O BIBELOT

Não era a primeira vez que ella vinha ali. Mais de uma dezena já

subira aquella larga escada de pedra, com grupos de marmores de Lisboa

de um lado e do outro, a Caridade e N. S. da Piedade; penetrara por

aquelle portico de columnas doricas, atravessara o atrio ladrilhado,

deixando á esquerda e á direita, Pinel e Esquirol, meditando sobre o

angustioso mysterio da loucura; subira outra escada encerada

cuidadosamente e fôra ter com o padrinho lá em cima, triste e

absorvido no seu sonho e na sua mania. Seu pai a trazia ás vezes, aos

domingos, quando vinha cumprir o piedoso dever de amizade, visitando

Quaresma. Ha quanto tempo estava elle ali? Ella não se lembrava ao

certo; uns tres ou quatro mezes, se tanto.

Só o nome da casa mettia medo. O Hospicio! É assim como uma sepultura

em vida, um semi-enterramento, enterramento do espirito, da razão

conductora, de cuja ausencia os corpos raramente se resentem, A saude

não depende della e ha muitos que parecem até adquirir mais força de

vida, prolongar a existencia, quando ella se evola não se sabe por que

orificio do corpo e para onde.

Com que terror, uma especie de pavor de cousa sobrenatural, espanto de

inimigo invisivel e omnipresente, não ouvia a gente pobre referir-se ao

estabelecimento da praia das Saudades! Antes uma boa morte, diziam.

No primeiro aspecto, não se comprehendia bem esse pasmo, esse espanto,

esse terror do povo por aquella casa immensa, severa e grave, meio

hospital, meio prisão, com seu alto gradil, suas janellas gradeadas, a

se extender por uns centos de metros, em face do mar immenso e verde,

lá na entrada da bahia, na praia das Saudades. Entrava-se, viam-se uns

homens calmos, pensativos, meditabundos, como monges em recolhimento e

prece.

De resto, com aquella entrada silenciosa! clara e respeitavel, perdia-se

logo a idéa popular da loucura; o escarcéo, os trejeitos, as furias, o

entrechoque de tolices ditas aqui e ali.

Não havia nada disso; era uma calma, um silencio, uma ordem

perfeitamente naturaes. No fim, porém, quando se examinavam bem, na

sala das visitas, aquellas faces transtornadas, aquelles ares

aparvalhados, alguns idiotas e sem expressão, outros como alheiados e

mergulhados em um sonho intimo sem fim, e via-se tambem a excitação de

uns, mais viva em face á atonia de outros, é que se sentia o horror da

loucura, o angustioso mysterio que encerra, feito não sei de que

inexplicavel fuga do espirito daquillo que se suppõe o real, para se

apossar e viver das apparencias das cousas ou de outras apparencias das

mesmas.

Quem uma vez esteve diante deste enigma indecifravel da nossa propria

natureza, fica amedrontado, sentindo que o germen daquillo está

depositado em nós e que por qualquer cousa elle nos invade, nos toma,

nos esmaga e nos sepulta numa desesperadora comprehensão inversa e

absurda, de nós mesmos, dos outros e do mundo. Cada louco traz em si o

seu mundo e para ele não ha mais semelhantes: o que foi antes da

loucura é outro muito outro do que elle vem a ser após.

E essa mudança não começa, não se sente quando começa e quasi nunca

acaba. Com o seu padrinho, como fôra? A principio, aquelle

requerimento... Mas que era aquillo? Um capricho, uma fantasia, cousa

sem importancia, uma idéa de velho sem consequencia. Depois, aquelle

officio? Não tinha importancia, uma simples distracção, cousa que

acontece a cada passo... E emfim? A loucura declarada, a tôrva e

ironica loucura que nos tira a nossa alma e põe uma outra, que nos

rebaixa... Emfim, a loucura declarada, a exaltação do eu, a mania de

não sahir, de se dizer perseguido, de imaginar como inimigos, os

amigos, os melhores. Como fôra doloroso aquillo? A primeira phase do

seu delirio, aquella agitação desordenada, aquelle falar sem nexo, sem

accordo com que se realizava fóra delle e com os actos passados, um

falar que não se sabia donde vinha, donde sahia, de que ponto do seu

ser tomava nascimento! E o pavor do doce Quaresma? Um pavor de quem viu

um cataclysma, que o fazia tremer todo, desde os pés á cabeça, e

enchia-o de indifferença para tudo mais que não fosse o seu proprio

delirio.

