O BOQUEIRÃO

O sitio de Quaresma, em Curuzú, voltava aos poucos ao estado de

abandono em que elle o encontrara. A herva damninha crescia e cobria

tudo. As plantações que fizera, tinham desapparecido na invasão do

capim, do carrapicho, das ortigas e outros arbustos. Os arredores da

casa offereciam um aspecto desolador, apezar dos esforços de Anastacio,

sempre vigoroso e trabalhador na sua forte velhice africana, mas baldo

de iniciativa, de methodo, de continuidade no esforço.

Um dia capinava aqui, outro dia ali, outro pedaço; assim ia saltando de

trecho em trecho, sem fazer trabalho que se visse, permittindo que as

terras e os arredores da casa adquirissem um aspecto de desleixo que

não condizia como seu trabalho effectivo.

As formigas voltaram tambem, mais terriveis e depredadoras, vencendo

obstaculos, devastando tudo, restos de seara, brotos de fructeiras, até

os araçazeiros depenavam com uma energia e bravura que sorriam nos

fracos expedientes da intelligencia crestada do antigo escravo, incapaz

de achar meios efficazes de batel-as ou afugenta-las.

Entretanto elle cultivava. Era a sua mania, o seu vicio, uma teimosia de

caduco. Tinha uma horta que disputava diariamente ás saúvas; e, como

os animaes da visinhança a tivessem um dia invadido, elle a protegeu

pacientemente com uma cerca de materiaes mais inconcebiveis: latas de

kerozene desdobradas, caibros bons, folhas de coqueiros, taboas de

caixão, não obstante ter á mão bambus á vontade.

Na sua intelligencia havia uma necessidade do tortuoso; do

apparentemente facil; e, em tudo elle punha esse geito de sua psyche,

tanto no falar, com grandes rodeios, como nos canteiros que traçava,

irregulares, maiores aqui, menores ali, fugindo á regularidade, ao

parallelismo, á symetria, com um horror artistico.

A revolta tinha tido sobre a politica local effeito pacificador. Todos

os partidos se fizeram dedicadamente governistas, de forma que, entre os

dous poderosos contendores, o Dr. Campos e o Tenente Antonino, houve um

traço de união que os reconciliou e os fez entenderem-se. Ao osso que

ambos disputavam encarniçadamente, chegou um outro mais forte que poz

em perigo a segurança de ambos e elles se puzeram em expectativa, um

instante unidos.

O candidato foi imposto pelo Governo Central e as eleições chegaram.

É um momento bem curioso esse das eleições na roça. Não se sabe bem

donde sabem tantos typos exoticos. De tal forma são elles esquesitos

que se póde mesmo esperar que appareçam calções e bofes de renda,

espadins e gibão. Ha sobrecasacas de cintura, ha calças boca de sino,

ha chapéos de seda--todo um museu de indumentaria que aquelles roceiros

vestem e por um instante fazem viver por entre as ruas esburacadas e

estradas poeirentas das villas e logarejos. Não faltam tambem os

valentões, com calças bombachas e grandes bengalões de piquiá, á

espera do que der e vier.

Para a monotona vida que levava D. Adelaide, esse desfile de manequins

de museu, por sua porteira, em direcção á secção eleitoral que lhe

ficava nas proximidades, foi um divertimento. Ella passava longo e

tristes dias naquelle isolamento. Fazia-lhe companhia desde muito a

mulher de Felizardo, a sinhá Chica, uma velha cafusa, especie de Medéa

esqueletica, cuja fama de rezadeira pairava por sobre todo o municipio.

Não havia quem como ella soubesse rezar dores, cortar febres, curar

cobreiros e conhecesse os effeitos das hervas medicinaes: a lingua de

vacca, a silvina, o cipó chumbo--toda aquella drogaria que crescia

pelos campos, pelas capoeiras, e pelos troncos de arvores.

Além desse saber que a fazia estimada e respeitavel, tinha tambem a

habilidade de assistir partos. Na redondeza, entre a gente pobre e mesmo

remediada, todos os nascimentos se faziam aos cuidados de suas luzes.

