Como lhe parecia illogico com elle mesmo estar ali mettido naquelle
estreito calabouço. Pois elle, o Quaresma placido, o Quaresma de tão
profundos pensamentos patrioticos, merecia aquelle triste fim? De que
maneira sorrateira o Destino o arrastara até ali, sem que elle pudesse
presentir o seu extravagante proposito, tão apparentemente sem
relação com o resto da sua vida? Teria sido elle com os seus actos
passados, com as suas acções encadeiadas no tempo, que fizera com que
aquelle velho deus docilmente o trouxesse até á execução de tal
designio? Ou teriam sido os factos externos, que venceram a elle,
Quaresma, e fizeram-n'o escravo da sentença da omnipotente divindade?
Elle não sabia, e, quando teimava em pensar, as duas cousas se
baralhavam, se emmaranhavam e a conclusão certa e exacta lhe fugia.
Não estava ali ha muitas horas. Fôra preso pela manhã, logo ao
erguer-se da cama; e, pelo calculo approximado do tempo, pois estava sem
relogio e mesmo se o tivesse não poderia consultal-o á fraca luz da
masmorra, imaginava podiam ser onze horas.
Porque estava preso? Ao certo não sabia; o official que o conduzira,
nada lhe quizera dizer; e, desde que sahira da ilha das Enxadas para a
das Cobras, não trocara palavra com ninguem, não vira nenhum conhecido
no caminho, nem o proprio Ricardo que lhe podia, com um olhar, com um
gesto, trazer socego ás suas duvidas. Entretanto, elle attribuia a
prisão á carta que escrevera ao Presidente, protestando contra a scena
que presenciara na vespera.
Não se pudera conter. Aquella leva de desgraça a sahir assim, as
deshonras, escolhidos a esmo, para uma carniçaria distante, falara fundo
a todos os seus sentimentos puzera diante dos seus olhos todos os seus
principios moraes; desafiara a sua coragem moral e a sua solidariedade
humana: e elle escrevera a carta com vehemencia, com paixão, indignado.
Nada omittiu do seu pensamento: falou claro, franca e nitidamente.
Deve ser por isso que elle estava ali naquella masmorra, engaiolado,
trancafiado, isolado dos seus semelhantes como uma féra, como um
criminoso, sepultado na treva, soffrendo humidade, misturado com os seus
detrictos quasi sem comer... Como acabarei? Como acabarei? E a pergunta
lhe vinha, no meio da revoada de pensamentos que aquella angustia
provocava pensar. Não havia base para qualquer hypothese. Era de
conducta tão irregular e incerta o Governo que tudo elle, podia
esperar: a liberdade ou a morte, mais esta que aquella.
O tempo estava de morte, de carnificina; todos tinham sêde de matar,
para affirmar mais a victoria e sentil-a bem na consciencia cousa sua,
propria, e altamente honrosa.
Iria morrer, quem sabe se naquella noite mesmo. E que tinha elle feito
de sua vida? Nada. Levara toda ella atraz da miragem de estudar a
patria, por amal-a e querel-a muito, no intuito de contribuir para a sua
felicidade e prosperidade. Gastara a sua mocidade nisso, a sua
virilidade tambem; e, agora que estava na velhice, como ella o
recompensava, como ella o premiava, como ella o condecorava? Matando-o.
E o que não deixara de ver, de gosar, de fruir, na sua vida? Tudo. Não
brincara, não pandegara, não amara--todo esse lado da existencia que
parece fugir um pouco á sua tristeza necessaria, elle não vira, elle
não provara, elle não experimentara.
Desde dezoito annos que o tal patriotismo lhe absorvia e por elle fizera
a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram
grandes? Pois que fossem... Em que lhe contribuiria para a felicidade
saber o nome dos heróes do Brasil? Em nada... O importante é que elle
tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das suas cousas de tupy, do
_folk lore_, das suas tentativas agricolas... Restava disso tudo em sua
alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!