A casa, os livros e os seus interesses de dinheiro andavam á matroca.

Para elle, nada disso valia, nada disso tinha existencia e importancia.

Eram sombras, apparencias; o real eram os inimigos, os inimigos

terriveis cujos nomes o seu delirio não chegava a criar. A velha

irmã, atarantada, atordoada, sem direcção, sem saber que alvitre

tomar. Educada em casa sempre com um homem ao lado, o pai, depois o

irmão, ella não sabia lidar com o mundo, com negocios, com as

autoridades e pessoas influentes. Ao mesmo tempo, na sua inexperiencia e

ternura de irmã, oscillava entre a crença de que aquillo fosse verdade

e a suspeita do que fosse loucura pura e simples.

Se não fosse seu pai (e Olga amava mais por isso o seu rude pai) que se

interessava, chamando a si interesses da familia e evitando a demissão

de que estava ameaçado, transformando-a em aposentadoria, que seria

delle? Como é facil na vida tudo ruir! Aquelle homem pautado, regrado,

honesto, com emprego seguro, tinha uma apparencia inabalavel;

entretanto bastou um grãosinho de sandice...

Estava ha uns mezes no Hospicio, o seu padrinho, e a irmã não o podia

visitar. Era tal o seu abalo de nervos, era tal a emoção ao vel-o ali

naquella meia-prisão, decaindo delle mesmo que um ataque se seguia e

não podia ser evitado.

Vinham ella e o pai, ás vezes o pai só, algumas vezes Ricardo, e eram

só os tres a visital-o.

Aquelle domingo estava particularmente lindo, principalmente em

Botafogo, nas proximidades do mar e das montanhas altas que se

recortavam num céo de seda. O ar era macio e docemente o sol faiscava

nas calçadas.

O pai vinha lendo os jornaes e ella, pensando, de quando em quando

folheando as revistas illustradas que trazia para alegrar e distrahir o

padrinho.

Elle estava como pensionista; mas, embora assim, no começo, ella teve

um certo pudor em se misturar com os visitantes.

Parecia-lhe que a sua fortuna a punha acima de presenciar miserias;

recalcou porém, dentro de si esse pensamento egoista, o seu orgulho de

classe, e agora entrava naturalmente, pondo em mais destaque a sua

elegancia natural. Amava esses sacrificios, essas abnegações, tinha o

sentimento da grandeza delles, e ficou contente comsigo mesma.

No bonde vinham outros visitantes e todos não tardaram em saltar no

portão do manicomio. Como em todas as portas dos nossos infernos

sociaes, havia de toda a gente, de varias condições, nascimentos e

fortunas. Não é só a morte que nivela; a loucura, o crime e a

molestia passam tambem a sua razoura pelas distincções que inventamos.

Os bem vestidos e os mal vestidos, os elegantes e os pobres, os feios e

os bonitos, os intelligentes e os nescios, entravam com respeito, com

concentração, com uma ponta de pavor nos olhos como se penetrassem

noutro mundo.

Chegavam aos parentes e os embrulhos se desfaziam; eram guloseimas,

fumo, meias, chinellas, ás vezes livros e jornaes. Dos doentes uns

conversavam com os parentes; outros mantinham-se calados, num mutismo

feroz e inexplicavel; outros indifferentes; e era tal a variedade de

aspectos dessas recepções que se chegava a esquecer o imperio da

doença sobre todos aquelles infelizes, tanto ella variava neste ou

naquelle, para se pensar em caprichos pessoaes, em dictames das vontades

livres de cada um.

E ella pensava como esta nossa vida é variada e diversa, como ella é

mais rica de aspectos tristes que de alegres, e como na variedade da

vida a tristeza póde mais variar que a alegria c como que dá o proprio

movimento da vida.

Verificando isso, quasi teve satisfação, pois a sua natureza

intelligente e curiosa se comprazia nas mais simples descobertas que seu

espirito fazia.

Quaresma estava melhor. A exaltação passara e o delirio parecia querer

desapparecer completamente. Chocando-se com aquelle meio, houve logo

nelle uma reacção salutar e necessaria. Estava doido, pois se o punham

ali...