Era de ver como pegava uma faca e agitava o pequeno instrumento

domestico em cruz, repetidas vezes, sobre a séde da dor ou da tarefa,

rezando em voz baixa, balbuciando preces que afugentavam o espirito

maligno que estava ali. Contavam-se della milagres, victorias

extraordinarias, denunciadoras do seu extranho poder quasi magico, sobre

as forças occultas, que nos perseguem ou nos auxiliam.

Um dos mais curiosos, e era contado em toda a parte e á toda a hora,

consistia no afastamento das lagartas. Os vermes haviam dado num

feijoal, aos milheiros, cobrindo as folhas e os colmos; o proprietario

já desesperava e tinha tudo por perdido quando se lembrou dos

maravilhosos poderes de Sinhá Chica. A velha lá foi. Pôz cruzes de

gravetos pelas bordas da roça, assim como se fizesse uma cerca de

invisivel material que nellas se apoiasse; deixou uma extremidade aberta

e collocou-se na opposta a rezar. Não tardou o milagre a verificar-se.

Os vermes, num rebanho moroso e serpejante, como se fossem tocados pela

vara de um pastor, foram sahindo na sua frente, de vagar, aos dous, aos

quatros, aos cinco, aos dez, aos vinte, e um só não ficou.

O doutor Campos não linha absolutamente nenhuma especie de ciume dessa

rival. Armou-se de um pequeno desdem pelo poder sobrehumano da mulher,

mas não appellou nunca para o arsenal de leis, que vedava o exercicio

de sua transcedente medicina. Seria a impopularidade; elle era

politico...

No interior, e não é preciso afastar-se muito do Rio de Janeiro, as

duas medicinas coexistem sem raiva e ambas attendem ás necessidades

mentaes e economicas da população.

A da Sinhá Chica, quasi gratis, ia ao encontro da população pobre,

daquella em cujos cerebros, por contagio ou herança, ainda vivem os

manitus e manipanços, sujeitos a fugirem aos exorcismos, benzeduras e

fumigações. A sua clientela, entretanto, não se resumia só na gente

pobre da terra, ali nascida ou criada; havia mesmo recem-chegados de

outros ares, italianos, portuguezes e hespanhoes, que se socorriam da

sua força sobrenatural, não tanto pelo preço ou contagio das crenças

ambientes, mas tambem por aquella estranha superstição européa de que

todo o negro ou gente colorida penetra e é sagaz para descobrir as

coisas malignas e exercer a feitiçaria.

Emquanto a therapeutica fluidica ou herbacea de Sinhá Chica attendia

aos miseraveis, aos pobretões, a do doutor Campos era requerida pelos

mais cultos e ricos, cuja evolução mental exigia a medicina regular e

official.

Ás vezes, um de um grupo passava para o outro; era nas molestias

graves, nas complicadas, nas incuraveis, quando as hervas e as rezas da

milagrosa nada podiam ou os xaropes e pillulas do doutor eram

impotentes.

Sinhá Chica não era lá uma companheira muito agradavel. Vivia sempre

mergulhada no seu sonho divino, abysmada nos mysteriosos poderes dos

feitiços, sentada sobre as pernas cruzadas, olhos baixos, fixos, de

fraco brilho, parecendo esmalte de olhos de mumia, tanto ella era

encarquilhada e secca.

Não esquecia tambem os santos, a santa madre igreja, os mandamentos,

as orações orthodoxas; embora não soubesse ler, era forte no

cathecismo e conhecia a historia sagrada aos pedaços, adduzindo a

elles interpretações suas e interpelações pittorescas.

Com o Appolinario, o famoso capellão das ladainhas, era ella o forte

poder espiritual da terra. O vigario ficava relegado a um papel de

funccionario, especie de official de registro civil, encarregado dos

baptisados e casamentos, pois toda a communicação com Deus e o

Invisivel se fazia por intermedio de Sinhá Chica ou do Appolinario. É

de dever falar em casamentos, mas bem podiam ser esquecidos, porque a

nossa gente pobre faz um reduzido de tal sacramento e a simples

mancebia, por toda a parte, substitue a solemne instituição catholica.

Felizardo, o marido della, apparecia pouco em casa de Quaresma; e, se

apparecia, era á noite passando os dias pelos mattos com medo do

recrutamento e logo que chegava indagava da mulher se o barulho já

tinha acabado.

