O jornalista encontrou Jorge Coelho na cama, e Leonardo Pires sentado á
banca. No semblante de ambos eram visiveis os signaes da altercação, que
fôra interrompida pela chegada do terceiro. O filho de D. Antonia estava
escarlate de febre, e anciado; o da Maya, se bem que de má catadura,
esboçava distrahidamente, a lapis, uns perfis de narizes caprichosos.
Jorge conheceu o litterato, e maravilhou-se da visita; Leonardo Pires,
mais familiarisado com o sujeito, ergueu-se, abraçou-o, e exclamou:
--Aqui está o teu medico, Jorge! o teu Christo, Lazaro!
--Temos _ecce homo_?! Dar-se-ha caso que o snr. Pires--disse o
jornalista sorrindo--me prepare algum calvario?... Como está o snr.
Jorge Coelho? O aspecto denota inquietação...
--Não é inquietação;--atalhou Pires--é a sina maldita d'este desgraçado
que nos tortura a ambos...
--Todos temos o nosso demonio familliar, snr. Pires--tornou o
escriptor--Socrates queixava-se do seu, e eram nada menos de dous os
demonios do divino philosopho, sendo o peor dos dous uma tal Xantippa...
Querem vêr que o snr. Jorge é energumeno d'alguma Xantippa ideal, que...
(O jornalista escreveu, e entregou a um criado o bilhete que foi
recebido em casa de D. Marianna). Jorge entretanto, sorrindo
contrafeito, respondia:
--Não, senhor. Eu sou apenas victima das loucuras do meu condiscipulo.
--Ó cavalheiro--clamou Pires irritado--diga ahi a esse ingrato quem é
Silvina de Mello. Não se trata aqui de desfolhar lindas chimeras, e
matar illusões queridas. A paixão de Jorge é uma nodoa que eu quiz
delir-lhe do coração, á custa mesmo do meu descredito e abominação
n'esta sociedade devassa. Tenha vossê a franqueza de dizer a esta
criança o que eu tenho sido, já que eu tive a boa sorte de lhe referir
ao senhor as minhas acções e palavras.
O romancista achou de riso a gravidade da appellação de Pires para o seu
testemunho; mas perseverou-a na seriedade que o proposito pedia, e
disse:
--O snr. Leonardo Pires tem dado provas exuberantes de amisade ao snr.
Coelho, verberando com prosperos sarcasmos uma menina em tudo
respeitavel, menos na sua virtude.
--É de mais!--atalhou Jorge--Póde ser que Silvina mereça censura como
inconstante, sem com isso...
--Deixar de ser virtuosa?...--interrompeu o poeta...
--Justamente.
--Não julga bem, snr. Coelho. A deshonestidade não póde ser virtude. A
mulher que enfeira o coração, e o põe á concurrencia, mirando ás
vantagens do pedido, poderá ser uma sagaz professora de economia
politica applicada ás mercadorias do coração, mas virtuosa é que ella de
certo não é. Para mim tenho que a virtude póde coexistir com a miseria
da mulher perdida que não tem a hypocrisia de expor o coração á venda;
porém, quero eu que não prostituamos a palavra, que é santa, cedendo-a á
que cuida cobrir as suas ulceras com o amicto de virgem. A snr.ª D.
Silvina de Mello, que eu vim, depois de cinco annos de ausencia,
encontrar occupando a vagatura d'outras aventureiras que eu cá deixei, é
uma senhora aleijada.
--Ainda mais essa!--atalhou Pires--Eu nunca dei pelo aleijão de Silvina!
--Aleijada de espirito, quero eu dizer, snr. Albuquerque. Que outro nome
se ha-de dar á lamentavel enfermidade moral d'uma menina que desperta
das suas illusões de infancia, esfrega os olhos, e começa a procurar em
redor de si um homem com alguns saccos de dinheiro? Ha ahi nada mais
torpe, mais nauseabundo na face da terra! A mulher que assim faz tem
alluido a sua virtude pela base, que é a vergonha. D'ahi ávante o pudor
é uma mentira, as côres que sahem ao rosto são irrupções de sangue como
as empigens, é um mechanismo da materia que o observador encontra mesmo
nos prostibulos. Que é o que bate no peito d'essa mulher, desde que a
ancia do dinheiro fez d'ella um estimulo de sensações? Quando ella
fallar nos affectos da sua alma, qual é de nós o que voluntariamente se
immolará ao escarneo de sua propria consciencia, respondendo ás Silvinas
com expressões de candura e boa fé? O snr. Jorge Coelho tem a
sinceridade de me dizer se me entende?