Quando veio a ter com o compadre e a afilhada até trazia um sorriso de

satisfação por baixo do bigode já grisalho. Tinha emmagrecido um

pouco, os cabellos pretos estavam um pouco brancos, mas o aspecto geral

era o mesmo. Não perdera totalmente a mansuetude e a ternura no falar,

mas quando a mania lhe tomava ficava um tanto secco e desconfiado. Ao

vel-os disse amavelmente:

--Então vieram sempre... Estava a espera...

Cumprimentaram-se e elle deu mesmo um largo abraço na afilhada.

--Como está Adelaide?

--Bem. Mandou lembranças e não veiu porque... adiantou Coleoni.

--Coitada! disse elle, e pendeu a cabeça como se quizesse afastar uma

recordação triste; em seguida, perguntou:

--E o Ricardo?

A afilhada apressou-se em responder ao padrinho, com alvoroço e

alegria. Via-o já escapo á semi-sepultura da insania.

--Está bom, padrinho. Procurou papai ha dias e disse que a sua

aposentadoria já está quasi acabada.

Coleoni tinha-se sentado. Quaresma tambem e a moça estava de pé, para

melhor olhar o padrinho com os seus olhos muito luminosos e firmes no

encarar. Guardas, internos e medicos passavam pelas portas com a

indifferença profissional. Os visitantes, não se olhavam, pareciam que

não queriam conhecer-se na rua. Lá fóra, era o dia lindo, os ares

macios, o mar infinito e melancolico, as montanhas a se recortar num

céo de seda--a belleza da natureza imponente e indecifravel. Coleoni,

embora mais assiduo nas visitas, notava as melhoras do compadre com

satisfação que errava na sua physionomia, num ligeiro sorriso. Num

dado momento aventurou:

--O Major já está muito melhor; quer sahir?

Quaresma não respondeu logo; pensou um pouco e respondeu firme e

vagarosamente:

--É melhor esperar um pouco. Vou melhor... Sinto incommodar-te tanto,

mas vocês que têm sido tão bons, hão de levar tudo isso para conta

da propria bondade. Quem tem inimigos deve ter tambem bons amigos...

O pai e a filha entreolharam-se; o Major levantou a cabeça e parecia

que as lagrimas queriam rebentar. A moça interveio de prompto:

--Sabe, padrinho, vou casar-me.

--É verdade, confirmou o pai. A Olga vai casar-se e nós vínhamos

prevenil-o.

--Quem é teu noivo? perguntou Quaresma.

--É um rapaz...

--De certo, interrompeu o padrinho sorrindo.

E os dous acompanharam-n'o com familiaridade e contentamento. Era um bom

signal.

--É o Sr. Armando Borges, doutorando. Está satisfeito, padrinho? fez

Olga gentilmente.

--Então é para depois do fim do anno.

--Esperamos que seja por ahi, disse o italiano.

--Gostas muito delle? indagou o padrinho.

Ella não sabia responder aquella pergunta. Queria sentir que gostava,

mas estava que não. E porque casava? Não sabia... Um impulso do seu

meio, uma cousa que não vinha della--não sabia... Gostava de outro?

Tambem não. Todos os rapazes que ella conhecia, não possuiam relevo

que a ferisse, não tinham o _que_, ainda indeterminado na sua emoção

e na sua intelligencia, que a fascinasse ou subjugasse. Ella não sabia

bem o que era, não chegava a extremar na percepção das suas

inclinações a qualidade que ella queria ver dominante no homem. Era o

heroico, era o fóra do commum, era a força de projecção para as

grandes cousas; mas nessa confusão mental dos nossos primeiros annos,

quando as idéas e os desejos se entrelaçam e se embaralham, Olga não

podia colher e registrar esse anhelo, esse modo de se representar e de

amar o individuo masculino.

E tinha razão em se casar sem obedecer á sua concepção. É tão

difficil ver nitidamente num homem, de 20 a 30 annos, o que ella sonhara

que era bem possivel tomasse a nuvem por Juno... Casava por habito de

sociedade, um pouco por curiosidade e para alargar o campo de sua vida e

aguçar a sensibilidade. Lembrou-se disso tudo rapidamente e respondeu

sem convicção ao padrinho:

--Gosto.

A visita não se demorou muito mais. Era conveniente que fosse rapida,

não convinha fatigar a attenção do convalescente. Os dous sahiram sem

esconder que iam esperançados e satisfeitos.