Vivia num constante pavor; dormia vestido, galgando a janella e

embrenhando-se na capoeira, á menor bulha ou vida.

Tinham dous filhos, mas que tristeza de gente! Ajuntavam á depressão

moral dos paes uma pobreza de vigor physico e uma indolencia repugnante.

Eram dous rapazes; o mais velho, José, orçava pelos 20 annos; ambos

inertes, molles, sem força e sem crenças, nem mesmo a da feitiçaria,

das rezas e benzeduras, que fazia o encanto da mãe e merecia o respeito

do pae.

Não houve quem os fizesse aprender qualquer cousa e os sujeitasse a um

trabalho continuo. De quando em quando, assim de quinze em quinze dias,

faziam uma talha de lenha e vendiam ao primeiro taverneiro pela metade

do valor; voltavam para casa alegres, satisfeitos, com um lenço de

cores vivas, um vidro de agua da Colonia, um espelho, bugigangas que

denunciavam ainda nelles gostos bastante selvagens.

Passavam então uma semana em casa, a dormir ou á perambular pelas

estradas e vendas; á noite, quasi sempre nos dias de festas e domingos,

sahiam com a _harmonica_ a tocar peças, no que eram eximios, sendo a

presença delles muito requesitada nos bailes da visinhança.

Embora seus paes vivessem em casa de Quaresma, raramente lá appareciam;

e, se o faziam, era porque de todo não tinham que comer. Levavam o

descuido da vida, a imprevidencia, a ponto de não terem medo do

recrutamento. Eram, entretanto, capazes de dedicação, de lealdade e

bondade, mas o trabalho continuado, todo o dia, repugnava-lhes á

natureza, como uma pena ou um castigo.

Essa atonia da nossa população, essa especie de desanimo doentio, de

indifferença nirvanesca por tudo e todas as cousas, cercam de uma

caligem de tristeza, desesperada a a nossa roça e tira-lhe o encanto, a

poesia o o viço seductor de plena natureza.

Parece que nem um dos grandes paizes opprimidos, a Polonia, a Irlanda, a

India apresentará o aspecto cataleptico do nosso interior. Tudo ahi

dorme, cochila, parece morto; naquelles ha revolta, ha fuga para o

sonho; no nosso... Oh!... dorme-se...

A ausencia de Ouaresma trouxera para o seu sitio essa atmosphera geral

da roça. O «Socego» parecia dormir, dormir de encantamento, á espera

que o principe o viesse despertar.

Machinas agricolas, que não haviam ainda servido, enferrujavam com a

etiqueta da casa. Aquelles arados de ponta de aço, que tinham chegado

com a relha reluzente, de um brilho azulado e doce, estavam hediondos e

morriam de tedio no abandono em que jaziam, bracejando angustiosamente

para o céo mudo. De manhã, não se ouvia mais o cacarejar das aves no

gallinheiro, o esvoaçar dos pombos--todo esse hymno matinal de vida, de

trabalho, de fartura não mais se casava com as auroras rosadas e com o

chilreio alacre do passaredo; e ninguem sabia ver as paineiras em flor,

com as suas lindas flores rosadas e brancas que, a espaços, cahiam

docemente como aves feridas.

D. Adelaide não linha nem gosto nem actividade para superintender

aquelles serviços e fruir a poesia da roça. Soffria com a separação

do irmão e vivia como se estivesse na cidade. Comprava os generos na

venda e não se incommodava com as cousas do sitio.

Anceiava pela volta da irmão; escrevia-lhe cartas desesperadas, ás

quaes elle respondia aconselhando calma, fazendo promessas. A ultima

recebida, porém, tinha de sopetão outro accento; não era mais

confiante, enthusiastica, trahia desanimo, desalento, mesmo desespero.