--Entendo; mas não creio que Silvina seja a mulher que o senhor
qualifica.
--Eu não a qualifiquei ainda: o que eu quiz foi a certeza de que o meu
joven amigo me entendeu a theoria: agora pertence á pratica o qualificar
Silvina. Está o snr. Jorge Coelho no Porto. Fez bem em vir. Isto é uma
questão de tempo. Faça as suas experiencias desde ámanhã em diante; mas
tenha a condescendencia de me ir communicando os seus descobrimentos.
Entretanto, restitua ao snr. Leonardo Pires o bom conceito em que o
tinha, que estes amigos são raros. Outro objecto. A minha commissão não
era vir discutir Silvina: Eu fui aqui enviado pela snr.ª D. Marianna
Ferreira e seu marido a fim de conduzir o snr. Jorge a casa d'elles,
onde foi recebida uma carta de sua mãi.
--Oh! bravo!--exclamou Pires.--Temos homem!
--Não atino com o seu enthusiasmo, snr. Albuquerque!--disse o escriptor.
--Que mulheres, que mulheres tu vaes vêr, ó Jorge!--continuou bracejando
o da Maya.--As Ferreiras! a nata, a quinta essencia das mulheres bellas
do Porto! E a Rachel! ai! aquella Rachel, casada com o nariz mais
indecente que fez o acaso estupido, a quem o Creador entregou a
repartição dos narizes! A Rachel! a mulher dos olhos de antilopa! as
mais bellas carnes que ainda vestiram uma alma, se é que uma mulher
d'aquellas precisa de ter alma para ser perfeita! Ó Jorge, tu estás
curado! Quando vires Rachel, sentirás um coração novo, um coração
caldeado nas fragoas dos olhos d'ella! Eu vi-a uma vez, e creio que se a
visse segunda...
--Iria á missa dos Clerigos vêl-a terceira, não é assim?--interrompeu o
poeta, rindo, com Jorge, dos transportes sinceros de Pires.--Rachel é
uma bella senhora, e uma nobilissima alma--continuou o escriptor
gravemente.
--Mas, segundo a sua theoria--atalhou de golpe Jorge Coelho--essa Rachel
é uma das muitas aleijadas que por ahi ha. Não a conheço; mas sei que
ella casou com um brazileiro hediondo e rico.
--Aquelle nariz!--disse Pires.--Tambem me quer parecer que a mulher
pouco vale na alma, quando contemplo o nariz de Manoel Pereira!
--E eu creio que a sociedade--tornou Jorge--não desconsidera Rachel
porque ella escolheu um homem rico, podendo ter aceitado a
desinteressada pobresa e o coração opulento de muitos rapazes que a
cortejavam. Já se vê que a opulencia d'um sordido não desluz aos olhos
da sociedade a virtude d'uma senhora que se deu por ella.
--São contos largos...--disse o romancista.--Custa-me que o cavalheiro
confunda Rachel com Silvina. Creia que offende uma martyr, snr. Coelho,
Rachel supporta o supplicio de Mezencio, com a resignação que santifica
a baixeza, se ella tivesse existido, e as culpas futuras, se ellas podem
existir. Não levo em paciencia o aggravo feito á pobre menina. Vou
contar-lhe em quinze minutos a historia do casamento de Rachel. Bernardo
Joaquim Ferreira conhece o valor do dinheiro, e duvida da existencia
d'umas paixões, que podem vingar e prosperar sem dinheiro.
Ás filhas chama-lhe suas, e não exclue d'esta propriedade o coração. O
seu pensamento fixo d'elle é casar ricas as filhas. Rachel era querida
de alguns amigos meus, espiritos dignos d'ella, que lhe teriam dado a
ventura, se os encontros predestinados dos espiritos não fossem o
mentiroso poetar de infelizes que nunca se encontram. Um d'esses amigos,
fui procural-o ao hospital de alienados, quando desembarquei ha cinco
mezes em Lisboa. Conheceu-me ainda, e as primeiras palavras que me disse
foram: «Morreu Rachel! A minha alma foi com ella.» Pobre moço! bem
sentia elle que já não tinha alma! Depois de dous annos de loucura, por
ignorados motivos, esquecido de tudo que fôra, tinha uma só
reminiscencia, como se todo o seu passado se concentrasse n'ella...
