XXIII.

Em fins de Setembro, foi Jorge Coelho, na companhia de Leonardo Pires, á

Foz. D. Marianna contrariára-lhe o desejo, até áquelle dia, por saber

que a ventoinha de Margaride lá estava, desafiando, com as suas

evoluções amorosas, a irrisão da gente frivola e a indignação das

pessoas sérias. O jornalista, porém; que era oraculo em casa do

negociante Ferreira, aconselhára a excellente amiga de D. Antonia a não

impedir que Jorge visse o espectaculo irrisorio ou repugnante em que

Silvina se exhibia.

Estava ella sentada nas ribas fragosas, que marginam o «caneiro» onde os

grupos se banhavam. Francisca da Cunha estava, ao lado da prima,

conversando com o linheiro. O morgado de Santa Eufemia, n'outra

eminencia do fragoêdo, abarcava as pernas com os braços, e apoiava o

queixo entre os joelhos. Na especie de ilha que fórma a outra riba do

caneiro, andava aos pulos Egas de Encerra-bodes, ensinando um cão da

Terra-Nova a saltar ás ondas. E era aquelle o vulto mais pitoresco da

praia, envolto no seu cobrijão escarlate, franjado de borlas verdes, e

cahido a um lado com a natural graça, que usam dar-lhe os provincianos,

vesados áquella elegancia de feiras.

Jorge de Sepulveda avistou de longe Silvina, e disse a Pires:

--Lá está ella... Não passemos d'aqui.

--E que quer dizer não passarmos d'aqui?--acudiu o da Maya, accendendo o

charuto no cachimbo denegrido d'um banheiro--Queres tu, amigo Jorge,

fingir o que não és? Apraz-te passar por tolo no conceito d'aquella

mulher?!

--Julgue-me ella como quizer...--replicou elle--concedo que seja tolice

isto, mas... é cedo ainda para ser... homem. Eu amei seriamente Silvina.

O amor e o remorso são espinhos, que não desencrava do coração quem

quer. Para que te hei-de eu mentir, se me não posso enganar a mim? Não a

esqueço, nem se quer a despreso áquella mulher. Minha mãi ajoelhou

commigo sobre a sepultura de meu pai, e pediu-me, pela memoria d'elle,

que me vencesse e levantasse da minha miseria. Quiz, e não pude, meu

amigo! Como queres tu que eu possa dissimular á penetração de Silvina o

que por ella sinto?! Melhor é que me ella não veja. Vai tu, se queres:

eu espero-te aqui, e voltaremos logo para o Porto.

Jorge sentou-se n'uma fraga a distancia; e Leonardo Pires, vibrando o

chicote, foi postar-se a pouca distancia de Silvina, conversando com o

morgado de Santa Eufemia.

--Então quem namora agora a menina?--disse o da Maya--O meu amigo de

certo não, que o vejo aqui amuado. Jorge Coelho tambem não, que está

acolá conversando com a natureza, e lendo o seu destino no vôo das

gaivotas, como Catão d'Utica.

--Que é?!--disse Christovão, receioso de que o nome do romano fosse

algum chasco á sua ignorancia.

--Catão d'Utica, disse eu, meu caro senhor; não conhece este personagem?

--Nada, não conheço--replicou o morgado, voltando o rosto para o lado de

Silvina, que o remirava com disfarce por entre o franjado da sombrinha.

--Mas ha-de conhecer aquelle outro personagem que lá vem--retorquiu o da

Maya.

Christovão olhou na direcção indicada, e viu José Francisco Andraens,

que descia lentamente a calçada que conduz á praia. Não teve mão da sua

raiva, de mais a mais aguilhoada pela facecia de Pires: fitou Silvina

com um sorriso de ironia bruta, e disse-lhe em alta voz:

--Lá vem o nosso homem!

E soltou uma casquinada de riso, dando upas sobre a pedra, com as pernas

apertadas entre os braços.

Silvina virou-se de lado com repellão, e Leonardo Pires exclamou:

--Estão bonitos! isto sim, que daria idéas a um Gavarni cançado! Ó

humanidade tu és a caricatura dos monstros que a imaginação cria nos

seus delirios de cognac e absyntho!