«Querida Adelaide. Só agora posso responder-te a carta que recebi ha

quasi duas semanas. Justamente quando ella me chegou ás mãos, acabava

de ser ferido, ferimento ligeiro é verdade, mas que me levou á cama e

traz-me-á unia convalescença longa. Que combate, minha filha! Que

horror! Quando me lembro delle, passo as mãos pelos olhos como para

afastar uma visão má. Fiquei com um horror á guerra que ninguem póde

avaliar... Uma confusão, um infernal zunir de balas, clarões

sinistros, imprecações--e tudo isto no seio da treva profunda da

noite... Houve momentos que se abandonaram as armas de fogo: batiamo-nos

á bayoneta, a coronhadas, a machado, a facão. Filha: um combate de

troglodytas, um cousa prehistorica... Eu duvido, eu duvido, duvido da

justiça disso tudo, duvido da sua razão de ser, duvido que seja certo

e necessario ir tirar do fundo de nós todos a ferocidade adormecida,

aquella ferocidade que se fez e se depositou em nós nos millenarios

combates com as féras, quando disputavamos a terra e ellas... Eu não

vi homens de hoje; vi homens de Cro-Magnon do Néanderthal armados com

machados de silex, sem piedade, sem amor, sem sonhos generosos, a matar,

sempre a matar... Este teu irmão que estás vendo, tambem fez das suas,

tambem foi descobrir dentro do si muita brutalidade, muita ferocidade,

muita crueldade... Eu matei, minha irmã; eu matei! E não contente de

matar, ainda descarreguei um tiro quando o inimigo arquejava a meus

pés... Perdoa-me! Eu te peço perdão, porque preciso de perdão e não

sei a quem pedir, a que Deus, a que homem, a alguem emfim... Não

imaginas como isto faz-me soffrer... Quando cahi em baixo de uma

carreta, o que me doia não era a ferida, era a alma, era a consciencia;

e Ricardo, que foi ferido e cahiu ao meu lado, a gemer e

pedir--_capitão, meu gorro; meu gorro_!--parecia que era o meu proprio

pensamento que ironizava o meu destino...

Esta vida é absurda e illogica; eu já tenho medo de viver, Adelaide.

Tenho medo, porque não sabemos para onde vamos, o que faremos amanhã,

de que maneira havemos de nos contradizer de sol para sol...

O melhor é não agir, Adelaide; e desde que o meu dever me livre destes

encargos, irei viver na quietude, na quietude mais absoluta possivel,

para que do fundo de mim mesmo ou do mysterio das cousas não provoque a

minha acção o apparecimento de energias extranhas á minha vontade,

que mais me façam soffrer e tirem o doce sabor de viver...

Além do que, penso que todo este meu sacrificio tem sido inutil. Tudo o

que nelle puz de pensamento não foi attingido; e o sangue que derramei,

e o soffrimento que vou soffrer toda a vida, foram empregados, foram

gastos, foram estragados, foram vilipendiados e desmoralisados em pról

de uma tolice politica qualquer...

Ninguem comprehende o que quero, ninguem deseja penetrar e sentir; passo

por doido, tolo, maniaco e a vida se vai fazendo inexoravelmente com a

sua brutalidade e fealdade».

* * * * *

Como Quaresma dizia na carta, o seu ferimento não era grave, era

porém, delicado e exigia tempo para uma cura completa e sem perigos.

Ricardo, este, fora ferido mais gravemente. E se o soffrimento de

Quaresma era profundamente moral, o de Coração dos Outros era physico

e não se cançava de gemer e imprecar contra a sorte que o arrastara

até á posição de combatente.

Os hospitaes em que tratavam estavam separados pela bahia, agora

intransponivel, exigindo a viagem de uma margem á outra bem doze horas

por estrada de ferro.

Tanto na ida como na volta, ferido como estava, Quaresma passara pela

estação em que morava. O trem, porém, não parava, e elle se limitou

a deitar pela portinhola um longo e saudoso olhar para aquelle seu

«Socego», de terras pobres e arvores velhas, onde sonhara repousar

calmamente por toda a vida; e, entretanto, o lançara na mais terrivel

das aventuras.

E elle perguntava de si para si, onde, na terra, estava o verdadeiro

socego, onde se poderia encontrar esse repouso de alma e corpo, pelo

qual tanto anceiava, depois dos sacolejamentos por que vinha

passando--onde? E o mappa dos continentes, as cartas dos paizes, as

plantas das cidades, passavam-lhe pelos olhos e não viu, não encontrou

um paiz, uma provincia, uma cidade, uma rua onde o houvesse.