Vamos ao ponto, e desculpem-me d'estas intercadencias melancolicas. Os
senhores não sabem ainda o que é olhar para o passado aos trinta e cinco
annos, e vêr uma longa fila de espectros uns gotejando sangue, e outros
lagrimas...
O poeta dissera isto tão do intimo amargurado, que nem Leonardo Pires
deixou de o escutar com magoa. Jorge, já dorido de suas tristezas, não
era para espantar que desse em lagrimas uma prova de sympathia á dôr
alheia.
Proseguiu o romancista:
Ha seis annos eram dous os homens indicados para maridos de Rachel. Quem
os indicava, e negociava com ardis, e negaças ignobis, sobre serem
immoraes, era o pai. Rachel detestava-os ambos. Manoel Pereira era um; o
outro era brazileiro tambem, menos repulsivo, melhor alma talvez, e
amigo do primeiro. Desde que se toparam a amar a mesma mulher,
odiaram-se, intrigaram-se e depreciaram mutuamente os seus haveres,
porque bem sabiam que Ferreira tinha a filha em almoeda. O primeiro que
a pediu foi Manoel Pereira, abonando-se com cem contos. O segundo não
dizia o seu valor. Foi o primeiro preferido, sem ser consultada a
victima.
N'este tempo, Manoel Pereira entra em transacções com o governo, e perde
cincoenta contos. Ferreira, sabedor da perda, acolhe de novo o outro
concurrente, e cede-lhe a filha. Este carecia de ir liquidar o seu
negocio ao Rio de Janeiro. Mas, como a liquidação se detivesse mais d'um
anno, Manoel Pereira aventura-se em especulações mercantis, estas
prosperam-lhe, restaura-se das perdas, e rehabilita-se para esposar
Rachel. O negociante, que sabia o anexim do passaro na mão, receia que o
outro não volte, e quebra pela terceira vez o contracto. Rachel ignorava
estas asquerosas mercadorias. Annuncia-lhe o pai que ella é esposa
promettida de Manoel Pereira. A pobre menina quer defender-se primeiro
com razões, depois com lagrimas. Tudo lhe é rebatido com indifferença,
ou com palavras violentas de soberania paternal. Desde o dia em que se
fizera definitivamente a operação commercial dos quinze annos d'um anjo
formoso, como a esperança d'uma alma pura, com o homem de cincoenta
annos, sem o desconto de alguma feição boa do corpo ou da alma, Rachel
era perseguida pelo seu porco demonio de todas as horas. Se acontecia
Manoel Pereira estar na sala, e a lagrimosa criança se demorava no seu
quarto para encurtar as horas do supplicio, ia lá o pai buscal-a; e se
as grosserias a não compelliam a aligeirar o passo, não era raro
ameaçal-a de pancadas, e mesmo fazer executiva a paternal justiça.
Quantas vezes Rachel entrou na sala, com as faces escarlates das
bofetadas que o pai lhe dava como incentivo para saber aproveitar-se da
fortuna caprichosa! Era esta a lastimosa situação de Rachel quando eu
fui para o Brazil. Recordo todas as palavras que a formosa criança
me disse a ultima vez que fallamos.--Tenha animo para a
obediencia--disse-lhe eu--Bem póde ser que Deus a remunere d'essa
virtude com imprevistas felicidades.
--Eu dou por terminada a minha vida--respondeu-me Rachel com os olhos
enxutos--Tenho quinze annos, e ha tres mezes que olho para a minha
existencia, como se ella fosse já longa de trabalhos. Os paroxismos
hão-de ser rapidos. Sei que nem eu nem alguma de minhas irmãs podemos
sobreviver á mocidade. Estamos todas feridas da mesma morte. D'aqui a
pouco lançarei o coração em golfadas de sangue, e meu pai não terá
remorsos de ter cooperado para a minha morte, por que elle já viu dous
irmãos meus cahirem no verdor dos annos na sepultura onde cahiremos
todos. Vá, que não me torna a vêr...
Eu sahi de ao pé de Rachel, com o coração opprimido, mas contente de mim
porque chorava as primeiras lagrimas, depois d'outras que eu julguei
serem as ultimas... Rachel casou. Não morreu. Mentiu-lhe o anjo que
fallava áquella sua innocentissima alma. Vive. É uma agonia sem nome...
O quarto de hora já lá vai. Agora, meus amigos, não venha mais o nome de
Silvina como um escarro á face de Rachel. Até ámanhã, snr. Jorge. Depois
d'estas reminiscencias, eu tenho um singular coração que se brutifica, e
uma alma que detesta a sociedade. Boas noites.