Dito isto, com pasmo d'algumas familias de Traz-os-Montes, que por alli

se agrupavam, Leonardo desceu do fragoedo para a praia, ao mesmo tempo

que José Francisco se aproximava de Silvina.

--Ora viva!--disse o commendador á fidalga de Margaride--Como passou?

--Excellentemente, e o snr. Andraens?

--Está feito; não me dei muito bem com a ceia. Appeteceu-me uma lagosta,

e trabalhou-me cá dentro toda a noite. Agora, estou mais desempachado, e

acho que vamos ao banho.

--Quando quizer.

--Sempre me sento um bocado a arrefecer--tornou José Francisco,

apalpando as pedras, e ajustando, o melhor que pôde, com as asperezas

d'ellas as roscas de carne cuja flexibilidade se moldava ao anfractuoso

da rocha. Depois, bramiu um urro de satisfação, e cruzou as mãos sobre a

barriga n.º 2.

--Com que sim--continuou elle--Em que estava a senhora a malucar?

--A malucar?!--disse Silvina, franzindo a testa.

--Sim, dizia eu, se estava a cogitar n'esta vista do mar...

--Ah! sim... estava...

--A fallar a verdade,--tornou elle, recolhendo-se--isto é uma obra que

faz pasmar a gente! O que me dá no goto é isto de crescer e mingar o

mar!... A senhora sabe a razão?

--Dizem que é effeito da attracção da lua.

--Da lua!--atalhou com espanto José Francisco.

--Sim, senhor, da lua; é o que dizem os entendedores; mas como se faz o

fluxo e refluxo do mar é que eu não sei, nem mesmo me importa saber...

--Da lua!--tornou o commendador, olhando para a abobada celeste, e

gesticulando mudamente com os braços, como quem se esforçava por

entender a acção da lua sobre a agua, com um imaginario artificio de

alcatruzes.--Da lua não póde ser!--disse elle por fim, com a energia e

aprumo de Galileu, á sahida do carcere.

--Pois então não seja!--disse Silvina com enfado.

--Porque a lua--tornou José Francisco, com os olhos no céo, e os dedos

das mãos afastados entre si--a lua está lá em cima, e...

--E o mar está cá em baixo...--atalhou a menina, espirrando um frouxo de

riso.

--Ora ahi está! E a senhora ri-se!? Eu queria que os doutores me

explicassem como é que a lua empurra o mar e puxa depois por elle... Ó

snr. Guimarães! olhe aqui que vai já.

O snr. Guimarães era o linheiro, que estava a pouca distancia com

Francisca da Cunha. Vieram ambos ao chamamento de José Francisco, e ella

principalmente attrahida por um tregeito da prima.

--Diga-me cá: vossê sabe como é que a lua faz isto de crescer e mingar o

mar?

--Eu não estudei nada d'isso--respondeu o linheiro--mas, em quanto a

mim, a maré cresce quando o vento é de mar, e minga quando o vento é de

terra.

--Ah! pr'ahi, pr'ahi! diga-me d'isso!--acudiu radioso o

commendador.--Mas da lua!... É que estava cá a minha Silvininha a dizer

que era a lua. Quem lhe metteu isso na cabeça, menina?

--Foi alguem que estava a zombar de mim!--disse Silvina gargalhando

francamente com Francisca da Cunha.

--Isso entendo eu... Agora--tornou José Francisco--se querem ir lá

conversar sosinhos, vão, que eu tenho que dizer aqui a esta menina uns

arranjos cá da nossa vida de noivos.

Francisca e o homem da rua das Hortas afastaram-se para irem occupar as

cadeiras, que deixaram junto d'uma barraca; mas encontraram-nas tomadas

por Leonardo Pires e Egas de Encerra-bodes.

Ergueu-se Egas, e Francisca sentou-se, cuidando que Leonardo cederia a

sua cadeira a Antonio José Guimarães; mas Leonardo não se moveu, e o

linheiro estacou diante d'ambos, com os olhos fuzilantes sobre o da

Maya, que assobiava apparentemente distrahido a canção popular, cuja

letra é: _Muito bem seja apparecido n'esta funcção_...

