Em fins de Setembro, foi Jorge Coelho, na companhia de Leonardo Pires, á
Foz. D. Marianna contrariára-lhe o desejo, até áquelle dia, por saber
que a ventoinha de Margaride lá estava, desafiando, com as suas
evoluções amorosas, a irrisão da gente frivola e a indignação das
pessoas sérias. O jornalista, porém; que era oraculo em casa do
negociante Ferreira, aconselhára a excellente amiga de D. Antonia a não
impedir que Jorge visse o espectaculo irrisorio ou repugnante em que
Silvina se exhibia.
Estava ella sentada nas ribas fragosas, que marginam o «caneiro» onde os
grupos se banhavam. Francisca da Cunha estava, ao lado da prima,
conversando com o linheiro. O morgado de Santa Eufemia, n'outra
eminencia do fragoêdo, abarcava as pernas com os braços, e apoiava o
queixo entre os joelhos. Na especie de ilha que fórma a outra riba do
caneiro, andava aos pulos Egas de Encerra-bodes, ensinando um cão da
Terra-Nova a saltar ás ondas. E era aquelle o vulto mais pitoresco da
praia, envolto no seu cobrijão escarlate, franjado de borlas verdes, e
cahido a um lado com a natural graça, que usam dar-lhe os provincianos,
vesados áquella elegancia de feiras.
Jorge de Sepulveda avistou de longe Silvina, e disse a Pires:
--Lá está ella... Não passemos d'aqui.
--E que quer dizer não passarmos d'aqui?--acudiu o da Maya, accendendo o
charuto no cachimbo denegrido d'um banheiro--Queres tu, amigo Jorge,
fingir o que não és? Apraz-te passar por tolo no conceito d'aquella
mulher?!
--Julgue-me ella como quizer...--replicou elle--concedo que seja tolice
isto, mas... é cedo ainda para ser... homem. Eu amei seriamente Silvina.
O amor e o remorso são espinhos, que não desencrava do coração quem
quer. Para que te hei-de eu mentir, se me não posso enganar a mim? Não a
esqueço, nem se quer a despreso áquella mulher. Minha mãi ajoelhou
commigo sobre a sepultura de meu pai, e pediu-me, pela memoria d'elle,
que me vencesse e levantasse da minha miseria. Quiz, e não pude, meu
amigo! Como queres tu que eu possa dissimular á penetração de Silvina o
que por ella sinto?! Melhor é que me ella não veja. Vai tu, se queres:
eu espero-te aqui, e voltaremos logo para o Porto.
Jorge sentou-se n'uma fraga a distancia; e Leonardo Pires, vibrando o
chicote, foi postar-se a pouca distancia de Silvina, conversando com o
morgado de Santa Eufemia.
--Então quem namora agora a menina?--disse o da Maya--O meu amigo de
certo não, que o vejo aqui amuado. Jorge Coelho tambem não, que está
acolá conversando com a natureza, e lendo o seu destino no vôo das
gaivotas, como Catão d'Utica.
--Que é?!--disse Christovão, receioso de que o nome do romano fosse
algum chasco á sua ignorancia.
--Catão d'Utica, disse eu, meu caro senhor; não conhece este personagem?
--Nada, não conheço--replicou o morgado, voltando o rosto para o lado de
Silvina, que o remirava com disfarce por entre o franjado da sombrinha.
--Mas ha-de conhecer aquelle outro personagem que lá vem--retorquiu o da
Maya.
Christovão olhou na direcção indicada, e viu José Francisco Andraens,
que descia lentamente a calçada que conduz á praia. Não teve mão da sua
raiva, de mais a mais aguilhoada pela facecia de Pires: fitou Silvina
com um sorriso de ironia bruta, e disse-lhe em alta voz:
--Lá vem o nosso homem!
E soltou uma casquinada de riso, dando upas sobre a pedra, com as pernas
apertadas entre os braços.
Silvina virou-se de lado com repellão, e Leonardo Pires exclamou:
--Estão bonitos! isto sim, que daria idéas a um Gavarni cançado! Ó
humanidade tu és a caricatura dos monstros que a imaginação cria nos
seus delirios de cognac e absyntho!
