destoava da virulencia
da apostrophe; mas foi dita com sanhudo entono.
[2] É ordinario este estylo; aqui não ha unidade; o impeto afrouxa,
e descáe na vulgaridade tacanha do artigo de fundo. É defeito de
todos os nossos oradores de inspiração: remontam-se; a gente está a
ve'-los luctar com as aguias; e, quando mal se precata, vê-os cahir,
a disputarem a presa do escaravelho que se rola no chão. Francisco
Nunes tem lastimaveis desegualdades n'esta apostrophe.
I
--Ludovina, já pensaste a resposta que has-de dar a teu pae?
Pergunta que faz a sua filha uma senhora de nobre presença, quarenta
annos, ainda frescal, chamada Angelica, e casada com o sr. Melchior
Pimenta, empregado na alfandega do Porto.
Ludovina respondeu:
«Como hei-de eu responder, se ainda não vi o homem?
--É um homem como os outros;--replicou D. Angelica--são todos o mesmo,
menina. Teu pae sabe o que faz. Um homem é quem melhor conhece outro
homem. Se elle te disse que achou um bom marido, não póde enganar-se.
«Ora essa, mãe! E se eu antipathisar com elle?
--Deves casar, como se sympathisasses.
«Bravo!... e depois?
--E depois, virá a sympathia. Imaginas lá com que repugnancia eu casei?
Casaram-me, deixei-me levar porque era uma creança, vivia na aldeia, e
sonhava com os vestidos e os bailes, e os theatros do Porto. Depois, teu
pae... teu pae adorava-me, dava-me mais do que eu ambicionava, e sem
saber como, nem porque, contentei-me tanto com a minha sorte, que não
invejava a de ninguem. Tinha vaidade em ser bonita, vestir com gosto, e
chegar onde as mais ricas não podiam chegar. Via homens elegantes,
reconhecia a differença que os fazia superiores a teu pae, e, comtudo,
nunca me passou pela cabeça a loucura, a ingratidão, o crime da
infidelidade.[3] Posso dizer que principiei a amar meu marido, quando as
outras mulheres se enfastiam. Aqui tens o que nunca te disse. Não ha
homem nenhum que seja indigno da estima de uma mulher.
«Mas a mãe sabe que eu... amo outro homem.
--Eu não sei se amas outro homem... Sei que namoras outro homem, e entre
namorar e amar está o reflectir, menina. Esse rapaz que te manda
romances e cartas entre as paginas... (não te inquietes, que sei tudo, e
tudo pouco vale...) esse rapaz quem é? Um filho-familia, sem posição,
sem modo de vida, que te ama, que será teu marido, se tu quizeres; que
viverá das tuas sopas, se as tiveres para ti, que se envergonhará da sua
dependencia, quando o amor obedecer á razão; que se enfastiará dos teus
carinhos, se quizeres prende'-lo com elles a ti, ou ao berço de teu
filho. Se quizesses exemplos, dava'-tos. Tens ouvido censurar duas
ou tres amigas, que tens, casadas com homens ricos de cabellos brancos?
«Ainda hontem li um folhetim contra as mulheres que se deixam seduzir
pela «fortuna» de estupidas creaturas...
--Lêste? De quem era o folhetim? Se o auctor fôr rico, e tiver quarenta
annos, o auctor é insuspeito, e, n'esse caso, digo-te que sujeites o teu
destino á determinação do folhetim. Escreve uma carta ao auctor, e
conta-lhe que és uma menina pobre, virtuosa, com excellentes joias de
espirito. Offerece-lhe o teu coração, e promette que has-de levar-lhe a
felicidade com a pobreza. Se elle te vier buscar, peso-te a ouro ao
santo que fizer o milagre. Ora, se o folhetinista é um talento raro, um
elegante de grande bigode e luneta, mas pobre, faz-lhe o mesmo
offerecimento, prevenindo-o de que és tão pobre como elle. Se o
folhetinista te vier pedir, é um dia de festa n'esta casa...