Francisca ergueu-se, e deu alguns passos em retirada. O linheiro, porém,

bamboando a cabeça, resmuneou estas palavras, mal ouvidas de Pires:

--O que vossê merecia, sei eu.

--Que regouga?--disse-lhe o da Maya.

--O senhor...--replicou Antonio José--ainda ha-de topar quem lhe dê uma

boa lição.

--Vá-se embora--redarguiu Pires--Se não, atiro-lhe areia aos olhos.

--A mim?!--disse com um sorriso azedo o linheiro.

--E enterro-o n'esta praia, como quem enterra um safio pôdre. Vá-se

embora, homem, e diga lá á fidalga que não ame parvos, se não quer

receber d'estas affrontas.

O linheiro fez um arremesso com a bengala, e Leonardo Pires tomou do

chão dous punhados de areia, dizendo com semblante de quem brinca:

--Olhe que vossemecê leva!

Egas de Encerra-bodes, que estivera, a um lado, rindo debaixo de uma

dobra do cobrijão, deu dous passos para a retaguarda do linheiro, e fez

um gesto ao «terra-nova». O cão começou a tirar com os dentes pelas abas

do paletó de Antonio José, e este a sacudir-se, e a florear a bengala,

que infelizmente embarrou no focinho do animal. O remate d'este episodio

foi cousa triste de contar-se. O linheiro, se não tem botas de cano

alto, sahiria com as canellas estrincadas; e póde ser que os dentes do

«terra-nova» procurassem afiar-se em porção das pernas, não abroqueladas

das botas, se Egas lhe não fallasse de modo que elle, de cauda cahida,

veio rastejar-lhe aos pés.

Terminou isto por ir o misero queixar-se ao regedor que alli estava

perto, homem de bom siso, que se dirigiu a Egas, pedindo-lhe que fizesse

saber ao seu cão que nem todos os cidadãos traziam botas de cano alto.

Francisca da Cunha, fugindo para perto de Silvina, podéra forrar-se á

vergonha de semelhante conflicto; apenas dissera ao commendador que um

doudo furioso a perseguia em toda a parte; e, citando o nome do doudo,

viu, com grande pasmo de Silvina e d'ella, erguer-se o commendador, e

descer agilmente as fragas resvaladiças, para se entremetter na

desordem, que encontrou no periodo final do cão arremettendo ás pernas

do seu amigo.

Aplacado o incidente, entraram Silvina e José Francisco, cada qual em

sua barraca, para se vestirem.

Leonardo Pires dirigiu-se a um banheiro, e pediu sem demora um fato de

banho alugado. Vestiu-se, e sahiu da sua barraca a tempo que o

commendador, a par de Silvina, entravam no mar. Seguiu-os, e passou-lhes

adiante, indo postar-se n'um ponto em que as ondas batiam mais fortes, e

onde só os nadadores ousavam esperal-as. Quando a onda vinha, Leonardo

mergulhava, e vinha com ella, até marrar nas pernas de José Francisco.

Erguia-se, sacudia a grenha, pedia perdão e tornava para o seu posto.

José Francisco retirava-se a um lado; mas, na volta de outra onda, a

marrada era infallivel. Á terceira vez, o brazileiro ladeou, quando viu

mergulhar o monstro da Maya; este, porém, nadando com os olhos abertos,

lá foi abalroar com o homem, e pedir perdão pela terceira vez.

José Francisco esbofava no mar como tubarão ferido. Sahiu á praia

atordoado, em quanto Silvina, estranha ao successo porque ficára longe

do noivo, se deixava contemplar pelos olhos lagrimosos de Jorge, que a

via, resguardando-se de ser visto.

Leonardo Pires, no perpassar por ella, disse-lhe a meia voz:

--Jorge de Sepulveda está acolá, minha senhora! Anda aquelle seu bom

anjo a quer salval-a de um eterno ridiculo, e v. exc.ª a cahir, a cahir,

a cahir, n'um dos tres abysmos das tres barrigas de José Francisco

Andraens!...

Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento · 第 39 / 70 题