Dito isto, com pasmo d'algumas familias de Traz-os-Montes, que por alli
se agrupavam, Leonardo desceu do fragoedo para a praia, ao mesmo tempo
que José Francisco se aproximava de Silvina.
--Ora viva!--disse o commendador á fidalga de Margaride--Como passou?
--Excellentemente, e o snr. Andraens?
--Está feito; não me dei muito bem com a ceia. Appeteceu-me uma lagosta,
e trabalhou-me cá dentro toda a noite. Agora, estou mais desempachado, e
acho que vamos ao banho.
--Quando quizer.
--Sempre me sento um bocado a arrefecer--tornou José Francisco,
apalpando as pedras, e ajustando, o melhor que pôde, com as asperezas
d'ellas as roscas de carne cuja flexibilidade se moldava ao anfractuoso
da rocha. Depois, bramiu um urro de satisfação, e cruzou as mãos sobre a
barriga n.º 2.
--Com que sim--continuou elle--Em que estava a senhora a malucar?
--A malucar?!--disse Silvina, franzindo a testa.
--Sim, dizia eu, se estava a cogitar n'esta vista do mar...
--Ah! sim... estava...
--A fallar a verdade,--tornou elle, recolhendo-se--isto é uma obra que
faz pasmar a gente! O que me dá no goto é isto de crescer e mingar o
mar!... A senhora sabe a razão?
--Dizem que é effeito da attracção da lua.
--Da lua!--atalhou com espanto José Francisco.
--Sim, senhor, da lua; é o que dizem os entendedores; mas como se faz o
fluxo e refluxo do mar é que eu não sei, nem mesmo me importa saber...
--Da lua!--tornou o commendador, olhando para a abobada celeste, e
gesticulando mudamente com os braços, como quem se esforçava por
entender a acção da lua sobre a agua, com um imaginario artificio de
alcatruzes.--Da lua não póde ser!--disse elle por fim, com a energia e
aprumo de Galileu, á sahida do carcere.
--Pois então não seja!--disse Silvina com enfado.
--Porque a lua--tornou José Francisco, com os olhos no céo, e os dedos
das mãos afastados entre si--a lua está lá em cima, e...
--E o mar está cá em baixo...--atalhou a menina, espirrando um frouxo de
riso.
--Ora ahi está! E a senhora ri-se!? Eu queria que os doutores me
explicassem como é que a lua empurra o mar e puxa depois por elle... Ó
snr. Guimarães! olhe aqui que vai já.
O snr. Guimarães era o linheiro, que estava a pouca distancia com
Francisca da Cunha. Vieram ambos ao chamamento de José Francisco, e ella
principalmente attrahida por um tregeito da prima.
--Diga-me cá: vossê sabe como é que a lua faz isto de crescer e mingar o
mar?
--Eu não estudei nada d'isso--respondeu o linheiro--mas, em quanto a
mim, a maré cresce quando o vento é de mar, e minga quando o vento é de
terra.
--Ah! pr'ahi, pr'ahi! diga-me d'isso!--acudiu radioso o
commendador.--Mas da lua!... É que estava cá a minha Silvininha a dizer
que era a lua. Quem lhe metteu isso na cabeça, menina?
--Foi alguem que estava a zombar de mim!--disse Silvina gargalhando
francamente com Francisca da Cunha.
--Isso entendo eu... Agora--tornou José Francisco--se querem ir lá
conversar sosinhos, vão, que eu tenho que dizer aqui a esta menina uns
arranjos cá da nossa vida de noivos.
Francisca e o homem da rua das Hortas afastaram-se para irem occupar as
cadeiras, que deixaram junto d'uma barraca; mas encontraram-nas tomadas
por Leonardo Pires e Egas de Encerra-bodes.
Ergueu-se Egas, e Francisca sentou-se, cuidando que Leonardo cederia a
sua cadeira a Antonio José Guimarães; mas Leonardo não se moveu, e o
linheiro estacou diante d'ambos, com os olhos fuzilantes sobre o da
Maya, que assobiava apparentemente distrahido a canção popular, cuja
letra é: _Muito bem seja apparecido n'esta funcção_...