O tupy encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o escarneo; e
levou-o á loucura. Uma decepção. E a agricultura? Nada. As terras
não eram ferazes e ella não era facil como diziam os livros. Outra
decepção. E, quando o seu patriotismo se fizera combatente, o que
achara? Decepções. Onde estava a doçura de nossa gente? Pois elle
não a viu combater como féras? Pois não a via matar prisioneiros,
innumeros? Outra decepção. A sua vida era uma decepção, uma serie,
melhor, um encadeiamento de decepções.
A patria que quizera ter era um mytho; era um fantasma criado por elle
no silencio do seu gabinete. Nem a physica, nem a moral, nem a
intellectual, nem a politica que julgava existir, havia. A que existia
de facto, era a do Tenente Antonino, a do Dr. Campos, a do homem do
Itamaraty.
E, bem pensando, mesmo na sua pureza, o que vinha a ser a Patria? Não
teria levado toda a sua vida norteado por uma illusão, por uma idéa a
menos, sem base, sem apoio, por um Deus ou uma Deusa cujo imperio se
esvaia? Não sabia que essa idéa nascera da amplificação da crendice
dos povos grego-romanos de que ancestraes mortos continuaram a viver
como sombras e era preciso alimental-as para que elles não perseguissem
os descendentes? Lembrou-se do seu Fustel de Conlangos... Lembrou-se de
que essa noção nada é para os menenanan, para tantas pesos...
Pareceu-lhes que essa idéa como que fôra explorada pelos
conquistadores por instantes sabedores das nossas subserviencias
psychologicas, no intuito de servir ás suas proprias ambições...
Reviu a historia; viu as mutilações, os accrescimos em todos os paizes
historicos e perguntou de si para si; como um homem que vivesse quatro
seculos, sendo francez, inglez, italiano, allemão, podia sentir a
Patria?
Uma hora, para o francez, o Franco-Condado era terra dos seus avós,
outra não era; num dado momento, a Alsacia não era, depois era e
afinal não vinha a ser.
Nós mesmos não tivemos a Cisplatina e não a perdemos; e, porventura,
sentimos que haja lá manes dos nossos avós e por isso soffremos
qualquer magua?
Certamente era uma noção sem consistencia racional e precisava ser
revista.
Mas, como é que elle tão sereno, tão lucido, empregara sua vida,
gastara o seu tempo, envelhecera atraz de tal chimera? Como é que não
viu nitidamente a realidade, não a presentiu logo e se deixou enganar,
por um falaz idolo, absorver-se nelle, dar-lhe em holocausto toda a sua
existencia? Foi o seu isolamento, o seu esquecimento de si mesmo; e
assim é que ia para a cova, sem deixar traço seu, sem um filho, sem um
amor, sem um beijo mais quente, sem nenhum mesmo, e sem sequer uma
asneira!
Nada deixava que affirmasse a sua passagem e a terra não lhe dera nada
de saboroso.
Comtudo, quem sabe se outros que lhe seguissem pegadas não seriam mais
felizes? E logo respondeu a si mesmo: mas como? Se não se fizera
communicar, se nada dissera e não prendera o seu sonho, dando-lhe corpo
e substancia?
E esse seguimento adiantaria alguma cousa? E essa continuidade traria
enfim para a terra alguma felicidade? Ha quantos annos vidas mais
valiosas que a delle, se vinham offerecendo, sacrificando e as cousas
ficaram na mesma, a terra, na mesma miseria, na mesma oppressão, na
mesma tristeza.
E elle se lembrava que ha bem cem annos, ali, naquelle mesmo logar onde
estava, talvez naquella mesma prisão, homens generosos e illustres
estiveram presos por quererem melhorar o estado de cousas de seu tempo.
Talvez só tivessem pensado, mas soffreram pelo seu pensamento. Tinha
havido vantagem? As condições geraes tinham melhorado? Apparentemente
sim: mas, bem examinado, não.
Aquelles homens, accusados de crime tão nefando em face da legislação
da época, tinham levado dous annos a ser julgados; e elle, que não
tinha crime algum, nem era ouvido, nem era julgado: seria simplesmente
executado!
Fôra bom, fôra generoso, fôra honesto, fôra virtuoso--elle que fôra
tudo isso, ia para a cova sem o acompanhamento de um parente, de um
amigo, de um camarada...