A sua sensação era de fadiga, não physica, mas moral r intellectual.

Tinha vontade de não mais pensar, de não mais amar: queria, comtudo,

viver, por prazer physico, pela sensação material pura e simples de

viver.

Assim, convalesceu longamente, demoradamente, melancolicamente, sem uma

visita, sem ver uma face amiga.

Coleoni e familia se haviam retirado para fóra; o General, por

preguiça e desleixo, não viera vel-o. Vivia só, envolvido na

suavidade da convalescença, a pensar no Destino, na sua vida, nas suas

idéas e mais que tudo nas suas desillusões.

Entretanto, a revolta na bahia chegava ao fim; toda a gente já

presentia isso e queria esse allivio.

O Almirante e Albernaz, ambos pelos mesmos motivos, observavam esse fim

com tristeza. O primeiro via fugir o seu sonho de commandar uma esquadra

e a consequente volta para o quadro; e o General sentia perder a sua

commissão, cujos rendimentos faziam de forma tão notavel melhorar a

situação da familia.

Naquella manhã, bem cedo, D. Maricota accordara o marido:

--Chico, levanta-te! Olha que tens que ir á missa do Senador

Clarimundo...

Ouvindo a recommendação da mulher, Albernaz ergueu-se logo do leito.

Era preciso não faltar. A sua presença se impunha e significava muito.

Clarimundo fôra um republicano historico, agitador, tribuno temido, no

tempo do Imperio; após a Republica, porém, não apresentara aos seus

pares do Senado nada de util e bemfasejo. Embora assim, a sua influencia

ficara sendo grande; e, com diversos outros, era chamado patriarcha da

Republica. Ha nos proceres republicanos uma necessidade extraordinaria

de serem gloriosos e não esquecidos pelo futuro, a que elles se

recommendam com teimoso interesse.

Clarimundo era um desses proceres e, durante a commoção, não se sabia

bem porque, o seu prestigio cresceu e já se falava nelle para

substituir o Marechal. Albernaz conhecera-o vagamente, mas assistir a

sua missa era quasi uma affirmação politica.

A dor da morte da filha já se esvaira muito na sua memoria. O que o

fazia soffrer era aquella semi-vida da moça, mergulhada na loucura e na

molestia. A morte tem a virtude de ser brusca, de chocar, mas não

corroer, como essas molestias duradouras nas pessoas amadas: passado que

é o choque, vai ficando em nós uma suave recordação do ente

querido, uma boa physionomia sempre presente aos nossos olhos.

Dava-se isso com Albernaz e a sua satisfação de viver e a sua

jovialidade natural foram voltando insensivelmente.

Obediente á mulher, preparou-se, vestiu-se e sahiu. Comquanto se

estivesse ainda em plena revolta, esses officios funebres se faziam nas

igrejas do centro da cidade. O General chegou a tempo e á hora. Havia

uniformes e cartolas e todos se comprimiam para assignar as listas de

presença. Não tanto que quisessem attestar á familia do morto esse

acto delicado; dominava-os, além disso, a esperança de ter os nomes

nos jornaes.

Albernaz não deixou de atirar-se tambem a uma das listas que andavam

pelas mesas da sacristia; e, quando ia assignar, alguem lhe falou. Era o

Almirante. A missa ia começar, mas ambos evitaram entrar na nave cheia,

e ficaram a um vão da janella, na sacristia, conversando.

--Então acaba breve, hein?

--Dizem que a esquadra já sahiu de Pernambuco.

Fôra Caldas quem falara primeiro e a resposta do General fel-o sorrir

ironico dizendo:

--Emfim...

--A bahia está cercada de canhões, continuou o General, após uma

pausa, e o Marechal vai intimal-os a renderem-se.

--Já era tempo, fez Caldas... Commigo, a cousa ja estava acabada...

Levar quasi sete mezes para dar cabo de uns calhambeques!...

--Você exagera, Caldas; a cousa não era tão facil assim... E o mar?

--Que fez a esquadra tanto tempo no Recife, você não me dirá? Ah! si

fosse com este seu criado, tinha logo partido e atacado... Sou pelas

decisões promptas...