Na porta ja havia alguns visitantes á espera do bonde. Como não

estivesse o vehiculo no ponto, foram indo ao longo da fachada do

manicomio até lá. Em meio do caminho, encontraram, encostada ao

gradil, uma velha preta a chorar. Coleoni, sempre bom, chegou-se a ella:

--Que tem, minha velha?

A pobre mulher deitou sobre elle um demorado olhar, humido e doce, cheio

de uma irremediavel tristeza, e respondeu:

--Ah! meu sinhô!... É triste... Um filho, tão bom, coitado!

E continuou a chorar. Coleoni começou a commover-se; a filha olhou-a

com interesse e perguntou no fim de um instante:

--Morreu?

--Antes fosse sinhasinha.

E por entre lagrimas e soluços contou que o filho não a conhecia mais,

não lhe respondia ás perguntas; era como um extranho. Enxugou as

lagrimas e concluiu:

--_Foi cousa feita._

Os dous afastaram-se tristes, levando n'alma um pouco daquella humilde

dôr.

O dia estava fresco e a viração, que começava a soprar, enrugava a

face do mar em pequenas ondas brancas. O Pão de Assucar erguia-se

negro, hirto, solemne, das ondas espumejantes, e como que punha uma

sombra no dia muito claro.

No Instituto dos Cégos, tocavam violino: e a voz plangente e demorada

do instrumento parecia sahir daquellas cousas todas, da sua tristeza e

da sua solemnidade.

O bonde tardou um pouco. Chegou. Tomaram. Desceram no largo da Carioca.

É bom ver-se a cidade nos dias de descanço, com as suas lojas

fechadas, as suas estreitas ruas desertas, onde os passos resoam como em

claustros silenciosos. A cidade é como um esqueleto, faltam-lhes as

carnes, que são a agitação, o movimento de carros, de carroças e

gente. Na porta de uma loja ou outra, os filhos do negociante brincam em

velocipedes, atiram bolas e ainda mais se sente a differença da cidade

do dia anterior.

Não havia ainda o habito de procurar os arrabaldes pittorescos e só

encontravam, por vezes, casaes que iam apressadamente a visitas, como

elles agora. O largo de S. Francisco estava silencioso e a estatua, no

centro daquelle pequeno jardim que desappareceu, parecia um simples

enfeite. Os bondes chegavam preguiçosamente ao largo com poucos

passageiros. Coleoni e sua filha tomaram um que os levasse á casa de

Quaresma. Lá foram. A tarde se approximava e as _toilettes_

domingueiras já appareciam nas janellas. Pretos com roupas claras e

grandes charutos ou cigarros; grupos de caixeiros com flores

estardalhantes; meninas em cassas bem engomadas; cartolas

anti-deluvianas ao lado de vestidos pesados de setim negro, envergados

em corpos fartos de matronas sedentarias; e o domingo apparecia assim

decorado com a simplicidade dos humildes, com a riqueza dos pobres e a

ostentação dos tolos.

D. Adelaide não estava só. Ricardo viera visital-a e conversavam.

Quando o compadre de seu irmão bateu no portão, elle contava á velha

senhora o seu ultimo triumpho:

--Não sei como ha de ser, D. Adelaide. Eu não guardo as minhas

musicas, não escrevo--é um inferno!

O caso era de pôr um autor em maus lençóes. O Sr. Paysandon, de

Cordova (Republica Argentina), autor muito conhecido na mesma cidade,

lhe tinha escripto, pedindo exemplares de suas musicas e canções.

Ricardo estava atrapalhado. Tinha os versos escriptos, mas a musica

não. É verdade que as sabia de cór, porém, escrevel-as de uma hora

para outra era trabalho acima de sua força.

--É o diabo! continuou elle. Não é por mim; a questão é que se

perde uma occasião de fazer o Brasil conhecido no estrangeiro.

A velha irmã de Quaresma não tinha grande interesse pelo violão. A

sua educação que se fizera, vendo semelhante instrumento entregue a

escravos ou gente parecida, não podia admittir que elle preoccupasse a

attenção de pessoas de certa ordem. Delicada, entretanto, supportava

a mania de Ricardo, mesmo porque já começava a ter uma ponta de estima

pelo famoso trovador dos suburbanos. Nasceu-lhe essa estima pela

dedicação com que elle se houve no seu drama familiar. Os pequenos

serviços e trabalhos, os passos para ali e para aqui, ficaram a cargo

de Ricardo, que os desempenhara com boa vontade e diligencia.