Onde estariam elles? Sobre o Ricardo Coração dos Outros, tão simples
e tão innocente na sua mania de violão, elle não poria mais os olhos?
Era tão bom que o pudesse, para mandar á sua irmã o ultimo recado, ao
preto Anastacio um adeus, á sua afilhada um abraço! Nunca mais
vel-os-ia, nunca!
E elle chorou um pouco.
Quaresma, porem, enganava-se em parte. Ricardo soubera de sua prisão e
procurava soltal-o. Teve noticia do exacto motivo della; mas não se
intimidou. Sabia perfeitamente que corria grande risco, pois a
indignação no palacio contra Quaresma fôra geral. A victoria tinha
feito os victoriosos inclementes e ferozes, e aquelle protesto soou
entre elles como um desejo de diminuir o valor das vantagens
alcançadas. Não havia mais piedade, não havia mais sympathia, nem
respeito pela vida humana; o que era necessario era citar o exemplo de um
massacre á turca, porém clandestino, para que jamais o poder
constituido fosse atacado ou mesmo discutido. Era a philosophia social
da época, com forças de religião, com os seus fanaticos, com os seus
sacerdotes e pregadoras, e ella agia com a maldade de uma crença forte,
sobre a qual fizessemos repousar a felicidade de muitos.
Ricardo, entretanto, não se amedrontou; procurou influencias e amigos.
Ao entrar no largo de S. Francisco encontrou Genelicio. Vinha da missa
da irmã da sogra do deputado Castro. Como sempre, trajava uma pesada
sobrecasaca preta que parecia de chumbo. Já estava sub-director e o seu
trabalho era agora imaginar meios e modos de ser director. A cousa era
difficil; mas trabalhava num livro: «Os Tribunaes de Contas nos Paizes
asiaticos»--o qual, demonstrando uma erudição superior, talvez lhe
levasse ao alto logar cubiçado.
Vendo-o, Ricardo não se deteve. Correu-lhe ao encalço e falou-lhe:
--Doutor, V. Ex. dá licença que lhe dê uma palavra?
Genelicio perfilou-se todo e, como tivesse pessima memoria das
physionomias humildes, perguntou com solemnidade e arrogancia:
--Que deseja, camarada?
Coração dos Outros estava com a sua farda do «Cruzeiro do Sul» e
não ficava bem a Genelicio dar-se como conhecido de um soldado, O
trovador julgou-o mesmo esquecido e indagou ingenuamente:
--Não me conhece mais, doutor?
Genelicio fechou um pouco os olhos por detraz do pince-nez azulado e
disse seccamente:
--Não.
--Eu, fez com humildade Ricardo, sou Ricardo Coração dos Outros, que
cantou no seu casamento.
Genelicio não sorriu, não deu mostras de alegria e limitou-se:
--Ah? É o senhor! Bem: que deseja?
--O senhor não sabe que o Major Quaresma está preso?
--Quem é?
--Aquelle que foi vizinho do seu sogro.
--Aquelle maluco... Ahn!... E d'ahi?
--Eu queria que o senhor se interessasse...
--Não me metto nessas cousas, meu amigo. O Governo tem sempre razão.
Passe bem.
E Genelicio seguiu com o seu passo cauteloso de quem poupa as solas das
botas, emquanto Ricardo ficava de pé a olhar o largo, a gente que
passava, a estatua immovel, as casas feias, a igreja... Tudo lhe pareceu
hostil, máo ou indifferente; aquellas caras de homens tinham cataduras
de feras e elle quiz por um momento chorar de desespero por não poder
salvar o amigo.
Lembrou-se, porém, de Albernaz, e correu a procural-o. Não era longe,
mas o General ainda não tinha chegado. Ao fim de uma hora o General
chegou e, dando com Ricardo, perguntou:
--Que ha?
O trovador, bastante emocionado, explicou-lhe com voz dorida todo o
facto. Albernaz concertou o pince-nez, ageitou bem o trancelim de ouro
na orelha e disse com doçura:
--Meu filho, eu não passo... Você sabe: sou governista e parece, se eu
fôr pedir por um preso, que já não o sou bastante... Sinto muito,
mas... que se ha de fazer? Paciencia.
