Muita gente honesta, lendo, quinze dias depois, nos jornaes do Porto, a
noticia do casamento de José Francisco Andraens com D. Silvina de Mello,
observou que esta menina tinha muito mais juizo do que mostrava. As mães
de familia citaram-na como exemplo ás suas filhas; e estas, bem que
exteriormente se rissem d'ella, invejaram-na.
Ás suas amigas particulares dizia Silvina que o seu casamento fôra um
sacrificio do coração á dignidade propria; por quanto, dous implacaveis
homens, o morgado de Santa Eufemia e um tal Jorge Sepulveda, calcando
aos pés quantos deveres a civilidade impõe a sujeitos, que não podem ser
amados, lhe andavam sempre dando desgostos, vergonhas, e descredito.
Estes dizeres, comprovados por umas lagrimas que ella arranjava com
prodigioso artificio, apiedaram as proprias amigas, que diziam d'ella
mil maravilhas.
José Francisco Andraens arrijou de suas frequentes dyspepsias, quando o
mundo e a medicina menos o esperavam. Muitos rapazes indiscretos paravam
a contemplal-o á porta dos snrs. Pintos Leites, na calçada dos Clerigos,
nos primeiros quinze dias depois do seu matrimoniamento. José Francisco
estava um todonada melado de rosto; mas não lhe iam mal aquelles ares de
noivo: tudo tem n'este mundo a sua hora e côr de poesia.
O morgado de Santa Eufemia recebeu ao mesmo tempo o golpe da morte e o
balsamo da vida: morrêra-lhe o pai na vespera do dia em que Silvina
casára.
D. Francisca da Cunha casou com o linheiro das Hortas. As duas meninas
com os respectivos maridos foram para o Bom Jesus do Monte, local
sagrado que dá luas de poesia a quantos parvos ha ahi que vão celebrar
n'aquelle sanctuario uma festa, irrisoria, se não tôrpe, na essencia.
Jorge de Sepulveda, quando viu a local da gazeta agoureira de muitas
prosperidades a José Francisco e Silvina, estremeceu, empedrou, e
invocou do anjo da piedade o desafôgo do pranto.
Ora, o amigo de Guilherme do Amaral, se não era o anjo da piedade, tinha
em si um santo e mysterioso condão de espremer entre os dedos
inexoraveis da sua philosophia algum tanto cynica, toda a peçonha dos
corações, cancerados pelo amor.
Alguma vez verá o leitor que boleus deu toda esta gente com as
costumadas voltas do mundo.
O livro complementar d'estas biographias ha-de denominar-se: REACÇÃO DA
POESIA.
É o natural seguimento dos Annos de prosa.