Aprende, creança. Os rapazes pobres, se vivem na boa sociedade, criam
ahi ambições, que uma menina sem riqueza não satisfaz. Pois não os
conheces tu, Ludovina? Não os vês no baile e no theatro namorando um
dote como quem namora uma mulher? Não és tu a mesma que censuras a
indignidade de certos homens, que recebem resignados todas as repulsas,
e teimam sempre em esquadrinhar um dote, como se fizessem voto de
casarem ricos, ainda á custa de vergonhas? Vê lá se entre os
folhetinistas aspirantes ao casamento de especulação se te depara o
nome que hontem lêste... Talvez ainda não reparasses em outra injustiça
que se faz ás mulheres pobres, se a fortuna lhes dá maridos ricos. Não
ha por ahi rapazes com grandes patrimonios? Recebem elles, por ventura,
em casamento meninas virtuosas e pobres? Não. Procuram-nas ricas, e
fiscalisam menos a vida honesta da noiva, que o numero de acções do
banco, ou o valor da propriedade paterna. Os moralistas de gazeta que
dizem d'isto? Sacrificam, talvez, a sua indignação ao amor do sexo: não
dizem nada, e rebentam por outro lado em imprecações contra a mulher,
que os elegantes ricos rejeitam, e os ricos sem elegancia procuram.
Olha, filha, se te não fosse penosa a experiencia, deixava-te casar por
paixão, como se diz, com o primeiro moço pobre que te encantasse.
Depois, quando saísses a passeio com teu marido, levarias um vestidinho
de chita, por não poderes levar um de _glacé_. Os taes censores de
folhetim ver-te-iam mal trajada, e diriam, no auge da sua pena: «pobre
rapariga, fez um casamento infeliz!» Ao teu lado passaria uma das tuas
amigas, ricamente vestida, pelo braço de um velho com quem a casaram as
conveniencias. Os mesmos censores diriam: «Que mal empregada mulher em
semelhante alarve!» Já vês que o estimulo da compaixão, que fizeste, era
o teu vestido de chita; e o estimulo de inveja, que fez a tua amiga, era
o vestido de seda.
«Mas se eu fosse feliz com o meu vestido de chita, e o homem do meu
coração?
--Isso é romance, menina. Nunca é feliz com um vestido de chita a mulher
que tem amigas com vestidos de seda. Hoje reina a opinião publica,
Ludovina, não é a consciencia de cada um. O agente principal do espirito
de uma mulher é a modista. Se ha casadas que envelhecem disputando ás
netas a melhor eleição de um talhe de vestido, que farão as solteiras?
Basta de razões insignificantes, que devem humilhar a tua razão,
Ludovina. Eu nunca embaracei esse ligeiro conhecimento que tens com o
Ricardo de Sá, por saber que nunca seriam tardias as reflexões que te
faço agora. Não pódes casar com esse homem sem desgostar teus paes, e
grangear para ti o infortunio, e para elle o arrependimento. Se
soubesses o que deve ser o arrependimento entre casados, a maior prova
de amor que podias dar a esse rapaz, seria esquece'-lo. Tu sabes que
vivemos do ordenado de teu pae: temos podido manter a decencia e o luxo
até dos teus caprichos de formosa; porém, nada mais podemos. Se tivesses
um grande dote, a primeira a diligenciar o teu casamento com Ricardo de
Sá, seria eu. Assim, reprovo-o, opponho-me, e serei eu a encarregada de
dizer a esse cavalheiro que a tua vontade não é livre, ou que a tua
escolha foi outra.
«Não diga tal, mamã. Se casar com o homem que me destinam, a escolha não
é minha. Deixem-me, ao menos, este desforço... Fique a responsabilidade
da acção a quem me obriga.
--Pois teus paes acceitam a responsabilidade, Ludovina.
O dialogo rematára assim, quando se fez annunciar Ricardo de Sá.
D. Ludovina, com os olhos humedecidos, e desconcertado o semblante,
disse á mãe que não podia ir á sala, e recolheu-se ao seu quarto. Foi D.
Angelica receber a visita.