E entrou para o seu gabinete prazenteiro, muito seguro de si, dentro do
seu placido uniforme de General.
Os officiaes continuavam a entrar e a sahir; as campainhas soavam; os
continuos iam r vinham; e Ricardo procurava entre todas aquellas
physionomias uma que lhe pudesse valer. Não havia e elle desesperava.
Mas quem havia de ser? Quem? Lembrou-se: o commandante; e foi ter
com o Coronel Bustamante, na velha estalagem que servia de quartel ao
garboso «Cruzeiro do Sul».
O batalhão ainda continuava em pé de guerra. Embora terminada a
revolta no porto do Rio de Janeiro era preciso mandar forças para o
Sul, de forma que os batalhões não tinham sido dissolvidos e um dos
apontados para partir era o «Cruzeiro».
O Alferes côxo, no ensaboado pateo da antiga estalagem, continuava na
sua faina de instructor dos novos recrutas. Hom--brôoo... armas!
Mei--ãã volta!
Ricardo entrou, subiu rapidamente a oscillante escada do velho cortiço
e logo que chegou ao cubiculo do commandante, gritou: com licença,
Commandante!
Bustamante andava de máo humor. Aquelle negocio de partir para o
Paraná não lhe agradava. Como é que havia de superintender a escripta
do batalhão, no fervor de batalhas, nas desordens de marchas e
contramarchas? Isso era uma tolice do Commandante marchar; o chefe devia
ficar a resguardo, para providenciar e dirigir a escripturação.
Elle pensava nessas cousas, quando Ricardo pediu licença.
--Entre, disse elle.
O bravo Coronel coçava a grande barba mosaica, tinha o dolman
desabotoado e acabava de calçar um dos pes de botina, para com mais
decencia receber o inferior.
Ricardo expoz o seu pedido r esperou com paciencia a resposta, que
custou a vir. Por fim, Innocencio disse sacudindo a cabeça e olhando o
inferior cheio, de severidade:
--Vai-te embora, senão mando-te prender! Já!
E apontou com o dedo a porta da sahida num gesto marcial e energico. O
cabo não se demorou mais. No pateo o instructor coso, veterano do
Paraguay, continuava com solemnidade a encher a arruinada estalagem com
as suas vozes de commando: Hom-brõo... armas! Mei--ãã... volta...
volver!
Ricardo veiu andando triste e desalentado. O mundo lhe parecia vasio de
afecto e de amor. Elle que sempre decantara nas suas modinhas a
dedicação, o amor, as sympathias, via agora que taes sentimentos não
existiam, tinha marchado atraz de cousas fóra da realidade, de
chimeras. Olhou o céo alto. Estava tranquillo e calmo. Olhou as
arvores. As palmeiras cresciam com orgulho e titanicamente pretendiam
attingir o céo. Olhou as casas, as igrejas, os palacios e lembrou-se
das guerras, do sangue, das dores que tudo aquillo custara. E era assim
que se fazia a vida, a historia e o heroismo: com violencia sobre os
outros, com oppressões e soffrimentos.
Logo, porém, recordou que era preciso salvar o amigo que era necessario
dar mais uns passos. Quem poderia? Consultou sua memoria. Viu um, viu
outro e por fim lembrou-se da afilhada de Quaresma, e foi procural-a na
Real Grandeza.
Chegou, narrou-lhe o facto e as suas sinistras apprehensões. Ella estava
só, pois o marido cada vez mais trabalhava para aproveitar os despojos da
victoria; não perdia um minuto, andando atraz de um e de outro.
Olga lembrou-se bem do padrinho, do seu eterno sonhar, da sua ternura,
da tenacidade que punha em seguir as suas idéas, da sua candura de
donzella romantica...
Durante um instante uma grande pena tomou-a toda inteira e tirou-lhe a
vontade de agir. Pareceu-lhe que era bastante a sua piedade e ela ia de
algum modo dar lenitivo ao soffrimento do padrinho; mas bem cedo o viu
ensanguentado--elle, tão generoso, elle, tão bom, e pensou em
salval-o.