Francisca ergueu-se, e deu alguns passos em retirada. O linheiro, porém,
bamboando a cabeça, resmuneou estas palavras, mal ouvidas de Pires:
--O que vossê merecia, sei eu.
--Que regouga?--disse-lhe o da Maya.
--O senhor...--replicou Antonio José--ainda ha-de topar quem lhe dê uma
boa lição.
--Vá-se embora--redarguiu Pires--Se não, atiro-lhe areia aos olhos.
--A mim?!--disse com um sorriso azedo o linheiro.
--E enterro-o n'esta praia, como quem enterra um safio pôdre. Vá-se
embora, homem, e diga lá á fidalga que não ame parvos, se não quer
receber d'estas affrontas.
O linheiro fez um arremesso com a bengala, e Leonardo Pires tomou do
chão dous punhados de areia, dizendo com semblante de quem brinca:
--Olhe que vossemecê leva!
Egas de Encerra-bodes, que estivera, a um lado, rindo debaixo de uma
dobra do cobrijão, deu dous passos para a retaguarda do linheiro, e fez
um gesto ao «terra-nova». O cão começou a tirar com os dentes pelas abas
do paletó de Antonio José, e este a sacudir-se, e a florear a bengala,
que infelizmente embarrou no focinho do animal. O remate d'este episodio
foi cousa triste de contar-se. O linheiro, se não tem botas de cano
alto, sahiria com as canellas estrincadas; e póde ser que os dentes do
«terra-nova» procurassem afiar-se em porção das pernas, não abroqueladas
das botas, se Egas lhe não fallasse de modo que elle, de cauda cahida,
veio rastejar-lhe aos pés.
Terminou isto por ir o misero queixar-se ao regedor que alli estava
perto, homem de bom siso, que se dirigiu a Egas, pedindo-lhe que fizesse
saber ao seu cão que nem todos os cidadãos traziam botas de cano alto.
Francisca da Cunha, fugindo para perto de Silvina, podéra forrar-se á
vergonha de semelhante conflicto; apenas dissera ao commendador que um
doudo furioso a perseguia em toda a parte; e, citando o nome do doudo,
viu, com grande pasmo de Silvina e d'ella, erguer-se o commendador, e
descer agilmente as fragas resvaladiças, para se entremetter na
desordem, que encontrou no periodo final do cão arremettendo ás pernas
do seu amigo.
Aplacado o incidente, entraram Silvina e José Francisco, cada qual em
sua barraca, para se vestirem.
Leonardo Pires dirigiu-se a um banheiro, e pediu sem demora um fato de
banho alugado. Vestiu-se, e sahiu da sua barraca a tempo que o
commendador, a par de Silvina, entravam no mar. Seguiu-os, e passou-lhes
adiante, indo postar-se n'um ponto em que as ondas batiam mais fortes, e
onde só os nadadores ousavam esperal-as. Quando a onda vinha, Leonardo
mergulhava, e vinha com ella, até marrar nas pernas de José Francisco.
Erguia-se, sacudia a grenha, pedia perdão e tornava para o seu posto.
José Francisco retirava-se a um lado; mas, na volta de outra onda, a
marrada era infallivel. Á terceira vez, o brazileiro ladeou, quando viu
mergulhar o monstro da Maya; este, porém, nadando com os olhos abertos,
lá foi abalroar com o homem, e pedir perdão pela terceira vez.
José Francisco esbofava no mar como tubarão ferido. Sahiu á praia
atordoado, em quanto Silvina, estranha ao successo porque ficára longe
do noivo, se deixava contemplar pelos olhos lagrimosos de Jorge, que a
via, resguardando-se de ser visto.
Leonardo Pires, no perpassar por ella, disse-lhe a meia voz:
--Jorge de Sepulveda está acolá, minha senhora! Anda aquelle seu bom
anjo a quer salval-a de um eterno ridiculo, e v. exc.ª a cahir, a cahir,
a cahir, n'um dos tres abysmos das tres barrigas de José Francisco
Andraens!...