O padre, no interior da igreja, continuava a pedir Deus repouso para a

alma do Senador Clarimundo. O mystico cheiro de incenso vinha até elles

e o votivo perfume, votivo ao Deus da paz e da bondade, não os demovia

dos seus pensamentos guerreiros.

--Entre nós, adduziu Caldas, não ha mais gente que preste... Isto é

um paiz perdido, acaba colonia ingleza...

Coçou nervoso um dos favoritos e esteve um instante a olhar o ladrilho

do chão. Albernaz avançou, meio sarcastico:

--Agora não; agora a autoridade está prestigiada, consolidada, e uma

era de progresso vai abrir-se para o Brasil.

--Qual o que! Onde é que você viu um Governo...

--Mais baixo, Caldas!

--...onde é que se viu um Governo que não aproveita as aptidões,

abandona-as, deixa-as por ahi vegetar?... Dá-se o mesmo com as nossas

riquezas naturaes: jazem por ahi á toa!

A sineta soou e olharam um pouco a nave cheia. Pela porta, via-se uma

porção de homens, todos de negro, ajoelhados, contrictos, batendo nos

peitos, a confessar de si para si: _mea culpa, mea maxima culpa_...

Uma restea de sol coava-se por uma das aberturas do alto e resplandecia

sobre algumas cabeças.

Insensivelmente, os dous, na sacristia, levaram a mão ao peito e

confessaram tambem: _mea culpa, mea maxima culpa_...

A missa veiu a acabar e ambos entraram para o abraço da pragmatica. A

nave rescendia a incenso e tinha um aspecto tranquillo de immortalidade.

Todos tinham um grande ar de compuncção: amigos, parentes, conhecidos

e desconhecidos pareciam soffrer igualmente. Albernaz e Caldas, logo que

penetraram no corpo da igreja, apanharam no ar um sentimento profundo e

afivelaram-no ao rosto.

Genelicio tambem viera; elle tinha o vicio das missas das pessoas

importantes, dos cartões de pezames, dos cumprimentos em dias de

anniversario. Temendo que a memoria não lhe ajudasse, possuia um

caderninho onde as datas aniversarias estavam assentadas e as

residencias tambem. O indice era organizado com muito cuidado. Não

havia sogra, prima, tia, cunhada, de homem importante, que, em dia de

anniversario, não recebesse os seus parabens, e, por morte, não o

levasse á igreja em missa de setimo dia.

O seu traje de luto era de panno grosso, pesado e, olhando-o,

lembrava-nos logo de um castigo dantesco.

Na rua, Genelicio escovava a cartola com a manga da sobrecasaca e dizia

ao sogro e ao Almirante:

--A cousa está p'ra acabar...! Breve...

--E se resistirem? perguntou o General.

--Qual! Não resistem. Corre que já propuzeram rendição... É preciso

arranjar uma manifestação ao Marechal...

--Não acredito, fez o Almirante. Conheço muito o Saldanha, é

orgulhoso e não se entrega assim...

Genelicio ficou um pouco assustado com a intonação da voz do seu

parente; teve medo que elle falasse mais alto, désse na vista e o

compromettesse. Calou-se; Albernaz, porem, avançou:

--Não ha orgulho que resista a uma esquadra mais forte.

--Forte! Uns calhambeques, homem!

Caldas continha a custo a furia que lhe ia n'alma. O céo estava azul e

calmo. Havia nelle nuvens brancas, leves, esgarçadas, que se moviam

lentamente, como velas, naquelle mar infinito. Genelicio olhou-o um

pouco e aconselhou:

--Almirante não fale assim... Olhe que...

--Qual! Não tenho medo... Porcarias!...

--Bom, fez Genelicio, eu tenho que ir á rua Primeiro de Março e...

Despediu-se e sahiu com o seu traje de chumbo, curvado, olhando o chão

com o seu pince-nez azulado, palmilhando a rua com passo meudo e

cauteloso.

Albernaz e Caldas ainda estiveram conversando um tempo e se despediram

sempre amigos, cada um com o seu desgosto e a sua decepção.