--Mas que fazer, meu caro sr. Ricardo, que fazer? Eu não conheço
ninguem... Eu não tenho relações... Minhas amigas... A Alice, a
mulher do Dr. Brandão, está fora... A Cassilda, a filha do Castrioto,
não pode... Não sei, meu Deus!
E accentuou estas ultimas palavras com grande e lancinante desespero. Os
dous ficaram calados. A moça, que estava sentada, tomou a cabeça entre
as mãos e as sua unhas longas e aperoladas engastaram-se nos seus
cabellos negros. Ricardo estava de pé e aparvalhado.
--Que hei de fazer, meu Deus? repetiu ella.
Pela primeira vez, ella sentiu que a vida tinha cousa desesperadoras.
Possuia a mais forte disposição de salvar seu padrinho; faria
sacrificio de tudo, mas era impossivel, impossivel! Não havia um meio;
não havia um caminho. Ella tinha que ir para o posto de supplicio,
tinha que subir o seu Calvario, sem esperança de ressurreição.
--Talvez seu marido, disse Ricardo.
Pensou um pouco, demorou-se mais no exame do caracter do esposo; mas, em
breve, viu bem que o seu egoismo, a sua ambição e a sua ferocidade
interesseira não pemittiriam que elle désse o minimo passo.
--Qual, esse...
Ricardo não sabia o que aconselhal-a e olhava sem pensamento os moveis
e a montanha negra e alta que se avistava da sala onde estavam. Queria
encontrar um alvitre, um conselho; mas nada!
A moça continuava a cravar os dedos nos seus cabellos negros e a olhar
a mesa em que repousavam os seus cotovellos. O silencio era augusto.
Num dado momento, Ricardo teve uma grande alegria no olhar e disse:
--Se a senhora fosse lá...
Ella levantou a cabeça; os seus olhos se dilataram, de espanto e o
rosto lhe ficou rigido. Pensou um pouco, um nada, e falou com firmeza:
--Vou.
Ricardo ficou só e sentou-se. Olga foi vestir-se.
Elle então pensou com admiração naquella moça que por simples
amizade se dava a tão arriscado sacrificio, que tinha a alma tão ao
alcance della mesma e a sentiu bem longe desse nosso mundo, deste nosso
egoismo, dessa nossa baixeza e cobriu a sua imagem com um grande olhar
de reconhecimento.
Não tardou que ella ficasse prompta e ainda abotoava as luvas, na sala
de jantar, quando o marido entrou. Vinha radiante, com os seus grandes
bigodes e o seu rosto redondo cheio de satisfação de si mesmo. Nem fez
menção de ter visto Ricardo e foi logo direito á mulher:
--Vaes sahir?
Ella, afogueada pela ancia desesperada de salvar Quaresma, disse com
certa vivacidade:
--Vou.
Armando ficou admirado de vel-a falar daquelle modo. Voltou-se um
instante para Ricardo, quiz interrogal-o, mas logo, dirigindo-se á
mulher, perguntou com autoridade:
--Onde vaes?
A mulher não lhe respondeu logo e, por sua vez, o doutor interrogou o
trovador:
--Que faz o senhor aqui?
Coração dos Outros não teve animo de responder; adivinhava uma scena
violenta que elle teria querido evitar; mas Olga adiantou-se:
--Vai acompanhar-me ao Itamaraty, para salvar da norte meu padrinho. Já
sabe?
O marido pareceu acalmar-se. Acreditou que, com meios suasorios, poderia
evitar que a mulher désse passo tão perigoso para os seus interesses e
ambições. Falou docemente:
--Fazes mal.
--Porque? perguntou ella com calor.
--Vaes comprometter-me. Sabes que...
