--O snr. Pereira não ouviu dizer aqui a este senhor que o filho da minha
amiga era um moço muito digno?!
--Todos elles são muito bons, mas em minha casa é que elles não põem o
pé.--Disse Manoel Pereira, e fez menção de procurar o chapéo.
Rachel relanceou sobre o marido um olhar severo. O escriptor fazia
figuras geometricas com as marcas do quino. As meninas olhavam-se entre
si com sorrisos rebeldes á prudencia. O bom Ferreira, apesar da sua
superioridade relativa de sisudeza e bom senso, não deixou de vacillar
ao choque das reflexões do genro. D. Marianna, porém, voltando-se com
energia para o jornalista, disse-lhe:
--O senhor faz-me um favor dos que se pedem sem embaraço a um amigo
antigo?
--Faça-me a honra de mandar-me, minha senhora.
--Tem a bondade de ir á hospedaria, e acompanhar o filho da minha amiga,
o filho d'uma senhora a quem eu devi na minha mocidade o que não posso
pagar-lhe d'outro modo?
O jornalista ergueu-se, e disse, tomando o chapéo:
--Se elle estiver doente, ou na cama fatigado, mandarei um bilhete para
que o não esperem. Até já, ou muito boas noites, minhas senhoras.
Sahira o jornalista, e D. Marianna enxugando lagrimas que não tinham na
apparencia muito cabimento alli, fallou assim:
--Eu nunca disse a minhas filhas os favores que devo á mãi do meu
hospede; escutem-me, e depois dirão se o filho de tal anjo não será
digno de ser recebido como seu irmão. Eu fiquei orphã e pobre aos onze
annos. Entrei nas ursulinas de Braga, entregue á caridade da prelada,
que me achou com habilitações para ser uma simples criada grave de
convento. D. Antonia de Sepulveda tinha tambem entrado, n'essa occasião,
e era rica. Tratei-a com respeito, e ella a mim com familiaridade, para
chegar ao fim de me offerecer metade da sua mesada, e habilitar-me a ser
senhora entre as outras, que me olhavam com desestima, e com a falsa
piedade das ricaças do convento. Aceitei os favores da minha amiga, e
tão suave era o dever-lh'os, que nunca me julguei devedora, se não
depois que vim a esta sociedade conhecer o valor dos beneficios que
recebi de Antonia. Vivi cinco annos á sombra da generosidade d'ella:
prendei-me á sua custa, instrui-me com ella d'essa apoucada educação que
nos davam no convento; e já depois que a minha amiga sahiu para casar
obedecendo ás ordens de seus paes, continuei a receber as mezadas e os
presentes que ella recebia. Casei tambem passado um anno, fui feliz,
enriqueci, presenteei-a, mas a cada lembrança de amiga que lhe eu
mandava, respondia ella com mais valiosos mimos da sua casa. Penso ha
vinte e quatro annos no modo de ser util á minha querida Antonia; a
Providencia depara-me agora occasião de velar as commodidades do filho
d'ella. Haja ahi uma pessoa de boa fé a dizer-me que devia ser outro o
meu procedimento...
--Ninguem se atreve a tanto.--disse Rachel com enfado.--Eu, se minha
mãi, por desgraça nossa, não existisse, levaria para minha casa o filho
da nossa amiga, da protectora de nossa mãi. Se eu tivesse um marido que
me quizesse roubar o prazer da gratidão em tão pequeno serviço,
amaldiçoaria a hora em que meus paes me subjugaram a tal homem...
--Não te irrites assim, Rachel...--disse Bernardo Ferreira, ferido pelas
palavras da filha, que lhe apontavam direitas á consciencia, onde as
fibras do remorso doiam sempre.
Entretanto, Manoel Pereira, franzindo o nariz, dilatava as ventas
hediondas, por onde vaporava a zanga.
O incidente, passados minutos, foi cortado por um bilhete do escriptor,
dizendo que Jorge Coelho pedia desculpa, agradecia extremamente a
delicadeza, e convalescia da fadiga para no dia seguinte cumprir as
ordens de sua mãi.