Tinham razão: a revolta veiu a acabar d'ahi a dias. A esquadra legal

entrou: os officiaes revoltosos se refugiaram nos navios de guerra

portuguezes e o Marechal Floriano ficou senhor da bahia.

No dia da entrada, acreditando que houvesse canhoneio, uma grande parte

da população abandonou a cidade, refugiando-se nos suburbios, por

baixo das arvores, na casa de amigos ou nos galpões construidos adrede

pelo Estado.

Era de ver o terror que se estampava naquellas physionomias, a ancia e a

angustia tambem. Levavam trouxas, samburás, pequenas malas; crianças

de peito, a chorar, o papagaio querido, o cachorro de estimação, o

passarinho que de ha muito quebrava a tristeza de uma casa pobre.

O que mais mettia medo era o famoso canhão de dynamite, do

«Nictheroy», uma espalhafatosa invenção americana, instrumento

terrivel, capaz de causar terremotos e de abalar os fundamentos das

montanhas graniticas do Rio.

As crianças e as mulheres, mesmo fóra do alcance de seu poder, temiam

ouvir o seu estrondo: entretanto, esse fantasma _yankee_, esse

pesadello, essa quasi força da natureza, foi morrer abandonado num

caes, desprezado e inoffensivo.

O fim do levante foi um allivio; a cousa já estava, ficando monotona e

o Marechal ganhou feições sobrehumanas com a victoria.

Quaresma teve alta por esse tempo; e uma ala de seu batalhão foi

destacada para guarnecer a ilha das Enxadas. Innocencio Bustamante

continuava a superintender o corpo com muito zelo, do interior do seu

gabinete, na estalagem condemnada que lhe servia de quartel. A

escripturação estava em dia e era feita com a melhor letra.

Polycarpo acceitou com repugnancia o papel de carcereiro, pois na ilha

das Enxadas estavam depositados os marinheiros prisioneiros. Os seus

tormentos d'alma mais cresceram com o exercicio de tal funcção. Quasi

os não olhava: tinha vexame, piedade e parecia-lhe que dentre elles um

conhecia o segredo de sua consciencia.

De resto, todo o systema de idéas que o fizera meter-se na guerra civil

se tinha desmoronado. Não encontrara o Sully e muito menos o Henrique

IV. Sentia tambem que o seu pensamento motriz não residia em nenhuma

das pessoas que encontrara. Todos tinham vindo ou com pueris pensamentos

politicos, ou por interesse; nada de superior os animava. Mesmo entre os

moços, que eram muitos, se não havia baixo interesse, existia uma

adoração fetichica pela forma republicana, um exagero das virtudes

della, um pendor para o despotismo que os seus estudos e meditações

não podiam achar justos. Era grande a sua desillusão.

Os prisioneiros se amontoavam nas antigas salas de aulas e alojamentos

dos aspirantes. Havia simples marinheiros; havia inferiores; havia,

escreventes e operarios de bordo. Brancos, pretos, mulatos, caboclos,

gente de todas as cores e todos os sentimentos, gente que se tinha

incitado em tal aventura pelo habito de obedecer, gente inteiramente

extranha á questão em debate, gente arrancada á força aos lares ou

á calaçaria das ruas, pequeninos, tenros, ou que se haviam alistado

por miseria; gente ignara, simples, ás vezes cruel e perversa como

crianças inconscientes; ás vezes, boa e docil como um cordeiro, mas,

enfim, gente sem responsabilidade, sem anceio politico, sem vontade

propria, simples automatos nas mãos dos chefes e superiores que a

tinham abandonado á mercê do vencedor.

De tarde, elle ficava a passear, olhando o mar. A viração soprava

ainda e as gaivotas continuavam a pescar. Os barcos passavam. Ora, eram

lanchas fumarentas que lá iam para fundo da bahia; ora pequenos botes

ou canôas, roçando carinhosamente a superficie das aguas, pendendo

para lá e para cá, como se as suas alvas velas enfunadas quizessem

afagar a espelhenta superficie do abysmo. Os Orgãos vinham suavemente

morrendo na violeta macia; e o resto era azul, um azul immaterial que

inebriava, embriagava, como um licor capitoso.

Ficava assim um tempo longo, a ver, e quando se voltava, olhava a cidade

que entrava na sombra, aos beijos sangrentos do occaso.