Ella, não lhe respondeu logo e mirou-o um instante com os seus grandes
olhos cheios de escarneo; mirou-o um, dous minutos; depois, riu-se um
pouco e disse:
--É isto! _Eu_, porque _eu_, porque _eu_, é só _eu_ para aqui, _eu_
para ali... Não pensas noutra coisa... A vida é feita para ti, todos
só devem viver para ti... Muito engraçado! De forma que eu (agora digo
_eu_ tambem) não tenho direito de me sacrificar, de provar a minha
amizade, de ter na minha vida um traço superior? É interessante! Não
sou nada, nada! Sou alguma coisa como um movel, um adorno, não tenho
relações, não tenho amizades, não tenho caracter? Ora!...
Ella falava, ora vagarosa e irónica, ora rapidamente e apaixonada: e o
marido tinha diante de suas palavras um grande espanto. Elle vivera
sempre tão longe della que não a julgara nunca capaz de taes assomos.
Então aquella menina? Então aquelle _bibelot_? Quem lhe teria ensinado
taes cousas? Quiz desarmal-a com uma ironia e disse risonho:
--Estás no theatro?
Ella lhe respondeu logo:
--Se é só no theatro que ha grandes cousas, estou.
E accrescentou com força:
--É o que te digo: vou e vou, porque devo, porque quero, porque é do
meu direito.
Apanhou a sombrinha, concertou o véo e sahiu solemne, firme, alta e
nobre. O marido não sabia o que fazer. Ficou assombrado e assombrado e
silencioso viu-a sahir pela porta fóra.
Em breve, estava no palacio da rua Larga. Ricardo não entrou; deixou
que a moça o fizesse e foi esperal-a no Campo de Sant'Anna.
Ella subiu. Havia um immenso borborinho, uma agitação de entradas e
sahidas. Toda a gente queria mostrar-se a Floriano, queria
cumprimental-o, queria dar mostras da sua dedicação, provar os seus
serviços, mostrando-se coparticipante na sua victoria. Lançavam mão
de todos os meios, de todos os planos, de todos os processos. O dictador
tão accessivel antes, agora se esquivava. Havia quem lhe quisesse
beijar as mãos, como ao papa ou a um imperador; e elle já tinha nojo
de tanta subserviencia. O califa não se suppunha sagrado e
aborrecia-se.
Olga falou aos continuos, pedindo ser recebida pelo Marechal. Foi
inutil. A muito custo conseguiu falar a um secretario ou ajudante de
ordens. Quando ella lhe disse a que vinha, a physionomia terrosa do
homem tornou-se de óca e sob as suas palpebras correu um firme e rapido
lampejo de espada:
--Quem, Quaresma? disse elle. Um traidor! Um bandido!
Depois, arrependeu-se da vehemencia, fez com certa delicadeza:
--Não é possivel, minha senhora. O Marechal não a attenderá.
Ella nem lhe esperou o fim da phrase. Ergueu-se orgulhosamente, deu-lhe
as costas e teve vergonha de ter de pedir, de ter descido do seu orgulho
e ter enxovalhado a grandeza moral do padrinho com o seu pedido. Com tal
gente, era melhor tel-o deixado morrer só e heroicamente num ilhéo
qualquer, mas levando para o tumulo inteiramente intacto o seu orgulho,
a sua doçura, a sua personalidade moral, sem a macula de um empenho que
diminuisse a injustiça de sua morte, que de algum modo fizesse crer aos
seus algozes que elles tinham direito de matal-o.
Sahiu e andou. Olhou o céo, os ares, as arvores de Santa Thereza, e se
lembrou que, por estas terras, já tinham errado tribus selvagens, das
quaes um dos chefes se orgulhava de ter no sangue o sangue de dez mil
inimigos. Fôra ha quatro seculos. Olhou de novo o céo, os ares, as
arvores de Santa Thereza, as casas, as igrejas: viu os bondes passarem;
uma locomotiva apitou; um carro, puxado por uma linda parelha,
atravessou-lhe na frente, quando já a entrar do Campo... Tinha havido
grandes e innumeras modificações. Que fôra aquelle parque? Talvez um
charco. Tinha havido grandes modificações nos aspectos, na physionomia
da terra, talvez no clima... Esperemos mais, pensou ella; e seguiu
serenamente ao encontro de Ricardo Coração dos Outros.
Todos os Santos (Rio de Janeiro), Janeiro--Março de 1911.