Ricardo esperava-a na sala, correndo o teclado do piano, com a
sem-cerimonia de um visitante habitual. Apertou-lhe a mão, beijando-a ao
estylo da França, cousa que elle vira fazer a quatro ou cinco viajantes
distinctos do Porto, que tinham conhecido, em Pariz, a «mesa-redonda»
dos hoteis onde estiveram. Ahi vão á pressa dois traços d'este Ricardo
de Sá. É um bacharel formado em direito, filho de outro bacharel que faz
requerimentos, em quanto o filho, reservado para a magistratura, destino
em que se dispensa vocação, faz cartas de namoro com letra ingleza, e
timbra em comprar no _Moré_ os mais anilados _enveloppes_, e o melhor
papel-setim de fimbria dourada.
Lê, e empresta os romances aos namoros; commenta-os na margem das
paginas, e addiciona-lhes appendices manuscriptos de lavra sua, quando a
catastrophe merece ser corrigida.
Além d'isto, o bacharel tem tres bengalinhas, que reveza, todas muito
bonitas, com os punhos de massa de marfim, formando uma o grupo das
graças, outra o das musas, e a mais embrincada é uma Suzana a saír do
banho, espreitada pelo olho lascivo dos arreitados juizes de Israel.
Ricardo de Sá consome as manhãs, que principiam para elle ás onze
horas, dividindo os cabellos em delgados fasciculos, e lustrando cada um
d'elles com um cylindro de cera. Aguça, quanto possivel, as guias do
bigode, encerando-as, e enverniza a pera com um oleo contido no decimo
nono frasco da terceira serie. Depois, o laço da gravata, e a collocação
symetrica do pseudo camapheu é obra de fôlego que lhe dá tempo de
assobiar dois actos do _Trovador_, a aria valida do _Rigoletto_, e o
acto final da _Lucia_. De seguida, a compostura airosa das lapellas do
fraque, a ultima demão de escova, e o aprumo do chapéo onde não ha um
fio erriçado, tolhem muitas vezes a saída do peralta, que se encontra
com a terrina da sopa do jantar.
O bacharel nutre-se de ar puro, e d'alguns escropulos de carne de boi. O
pae, homem roliço e respeitador das immunidades do estomago, suppõe que
seu filho desbarata a pequena mezada nas casas de pasto, e não se
assusta da inappetencia.
Ricardo crê que o seu estomago destacou tecidos para o coração,
reservando para o funccionalismo alimenticio um estomago-miniatura, o
_quantum satis_ das compleições sylphidicas. Convicto da excrecencia
espiritual, crê-se dotado de fluidos nêrveos, magnetismo, electricidade,
etherisação. Julga-se em fim anestesico, espasmodico, dynamico, em fim
tudo o mais que não se entende.
Não ama as mulheres, pranteia-as como victimas do seu poder fascinante.
Algumas vezes, tem a piedade de as não encarar para as não abysmar.
Outras, exerce a crueza da experiencia, fitando-as com o olho
carregado de electricidade, fala-lhes com um timbre magnetico que
elle sabe, e, não ha que vêr, o somnambulismo é prompto, a attracção é
irresistivel como a da cobra-cascavel do Canadá apoz o tangedor da flauta.
Crê tudo isto o bacharel, e ha velhacos que lh'o ouvem com a sisudeza da
crença, e lhe não receitam um curativo de causticos.
D. Ludovina Pimenta é uma das suas somnambulas, e a menos victima de
todas. Ricardo distingue-a, impondo-se a obrigação cavalheirosa de
corresponder-lhe quanto em si cabe para que a infeliz desilludida não
tente contra a existencia. Vae ve-la todos os dias, conversa litteratura
com a mãe, toma uma chavena de chá sem assucar, e despede-se ás onze
horas, dizendo que vae esperar no seu quarto a hora da inspiração
matinal para continuar a sua obra intitulada: O SECULO PERANTE A SCIENCIA.
É o que podemos esquadrinhar ácerca do bacharel Ricardo de Sá.
Os homens assim não se pintam; a zombaria não os enxerga na profundeza
da sua toleima... são o Rubicon do folhetim, a desesperação da comedia
desde Aristophanes até Molière.
O original anda por ahi. Tenho-lhe assestado tres vezes a machina
photographica, de rosto; sahiu-me sempre aquillo.
[3] Perdoem-lhe a mentira pela intenção boa com que a diz...