Actualmente era elle o encarregado de tratar da aposentadoria do seu

antigo discipulo. É um trabalho arduo, esse de liquidar uma

aposentadoria, como se diz na gyria burocratica. Aposentado o sujeito,

solemnemente por um decreto, a cousa corre uma dezena de repartições e

funccionarios para ser ultimada. Nada ha mais grave do que a gravidade

com que o empregado nos diz: ainda estou fazendo o calculo; e a cousa

demora um mez, mais até, como se tratasse de mecanica celeste.

Coleoni era o procurador do Major, mas não sendo entendido em cousas

officiaes, entregou ao Coração dos Outros aquella parte do seu

mandato.

Graças á popularidade de Ricardo, e da sua lhaneza, vencera a

resistencia da machina burocratica e a liquidação estava annunciada

para breve.

Foi isso que elle annunciou a Coleoni, quando este entrou seguido da

filha. Pediram, tanto elle como D. Adelaide, noticias do amigo e do

irmão.

A irmã nunca entendera direito o irmão, com a crise não o ficou

comprehendendo melhor; mas a sentira profundamente com o sentimento

simples de irmã e desejava ardentemente a sua cura.

Ricardo Coração dos Outros gostava do Major, encontrara nelle certo

apoio moral e intellectual de que precisava. Os outros gostavam de ouvir

o seu canto, apreciavam como simples dilletantes: mas o Major era o

unico que ia ao fundo da sua tentativa e comprehendia o alcance

patriotico do sua obra.

De resto, elle agora soffria particularmente--soffria na sua gloria,

producto de um lenço e seguido trabalho de annos. É que apparecera um

creoulo a cantar modinhas e cujo nome começava a tomar força e já era

citado ao lado do seu.

Aborrecia-se com o rival, por dous fatos: primeiro: pelo sujeito ser

preto; e segundo: por causa das suas theorias.

Não é que elle tivesse ogeriza particular aos pretos. O que elle via

no facto de haver um preto famoso tocar violão, era que tal cousa ia

diminuir ainda mais o prestigio do instrumento. Se o seu rival tocasse

piano e por isso ficasse celebre, não havia mal algum; ao contrario: o

talento do rapaz levantava a sua pessoa, por intermedio do instrumento

considerado; mas, tocando violão, era o inverso: o preconceito que lhe

cercava a pessoa, desmoralisava o mysterioso violão que elle tanto

estimava. E além disso com aquellas theorias! Ora! querer que a modinha

diga alguma cousa e tenha versos certos! Que tolice!

E Ricardo levava a pensar nesse rival inesperado que se punha assim

diante delle como um obstaculo imprevisto na subida maravilhosa para a

sua gloria. Precisava afastal-o, esmagal-o, mostrar a sua superioridade

indiscutivel; mas como?

A _reclame_ já não bastava; o rival a empregava tambem. Se elle

tivesse um homem notavel, um grande literato, que escrevesse um artigo

sobre elle e a sua obra, a victoria estava certa. Era difficil

encontrar. Esses nossos literatos eram tão tolos e viviam tão

absorvidos em cousas francezas... Pensou num jornal, «O Violão», em

que elle desafiasse o rival e o esmagasse numa polemica.

Era isso que precisava obter e a esperança estava em Quaresma,

actualmente recolhido ao Hospicio, mas felizmente em via de cura. A sua

alegria foi justamente grande quando soube que o amigo estava melhor.

--Não pude ir hoje, disse elle, mas irei domingo. Está mais gordo?

--Pouca cousa, disse a moça.

--Conversou bem, accrescentou Coleoni. Até ficou contente quando soube

que Olga ia casar-se.

--Vai casar-se, D. Olga? Parabens.

--Obrigada, fez ella.

--Quando é Olga? perguntou D. Adelaide.

--Lá para o fim do anno... Tem tempo...

E logo choveram perguntas sobre o noivo e afloraram as considerações

sobre o casamento.