A noite chegava e Quaresma continuava a passear na borda do mar,

meditando, pensando, soffrendo com aquelles lembranças de odios, de

sangueiras e ferocidade.

A sociedade e a vida pareceram-lhe cousas horrorosas, e imaginou que do

exemplo dellas vinham os crimes que aquella punia, castigava e procurava

restringir. Eram negras e desesperadas, as suas idéas; muita vez julgou

que delirava.

E então se lamentava por estar sósinho, par não ter um companheiro

com quem conversar, que lhe fizesse fugir aquelles tristes pensamentos

que o assediavam e se chiavam transformando em obsessão.

Ricardo estava de guarnição na ilha das Cobras: e, mesmo que ali

estivesse, os rigores da disciplina não lhe permittiriam uma conversa

mais amigavel. Vinha a noite inteiramente, e o silencio e a treva

envolviam tudo.

Quaresma ainda ficava horas ao ar livre a pensar, olhando o fundo da

bahia, onde quasi não havia luzes que interrompessem a continuidade do

negror nocturno.

Fixava bem os olhos para lá, como se os quizesse habituar a peneirar

nas cousas indecifraveis e adivinhar dentro da sombra negra a forma das

montanhas, o recorte das ilhas que a noite tinha feito desapparecer.

Fatigado, ia dormir. Nem sempre dormia bem; tinha insomnias e, se queria

ler, a attenção recusava fixar-se e o pensamento vagabundava muito

longe do livro.

Certa noite em que ia dormindo melhor, um inferior veiu accordal-o pela

madrugada:

--Sr. Major, está ahi o _home_ do Itamaraty.

--Que homem?

--O official que vem buscar a turma do Boqueirão.

Sem attinar bem do que se tratava, levantou-se e foi ao encontro do

visitante. O homem já estava no interior de um dos alojamentos. Uma

escolta estava á porta. Seguiam-no algumas praças, das quaes uma

levava uma lanterna que derramava no salão uma fraca luzerna

amarellada. A vasta sala estava cheia de corpos, deitados, semi-nus, e

havia todo o iris das cores humanas. Uns roncavam, outros dormiam

sómente; e quando Quaresma entrou, houve alguém que em sonho,

gemeu--ai! Cumprimentaram-se Quaresma e o emissario do Itamaraty, e nada

disseram. Ambos tiveram medo de falar. O official despertou um dos

prisioneiros e disse para as praças: Levem este.

Seguiu adiante e despertou outro:--onde você esteve? Eu--respondeu o

marinheiro--na «Guanabara»... Ah! patife, acudiu o homem do

Itamaraty... Este tambem... Levem!...

Os soldados conductores iam até á porta, deixaram o prisioneiro e

voltavam.

O official passou por uma porção delles e não fez reparo: adiante,

deu com um rapaz claro, franzino, que não dormia. Gritou então:

levante-se! O rapaz ergueu-se tremendo.--Onde esteve você?

perguntou.--Eu era enfermeiro, retrucou o rapaz.--Que enfermeiro! fez o

emissario. Levem este tambem...

--Mas, seu Tenente, deixe-me escrever á minha mãe, pediu o rapaz quasi

chorando.

--Que mãe respondeu o homem do Itamaraty. Siga! Vá!

E assim foi uma duzia, escolhida a esmo, ao acaso, cercada pela escolta,

a embarcar num batelão que uma lancha logo rebocou para fóra das

aguas da ilha.

Quaresma não atinou de prompto com o sentido da scena e foi, após o

afastamento da lancha, que elle encontrou uma explicação.

Não deixou de pensar então por que força mysteriosa, por que

injuncção ironica elle se tinha misturado em tão tenebrosos

acontecimentos, assistindo ao sinistro alicerçar do regimen...

A embarcação não ia longe. O mar gemia demoradamente de encontro as

pedras do caes. A esteira da embarcação estrellejava phosphorescente.

No alto, num céo negro e profundo, as estrellas brilhavam serenamente.

A lancha desappareceu nas trevas do fundo da bahia. Para onde ia? Para o

Boqueirão...

V

Triste Fim de Polycarpo Quaresma · 第 37 / 38 题