E ella se sentia vexada; julgava, tanto as perguntas como as

considerações, impudentes e irritantes; queria fugir á conversa, mas

voltavam ao mesmo assumpto, não só Ricardo, mas a velha Adelaide, mais

loquaz e curiosa que commumente. Esse supplicio que se repetia em todas

as visitas, quasi a fazia arrepender-se de ter acceitado o pedido. Por

fim achou um subterfugio, perguntando:

--Como vai o General?

--Não o tenho visto, mas a filha sempre vem aqui. Elle deve andar bem,

a Ismenia é que anda triste, desolada coitadinha!

D. Adelaide contou então o drama que agitava a pequenina alma da filha

do General. Cavalcanti, aquelle Jacob de cinco annos, embarcara para o

interior, ha tres ou quatro mezes e não mandara nem uma carta nem um

cartão. A menina tinha aquillo como um rompimento; e ella, tão incapaz

de um sentimento mais profundo, de uma applicação mais seria de

energia mental e physica, sentia-o muito, como cousa irremediavel que

absorvia toda a sua attenção.

Para Ismenia, era como se todos os rapazes casadoiros tivessem deixado

de existir. Arranjar outro era problema insoluvel, era trabalho acima de

suas forças. Cousa difficil! Namorar, escrever cartinhas, fazer acenos,

dançar, ir a passeios--ella não podia mais com isso. Decididamente,

estava condemnada a não se casar, a ser tia, a supportar durante toda a

existencia esse estado de solteira que a apavorava. Quasi não se

lembrava das feições do noivo, dos seus olhos esgazeados, do seu nariz

duro e fortemente osseo; independente da memoria delle, vinha-lhe sempre

á consciencia, quando, de manhã, o estafeta não lhe entregava carta,

essa outra idéa: não casar. Era um castigo... A Quinota ia casar-se, o

Genelicio já estava tratando dos papeis; e ella que esperam tanto, e

fôra a primeira a noivar-se ia ficar maldita, rebaixada diante de

todas. Parecia até que ambos estavam contentes com aquella fuga

inexplicavel de Cavalcanti. Como elles se riam durante o Carnaval! Como

elles atiraram aos seus olhos aquella sua viuvez prematura, durante os

folguedos carnavalescos! Punham tanta furia no jogo de confetes e

bisnagas, de modo a deixar bem claro a felicidade de ambos, aquella

marcha gloriosa e invejava para o casamento, em face do seu abandono.

Ella disfarçava bem a impressão da alegria delles que lhe parecia

indecente e hostil; mas o escarneo da irmã que lhe dizia

constantemente: «Brinca, Ismenia! Elle está longe, vai

aproveitando»--metia-lhe raiva, a raiva terrivel de gente fraca, que

corróe interiormente, por não poder arrebentar de qualquer forma.

Então, para espantar os máus pensamentos, ella se punha a olhar o

aspecto pueril da rua, marchetada de papeluchos multicores, e as

serpentinas irisadas pendentes nas sacadas; mas o que fazia bem á sua

natureza pobre, comprimida, eram os cordões, aquelle ruido de

atabaques, e adufes, de tambores e pratos. Mergulhando nessa barulheira,

o seu pensamento repousava e como que a idéa que a perseguia desde

tanto tempo ficava impedida de lhe entrar na cabeça.

De resto, aquelles vestuarios extravagantes de indios, aquelles adornos

de uma mythologia francamente selvagem, jacarés, cobras, jabotys,

vivos, bem vivos, traziam á pobreza de sua imaginação imagens

risonhas de rios claros, florestas immensas, logares de socego e pureza

que a reconfortavam.

Tambem aquellas cantigas gritadas, berradas, num rytmo duro e de uma

grande indigencia melodica, vinham como reprimir a magua que ia nella,

abafada, comprimida, contida, que pedia uma explosão de gritos, mas

para o que não lhe sobrava força bastante e sufficiente.

O noivo partira um mez antes do Carnaval e depois do grande festejo

carioca a sua tortura foi maior. Sem habito de leitura e de conversa,

sem actividade domestica qualquer, ella passava os dias deitada,

sentada, a girar em torno de um mesmo pensamento: não casar. Era-lhe

doce chorar.

Nas horas da entrega da correspondencia, tinha ainda uma alegre

esperança. Talvez? Mas a carta não vinha, e, voltava ao seu

pensamento: não casar.

Triste Fim de Polycarpo Quaresma · 第 19 / 38 题